sexta-feira, 21 de maio de 2010

"Hoje, em São Paulo, há maior comoção com os maus-tratos a um cachorro do que com os maus-tratos a uma pessoa de rua " (Padre Julio Lancellotti)

Padre Julio Lancellotti não baixa o tom e nem desiste de brigar em favor do reconhecimento dos moradores de rua, e por essas e outras deve ser um dos caras mais xingados de São Paulo, um dos que mais irrita a 'elite', dos mais caluniados e perseguidos, e alvo de grandes baixarias. Como o Padre Julio recomenda, eu já afirmo que estou do lado dele, e contra as práticas higienistas da atual administração municipal ('higienismo' aqui diz respeito às práticas de 'limpeza social', típicas de São Paulo, como a expulsão dos pobres e negros das áreas nobres da cidade).

Em longa entrevista ao site do PC do B, o Vermelho, o Padre Julio diz tudo que não pode falar para a imprensa quatrocentona e 'cristã'. Abaixo só um trechinho:

Vermelho: Só neste ano, houve dois moradores de rua mortos a paulada, enquanto dormiam, na Praça Presidente Kennedy, e outros seis que foram assassinados, em circunstâncias idênticas, sob um viaduto do Jaçanã. Esses crimes não ocorreram no Centro — e nem sempre era a polícia que estava envolvida. Dá para dizer que se criou uma cultura de banalização dos sem-teto, que torna até mais frequentes esses extermínios?
JL: Eu acho que tem a banalização, mas esse grupo do Jaçanã, por exemplo, chama a atenção pela quantidade de tiros — a segurança de atirar e contar com a impunidade. O próprio comerciante que aparece na entrevista do SPTV disse: “Ah, mas eles fumavam crack, cheiravam não sei o quê, ficavam pressionando quem passava aqui”. Quer dizer, ele justificou.

Ontem eu recebi um Twitter que me perguntava quantas pessoas eles tinham assaltado — se por acaso eu já sabia disso. Hoje está-se criando uma cultura de que matar morador de rua é um favor, uma forma de resolver o problema, porque eles somem, desaparecem.

Eu pus aqui no Twitter, outro dia, uma frase da (professora universitária) Ermínia Maricato: “Os pobres têm um defeito: não desaparecem no fim do dia”. Se eles desaparecessem no fim do dia, todo mundo ia ficar feliz. Se o povo da rua desaparecer, ninguém vão sentir falta. No dia em que for feita uma política pública que os elimine, ninguém vai lamentar ou querer saber como eles sumiram.

Estamos tendo uma deturpação ética, ligamos a cidadania a um determinado comportamento. A pessoa que está na rua perde o status humano, deixa de ser uma pessoa com direitos e deveres. Como ela está profundamente lesionada, você não reconhece mais nela a dignidade humana. Se passar o trator em cima, tudo bem, porque ele perdeu o status humano.

Vermelho: Dá para comparar a uma carrocinha capturando um vira-lata qualquer pelas ruas?
JL: Não, esse pessoal se condói mais com o cachorro. Se bater num cachorro na Praça da Sé, vai ter mais auê do que se bater num morador de rua. Bate num cachorro para você ver. A gente devia fazer um dia uma cena para ver o que acontece. Se pegar um morador de rua e bater nele em frente ao Shopping Higienópolis, você vai ter apoio. Depois, se você pegasse um cachorrinho e começasse a bater nele, ia ter mais reação.

Vermelho: A comoção seria mesmo maior?
JL: Hoje, em São Paulo, há maior comoção com os maus-tratos a um cachorro do que com os maus-tratos a uma pessoa de rua.

Vermelho: São Paulo está ficando mais conservadora?
JL: Se você ligar o conservadorismo à desumanização, sim. A grande questão é que São Paulo está se tornando uma cidade desumanizada. Há sinais de esperança, há muita gente que resiste, mas há uma cultura de desumanização. Se uma pessoa idosa é maltratada numa parte do Metrô, a maior parte do pessoal fica calada. Ninguém reage. Eu não digo nem o morador de rua, porque o morador de rua não entra no Metrô.

Nós fomos andar pelo Centro da cidade para ver em que lugar a pessoa de rua entrava. Eles iam à frente, e eu ia à distância, com o fotógrafo, porque se me vissem podiam me reconhecer. No Shopping Light, por exemplo, foi um auê. No fim, quando vi que a situação ficou meio perdida, eu fui realmente procurá-los — e aí nem eu podia ficar dentro do shopping. Aí fomos tomar café, e eu disse que tinha o direito, que eram meus convidados. Tivemos de tomar o café com não sei quantos seguranças em volta de nós.

