segunda-feira, 22 de março de 2010

Sobre o papel dos intelectuais

"O que é necessário para uma democratização bem-sucedida dos genuínos valores culturais, em contraste com o processo de nivelamento por baixo que os degrada em mercadorias para o entretenimento comercializado? Toda expansão da educação tanto ao nível social como intelectual deve ser uma questão de estratégia. Em ambos aspectos o aperfeiçoamento pode ser efetuado gradativamente. No campo social as oportunidades educacionais e intelectuais podem ser ampliadas sistemática e cientificamente através de um melhor planejamento total do sistema educacional em conexão com o aconselhamento vocacional. Ao nível intelectual o avanço deve proceder gradualmente até níveis intelectuais e morais progressivamente mais altos. O fundo comum de conhecimentos poderia ser apresentado em diferentes formas para grupos sociais diferentes, levando em consideração seu contexto, mentalidade e níveis educacionais variados. A democratização não significa necessariamente nivelar por baixo para eliminar as diferenças, mas sim dar condições para que a existência de variedade na vida cultural e apreciar as diferenças culturais como valiosos pontos de partida na busca humana de conhecimento.
Um grupo social particular que deve ser preservado como um freio contra a monotonia e as tendências niveladoras em uma cultura planejada é o dos intelectuais independentes. Uma sociedade composta apenas de grupos profisisonais, burocracias e grupos de interesses limitados corre perigo de desenvolver uma mentalidade rígida,preocupada principalmente com o aperfeiçoamento institucional e os expedientes imediatos. Faltará a ela idéias dinâmicas e imaginação social, capazes de transcender a estrutura existente de instituições sociais. No passado, grupos de intelectuais independentes produziram uma mentalidade dinâmica que ultrapassou as fronteiras do que quer que existisse. A função deles seria difícil de ser substituída. Mais precisamente, uma sociedade democrática deve planejar deliberadamente carreiras desvinculadas das escalas sociais e educacionais regulares.
O grupo dos intelectuais formará um paralelo no campo intelectual às mentes pioneiras na esfera econômica, preferindo caminhos inexplorados aos modos rotineiros de conduta e pensamento. Da mesma maneira, deve ser deixado um campo para a competição entre agrupamentos culturais e intelectuais. Seus antagonismos não são meros caprichos, que a sociedade pode muito bem dispensar. Esses grupos são as principais fontes sociais de vida cultural produtiva, a qual está ameçada atualmente pela reprodução mecânica e consumo em massa do antigo, do 'clássico', do seguro. Apoiar e proteger tais grupos criativos do impacto da burocratização e superorganização não apenas levanta um baluarte contra o nivelamento por baixo, como assegura o processo oposto de aperfeiçoamento. Tais grupos podem ser perigosos se isolados ou segregados. Postados na principal corrente de opinião pública, eles são fortalezas de crescimento gradual, abrigos para o desenvolvimento da sensibilidade, dos sentimentos fortes e das idéias imaginativas.
As novas idéias sempre se originaram em pequenos grupos com contatos pessoais duradouros. As idéias circulam no mercado através do meio da publicidade de massa, mas não são produzidas ali. Ainda é o pequeno grupo dissidente que favorece aventuras mentais inspiradas e entusiasmo intelectual. Tais grupos desenvolvem e testam novas idéias antes que assumam uma forma adequada à disseminação entre os círculos mais amplos do público. Deste modo, os oásis intelectuais protegem a sociedade em uma Era das Massas do grande perigo de os padrões de propaganda e publicidade tornarem-se modelos para o planejamento cultural".

K. MANNHEIM. "Alguns aspectos redistributivos da educação democrática". In: Marialice M. FORACCHI (org.) Coleção Grandes Cientistas Sociais. São Paulo: Ática, 1982, p.164-5. (Texto originalmente publicado em 1950).

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