sexta-feira, 30 de abril de 2010

Minuto de silêncio

Brazil: A Report on Torture
(achei aqui)

Por 7 a 2, STF rejeita revisar Lei da Anistia para punir torturadores

Caso ainda pode chegar às cortes internacionais

Manutenção de Lei da Anistia é "afronta" às vítimas, diz ONG

post scriptum: entrevista com os realizadores do documentário Brazil: A Report on Torture


A matemática prova: a democracia nunca será perfeita. E daí?


Segundo a revista New Scientist, todos os métodos conhecidos e já tentados de organizar eleições são, em alguma medida, imperfeitos e injustos ("Electoral Dysfunction: Why democracy is always unfair", em inglês, talvez seja preciso se registrar para ler o artigo inteiro). Isto, às vésperas de eleições britânicas, onde o primeiro-ministro Gordon Brown foi flagrado por um microfone aberto criticando uma eleitora, e aparentemente, destruiu suas chances de continuar no cargo.

"IN AN ideal world, elections should be two things: free and fair. Every adult, with a few sensible exceptions, should be able to vote for a candidate of their choice, and each single vote should be worth the same.

Ensuring a free vote is a matter for the law. Making elections fair is more a matter for mathematicians. They have been studying voting systems for hundreds of years, looking for sources of bias that distort the value of individual votes, and ways to avoid them. Along the way, they have turned up many paradoxes and surprises. What they have not done is come up with the answer. With good reason: it probably doesn't exist."

(tradução chulé: Em um mundo ideal, as eleições deveriam ser duas coisas: livres e justas. Todos os adultos, com poucas sensatas exceções, deveriam poder votar em um candidato da sua escolha, e cada voto individual deve ter o mesmo valor.
Garantir a liberdade de voto é uma questão para a lei. Fazer eleições justas é mais uma questão para os matemáticos.
Eles estão a estudar sistemas de votação por centenas de anos, à procura das fontes das distorções do valor dos votos individuais, e as maneiras de evitá-los. Ao longo do caminho, apareceram muitos paradoxos e surpresas. O que os matemáticos não fizeram foi chegar a uma resposta. Com um bom motivo: ela provavelmente não existe.)

Sistemas distritais, sistemas majoritários, sistema de listas ou os sistemas mistos, todos são analisados em termos de suas virtudes e defeitos, entre eles a sobrerepresentação ou a subrepresentação, o estímulo ou desestímulo à multiplicação de partidos e/ou alianças eleitorais etc. através de modelos matemáticos - calma, eu sei que muitos vão fugir daqui pela menção a 'modelo matemático', mas eu não vou reproduzi-los aqui - e alguns exemplos históricos, como a eleição de Bush a presidente norteamericano com menos votos que Al Gore, no ano 2000.

Meu palpite, e que não é novo nem original (aliás, a constatação da NS também me parece não ser nem nova nem original, apenas oportuna tendo em vista as eleições britânicas), é que a democracia, essa 'menos imperfeita' das maneiras de decidir ou escolher, não se reduz a eleições, partidos ou à representação; não é 'limpinha', não é simples, não é feita de números redondos nem divisões exatas nem se deixa traçar a régua e compasso. Isso, até onde eu sei, não afasta a democracia da matemática, mas sim a aproxima, mas da matemática que é igualmente apenas em pequena parte feita de 'números racionais', demonstrações elegantes e teoremas simétricos. A matemática é, me parece, mais povoada pelos números 'irracionais', pelos números primos, pelas aproximações e arredondamentos, pelos ângulos agudos, pela descontinuidade, por escolhas arbitrárias (porém transparentes) para a construção de modelos, pela não-linearidade e assim por diante (os matemáticos profissionais ou amadores por favor me corrijam se estiver errando muito) . A democracia pode não ser 'perfeita' no que tange ao balanço da representação de partidos, territórios ou ideologias, os modelos de eleição podem gerar casos bizarros como os da eleição de Bush ou da subrepresentação de São Paulo no Congresso, e é claro que devemos 'fazer contas' e promover reformas e aperfeiçoar os sistemas. Mas mesmo que se encontrasse um sistema eleitoral menos 'injusto', como fazer para evitar que certas características fiquem superrepresentadas? É só olhar nosso Congresso: porque há tantos ruralistas, tantos evangélicos, tantos radialistas, tantos médicos, tantos advogados, tantos 'milionários-ando-porque-o-jatinho-é-meu', muito mais que a proporção desses grupos na população?

É alta a tentação de enxergar a subrepresentação de mulheres, negros, homossexuais, pobres, ateus, favelados, jovens, desempregados, ineducados e remediados em geral, como resultado, grosso modo, de uma barreira de classe nos sistemas representativos, e aí para falar de democracia temos que expandir 'uma oitava acima' pelo menos. Mas não é esse o prato do dia. A democracia talvez nunca chegue mesmo, até como a matemática demonstra, a ser 'perfeita' ou imune a falhas ou mesmo consensual. Mas talvez devamos olhar para democracia com menos ingenuidade e 'idealismo', e bem mais como uma instituição humana mutável pela prática, falível, dada a excessos e vícios, mas também muito necessária, muito frágil, que deve ser tratada com cuidado, carinho e técnica, como já se consegue olhar para instituições como 'casamento', 'trabalho', 'governo', ou mesmo 'ciência' e 'religião'. Instituições agora dessacralizadas, autopsiadas e mundanizadas, mas que agora por esses motivos são inteligíveis e/ou acessíveis pela política e pela crítica, pela invenção por novas práticas, e que agora podem ser renovadas, reapropriadas (expropriadas?) ou ressignificadas, quem sabe, até com uma pitada de arte.

