quarta-feira, 12 de maio de 2010

Índice de matabilidade

Do blog do Vinícius Torres Freire na Folha Online, que acho que merece ser reproduzido:

"Morte e "passagem pela polícia"
Nada a ver com economia e, no fundo, trata-se de uma queixa que é ou deveria ser lugar comum: por que tanto jornalista diz e escreve que fulano, assassinado pela polícia, "não tinha passagem pela polícia"? E se tivesse? Pode ser espancado até morrer? Ou ser espancado sem morrer?
O que quer dizer "passagem pela polícia"? Que foi preso por "desacato"? Por "vadiagem"? Por engano? Numa manifestação estudantil dos anos 80? E se fosse o caso de um ex-condenado por crime grave, mas que cumpriu a pena e vive direito? Pode ser espancado? Só um pouquinho ou até morrer?Pois então. Acabo de ver uma rodada de jornais de TV, e em quase toda reportagem sobre o motoboy morto no final de semana a gente ouve: "não tinha passagem pela polícia". Qual a relevância? Indicaria a periculosidade do "elemento" e, pois, uma certa justiça no espancamento?
Nenhum "parti pris" contra ou a favor policiais ou motoboys, ou qualquer um. Por falar nisso, os dois levam uma vida do cão, perigosa e que rende muito pouco. Mas isso também nada a tem a ver com o assunto. O problema somos nós. Por que precisamos escrever essa tolice: "não tinha passagem pela polícia"?"

Observação rápida: até onde eu sei, o perfil de quem é abatido pela polícia militar do Estado de São Paulo é (ou era): homem, jovem, não-branco, morador da periferia (portanto pobre) e, em quase 100% dos casos, dito que atacou a polícia e foi liquidado no 'revide' - na versão da própria polícia, frise-se. O fato de ter ou não 'passagem pela polícia' não é (era?) determinante nesse perfil.

O que 'legitimaria' a ação da polícia é a 'resistência' - resistiu, enfrentou, desobedeceu, portanto pediu pra levar chumbo, inocência à parte. Ninguém sabe explicar direito que é essa 'resistência' em termos não estereotipados e menos imprecisos. Quando a polícia mata um inocente comprovado na frente da família, e isso chega à imprensa, o clamor é contra o 'excesso', contra o 'exagero' da polícia, deixando portanto subentendido que se a polícia matasse alguém que 'resistisse' e/ou tivesse 'passagem pela polícia' na frente da família não teria tanto problema... Sim, é isso mesmo que você está entendendo: a moral hipócrita e racista acha que tudo bem a polícia matar à vontade, o que ela não pode fazer é matar 'inocente' - E inocente aqui não quer dizer 'quem não tem passagem' pela polícia, mas quem é branco e não mora na periferia. Quem já ouviu um hip-hop sabe do que eu estou falando.

3 comentários:

  1. Essa coisa de "passagem pela polícia" parece coisa de seriado americano, não? Quando acontece um crime na vizinhança, sempre procuram os ex-condenados primeiro...

    Quando eu estava no Ministério Público lendo inquéritos e processos de homicídio, vi vários casos de morte por policiais, e quase sempre o motivo era a tal "resistência". Quando se lê o relatório do médico legista, a causa da morte sempre era um único tiro no meio da testa, ou na nunca. Nossa polícia é realmente eficiente no combate aos bandidos resistentes...

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  2. No fundo, ainda tem muito a ver com o imaginário do "pobre, porém honesto", não? Quem pode ser morto e quem não pode; mas ao mesmo tempo, os que têm o azar de não ter sua distinção, que é fundamentalmente moral, visível por códigos facilmente legíveis numa ação policial.

    Se somos uma sociedade de aparências - estar no lugar errado, na hora errada, com a aparência errada legitima a desconfiança e nos retira da esfera da cidadania... Afinal, o que faz um "cidadão de bem" em locais suspeitos, em horários suspeitos? Culpa da vítima que não dominava os códigos da inocência!

    Acho que um complemento interessante a esse comentário do blogueiro - que não deixa de ser uma crítica ao modo como os jornalistas reproduzem a desigualdade e o pressuposto autoritário em suas notícias sobre esses casos - é uma coluna da Maria Rita Kehl logo após a decisão do STJ sobre a anistia aos torturadores. Dá para ler em http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100501/not_imp545397,0.php

    Maurice, em seus tempos de NEV o Edu estudou o perfil dos mortos em confrontos com policiais e a causa da morte (que, é claro, contrariava na mior parte dos casos a versão da "resistência"...).

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  3. Do jornalista Antonio Carlos Fon: "Velho repórter de polícia, especialidade dos primeiros dez dos meus 43 anos de jornalismo, estou assustado com o que está acontecendo na segurança pública no estado de São Paulo: tiraram a focinheira da PM"
    http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2010/05/19/a-escalada-de-violencia-da-pm-paulista-2/

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