Vermelho: Você é otimista?
JL: Eu procuro ser esperançoso.

Vermelho: Qual é a diferença?
JL: O otimismo às vezes é visto como um pouco de alienação. A esperança é fincada no chão. Autores de origem marxista, como (o filósofo alemão) Ernst Bloch, vão falar na esperança — e de uma esperança que tem razões, busca, utopia, horizonte. Não podemos perder a noção de que nós fazemos uma ação histórica. Não é uma ação voluntarista, individualista.

É uma ação histórica, de classe, de um povo, de um grupo. Não vou sair lá no meio gritando sozinho e achar que, só porque eu quero, vai mudar. Eu quero fazer parte da história que vem de Bartolomé de las Casas, do Dom Oscar Romero, daqueles que resistiram e resistem à opressão. Muitos deles estão esquecidos, como o Frei Caneca, o Antônio Conselheiro. São histórias de resistência.

Vermelho: Há espaço para essa perspectiva crescer numa cidade como a São Paulo de hoje, sob o consórcio PSDB-DEM?
JL: Eu fico feliz quando vejo os jovens militantes, jovens socialistas, jovens que fazem a formação. Eles são poucos, mas são diferentes daqueles 500 que foram ontem andar de cueca e de calcinha no Metrô. Acham que fizeram a revolução, que agora o mundo é outro. A imprensa é que adora esse tipo de coisa de comportamento. É uma forma de mostrar rebeldia ou irreverência a uma sociedade apodrecida. Fico muito feliz mesmo quando vejo grupos de jovens. Essa chama não se extinguiu.

(Imagem: arquitetura anti-mendigo, em mobiliário urbano na praça da República: http://admin.paginaoficial1.tempsite.ws/admin/arquivos/biblioteca/bancoantimendigo7313.jpg)

Nota: a militância do Padre Julio e diversos outros, não só no Brasil, parece ser o que ainda garante para aIgreja Católica alguma credibilidade.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Delicadeza (2)

Já faz algum tempo que a Maria Rita Kehl aborda o tema da Delicadeza. Neste texto, publicado em O Estado de São Paulo no último sábado, ela volta ao tema para tratar de São Paulo, esta cidade que, cada vez mais, adere à grosseria e à brutalidade. E nos convida a procurar, em meio a tanto cinza e falta de vida, a delicadeza perdida.

Não por acaso, o começo do seu texto é um convite benjaminiano à interrupção do tempo, ao abandono da ideia deste como um progresso linear e contínuo (ecos de Benjamin aparecem também no parágrafo em que ela cita Baudelaire). Talvez seja isso mesmo que precisamos, parar o tempo para podermos enxergar novamente aquilo para o que ficamos cegos. Afinal, para ver delicadeza, é preciso também um olhar cuidadoso.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Esquecimento digital

Depois do post sobre a manutenção dos arquivos e perfis após a morte, acabei me deparando com um caso curioso: um colega, apesar de ter deletado o seu perfil num site de armazenagem de fotos, descobriu que, facilmente, via cache do Google, era possível recuperar quase todas as postagens publicadas há mais de 5 anos! Logo em seguida, descobri também o Internet Archive, que pretende ser um repositório de tudo o que já se viu na internet ao longo da história (e qual não foi a minha surpresa ao encontrar o meu antigo blog lá, intacto e até mesmo com os comentários publicados numa pequena caixa de diálogo. E o coitado foi extinto em 2003!).

Acho que ainda não conhecemos as implicações disso para a nossa vida cotidiana. Um ponto de vista bastante interessante é o do pesquisador Viktor Mayer-Schöenberger, autor da entrevista publicada no jornal Folha de São Paulo no dia 05 de abril de 2010, e que reproduzo na íntegra.


