sexta-feira, 30 de julho de 2010

Primeiro como tragédia, e então como farsa

Este é o título de uma fala de Slavoj Zizek, que foi ilustrada pela Royal Society of Arts, como parte de um projeto bastante interessante em que eles animam falas e palestras de pesquisadores e "intelectuais", sempre sobre temas atuais.
A fala de Zizek, ao menos o excerto escolhido para animação, fala sobre as ambiguidades éticas envolvidas no consumo de produtos orgânicos, oriundos de comércio justo ou de empresas social e ambientalmente responsáveis, bem como sobre as implicações éticas da prática dessas novas formas de "caridade". Como sempre, suas posições são bastante provocativas.
Há um aspecto, no entanto, que acho que também pode ser incluído nessa mesma discussão: se o consumo ambiental, social e éticamente responsável ganha tanta força atualmente, isso se deve também às disputas no campo científico, diante das ambiguidades que caracterizam nossa experiência de estar no mundo e do declínio da credibilidade pública da ciência, da tecnologia e das instituições que deveriam regular seu funcionamento. Como não há certeza sobre os impactos sociais, ambientais e ecológicos de várias das formas de produzir, o consumidor se vê diante da ingrata tarefa de ter que escolher a partir de informações desencontradas, preferindo (caso possa) pagar o preço da escolha segura ao invés de passar por mau - isto é, por despreocupado com o planeta, o futuro ou a saúde. Nesse sentido, o consumo "consciente" e "responsável" e suas contradições dizem também respeito à frustração de um modelo de segurança social, em que as escolhas estavam informadas por conhecimentos mais ou menos unívocos, e em que as relações custo/benefício eram claramente estabelecidas.
Nesse sentido, a fala de Zizek é provocadora ao ampliar o quadro de referência no qual as escolhas éticas dos consumidores abandonados à liberdade de mercado precisam ser pensadas.

A animação, infelizmente, só está disponível em inglês, embora o inglês Zizek, com seu sotaque carregado, seja relativamente fácil de compreender.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Para uma história futura da leitura

A História como disciplina acadêmica sofreu grandes transformações desde o início do século XX, principalmente devido ao desenvolvimento das ciências sociais (especialmente a sociologia e a antropologia) que, num diálogo bastante frutífero, modificou em profundidade o fazer histórico. De fato, a História preocupada com os grandes acontecimentos, com as narrativas épicas e com o fetiche das datas comemorativas cedeu lugar a diversas outras formas de pensar, entender e descrever o passado, agora voltadas aos pequenos homens (e mulheres), a processos mentais, a representações coletivas e práticas sociais (termos em muito devedores da sociologia de Durkheim). Novos objetos foram introduzidos na disciplina histórica, que deixou de ser apenas econômica e social para se tornar também cultural. A chamada nova história cultural, que ganhou pleno desenvolvimento especialmente a partir dos anos 1970, com a entrada em cena de novos atores e pensadores pós-1968, tornou-se praticamente a corrente hegemônica da disciplina acadêmica. A partir daí, foi possível pensar-se na história de quase todos os objetos culturais imagináveis, desde uma história da barba e dos pelos corporais, passando pelos cafés, pela masturbação, e foi escrita até mesmo uma história das notas de rodapé. Se, de um lado, essa nova história tornou-se quase pop, no sentido de produzir livros de acesso fácil a um público não-especializado, de outro é efetivamente o produto de uma série de micro-lutas que tiveram lugar na segunda metade do século passado, depois das quais não foi mais possível pensar a História como antes.

Nesse contexto, um dos objetos privilegiados no entendimento do passado é a leitura, processo cuja transformação derivada da invenção da imprensa está no cerne mesmo da Era Moderna. A produção do livro impresso e sua recepção por diferentes estratos sociais transformaram radicalmente o mundo e a maneira de compreendê-lo, de forma que a história do livro e da leitura facilmente foi adotada como um dos principais objetos da disciplina histórica. E, dentre os diversos historiadores da leitura, o francês Roger Chartier é um dos principais. Em diversos livros publicados, procurou analisar o impacto que as novas formas de disseminação do texto escrito tiveram sobre a França, principalmente durante o ancien régime.

