quarta-feira, 28 de abril de 2010

Como o PowerPoint venceu a guerra

Não é de hoje o desconforto que as famosas apresentações em PowerPoint nos causam. A piada sobre o sono causado pelas mesmas também não é nova. Por exemplo, em nota na Folha de São Paulo de 11/04/2008, "Nelson Jobim proibiu apresentações em PowerPoint no Ministério da Defesa. O programa tem embalado o sono de muita gente durante os longos balanços de Dilma Rousseff sobre o andamento do PAC".

E mesmo assim, não dá mais pra se pensar em qualquer tipo de apresentação oral sem o apoio dos tais arquivos PPT. A tal ponto que mesmo os professores dão aula calcados quase totalmente em cima deles. Foi-se o tempo em que havia uma bibliografia, os alunos liam um texto e a aula servia para essa discussão. Hoje em dia, estuda-se para as provas com base nos slides de aula impressos, e nada mais. O que é não de se espantar: em tempos de SMS e Twitter (ou seja, mensagens com quantidade de caracteres bastante limitados), a estrutura de tópicos do PowerPoint serve bem para pontuar rapidamente o assunto, descartando as conexões entre as frases e a possibilidade de estabelecer conexões no pensamento.

É exatamente esse exagero monopolista causado pelo software, juntamente com a dificudade intrínseca de estabelecer conexões complexas, o foco da reportagem do New York Times indicada pela Fabiana, que mostra como os militares americanos gastam uma quantidade enorme de tempo elaborando e apresentando apresentações em PowerPoint. De acordo com um dos generais entrevistados, por exemplo, o maior problema dos PPTs, em uma apresentação das causas de um conflito, são as "listas de tópicos que não levam em conta as forças étnicas, econômicas e políticas interconectadas".

Algumas unidades propõe realmente o banimento dos slides, uma vez que o programa "sufoca a discussão, o pensamento crítico, e a tomada de decisão cuidadosa", além de tomar quase todo o tempo de trabalho dos escalões militares inferiores. Mas, ainda que até mesmo tenha sido criada uma expressão como "morte por PowerPoint" (a sensação de sono imediato que acompanha o início de uma apresentação de 30 slides - e eu sei muito bem o que é isso, depois de 3 meses fazendo um curso com 8 horas diárias de PowerPoints), os PPTs parece que vieram pra ficar. Por mais que um relatório de 5 páginas possa ser muito mais claro e informativo, não tem a mesma sedução fácil de uma série de quadradinhos com poucas frases em cada...

Vale a pena traduzir os últimos parágrafos do texto:

"Ninguém está sugerindo que PowerPoint é o culpado pelos erros das guerras recentes, mas o software tornou-se notório durante o prelúdio à invasão do Iraque. Como exposto no livro 'Fiasco', de Thomas E. Ricks, o Tenente-General David D. McKiernan, que liderou as forças terrestres aliadas na invasão ao Iraque em 2003, frustrou-se enormemente quando não conseguiu que o General Tommy R. Franks, à época comandante das forças americanas na região do Golfo Pérsico, desse ordens explícitas de como a invasão seria conduzida, e porquê. Ao contrário, o Gen. Franks apenas passou ao General McKiernan os vagos slides de PowerPoint que já havia mostrado a Donald H. Rumsfeld, o então secretário de defesa.

Oficiais experientes dizem que o software, entretanto, é ótimo quando o objetivo não é passar informações, como nas apresentações para os repórteres.

As sessões para imprensa duram em geral 25 minutos, sendo os últimos 5 para questões de qualquer um que ainda esteja acordado. Este tipo de apresentação de PowerPoint, Dr. Hammes diz, é conhecido como 'hipnotizador de galinhas' (hypnotizing chickens)".

Enemy Lurks in Briefings on Afghan War

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