Imagem: http://kalafudra.files.wordpress.com/2008/07/piposter.jpg

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Zumbilogia II? Ou: a noite das categorias zumbi II - a missão

Continuação do post anterior, com Ulrich Bech conversando com Johannes Willms (a referência está lá também):

JW: "Categoria zumbi" é uma expressão maravilhosamente feia, por isso eu quero insistir: que são categorias zumbis, como as reconhecer?

UB: Naturalmente isso não é fácil. Pelo menos não existe um teste com papel de tornassol para isso. Mesmo assim, pode-se dizer algo sistematizado: a antiga conceituação se baseava em três princípios hoje questionáveis.
Em primeiro lugar, trata-se do já mencionado vínculo territorial de uma sociologia cujo mundo imagético e os conceitos estão radicados no contêiner do Estado nacional. É a idéia de que o agir social precisa de um suporte territorial, de que a proximidade geográfica gera proximidade social, embora deparemos cada vez mais amiúde com situações em que os que convivem no mesmo espaço possivelmente se isoalm entre si e, ao mesmo tempo, se unem estreitamente a outros, em rede, a grandes distâncias. Essa idéia fundamental precisa ser incorporada à conceituação da sociologia. Quase toda a sociologia e a teoria politica tem um viés territorial, e é preciso repensar seus fundamentos em face do a priori digital de um mundo comunicativamente interconectado, no qual o social é independente das fronteiras espaciais, mas se estende e se consolida de modo novo.
Em segundo lugar, vem a suposição de uma coletividade do social prefixada. O indivíduo é em grande medida determinado pela situações em que se encontra. Não lhe cabe escolher essa situação, ela lhe é imposta. Assim se pensam os conceitos de classe, de família, de nação etc. e essa premissa é importantíssima para a sociologia, já que fornece justificação para abstrair a ação individual e colocar a autoconsciência do indivíduo sob a suspeita de ideologia, pois a realidade da situaçõa coletiva não ganha a expressão adequada. Diante disso, a sociologia devia por em primeiro plano as novas formas de individualização (...).
O terceiro seria o princípio da evolução, que diz: o estágio em que o Ocidente se encontra hoje significa um progresso funcional, um grau mais elevado de socialização, uma espécie de diferenciação superior às outras formas de socialização. Com esse viés evolucionista, a sociologia não consegue pensar nem se organizar, porque, no lugar de um otimismo progressista contido, colocou-se a contingência, ou seja, a abertura imprevisível e incontrolável dos desenvolvimentos. Por isso tornou-se discutível se esse tipo de modernização, devido ao lado sombrio que produz, não será contestado a ponto de levar à abolição da idéia de ganhos positivos, de progressos. Por meio de processos de diferenciação e socialização também se esgotou a idéia de uma situação coletiva razoável e pretedernminada para todos. As pessoas se isolam, tem de escolher, têm de produzir sua própria coletividade e têm de tomar consciência dela. Assim, a coletividade passa a depender muito mais da autodefinição do indivíduo isolado.

Crédito da imagem GeekDad-Wired e informações para combater zumbis aqui.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Como o PowerPoint venceu a guerra

Não é de hoje o desconforto que as famosas apresentações em PowerPoint nos causam. A piada sobre o sono causado pelas mesmas também não é nova. Por exemplo, em nota na Folha de São Paulo de 11/04/2008, "Nelson Jobim proibiu apresentações em PowerPoint no Ministério da Defesa. O programa tem embalado o sono de muita gente durante os longos balanços de Dilma Rousseff sobre o andamento do PAC".

E mesmo assim, não dá mais pra se pensar em qualquer tipo de apresentação oral sem o apoio dos tais arquivos PPT. A tal ponto que mesmo os professores dão aula calcados quase totalmente em cima deles. Foi-se o tempo em que havia uma bibliografia, os alunos liam um texto e a aula servia para essa discussão. Hoje em dia, estuda-se para as provas com base nos slides de aula impressos, e nada mais. O que é não de se espantar: em tempos de SMS e Twitter (ou seja, mensagens com quantidade de caracteres bastante limitados), a estrutura de tópicos do PowerPoint serve bem para pontuar rapidamente o assunto, descartando as conexões entre as frases e a possibilidade de estabelecer conexões no pensamento.

É exatamente esse exagero monopolista causado pelo software, juntamente com a dificudade intrínseca de estabelecer conexões complexas, o foco da reportagem do New York Times indicada pela Fabiana, que mostra como os militares americanos gastam uma quantidade enorme de tempo elaborando e apresentando apresentações em PowerPoint. De acordo com um dos generais entrevistados, por exemplo, o maior problema dos PPTs, em uma apresentação das causas de um conflito, são as "listas de tópicos que não levam em conta as forças étnicas, econômicas e políticas interconectadas".