Esquecer limpa a mente, ajuda a abstrair e a generalizar

Pesquisador da sociedade da informação defende a virtude do esquecimento na era digital e diz que "tudo o que é arquivado na rede deve sair do ar em algum momento"

DANIELA ARRAIS
DA REPORTAGEM LOCAL

Esquecer sempre foi fácil: costumava ser o comportamento padrão diante das tantas vidas que precisam caber em uma só. Lembrar de cada aniversário, início de namoro -e seus consequentes corações partidos-, promoção de emprego, tudo bem. Mas armazenar na memória todos os detalhes dos anos que se passam não era possível nem para aqueles humanos considerados mais evoluídos. Até o momento em que a internet transformou essa utopia em realidade.
Com custos de armazenamento de dados cada vez mais baixos, a era digital modificou completamente a relação do homem com a memória. É tão barato guardar gigabytes de fotos, textos e vídeos que são poucas as pessoas que escolhem o que realmente querem ter para sempre. Elas esquecem, no entanto, que as informações colocadas na rede são difíceis de deletar -sites como o Wayback Machine são capazes de encontrar, em segundos, aquilo que você achava que tinha apagado.
Em consequência, os erros do passado não ficam mais restritos àquele tempo e podem voltar a nos assombrar a qualquer momento.
Precisamos mesmo disso? O pesquisador Viktor Mayer-Schöenberger acredita que não.
Autor do livro "Delete -The Virtue of Forgetting in the Digital Age" (delete, a virtude de esquecer na era digital; Princeton University Press, US$ 24,95), ele afirma que a "limpeza" que o cérebro faz constantemente é uma virtude, e não uma limitação. É o que nos permite uma atitude tão simples quanto essencial: a de seguir em frente.
A seguir, leia a entrevista que Viktor Mayer-Schöenberger concedeu à Folha por e-mail.

FOLHA - A internet está tornando difícil o ato de esquecer informações?
VIKTOR MAYER-SCHÖENBERGER
- Não é só a internet, mas a combinação com a digitalização, que nos permite usar as mesmas ferramentas tecnológicas para processar, armazenar e disseminar diferentes fluxos de informação, incluindo imagens, áudio e vídeo. Isso cria fortes economias de escala, o que tem facilitado uma queda dos custos de armazenagem. Hoje é mais barato armazenar todas as imagens digitais em um disco rígido, em vez de gastar alguns segundos para decidir se quer manter uma foto digital ou excluí-la. Adicione a isso grandes avanços na recuperação da informação, bem como uma rede digital global, a internet, para acesso ao armazenamento digital, e você tem uma situação em que a lembrança é o padrão, e esquecer, a exceção.

FOLHA - No seu livro, você fala sobre o papel de lembrar e a importância de esquecer. Pode explicar isso?
MAYER-SCHÖENBERGER
- Durante toda a história da humanidade, o esquecimento tem sido fácil para nós. Ele é construído em nosso cérebro: a maior parte do que nós experimentamos, pensamos e sentimos é esquecida rapidamente. E (principalmente) com uma boa razão: essas coisas não são mais relevantes para nós, e esquecer limpa a mente. Esquecer nos ajuda a abstrair e a generalizar, a ver a floresta em vez das árvores, e a viver e agir no presente, em vez de ficar amarrado a um passado cada vez mais detalhado. Esquecer nos ajuda a evoluir, a crescer, a seguir em frente -para aprender novas coisas.
Pelo esquecimento, a nossa mente se alinha com o nosso passado, com nossas preferências do presente, tornando mais fácil a sobrevivência e a vida suportável.
Pelo esquecimento, também facilitamos a nossa capacidade de perdoar os outros por seus comportamentos.
O que é verdadeiro para indivíduos também é verdadeiro para a sociedade em um aspecto mais amplo. As sociedades devem ter a capacidade de perdoar indivíduos esquecendo o que eles fizeram, reconhecendo, deste modo, que os seres humanos têm a capacidade de mudar e de crescer.

FOLHA - Em seu livro, você diz que a memória perfeita altera nosso comportamento. Como isso acontece?
MAYER-SCHÖENBERGER
- A memória perfeita tem dois potenciais efeitos de congelamento. O primeiro é em relação à sociedade. Se tudo o que dizemos e fazemos hoje puder ser usado contra nós em um futuro distante, acabando com a possibilidade de conseguirmos um emprego melhor ou um relacionamento melhor, muitos de nós vamos começar a nos censurar sobre o que fazemos e dizemos on-line hoje. A memória perfeita criará um pan-óptico temporário -o oposto exato do que precisamos em uma sociedade democrática baseada em robustos debates cívicos.
Minha segunda preocupação recai sobre a nossa capacidade de decidir e agir no presente.
Pessoas com memória perfeita reclamam que sua tomada de decisão é dificultada por sua incapacidade de verter o passado -recordar todo o nosso passado empurra-nos para que nos tornemos indecisos.
Nós devemos saber em que medida a memória perfeita usurpa nossas vidas. Algumas vezes, a memória pode ser útil, mas será eu realmente preciso buscar no Google o nome de todo mundo antes de encontrar essas pessoas?

