quarta-feira, 14 de abril de 2010

Walter Benjamin: Interrupção e História


A crítica de Benjamin ao tempo é, na verdade, a crítica à repetição. Benjamin opõe de forma clara o tempo do capitalismo ao tempo tradicional, ou o tempo do relógio ao tempo do calendário[1]. "O tempo dos relógios é o 'tempo homogêneo e vazio' que é preenchido qual um recipiente, que vai acomodando, indiferente, acontecimentos que caem 'dentro dele'. O tempo do calendário, ao contrário, não se desenrola mecanicamente, pontua a existência com 'dias de recordação', momentos que capturam o tempo em 'pontos de concentração'. Nestes dias as coisas relembradas subitamente se tornam 'atuais', retornam à existência 'nos momentos de recordação'. Este é o caráter diferencial do tempo histórico; não a badalada regular do relógio que nivela todas as ocorrências em um contínuo indiferente, mas a súbita pausa do colecionador; não o frio avanço do processo infinito, mas sua transgressão"[2]. O tempo tradicional era o tempo marcado pelas festas rituais, pelos acontecimentos coletivos. Era um tempo concreto, vivido, percebido como duração real. O tempo do capitalismo é o tempo do sempre igual, o tempo mecânico, abstrato, vazio - é o tempo da linha de montagem e da jornada de trabalho. Cada dia tem vinte e quatro horas, cada hora sessenta minutos, cada minuto sessenta segundos. E cada segundo é sempre igual, uma duração abstrata, tornando os dias sempre os mesmos. Tempo da repetição, da previsão. Tempo contínuo, da eternização do presente e de um futuro que é sempre o mesmo. E esta mudança - do tempo concreto ao abstrato - foi feita de forma extremamente rápida, impedindo sua absorção, e acentuando o caráter externo e abstrato deste tempo. "Uma geração que ainda fora à escola num bonde puxado por cavalos viu-se abandonada, sem teto, numa paisagem diferente em tudo, exceto nas nuvens, e em cujo centro, num campo de forças de correntes e explosões destruidoras, estava o frágil e minúsculo corpo humano"[3].

Aliada a este tempo homogêneo, está a ideia de progresso, esse cânone positivista. Como Benjamin afirma na tese 13, "a ideia de um progresso da humanidade na história é inseparável da ideia de sua marcha no interior de um tempo vazio e homogêneo. A crítica da ideia do progresso tem como pressuposto a crítica da ideia dessa marcha"[4]. A noção de progresso supõe uma perfectibilidade humana, uma marcha sempre progressiva em direção a um futuro melhor. Tal noção disfarça a repetição inerente aos processos capitalistas, e se funda num esquecimento do passado ao afirmar uma progressão infinita. Benjamin opõe a isto a memória e a interrupção, como condições da mudança e da revolução. Para mudar - construir um futuro outro - é preciso interromper. "Para Benjamin, não há verdadeiro progresso na história; o progresso se funda sempre no seu eterno retorno, eventualmente sob um disfarce pior. A tarefa do revolucionário é, no interior desta história que se repete, romper a continuidade histórica, isto é, tanto a continuidade linear quanto o ciclo infernal do eterno retorno"[5].

Se o capitalismo instituiu este tempo abstrato, que os ideólogos da classe dominante trataram de legitimar como tempo do progresso da humanidade em si, torna-se necessária a crítica deste tempo e sua interrupção, para se criar a possibilidade de um futuro diferente. Por isso, Benjamin coloca na tese 16: "O materialista histórico não pode renunciar ao conceito de um presente que não é transição, mas pára no tempo e se imobiliza. (...) O historicista apresenta a imagem 'eterna' do passado, o materialista histórico faz desse passado uma experiência única. (...) Ele fica senhor de suas forças, suficientemente viril para fazer saltar pelos ares o continuum da história"[6]. Adorno[7] sublinha, pertinentemente, a importância do elemento estático em Walter Benjamin. Parar o tempo é fixá-lo, como diz a tese 17: "Pensar não inclui apenas o movimento das ideias, mas também a sua imobilização. Quando o pensamento pára, bruscamente, numa configuração saturada de tensões, ele lhes comunica um choque, através do qual essa configuração se cristaliza enquanto mônada. O materialista histórico só se aproxima de um objeto histórico quando o confronta enquanto mônada"[8]. Poderíamos dizer que toda imobilização constrói uma imagem, fixa um instante do tempo que foi interrompido. Na tese 15, Benjamin mostra esta tentativa, ao contar que, "terminado o primeiro dia de combate, verificou-se que em vários bairros de Paris, independentes uns dos outros e na mesma hora, foram disparados tiros contra os relógios localizados nas torres"[9]. Tentativa de parar o tempo que, sob a pena precisa de Benjamin, torna-se uma imagem, única e singular.