Algumas unidades propõe realmente o banimento dos slides, uma vez que o programa "sufoca a discussão, o pensamento crítico, e a tomada de decisão cuidadosa", além de tomar quase todo o tempo de trabalho dos escalões militares inferiores. Mas, ainda que até mesmo tenha sido criada uma expressão como "morte por PowerPoint" (a sensação de sono imediato que acompanha o início de uma apresentação de 30 slides - e eu sei muito bem o que é isso, depois de 3 meses fazendo um curso com 8 horas diárias de PowerPoints), os PPTs parece que vieram pra ficar. Por mais que um relatório de 5 páginas possa ser muito mais claro e informativo, não tem a mesma sedução fácil de uma série de quadradinhos com poucas frases em cada...

Vale a pena traduzir os últimos parágrafos do texto:

"Ninguém está sugerindo que PowerPoint é o culpado pelos erros das guerras recentes, mas o software tornou-se notório durante o prelúdio à invasão do Iraque. Como exposto no livro 'Fiasco', de Thomas E. Ricks, o Tenente-General David D. McKiernan, que liderou as forças terrestres aliadas na invasão ao Iraque em 2003, frustrou-se enormemente quando não conseguiu que o General Tommy R. Franks, à época comandante das forças americanas na região do Golfo Pérsico, desse ordens explícitas de como a invasão seria conduzida, e porquê. Ao contrário, o Gen. Franks apenas passou ao General McKiernan os vagos slides de PowerPoint que já havia mostrado a Donald H. Rumsfeld, o então secretário de defesa.

Oficiais experientes dizem que o software, entretanto, é ótimo quando o objetivo não é passar informações, como nas apresentações para os repórteres.

As sessões para imprensa duram em geral 25 minutos, sendo os últimos 5 para questões de qualquer um que ainda esteja acordado. Este tipo de apresentação de PowerPoint, Dr. Hammes diz, é conhecido como 'hipnotizador de galinhas' (hypnotizing chickens)".

Enemy Lurks in Briefings on Afghan War

terça-feira, 27 de abril de 2010

Sobre o campo sociológico

"[...] A Sociologia divide-se em várias disciplinas, que estudam a ordem existente nas relações dos fenômenos sociais de diversos pontos de vista irredutíveis, mas complementares e convergentes. Contudo, nada se disse [até aqui] sobre as chamadas "sociologias específicas", como a Sociologia Econômica, a Sociologia Moral, a Sociologia Jurídica, a Sociologia do Conhecimento [a Sociologia da Educação] etc.  A rigor, essa designação é imprópria. Como acontece em qualquer ciência, os métodos sociológicos podem ser aplicados à investigação e à explicação de qualquer fenômeno social particular sem que, por isso, se deva admitir a existência de uma disciplina especial, com objeto e problemas próprios! Essa tendência teve razão de ser no passado, enquanto pairavam dúvidas sobre as questões essenciais, relativas ao objeto da Sociologia, à natureza da explicação sociológica e às técnicas de investigação, recomendáveis no estudo sociológico dos fenômenos sociais. Ela simplificava o trabalho dos especialistas, confinando o âmbito da discussão de questões metodológicas e do significado de suas contribuições. Como nos sugere o estudo de Mannheim, sobre a Sociologia da Consciência, essa expressão conserva, atualmente, um sentido figurado, pois a investigação de um fenômeno particular com frequência envolve o recurso simultâneo às abordagens sociológicas fundamentais. Sob outros aspectos, o uso mais ou menos livre de tais expressões facilita a identificação do teor das contribuições, simplificando, assim, as relações do autor com o público. Isto parece suficiente para justificar o emprego delas, já que carecem de sentido lógico os intentos de subdividir, indefinidamente, os campos da Sociologia".

(Florestan Fernandes. Sociologia da Educação como "Sociologia Especial". In: Luiz Pereira e Marialice Foracchi. Educação e Sociedade: Leituras de Sociologia da Educação. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1977, p.6).

Zumbilogia? Ou: a noite das categorias zumbi - I

Trecho de entrevista de Ulrich Beck para Johannes Willms[1]

JW: O senhor fala numa crise, numa crise conceitual e básica da ciência social como fonte de sua própria renovação. Aliás, foi Max Weber quem disse que, em certo momento, a luz dos grandes problemas mundiais se altera e, então, as ciências também precisam avançar e reequipar seu instrumental conceitual. Que significa isso? Como seria isso?