FOLHA - A memória é construída tanto pelo que aconteceu quanto pelo que não aconteceu. É parte da evolução humana criar histórias, misturá-las, mentir até. A total capacidade de armazenar informação pode afetar os afetos?
MAYER-SCHÖENBERGER
- Sim, certamente. Nossa memória humana não é fixa. Ela é constantemente reconstruída com base em nossas preferências e valores presentes. Isso reduz a dissonância cognitiva e nos permite viver profundamente enraizados no presente. Se percebemos que a nossa memória humana não é perfeita e começamos a confiar em memórias digitais mais do que na nossa, três terríveis consequências podem seguir: (a) podemos acreditar que o que é capturado digitalmente e lembrado é o registro completo, embora não seja (muito pode não ter sido capturado digitalmente); (b) nós podemos nos tornar dependentes da memória digital e quem quer que seja que controla essa memória digital poderá ter o poder de reescrever a história; (c) se percebermos que a memória digital também pode não ser confiável, podemos desistir da história e da memória completamente -uma espécie arrancada sem passado.

FOLHA - Quais são os riscos de termos todas as informações disponíveis na nuvem computacional?
MAYER-SCHÖENBERGER
- Se a privacidade dos indivíduos na rede falhasse em massa, todo mundo seria exposto, e a privacidade desapareceria. O sociólogo Goffman tem uma fala famosa sobre a necessidade de os seres humanos terem mais de uma fase em suas vidas. Por exemplo: uma fase para frente e uma fase para trás. Se todos os dados podem ser vistos por todos, a diferenciação desses estágios entraria em colapso, com tensões inimagináveis.

FOLHA - Nós precisamos pensar antes de começar a espalhar tanta informação por aí?
MAYER-SCHÖENBERGER
- Sim, nós precisamos pensar. Mas eu estou preocupado que, se pensarmos muito, vamos nos auto-censurar. Isso pode nos proteger individualmente, mas empobrece-nos como sociedade. Seria muito melhor se nós ainda pudéssemos compartilhar muita informação, mas ter um mecanismo para que essa informação fosse esquecida ao longo do tempo. É por isso que eu tenho defendido a reintrodução do esquecimento na era digital.

FOLHA - Como na vida, a internet precisa dar uma segunda chance às pessoas? Se não, a rede pode virar uma espécie de tribunal permanente?
MAYER-SCHÖENBERGER
- Realmente. Temos que perdoar, esquecer. O Google não vai nos deixar fazer isso. Se nós procuramos o nome de alguém no Google e descobrimos uma citação de que ele estava dirigindo embriagado há dez anos, o quão relevante é isso para o presente dessa pessoa?

FOLHA - Você diria que a sociedade da era digital não concede perdão?
MAYER-SCHÖENBERGER
- Eu acho que isso é bastante apropriado.

FOLHA - Você acha que falta uma regulação para a internet?
MAYER-SCHÖENBERGER
- Eu não acho que exista um regulamento simples que possamos estabelecer para evitar os problemas da memória digital. Como eu detalho no meu livro, precisamos de uma combinação de uma série de medidas para enfrentar o desafio do fim do esquecimento na era digital.

FOLHA - Como podemos apagar nossas pegadas na internet?
MAYER-SCHÖENBERGER
- Isso é muito difícil porque não temos controle total sobre as informações pessoais. Algumas empresas de internet oferecem (difíceis) formas de eliminar informações pessoais. Outras não. Um grupo no Google está trabalhando em ferramentas para extrair todas as informações pessoais do Google e, em seguida, excluí-las, mas esse serviço ainda está na sua infância. Há empresas comerciais que têm serviços para apagar as pegadas, mas são muito caros. Devemos ensinar os softwares a agirem de acordo com nossa mente. Tudo o que é arquivado deve sair do ar em algum momento. Devemos indicar a data de validade para as fotos que colocamos na rede, por exemplo. Quando chegar o momento, elas serão deletadas. Um exemplo é o site Drop.io.

FOLHA - Como você teve a ideia de escrever o livro?
MAYER-SCHÖENBERGER
- Nos agradecimentos, eu conto a história de que eu esqueci como eu tive a ideia para o livro. Por acaso eu tinha escrito uma pequena nota para mim sobre a ideia. Mais tarde, eu esqueci tudo sobre ele -talvez não fosse tão importante assim.