O que Benjamin propunha era uma nova forma de viver o tempo, daí os seus experimentos com o haxixe: "Para quem comeu haxixe, Versalhes não é suficientemente grande, nem a eternidade suficientemente longa. E ao fundo dessas dimensões imensas da experiência interior, da duração absoluta e do mundo espacial incomensurável se detém um humor maravilhoso e feliz, sobre as contingências do mundo espacial e temporal"[10]. Uma nova história supõe um novo tempo, construído. Este elemento da construção está presente na tese 14: "A história é objeto de uma construção cujo lugar não é o tempo homogêneo e vazio, mas um tempo saturado de 'agoras'. Assim, a Roma antiga era para Robespierre um passado carregado de 'agoras', que ele fez explodir do continuum da história. A Revolução Francesa se via como uma Roma ressurreta. Ela citava a Roma antiga como a moda cita um vestuário antigo. A moda tem um faro para o atual, onde quer que ele esteja na folhagem do antigamente. Ela é um salto de tigre em direção ao passado. Somente, ele se dá numa arena comandada pela classe dominante. O mesmo salto, sob o livre céu da história, é o salto dialético da Revolução, como o concebeu Marx"[11]. Tese exemplar, pois condensa os temas da construção e da repetição. Comenta de forma esclarecedora Olgária Matos: "Na tese XIV, Benjamin trata a relação com o passado sob uma dupla possibilidade: uma, que se efetiva imediatamente - relação de identificação -, e outra, que extrai o excedente de significado no interior desse mesmo passado, o que permaneceu virtual. O 'salto do tigre no passado' pode conduzir a saídas de sentidos contrapostos, conforme advenha 'na arena onde manda a classe dominante' (identificação) ou 'sob o céu livre da história'. Tal como a moda, a história é revivida, mas segundo essa duplicidade: como repetição ou como sentido inédito, como catástrofe ou como redenção. O que subjaz à abordagem de Benjamin é a crítica à noção de continuidade temporal: 'A história é o objeto de uma construção cujo lugar não é o tempo homogêneo e vazio', mas forma um tempo pleno de Jetztzeit, como interrupção do devir abstrato do tempo. A ideia segundo a qual a história é sempre escrita pelos vencedores é a ideia da 'catástrofe' como continuidade da história: 'A continuidade da história', diz Benjamin, 'é a dos opressores' e 'a história dos oprimidos é uma descontinuidade'"[12].

O anjo da história "gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. (...) Essa tempestade é o que chamamos progresso"[13]. Relendo a tese 9 à luz da discussão que acabamos de fazer, pode-se entendê-la sob outro ângulo. Criticar o progresso significa pará-lo, interrompê-lo, explodir o continuum histórico e, desta forma, libertar o anjo. Livre, ele pode reunir as ruínas que se acumularam a seus pés, e tem a possibilidade de redimi-las, de construir um novo futuro, que não se esquece do passado, e que não é o mesmo, nem se repete. O anjo juntará os fragmentos deste tempo para construir um devir que seja singular. Mas, para mudar, é preciso interromper.

[1] Cf. BENJAMIN, Walter: Sobre o Conceito de História. In: Obras Escolhidas. São Paulo: Brasiliense, 1985. Tese 15, p. 230. Doravante citado apenas como “Teses”.
[2] MATOS, Olgária: Os Arcanos do Inteiramente Outro: A Escola de Frankfurt, a Melancolia e a Revolução. São Paulo: Brasiliense, 1989. pp. 31-32.
[3] BENJAMIN, Walter: Experiência e Pobreza. In: Obras Escolhidas. São Paulo: Brasiliense, 1985. p. 115.
[4] Benjamin, Teses, op. cit., p. 229.
[5] Matos, op. cit., p. 46.
[6] Benjamin, Teses, op. cit., pp. 230-231.
[7] Cf. ADORNO, Theodor: Caracterização de Walter Benjamin. In: COHN, Gabriel (org.): Theodor W. Adorno. São Paulo: Ática, 1994.
[8] Benjamin, Teses, op. cit., p. 231.
[9] Idem, p. 230.
[10] BENJAMIN, Walter: Imagens do Pensamento. In: Obras Escolhidas II. São Paulo: Brasiliense, 1995. pp. 249-250.
[11] Benjamin, Teses, op. cit., pp. 229-230.
[12] Matos, op. cit., p. 42.
[13] Benjamin, Teses, op. cit., p. 226.

Imagem: Lou Stoumen, Times Square in the Rain, 1940.

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