UB: É algo que se pode esmiuçar em dois sentidos. O primeiro consiste em atualizar os pressupostos básicos que estão abalados. E o segundo é: como lidar com isso sociologicamente? Por que este não é o ponto final, e sim o ponto inicial de uma renovação da sociologia?
No que se referente à primeira pergunta, minha conclusão central e metodológica do nosso diagnóstico é a seguinte: a sociologia, que está radicada no âmbito do Estado nacional e que nesse horizonte desenvolveu sua compreensão de si, suas formas de percepção, seus conceitos, fica sob a suspeita metodológica de trabalhar com categorias zumbis. Categorias zumbis são categorias mortas-vivas que nos assombram a mente e determinam a nossa visão de de realidades as quais desaparecem cada vez mais. Por refinado que seja, o empirismo adquirido por meio de categorias zumbis não passa de um empirismo cego. Pois as categorias zumbis provêm do horizonte experimental do século XIX, da - como eu digo - Primeira Modernidade e, com orientam essa experiência analítico-aprioristicamente, cegam-nos para a experiência e a dinâmica da Segunda Modernidade.

JW: É uma grande expressão, que, no entanto, só há de se comprovar na argumentação. Qual é a consequência, como se pode destrinçar isso?

UB: Primeiramente, a sociologia teria de empreender uma autocrítica e se perguntar até que ponto suas categorias fundamentais se baseiam em pressupostos historicamente obsoletos. A isso se associaria a tentativa de desenvolver novas categorias, novas dicotomias, novos quadros de referência historicamente sensíveis, e também de abrir um novo espaço de imaginação da sociedade, da sociologia e da política, o qual permita preencher esses outros quadros de referência com cores, com empirismo, com vida. Talvez valha a pena detalhar um pouco mais e escolher um problema.
Como se sabe, a renda familiar é uma unidade de referência central e, portanto, uma categoria-chave da análise sociológica. Por exemplo, com a ajuda das rendas familiares, que são operacionalizadas, é possível definir as classes, pois é justamente essa renda, geralmente verificada no chefe de família masculino encarregado de ganhar o sustento, que serve de indicador da classe social a que pertencem todos os membros dessa família. Mas que é a renda familiar hoje em dia? Uma pergunta tão simples chega a desconcertar o mais antigo habitante do Ocidente tanto quanto a questão: que pretende o SPD[2] afinal? Pois no microcosmo da família pode-se observar em detalhe a troca de grupos da sociedade e, para tanto nem é preciso ser sociólogo. Quanta coisa existe por aí! Os meus filhos, os teus, os nossos; divórcios, novos casamentos, living-apart-together, diferentes trajetórias profissionais, mobilidade permanente, sede dos domicílios etc. E há os avós! Eles não só passaram a ser cada vez mais importantes, no papel de exército de reserva disponível para enfrentar as turbulências cotidianas, como também se multiplicam - sem interferir diretamente e sem manipulação genética - graças aos sucessivos divórcios e novos matrimônios dos filhos! E, nesse caos amoroso absolutamente normal, a sociologia tem de responder a uma pergunta aparentemente simples e indispensável para a análise das classes: o que é renda familiar? A resposta é: no âmbito nuclear de nossa vida, dissipou-se aquilo que outrora se pensava analiticamente, ou seja, a família como unidade espacial, social e econômica. Isso já não tem serventia, como antigamente a sociologia pressupunha com tanta segurança e até hoje pressupõe para a análise empírica das classes. E como foi que descobrimos tal coisa? É interessante: aplicando os resultados das mais recentes pesquisas sociológicas, a não só da sociologia da família, à suposta unidade básica das classes sociais. É esse tipo de sociologia reflexiva, além da aplicação metodológica da sociologia à sociologia, que pode vir a ser fecundo para a crítica do conceito zumbi. Então fica claro: a análise das classes pressupõe a família normal, mas esta deixou de existir.

JW: Eu estou começando a entender os seus colegas. Quer dizer que a sociologia dissolve com muita sofisticação a própria sociologia, não?

UB: De fato, a sociologia perde a obviedade de seus primórdios. Que fazer uma vez que não se pode definir família nem renda familiar? O sociólogo francês Jean-Claude Kaufmann mostrou-o muito bem. Ele se viu diante da pergunta "O que é um casal?", visto que já não se pode definir casal pela certidão de casamento nem pela sexualidade. Sua resposta: casal é quando duas pessoas compram uma lavadora em vez de duas. Aí, sim, começa a história das complicações, das negociações, das desculpas, das persuasões do dia-a-dia que Kaufmann constata nas turbulências da "roupa suja" (este é o título do seu livro): O que se considera sujo? Quem lava para quem? Quando? Passar roupa é necessário? Que acontece quando ele diz sim e ela diz não? Tudo pode e deve ser negociado, porque as normas das quais derivam as respostas nada têm de claro ou não se distribuem assim, sem mais nem menos; e, entretanto, essas questões nao podem ser deveras negociadas simplesmente porque são constrangedoras; por outro lado, porque viver junto depende exatamente de que cesse o tanto perguntar, de que se estabeleçam limites conscientes das dúvidas. E, para dificultar mais, ocorre que a questão da roupa suja nada tem a ver com a roupa suja propriamente; o que importa é se um reconhece ou desdenha o outro, de modo que os conflitos por causa das tarefas cotidianas recebem uma carga explosiva nas lutas mútuas por reconhecimento e identidade. O lema é: "Se você não lavar a minha roupa, é porque despreza a minha pessoa!". Ou seja, a sociologia que quiser enxergar além das categorias zumbis tem de reinventar o ofício da sociologia. Agora se faz verdadeiramente necessário descobrir, por trás das autodescrições que nós cultivamos e prezamos, como é, como se produz e como se renova permanentemente esta sociedade desconhecida em que vivemos.