FOLHA - Você já deve ter ouvido muitas histórias de pessoas com problemas por conta das pegadas digitais. Qual chamou mais sua atenção?
MAYER-SCHÖENBERGER
- Foi o caso de uma mulher norte-americana de quase 30 anos que havia ficado alguns anos na prisão por algo que ela tinha feito aos 18 anos. Depois de sua libertação, ela se mudou para uma nova cidade, começou uma nova vida. Encontrou um marido, um emprego, seus filhos cresciam em uma família normal. Até que um colega de um filho "deu um Google" no nome dela e, por acaso, deu de cara com um site que colocava fichas policiais com foto de todos os prisioneiros do Estado nas últimas duas décadas. De repente, a vida dela desmoronou.

FOLHA - Se hoje as pessoas não têm direito a uma segunda chance, o que pode acontecer em dez, 20 anos?
MAYER-SCHÖENBERGER
- Se nós não oferecermos a nós mesmos uma chance de escolha significativa em breve, gerações de nativos digitais vão crescer e assumir que a escolha não é possível. Eles vão adaptar suas vidas para as restrições impostas pela máquina. Isso seria terrível. Nós podemos moldar a máquina de qualquer maneira que quisermos. E, se quisermos, podemos fazê-la de uma forma que nos ofereça escolha!

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Índice de matabilidade

Do blog do Vinícius Torres Freire na Folha Online, que acho que merece ser reproduzido:

"Morte e "passagem pela polícia"
Nada a ver com economia e, no fundo, trata-se de uma queixa que é ou deveria ser lugar comum: por que tanto jornalista diz e escreve que fulano, assassinado pela polícia, "não tinha passagem pela polícia"? E se tivesse? Pode ser espancado até morrer? Ou ser espancado sem morrer?
O que quer dizer "passagem pela polícia"? Que foi preso por "desacato"? Por "vadiagem"? Por engano? Numa manifestação estudantil dos anos 80? E se fosse o caso de um ex-condenado por crime grave, mas que cumpriu a pena e vive direito? Pode ser espancado? Só um pouquinho ou até morrer?Pois então. Acabo de ver uma rodada de jornais de TV, e em quase toda reportagem sobre o motoboy morto no final de semana a gente ouve: "não tinha passagem pela polícia". Qual a relevância? Indicaria a periculosidade do "elemento" e, pois, uma certa justiça no espancamento?
Nenhum "parti pris" contra ou a favor policiais ou motoboys, ou qualquer um. Por falar nisso, os dois levam uma vida do cão, perigosa e que rende muito pouco. Mas isso também nada a tem a ver com o assunto. O problema somos nós. Por que precisamos escrever essa tolice: "não tinha passagem pela polícia"?"

Observação rápida: até onde eu sei, o perfil de quem é abatido pela polícia militar do Estado de São Paulo é (ou era): homem, jovem, não-branco, morador da periferia (portanto pobre) e, em quase 100% dos casos, dito que atacou a polícia e foi liquidado no 'revide' - na versão da própria polícia, frise-se. O fato de ter ou não 'passagem pela polícia' não é (era?) determinante nesse perfil.

O que 'legitimaria' a ação da polícia é a 'resistência' - resistiu, enfrentou, desobedeceu, portanto pediu pra levar chumbo, inocência à parte. Ninguém sabe explicar direito que é essa 'resistência' em termos não estereotipados e menos imprecisos. Quando a polícia mata um inocente comprovado na frente da família, e isso chega à imprensa, o clamor é contra o 'excesso', contra o 'exagero' da polícia, deixando portanto subentendido que se a polícia matasse alguém que 'resistisse' e/ou tivesse 'passagem pela polícia' na frente da família não teria tanto problema... Sim, é isso mesmo que você está entendendo: a moral hipócrita e racista acha que tudo bem a polícia matar à vontade, o que ela não pode fazer é matar 'inocente' - E inocente aqui não quer dizer 'quem não tem passagem' pela polícia, mas quem é branco e não mora na periferia. Quem já ouviu um hip-hop sabe do que eu estou falando.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Vida (digital) após a morte

Cerca de 3% dos usuários do Facebook já morreram, segundo estimativas da própria empresa. E, no entanto, seus perfis continuam lá, sem atualizações, com seus jardins e bichinhos virtuais morrendo, sem os cuidados diários. Esse é um problema novo, mas já bastante recorrente. Se, mesmo vivos, vários de nossos perfis em outras redes sociais "morrem" sem o nosso cuidado e acesso frequente, que dirá daquilo tudo que, mortos, ainda sobrevive.

