sexta-feira, 30 de abril de 2010

A matemática prova: a democracia nunca será perfeita. E daí?


Segundo a revista New Scientist, todos os métodos conhecidos e já tentados de organizar eleições são, em alguma medida, imperfeitos e injustos ("Electoral Dysfunction: Why democracy is always unfair", em inglês, talvez seja preciso se registrar para ler o artigo inteiro). Isto, às vésperas de eleições britânicas, onde o primeiro-ministro Gordon Brown foi flagrado por um microfone aberto criticando uma eleitora, e aparentemente, destruiu suas chances de continuar no cargo.

"IN AN ideal world, elections should be two things: free and fair. Every adult, with a few sensible exceptions, should be able to vote for a candidate of their choice, and each single vote should be worth the same.

Ensuring a free vote is a matter for the law. Making elections fair is more a matter for mathematicians. They have been studying voting systems for hundreds of years, looking for sources of bias that distort the value of individual votes, and ways to avoid them. Along the way, they have turned up many paradoxes and surprises. What they have not done is come up with the answer. With good reason: it probably doesn't exist."

(tradução chulé: Em um mundo ideal, as eleições deveriam ser duas coisas: livres e justas. Todos os adultos, com poucas sensatas exceções, deveriam poder votar em um candidato da sua escolha, e cada voto individual deve ter o mesmo valor.
Garantir a liberdade de voto é uma questão para a lei. Fazer eleições justas é mais uma questão para os matemáticos.
Eles estão a estudar sistemas de votação por centenas de anos, à procura das fontes das distorções do valor dos votos individuais, e as maneiras de evitá-los. Ao longo do caminho, apareceram muitos paradoxos e surpresas. O que os matemáticos não fizeram foi chegar a uma resposta. Com um bom motivo: ela provavelmente não existe.)

Sistemas distritais, sistemas majoritários, sistema de listas ou os sistemas mistos, todos são analisados em termos de suas virtudes e defeitos, entre eles a sobrerepresentação ou a subrepresentação, o estímulo ou desestímulo à multiplicação de partidos e/ou alianças eleitorais etc. através de modelos matemáticos - calma, eu sei que muitos vão fugir daqui pela menção a 'modelo matemático', mas eu não vou reproduzi-los aqui - e alguns exemplos históricos, como a eleição de Bush a presidente norteamericano com menos votos que Al Gore, no ano 2000.

Meu palpite, e que não é novo nem original (aliás, a constatação da NS também me parece não ser nem nova nem original, apenas oportuna tendo em vista as eleições britânicas), é que a democracia, essa 'menos imperfeita' das maneiras de decidir ou escolher, não se reduz a eleições, partidos ou à representação; não é 'limpinha', não é simples, não é feita de números redondos nem divisões exatas nem se deixa traçar a régua e compasso. Isso, até onde eu sei, não afasta a democracia da matemática, mas sim a aproxima, mas da matemática que é igualmente apenas em pequena parte feita de 'números racionais', demonstrações elegantes e teoremas simétricos. A matemática é, me parece, mais povoada pelos números 'irracionais', pelos números primos, pelas aproximações e arredondamentos, pelos ângulos agudos, pela descontinuidade, por escolhas arbitrárias (porém transparentes) para a construção de modelos, pela não-linearidade e assim por diante (os matemáticos profissionais ou amadores por favor me corrijam se estiver errando muito) . A democracia pode não ser 'perfeita' no que tange ao balanço da representação de partidos, territórios ou ideologias, os modelos de eleição podem gerar casos bizarros como os da eleição de Bush ou da subrepresentação de São Paulo no Congresso, e é claro que devemos 'fazer contas' e promover reformas e aperfeiçoar os sistemas. Mas mesmo que se encontrasse um sistema eleitoral menos 'injusto', como fazer para evitar que certas características fiquem superrepresentadas? É só olhar nosso Congresso: porque há tantos ruralistas, tantos evangélicos, tantos radialistas, tantos médicos, tantos advogados, tantos 'milionários-ando-porque-o-jatinho-é-meu', muito mais que a proporção desses grupos na população?

É alta a tentação de enxergar a subrepresentação de mulheres, negros, homossexuais, pobres, ateus, favelados, jovens, desempregados, ineducados e remediados em geral, como resultado, grosso modo, de uma barreira de classe nos sistemas representativos, e aí para falar de democracia temos que expandir 'uma oitava acima' pelo menos. Mas não é esse o prato do dia. A democracia talvez nunca chegue mesmo, até como a matemática demonstra, a ser 'perfeita' ou imune a falhas ou mesmo consensual. Mas talvez devamos olhar para democracia com menos ingenuidade e 'idealismo', e bem mais como uma instituição humana mutável pela prática, falível, dada a excessos e vícios, mas também muito necessária, muito frágil, que deve ser tratada com cuidado, carinho e técnica, como já se consegue olhar para instituições como 'casamento', 'trabalho', 'governo', ou mesmo 'ciência' e 'religião'. Instituições agora dessacralizadas, autopsiadas e mundanizadas, mas que agora por esses motivos são inteligíveis e/ou acessíveis pela política e pela crítica, pela invenção por novas práticas, e que agora podem ser renovadas, reapropriadas (expropriadas?) ou ressignificadas, quem sabe, até com uma pitada de arte.

Imagem: http://kalafudra.files.wordpress.com/2008/07/piposter.jpg

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