[1] Beck, Ulrich Liberdade ou capitalismo / Ulrich Beck conversa com Johannes Willms, tradução Luiz Antonio Oliveria de Arújo. - São Paulo: Editora UNESP, 2003. pp:14-8 .
[2] Sozialdemokratische Partei Deutschlands - Partido Social-Democrata da Alemanha .

Vídeo: Garotas Suecas virando zumbis...

segunda-feira, 26 de abril de 2010

A Paris de Walter Benjamin

Walter Benjamin enxerga em Paris a capital do século XIX, a cidade-símbolo da modernidade burguesa. As reformas empreendidas pelo Barão Haussmann transformaram a cidade no marco urbano do capitalismo.

As revoltas de 1848 e suas barricadas mostraram que uma nova configuração do urbano fazia-se necessária. É neste contexto que o Barão executa uma reforma gigantesca em Paris, praticamente destruindo a cidade velha e construindo uma nova. As curvas labirínticas, os becos escuros, as ruas estreitas e desordenadas da Paris medieval cedem lugar à razão cartesiana, à linha reta, às ruas largas que permitem a passagem e a fluidez do trânsito, facilitando também uma eventual ação repressiva policial. O capital encontrou em Haussmann seu instrumento.

A cidade que daí surge é plena de novos significados para Benjamin, e seu ensaio consiste em enxergar no urbano as próprias características da modernidade. O uso do vidro e do ferro nas construções, por exemplo, marca a rua como o espaço do impessoal, do público. O contraste é com o intérieur burguês, o uso do veludo, que permite ao indivíduo deixar suas marcas. A rua de ferro e vidro apaga os rastros de qualquer individualidade. O indivíduo burguês que nascia só podia realizar-se no interior de sua casa. "Pela primeira vez o indivíduo privado pisa o palco da história". Quer Benjamin dizer com isso que é na modernidade que surge a própria noção de privado e de privacidade, e esta noção está marcada na própria cidade. O tempo inteiro Benjamin tenta ler na cidade os caracteres mais gerais da modernidade.

A contradição entre o interior e o espaço público encontra seu paralelo no contraste indivíduo-multidão. É o interior o lugar do indivíduo, onde pode encontrar sua realização. O espaço exterior é o da multidão, onde o indivíduo se dissolve como sendo mais um dentre outros. A modernidade urbana, assim, é o espaço que engendra o indivíduo ao mesmo tempo que o aniquila, e a cidade é o lugar que possibilita e impede a realização individual – eis a dialética. A dialética em Benjamin é especial, porque ele prefere vê-la paralisada, na forma de imagem dialética, quando todas as ambiguidades se mostram.

A figura intermediária entre o interior e o exterior é o flâneur, intermediário também entre o indivíduo e a multidão. Seu espaço são as passagens, meio-termo entre privado e público. Ele faz da rua a sua casa, e da multidão o seu ninho acolhedor. Está e não está na multidão, porque, nela inserido, não se confunde com ela: seu tempo é outro, sua apropriação do espaço também é outra. Contra a pressa da multidão dominada pelo tempo abstrato do capitalismo, o flâneur permite-se parar, deter-se e olhar com mais vagar, em outro ritmo. Mas, para Benjamin, o flâneur é um tipo social de dias contados. O fim das passagens é também o seu fim.

Outras contradições aparecem em Benjamin, na tentativa de mostrar as ilusões da modernidade, e a consciência dialética dessas ilusões, presente muitas vezes em Baudelaire. Baudelaire já conseguia ver como o poeta também se torna parte do mercado. O seu não-fazer-nada nos cafés parisienses tinha a sua função social, e configurava-se como parte de seu tempo de trabalho: aos olhos do público, o poeta tinha que ter o seu tempo de apenas observar. A prostituta é também figura ambígua: vendendo-se a si mesma, é produtora e mercadoria ao mesmo tempo.

A cidade moderna – que tem em Paris o seu paradigma – é o terreno onde se produzem e onde se podem ver estas contradições. As reformas do Barão Haussmann transformaram a cidade num espaço estranho para seus próprios habitantes. E, se o abrir espaços da reforma haussmanniana retirou da cidade o lugar da pobreza – transferindo-a para a periferia – fez entretanto com que os pobres aparecessem, como se vê no poema de Baudelaire analisado por Marshall Berman, "a família de olhos". Se os espaços são marcados – interior/exterior, Paris/banlieue –, seus usos são ambíguos. O lixo que se tenta esconder aparece cada vez mais. É o lixo o material do poeta e do materialista histórico, lixo social e lixo humano. A linha reta da cidade, que produz uma relação identitária entre os espaços e os tempos, fazendo da História o terreno do sempre igual disfarçado de progresso, permite uma apropriação labiríntica. É a criança, o flâneur, o marginal, que ressignificam os espaços.