Visando esse nicho de mercado, várias empresas têm adotado estratégias diversas, oferecendo novos serviços post mortem. O próprio Facebook se oferece pra congelar o perfil do usuário falecido, mantendo a página como uma espécie de memorial - é improvável, no entanto, que o morto consiga ler, do além, as mensagens enviadas pelo site.

Outros serviços são mais sofisticados. Imagine a surpresa quando, no seu aniversário, você recebe uma mensagem do pai ou namorado morto! Sim, pode-se programar o envio de mensagens aos familiares por anos a fio.

Mais divertido é o serviço que finalmente revela os segredos guardados durante toda a vida. Ao sinal de morte, o site DeathSwitch oferece a possibilidade de enviar emails contendo revelações, dados secretos, e o que mais se desejar - e alguns serviços básicos são gratuitos!

Com o passar dos anos, a tendência é mesmo do aumento exponencial dos "cemitérios digitais". Nada mais justo do que, ainda em vida, já comprarmos os nossos terrenos virtuais para a gestão da nossa morte...

quinta-feira, 6 de maio de 2010

A farra do jornalismo mercenário*: a ABA responde à grotesca difamação e manipulação da revista VEJA

Nota do Edu: Não sou antropólogo nem nada, mas diante das maldades impunes da Veja, reproduzo a nota da Associação Brasileira de Antropologia, publicada no site do Jornal da Ciência, (via Nassif). Eles pedem, em virtude da assimetria de meios, a divulgação da nota por quem puder: "Dada a assimetria de recursos existentes, contamos com a mobilização dos antropólogos e de todos que se preocupam com a defesa dos direitos indígenas para , através de sites, listas na Internet, discussões e publicações variadas, vir a contribuir para o esclarecimento da opinião pública, anulando a ação nefasta das matérias (...) mencionadas." Pelo menos meus dois leitores já podem ir se informando.

*(título inspirado nesse post do blog Savoir-Faire, muito bom, que destrói os supostos 'argumentos' da revista)


Associação Brasileira de Antropologia responde a 'Veja'

Revista semanal publicou reportagem intitulada "A farra da antropologia oportunista" na edição de 5 de maio

A ABA divulgou duas notas a respeito da reportagem publicada por "Veja". A revista é acusada de manipular declarações, desrespeitar indígenas e usar dados inverídicos. Leia abaixo, na íntegra, as notas, assinadas pela Diretoria da ABA e por João Pacheco de Oliveira, coordenador da Comissão de Assuntos Indígenas (CAI) da entidade:

"Nota da Diretoria da ABA sobre matéria publicada pela revista 'Veja' (Veja ano 43 nº 18, de 05/05/2010)

Frente à publicação de matéria intitulada 'A farra da antropologia oportunista' (Veja ano 43 nº 18, de 05/05/2010), a diretoria da Associação Brasileira de Antropologia (ABA), em nome de seus associados, clama pelo exercício de jornalismo responsável, exigindo respeito à atuação profissional do quadro de antropólogos disponível no Brasil, formados pelos mais rigorosos cânones científicos e regidos por estritas diretrizes éticas, teóricas, epistemológicas e metodológicas, reconhecidas internacionalmente e avaliadas por pares da mais elevada estatura cientifica, bem como por autoridades de áreas afins.

A ABA reserva-se ao direito de exigir dos editores da revista semanal 'Veja' que publique matéria em desagravo pelo desrespeito generalizado aos profissionais e acadêmicos da área."

"Nota da Comissão de Assuntos Indígenas-CAI/ABA

A reportagem divulgada pelo último número da revista 'Veja', provocativamente intitulada "Farra da Antropologia oportunista", acarretou uma ampla e profunda indignação entre os antropólogos, especialmente aqueles que pesquisam e trabalham com temas relacionados aos povos indígenas. Dados quantitativos inteiramente equivocados e fantasiosos (como o de que menos de 10% das terras estariam livres para usos econômicos, pois 90% estariam em mãos de indígenas, quilombolas e unidades ambientais!!!) conjugam-se à sistemática deformação da atuação dos antropólogos em processos administrativos e jurídicos relativos a definição de terras indígenas.

