terça-feira, 27 de abril de 2010

Zumbilogia? Ou: a noite das categorias zumbi - I

Trecho de entrevista de Ulrich Beck para Johannes Willms[1]

JW: O senhor fala numa crise, numa crise conceitual e básica da ciência social como fonte de sua própria renovação. Aliás, foi Max Weber quem disse que, em certo momento, a luz dos grandes problemas mundiais se altera e, então, as ciências também precisam avançar e reequipar seu instrumental conceitual. Que significa isso? Como seria isso?

UB: É algo que se pode esmiuçar em dois sentidos. O primeiro consiste em atualizar os pressupostos básicos que estão abalados. E o segundo é: como lidar com isso sociologicamente? Por que este não é o ponto final, e sim o ponto inicial de uma renovação da sociologia?
No que se referente à primeira pergunta, minha conclusão central e metodológica do nosso diagnóstico é a seguinte: a sociologia, que está radicada no âmbito do Estado nacional e que nesse horizonte desenvolveu sua compreensão de si, suas formas de percepção, seus conceitos, fica sob a suspeita metodológica de trabalhar com categorias zumbis. Categorias zumbis são categorias mortas-vivas que nos assombram a mente e determinam a nossa visão de de realidades as quais desaparecem cada vez mais. Por refinado que seja, o empirismo adquirido por meio de categorias zumbis não passa de um empirismo cego. Pois as categorias zumbis provêm do horizonte experimental do século XIX, da - como eu digo - Primeira Modernidade e, com orientam essa experiência analítico-aprioristicamente, cegam-nos para a experiência e a dinâmica da Segunda Modernidade.

JW: É uma grande expressão, que, no entanto, só há de se comprovar na argumentação. Qual é a consequência, como se pode destrinçar isso?

UB: Primeiramente, a sociologia teria de empreender uma autocrítica e se perguntar até que ponto suas categorias fundamentais se baseiam em pressupostos historicamente obsoletos. A isso se associaria a tentativa de desenvolver novas categorias, novas dicotomias, novos quadros de referência historicamente sensíveis, e também de abrir um novo espaço de imaginação da sociedade, da sociologia e da política, o qual permita preencher esses outros quadros de referência com cores, com empirismo, com vida. Talvez valha a pena detalhar um pouco mais e escolher um problema.
Como se sabe, a renda familiar é uma unidade de referência central e, portanto, uma categoria-chave da análise sociológica. Por exemplo, com a ajuda das rendas familiares, que são operacionalizadas, é possível definir as classes, pois é justamente essa renda, geralmente verificada no chefe de família masculino encarregado de ganhar o sustento, que serve de indicador da classe social a que pertencem todos os membros dessa família. Mas que é a renda familiar hoje em dia? Uma pergunta tão simples chega a desconcertar o mais antigo habitante do Ocidente tanto quanto a questão: que pretende o SPD[2] afinal? Pois no microcosmo da família pode-se observar em detalhe a troca de grupos da sociedade e, para tanto nem é preciso ser sociólogo. Quanta coisa existe por aí! Os meus filhos, os teus, os nossos; divórcios, novos casamentos, living-apart-together, diferentes trajetórias profissionais, mobilidade permanente, sede dos domicílios etc. E há os avós! Eles não só passaram a ser cada vez mais importantes, no papel de exército de reserva disponível para enfrentar as turbulências cotidianas, como também se multiplicam - sem interferir diretamente e sem manipulação genética - graças aos sucessivos divórcios e novos matrimônios dos filhos! E, nesse caos amoroso absolutamente normal, a sociologia tem de responder a uma pergunta aparentemente simples e indispensável para a análise das classes: o que é renda familiar? A resposta é: no âmbito nuclear de nossa vida, dissipou-se aquilo que outrora se pensava analiticamente, ou seja, a família como unidade espacial, social e econômica. Isso já não tem serventia, como antigamente a sociologia pressupunha com tanta segurança e até hoje pressupõe para a análise empírica das classes. E como foi que descobrimos tal coisa? É interessante: aplicando os resultados das mais recentes pesquisas sociológicas, a não só da sociologia da família, à suposta unidade básica das classes sociais. É esse tipo de sociologia reflexiva, além da aplicação metodológica da sociologia à sociologia, que pode vir a ser fecundo para a crítica do conceito zumbi. Então fica claro: a análise das classes pressupõe a família normal, mas esta deixou de existir.

JW: Eu estou começando a entender os seus colegas. Quer dizer que a sociologia dissolve com muita sofisticação a própria sociologia, não?

UB: De fato, a sociologia perde a obviedade de seus primórdios. Que fazer uma vez que não se pode definir família nem renda familiar? O sociólogo francês Jean-Claude Kaufmann mostrou-o muito bem. Ele se viu diante da pergunta "O que é um casal?", visto que já não se pode definir casal pela certidão de casamento nem pela sexualidade. Sua resposta: casal é quando duas pessoas compram uma lavadora em vez de duas. Aí, sim, começa a história das complicações, das negociações, das desculpas, das persuasões do dia-a-dia que Kaufmann constata nas turbulências da "roupa suja" (este é o título do seu livro): O que se considera sujo? Quem lava para quem? Quando? Passar roupa é necessário? Que acontece quando ele diz sim e ela diz não? Tudo pode e deve ser negociado, porque as normas das quais derivam as respostas nada têm de claro ou não se distribuem assim, sem mais nem menos; e, entretanto, essas questões nao podem ser deveras negociadas simplesmente porque são constrangedoras; por outro lado, porque viver junto depende exatamente de que cesse o tanto perguntar, de que se estabeleçam limites conscientes das dúvidas. E, para dificultar mais, ocorre que a questão da roupa suja nada tem a ver com a roupa suja propriamente; o que importa é se um reconhece ou desdenha o outro, de modo que os conflitos por causa das tarefas cotidianas recebem uma carga explosiva nas lutas mútuas por reconhecimento e identidade. O lema é: "Se você não lavar a minha roupa, é porque despreza a minha pessoa!". Ou seja, a sociologia que quiser enxergar além das categorias zumbis tem de reinventar o ofício da sociologia. Agora se faz verdadeiramente necessário descobrir, por trás das autodescrições que nós cultivamos e prezamos, como é, como se produz e como se renova permanentemente esta sociedade desconhecida em que vivemos.

[1] Beck, Ulrich Liberdade ou capitalismo / Ulrich Beck conversa com Johannes Willms, tradução Luiz Antonio Oliveria de Arújo. - São Paulo: Editora UNESP, 2003. pp:14-8 .
[2] Sozialdemokratische Partei Deutschlands - Partido Social-Democrata da Alemanha .

Vídeo: Garotas Suecas virando zumbis...

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