A Paris do capital e do fetiche da mercadoria expresso nas "exposições universais" revela as contradições que são a marca da modernidade. A paralisação dialética benjaminiana expõe a dinâmica que configura o urbano. As ruas largas da Paris reformada para impedir as barricadas e facilitar a repressão policial veem em 1871 a aparição da Comuna e de novas barricadas. O bulevar como espaço social da burguesia dominante é ocupado pelos olhos famintos dos pobres expostos. A linha reta dos espaços dá margem à apropriação labiríntica, e a pura razão cede lugar às paixões humanas.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Hobsbawn e as últimas décadas

Nesta longa entrevista para a revista New Left Review, o historiador Eric Hobsbawn fala sobre marxismo, trabalho, partidos operários, Barack Obama, a China e a Índia, e sobre as contradições do nacionalismo ainda em nossos dias. Partindo de 1991, ano que se encerra o seu famoso A Era dos Extremos, procura pontuar algumas questões recentes, tentando identificar o que não era possível prever há 20 anos e jogando novas luzes sobre diversos aspectos da configuração mundial atual, de maneira que, aos 92 anos, nos faz desejar que viva ainda muitos mais para escrever outros livros.

Historiador Eric Hobsbawn aponta questões cruciais do século 21

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Walter Benjamin: Tese 9


"Minhas asas estão prontas para o vôo,
Se pudesse, eu retrocederia
Pois eu seria menos feliz
Se permanecesse imerso no tempo vivo."
Gerhard Scholem, Saudação do anjo

Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso.

BENJAMIN, Walter: Sobre o Conceito de História.

Imagem: Paul Klee, Angelus Novus, 1920.

Walter Benjamin: Interrupção e História


A crítica de Benjamin ao tempo é, na verdade, a crítica à repetição. Benjamin opõe de forma clara o tempo do capitalismo ao tempo tradicional, ou o tempo do relógio ao tempo do calendário[1]. "O tempo dos relógios é o 'tempo homogêneo e vazio' que é preenchido qual um recipiente, que vai acomodando, indiferente, acontecimentos que caem 'dentro dele'. O tempo do calendário, ao contrário, não se desenrola mecanicamente, pontua a existência com 'dias de recordação', momentos que capturam o tempo em 'pontos de concentração'. Nestes dias as coisas relembradas subitamente se tornam 'atuais', retornam à existência 'nos momentos de recordação'. Este é o caráter diferencial do tempo histórico; não a badalada regular do relógio que nivela todas as ocorrências em um contínuo indiferente, mas a súbita pausa do colecionador; não o frio avanço do processo infinito, mas sua transgressão"[2]. O tempo tradicional era o tempo marcado pelas festas rituais, pelos acontecimentos coletivos. Era um tempo concreto, vivido, percebido como duração real. O tempo do capitalismo é o tempo do sempre igual, o tempo mecânico, abstrato, vazio - é o tempo da linha de montagem e da jornada de trabalho. Cada dia tem vinte e quatro horas, cada hora sessenta minutos, cada minuto sessenta segundos. E cada segundo é sempre igual, uma duração abstrata, tornando os dias sempre os mesmos. Tempo da repetição, da previsão. Tempo contínuo, da eternização do presente e de um futuro que é sempre o mesmo. E esta mudança - do tempo concreto ao abstrato - foi feita de forma extremamente rápida, impedindo sua absorção, e acentuando o caráter externo e abstrato deste tempo. "Uma geração que ainda fora à escola num bonde puxado por cavalos viu-se abandonada, sem teto, numa paisagem diferente em tudo, exceto nas nuvens, e em cujo centro, num campo de forças de correntes e explosões destruidoras, estava o frágil e minúsculo corpo humano"[3].

Aliada a este tempo homogêneo, está a ideia de progresso, esse cânone positivista. Como Benjamin afirma na tese 13, "a ideia de um progresso da humanidade na história é inseparável da ideia de sua marcha no interior de um tempo vazio e homogêneo. A crítica da ideia do progresso tem como pressuposto a crítica da ideia dessa marcha"[4]. A noção de progresso supõe uma perfectibilidade humana, uma marcha sempre progressiva em direção a um futuro melhor. Tal noção disfarça a repetição inerente aos processos capitalistas, e se funda num esquecimento do passado ao afirmar uma progressão infinita. Benjamin opõe a isto a memória e a interrupção, como condições da mudança e da revolução. Para mudar - construir um futuro outro - é preciso interromper. "Para Benjamin, não há verdadeiro progresso na história; o progresso se funda sempre no seu eterno retorno, eventualmente sob um disfarce pior. A tarefa do revolucionário é, no interior desta história que se repete, romper a continuidade histórica, isto é, tanto a continuidade linear quanto o ciclo infernal do eterno retorno"[5].