Afirmações como a de que laudos e perícias seriam encomendados pela Funai [Fundação Nacional do Índio] a antropólogos das ONGs e pagos em função do número de indígenas e terras "identificadas" (!) são obviamente falsas e irresponsáveis. As perícias são contratações realizadas pelos juízes visando subsidiar técnica e cientificamente os casos em exame, como quaisquer outras perícias usuais em procedimentos legais. Para isto o juiz seleciona currículos e se apóia na experiência da PGR e em consultas a ABA para a indicação de profissionais habilitados. Quando a Funai seleciona antropólogos para trabalhos antropológicos o faz seguindo os procedimentos e cautelas da administração pública. Os profissionais que realizam tais tarefas foram todos formados e treinados nas universidades e programas de pós-graduação existentes no país, como parte integrante do sistema brasileiro de ciência e tecnologia. A imagem que a reportagem tenta criar da política indigenista como uma verdadeira terra de ninguém, ao sabor do arbítrio e das negociatas, é um absurdo completo e tem apenas por finalidade deslegitimar o direito de coletividades anteriormente subalternizadas e marginalizadas.

Não há qualquer esforço em ser analítico, em ouvir os argumentos dos que ali foram violentamente criticados e ridicularizados. A maneira insultuosa com que são referidas diversas lideranças indígenas e quilombolas, bem como truncadas as suas declarações, também surpreende e causa revolta. Subtítulos como "os novos canibais", "macumbeiros de cocar", "teatrinho na praia", "made in Paraguai", "os carambolas", explicitam o desprezo e o preconceito com que foram tratadas tais pessoas. Enquanto nas criticas aos antropólogos raramente são mencionados nomes (possivelmente para não gerar demandas por direito de resposta), para os indígenas o tratamento ultrajante é na maioria das vezes individualizado e a pessoa agredida abertamente identificada. Algumas vezes até isto vem acompanhado de foto.

A linguagem utilizada é unicamente acusatória, servindo-se extensamente da chacota, da difamação e do desrespeito. As diversas situações abordadas foram tratadas com extrema superficialidade, as descrições de fatos assim como a colocação de adjetivos ocorreram sempre de modo totalmente genérico e descontextualizado, sem qualquer indicação de fontes. Um dos antropólogos citado como supostamente endossando o ponto de vista dos autores da reportagem afirmou taxativamente que não concorda e jamais disse o que a revista lhe atribuiu, considerando a matéria "repugnante". O outro, que foi presidente da Funai por 4 anos, critica duramente a matéria e destaca igualmente que a citação dele feita corresponde a "uma frase impronunciada" e de "sentido desvirtuante" de sua própria visão. Como comenta ironicamente o jornalista Luciano Martins Costa, na edição de 03-05-2010 do Observatório da Imprensa, "Veja acaba de inventar a reserva de frases manipuladas".

A agressão sofrida pelos antropólogos não é de maneira alguma nova nem os personagens envolvidos são desconhecidos. Um breve sobrevoo dos últimos anos evidencia isto. O antropólogo Stephen Baines em 2006 concedeu uma longa entrevista a Veja sobre os índios Waimiri-Atroari, população sobre a qual escrevera anos antes sua tese de doutoramento. A matéria não saiu, mas poucos meses depois, uma reportagem intitulada "Os Falsos Índios", publicada em 29 de março de 2006, defendendo claramente os interesses das grandes mineradoras e empresas hidroelétricas em terras indígenas, inverteu de maneira grosseira as declarações do antropólogo (pg. 87). Apesar dos insistentes pedidos do antropólogo para retificação, sua carta de esclarecimento jamais foi publicada pela revista. O autor da entrevista não publicada e da reportagem era o Sr. Leonardo Coutinho, um dos autores da matéria divulgada na última semana pelo mesmo meio de comunicação.

Em 14-03-2007, na edição 1999, entre as pgs. 56 e 58, uma nova invectiva contra os indígenas foi realizada pela Veja, agora visando o povo Guarani e tendo como título "Made in Paraguai - A FUNAI tenta demarcar área de Santa Catarina para índios paraguaios, enquanto os do Brasil morrem de fome". O autor era José Edward, parceiro de Leonardo Coutinho, na matéria citada no parágrafo anterior. Curiosamente um subtítulo foi repetido na matéria da semana passada - "Made In Paraguay". O então presidente da ABA, Luis Roberto Cardoso de Oliveira, solicitou o direito de resposta e encaminhou um texto à revista, que nem sequer lhe respondeu.