Se o capitalismo instituiu este tempo abstrato, que os ideólogos da classe dominante trataram de legitimar como tempo do progresso da humanidade em si, torna-se necessária a crítica deste tempo e sua interrupção, para se criar a possibilidade de um futuro diferente. Por isso, Benjamin coloca na tese 16: "O materialista histórico não pode renunciar ao conceito de um presente que não é transição, mas pára no tempo e se imobiliza. (...) O historicista apresenta a imagem 'eterna' do passado, o materialista histórico faz desse passado uma experiência única. (...) Ele fica senhor de suas forças, suficientemente viril para fazer saltar pelos ares o continuum da história"[6]. Adorno[7] sublinha, pertinentemente, a importância do elemento estático em Walter Benjamin. Parar o tempo é fixá-lo, como diz a tese 17: "Pensar não inclui apenas o movimento das ideias, mas também a sua imobilização. Quando o pensamento pára, bruscamente, numa configuração saturada de tensões, ele lhes comunica um choque, através do qual essa configuração se cristaliza enquanto mônada. O materialista histórico só se aproxima de um objeto histórico quando o confronta enquanto mônada"[8]. Poderíamos dizer que toda imobilização constrói uma imagem, fixa um instante do tempo que foi interrompido. Na tese 15, Benjamin mostra esta tentativa, ao contar que, "terminado o primeiro dia de combate, verificou-se que em vários bairros de Paris, independentes uns dos outros e na mesma hora, foram disparados tiros contra os relógios localizados nas torres"[9]. Tentativa de parar o tempo que, sob a pena precisa de Benjamin, torna-se uma imagem, única e singular.

O que Benjamin propunha era uma nova forma de viver o tempo, daí os seus experimentos com o haxixe: "Para quem comeu haxixe, Versalhes não é suficientemente grande, nem a eternidade suficientemente longa. E ao fundo dessas dimensões imensas da experiência interior, da duração absoluta e do mundo espacial incomensurável se detém um humor maravilhoso e feliz, sobre as contingências do mundo espacial e temporal"[10]. Uma nova história supõe um novo tempo, construído. Este elemento da construção está presente na tese 14: "A história é objeto de uma construção cujo lugar não é o tempo homogêneo e vazio, mas um tempo saturado de 'agoras'. Assim, a Roma antiga era para Robespierre um passado carregado de 'agoras', que ele fez explodir do continuum da história. A Revolução Francesa se via como uma Roma ressurreta. Ela citava a Roma antiga como a moda cita um vestuário antigo. A moda tem um faro para o atual, onde quer que ele esteja na folhagem do antigamente. Ela é um salto de tigre em direção ao passado. Somente, ele se dá numa arena comandada pela classe dominante. O mesmo salto, sob o livre céu da história, é o salto dialético da Revolução, como o concebeu Marx"[11]. Tese exemplar, pois condensa os temas da construção e da repetição. Comenta de forma esclarecedora Olgária Matos: "Na tese XIV, Benjamin trata a relação com o passado sob uma dupla possibilidade: uma, que se efetiva imediatamente - relação de identificação -, e outra, que extrai o excedente de significado no interior desse mesmo passado, o que permaneceu virtual. O 'salto do tigre no passado' pode conduzir a saídas de sentidos contrapostos, conforme advenha 'na arena onde manda a classe dominante' (identificação) ou 'sob o céu livre da história'. Tal como a moda, a história é revivida, mas segundo essa duplicidade: como repetição ou como sentido inédito, como catástrofe ou como redenção. O que subjaz à abordagem de Benjamin é a crítica à noção de continuidade temporal: 'A história é o objeto de uma construção cujo lugar não é o tempo homogêneo e vazio', mas forma um tempo pleno de Jetztzeit, como interrupção do devir abstrato do tempo. A ideia segundo a qual a história é sempre escrita pelos vencedores é a ideia da 'catástrofe' como continuidade da história: 'A continuidade da história', diz Benjamin, 'é a dos opressores' e 'a história dos oprimidos é uma descontinuidade'"[12].

O anjo da história "gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. (...) Essa tempestade é o que chamamos progresso"[13]. Relendo a tese 9 à luz da discussão que acabamos de fazer, pode-se entendê-la sob outro ângulo. Criticar o progresso significa pará-lo, interrompê-lo, explodir o continuum histórico e, desta forma, libertar o anjo. Livre, ele pode reunir as ruínas que se acumularam a seus pés, e tem a possibilidade de redimi-las, de construir um novo futuro, que não se esquece do passado, e que não é o mesmo, nem se repete. O anjo juntará os fragmentos deste tempo para construir um devir que seja singular. Mas, para mudar, é preciso interromper.

[1] Cf. BENJAMIN, Walter: Sobre o Conceito de História. In: Obras Escolhidas. São Paulo: Brasiliense, 1985. Tese 15, p. 230. Doravante citado apenas como “Teses”.
[2] MATOS, Olgária: Os Arcanos do Inteiramente Outro: A Escola de Frankfurt, a Melancolia e a Revolução. São Paulo: Brasiliense, 1989. pp. 31-32.
[3] BENJAMIN, Walter: Experiência e Pobreza. In: Obras Escolhidas. São Paulo: Brasiliense, 1985. p. 115.
[4] Benjamin, Teses, op. cit., p. 229.
[5] Matos, op. cit., p. 46.
[6] Benjamin, Teses, op. cit., pp. 230-231.
[7] Cf. ADORNO, Theodor: Caracterização de Walter Benjamin. In: COHN, Gabriel (org.): Theodor W. Adorno. São Paulo: Ática, 1994.
[8] Benjamin, Teses, op. cit., p. 231.
[9] Idem, p. 230.
[10] BENJAMIN, Walter: Imagens do Pensamento. In: Obras Escolhidas II. São Paulo: Brasiliense, 1995. pp. 249-250.
[11] Benjamin, Teses, op. cit., pp. 229-230.
[12] Matos, op. cit., p. 42.
[13] Benjamin, Teses, op. cit., p. 226.

Imagem: Lou Stoumen, Times Square in the Rain, 1940.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Uma cena que daria um filme


Seria quase uma unanimidade apontar a cena do chuveiro em Psycho, de Alfred Hitchcock, como a mais importante, ou pelo menos a mais comentada, da história do cinema. O que eu não sabia, também porque o próprio diretor e a atriz Janet Leigh fizeram questão de esconder, é que a cena foi filmada usando uma dublê de corpo - Marli Renfro, ex-stripper de Las Vegas e uma das primeiras coelhinhas da Playboy, que foi estuprada e estrangulada em 1988, e cujo assassino só foi encontrado 10 anos depois. É esta a história que chamou a atenção de Robert Graysmith, autor de Zodíaco (narrativa que contava a história do serial killer que apavorou São Francisco na década de 1970, e que já virou filme), e que acaba de ser publicada no livro The Girl in Alfred Hitchcock's Shower.

Em 2001, o ajudante de obras Kenneth Dean Hunt foi sentenciado pela morte de duas mulheres, "incluindo uma atriz que foi dublê de corpo de Janet Leigh no filme Psicose", e que se chamava Myra Davis, suposto nome real de Marli Renfro. A partir daí, e há tempos interessado pela história da dublê, Graysmith foi atrás dos familiares de Myra Davis, para descobrir que ela nunca havia trabalhado sob o pseudônimo de Marli Renfro. A confusão toda se armou porque Myra foi a stand-in de Janet Leigh, usada para chegagem de iluminação durante as filmagens; este emprego acabou custando-lhe a vida, pois o assassino, segundo Graysmith, era um obcecado pelo filme, e queria a todo custo matar a dublê, pegando a substituta por engano.

Enquanto isso, Marli Renfro ficou alheia a toda a história, distanciando-se de seu passado e de Psicose, chegando mesmo a queimar todas as suas antigas fotos de nudez, a pedido de seu marido, e nunca tendo lido um único artigo a respeito do filme.

Eu só fico imaginando o que se passou na cabeça de Kenneth Hunt quando leu o livro de Graysmith...

Resenha do The Guardian: Secrets of the Psycho shower

Medindo a felicidade

Sandra Bullock ganhou o Oscar, mas perdeu o marido. No momento de seu maior sucesso profissional (ou pelo menos do seu reconhecimento), também teve de lidar com o fracasso de sua relação pessoal mais importante. Há como comparar esses fatos? Ela deixaria de lado as suas conquistas profissionais para salvar o casamento, se essa opção lhe fosse dada?

A partir dessa questão, David Brooks lista alguns dos resultados de pesquisas recentes que tentam medir o efeito de diversos acontecimentos sobre a felicidade dos indivíduos. Aparentemente, o sucesso no casamento superpõe qualquer fracasso profissional. "Se tiver um casamento malsucedido, não importa quantos triunfos tenha em sua carreira, você permanecerá significativamente mal realizado".

Assim também descobre-se que, como todos os ditados já diziam há milênios, dinheiro não traz felicidade. "Em escala pessoal, o fato de ganhar a loteria não parece gerar ganhos duradouros em matéria de bem-estar. As pessoas não são mais felizes durante os anos em que conquistam mais promoções no trabalho".

Como era de se esperar, a felicidade atinge um pico quando as pessoas se aposentam e se livram de seus trabalhos. E, no plano das atividades cotidianas, o happy hour parece ser a solução para manter a felicidade. "As atividades cotidianas mais associadas à felicidade são o sexo, os encontros sociais depois do trabalho e os jantares com outras pessoas. A atividade cotidiana mais prejudicial à felicidade é o deslocamento de ida e vinda do trabalho [em São Paulo, esse deslocamento deve estragar qualquer resquício de felicidade conquistado em qualquer outro espaço]".

Como as teorias sociológicas mais antigas já sabiam, participar de um grupo (religioso ou não) e ser casado são fatores para a felicidade certa. "Segundo um estudo, participar de um grupo que se reúne, mesmo que seja apenas uma vez por mês, gera o mesmo ganho de felicidade que uma pessoa tem quando dobra sua renda. Para outro estudo, ser casado gera um ganho psíquico equivalente a mais de R$ 180 mil por ano".

Em tempo: pesquisas também indicam que ganhadores do Oscar, em média, vivem 4 anos a mais do que os indicados que não venceram...

The Sandra Bullock Trade (mais uma vez, o link vai para a edição em inglês do The New York Times, pois a publicação pela Folha de São Paulo é restrita a assinantes).