Poucos meses depois a revista Veja, em sua edição 2021, voltou à carga com grande sensacionalismo. A matéria de 15-08-2007 era intitulada "Crimes na Floresta - Muitas tribos brasileiras ainda matam crianças e a FUNAI nada faz para impedir o infanticídio" (pgs. 104-106). O subtítulo diz explicitamente que o infanticídio não teria sido abandonado pelos indígenas em razão do "apoio de antropólogos e a tolerância da FUNAI." A matéria novamente foi assinada pelo mesmo Leonardo Coutinho. Novamente o protesto da ABA foi ignorado pela revista e pode circular apenas através do site da entidade.

Em suma, jornalismo opinativo não pode significar um exercício impune da mentira nem práticas sistemáticas de detratação sem admissão de di reito de resposta. O mérito de uma opinião decorre de informação qualificada, de isenção e equilíbrio. Ao menos no que concerne aos indígenas as matérias elaboradas pela Veja, apenas requentam informações velhas, descontextualizadas e superficiais, assumindo as características de uma campanha, orquestrada sempre pelos mesmos figurantes, que procuram pela reiteração inculcar posturas preconceituosas na opinião pública.

No acima citado comentário do Observatório da Imprensa o jornalista Luciano Martins Costa aprendeu muito bem e expôs sinteticamente o argumento central da revista no que concerne a assuntos indígenas: "A revista afirma que existe uma organização altamente articulada que se dedica a congelar grandes fatias do território nacional, formada por organizações não governamentais e apoiada por antropólogos. Essa suposta "indústria da demarcação" seria a grande ameaça ao futuro do Brasil." Este é o argumento constante que reúne não só a matéria da semana passada, mas as intervenções anteriores da revista sobre o tema. Os elos de continuidade fazem lembrar uma verdadeira campanha.

Numa análise minuciosa desta revista, realizada em seu site, o jornalista Luis Nassif fala de uma perigosa proximidade entre lobistas e repórteres nas revistas classificadas como do estilo "neocon". A presença de "reporteres de dossier" é uma outra característica deste tipo de revista. À luz destes comentários caberia atentar para a lista de situações onde a condição de indígenas é sistematicamente questionada pela revista. Aí aparecem os Anacés, que vivem no município de São Gonçalo do Amarante (onde está o porto de Pecem, no Ceará); os Guarani-M'bià, confrontados por uma proposta do megainvestidor Eike Batista de construção de um grande porto em Peruíbe, São Paulo; e os mesmos Guaranis de Morro dos Cavalos (SC), que lutam contra interesses poderosos, sendo qualificados como "paraguaios" (tal como, aliás, os seus parentes Kayowá e Nandevá do Mato Grosso do Sul, em confronto com o agro-negócio pelo reconhecimento de suas terras).

Como o objetivo último é enfraquecer os direitos indígenas (que naturalmente se materializam em disputas concretas muitas vezes com poderosos interesses privados), os alvos centrais destes ataques tornam-se os antropólogos, os líderes indígenas e os seus aliados (a matéria cita o Conselho Indigenista Missionário/CIMI por várias vezes e sempre de forma igualmente desrespeitosa e inadequada).

É neste sentido que a CAI vem expressar sua posição quanto a necessidade de uma responsabilização legal dos praticantes de tal jornalismo, processando-os por danos morais e difamação. Neste momento a Presidência da ABA, está em conjunto com seus assessores no campo jurídico, visando definir a estratégia processual de intervenção a seguir.

Dada a assimetria de recursos existentes, contamos com a mobilização dos antropólogos e de todos que se preocupam com a defesa dos direitos indígenas para , através de sites, listas na Internet, discussões e publicações variadas, vir a contribuir para o esclarecimento da opinião pública, anulando a ação nefasta das matérias mentirosas acima mencionadas. Que não devem ser vistas como episódios isolados, mas como manifestações de um poder abusivo que pretende inviabilizar o cumprimento de direitos constitucionais, abafando as vozes das coletividades subalternizadas e cerceando o livre debate e a reflexão dos cidadãos. No que toca aos indígenas em especial a Veja tem exercitado com inteira impunidade o direito de desinformar a opinião pública, realimentar velhos estigmas e preconceitos, e inculcar argumentos de encomenda que não resistem a qualquer exame ou discussão."