Mas o ofício do historiador não é o de refletir unicamente sobre o passado, apesar deste se constituir como o seu principal objeto de trabalho; a investigação sobre o passado (que, obviamente, não é a de reconstituí-lo “como de fato foi”) também se faz a partir de inquietações do presente. Como nos trabalhos históricos de Michel Foucault, voltar ao passado implica questioná-lo visando responder indagações do presente, o que Foucault, recuperando Nietzsche, chamava genealogia. Walter Benjamin, outro filósofo de formação, também questionava a interrogação desinteressada do passado; a intenção da investigação histórica era, para ele, recuperar as esperanças perdidas, enxergar nas fissuras do presente aquilo que o passado não pôde realizar. Os historiadores, dessa forma, num diálogo com estes pensadores que modificaram profundamente a maneira de se conceber a História, podem e devem investigar no passado as explicações do momento presente. É nesse sentido que Chartier, no posfácio à sua coletânea de ensaios chamada A Ordem dos Livros, recupera alguns momentos da história do livro (ou, mais propriamente, do registro escrito do texto) para pensar o momento atual, em que se decreta prontamente a morte do livro (ou do registro impresso em papel) tal como o conhecemos.

Chartier começa seu texto com uma breve análise sobre a situação presente, a chamada “transformação radical nas modalidades de produção, de transmissão e de recepção do escrito” (p. 95), em que o livro se torna puramente eletrônico, acessível ao leitor por meio do suporte de uma tela de computador. Seu ponto de vista é o de um historiador da cultura escrita, que estuda os textos, seus suportes de transmissão e disseminação, e também suas leituras, usos e interpretações. Entendendo que, apesar das transformações tecnológicas (tal como a revolução da imprensa), o formato livro se impôs com poucas modificações há já 17 ou 18 séculos, a questão é: “como situar, na longa história do livro, da leitura e de suas relações com o escrito, a revolução anunciada – e de fato já iniciada - que faz a passagem do livro (ou do objeto escrito) tal como o conhecemos, com seus cadernos, suas folhas, suas páginas, para o texto eletrônico e a leitura na tela?” (p. 96).

Chartier identifica, nessa longa história da leitura, três registros de mutações. A primeira é a revolução técnica do século XV, quando se modificam a forma de reprodução dos textos e a produção do livro, com a invenção dos caracteres móveis (a imprensa). O livro, esse “ objeto composto por folhas dobradas, reunidas em cadernos colados uns aos outros”, entretanto, permaneceu o mesmo. Nesse sentido, a revolução do nosso presente é mais importante, pois intenta abolir o próprio formato livro, ou seja, não somente a “técnica de reprodução do texto, mas também as estruturas e as próprias formas do suporte que o comunica aos seus leitores (...) Com a tela, substituta do códex, a transformação é mais radical, pois são os modos de organização, de estruturação, de consulta ao suporte do escrito que se modificaram” (p. 97-98).

A segunda revolução é no estilo da leitura, processo que tem lugar especialmente na segunda metade do século XVIII. A longa Idade Média já havia assistido à passagem de uma leitura essencialmente oralizada para uma leitura silenciosa e visual. Nesta revolução, o que se transforma é a leitura intensiva (“poucos textos, corpus limitado e fechado, lidos e relidos, memorizados e recitados, transmitidos entre gerações”, como a Bíblia) em extensiva. No XVIII, multiplicam-se as sociedades de leitura e as bibliotecas circulantes. A produção do livro se multiplica, o preço é reduzido, os jornais se transformam. O leitor passa cada vez mais a consumir impressos numerosos e diversos, devido a essas facilidades na produção e circulação dos livros.

A terceira revolução é a do presente em que vivemos. Para Chartier, “a revolução do texto eletrônico será ela também uma revolução da leitura. (...) Ela substitui a materialidade do livro pela imaterialidade de textos sem lugar específico; às relações de contiguidade estabelecidas no objeto impresso ela opõe a livre composição de fragmentos indefinidamente manipuláveis; à captura imediata da totalidade da obra, tornada visível pelo objeto que a contém, ela faz suceder a navegação de longo curso entre arquipélagos textuais sem margens nem limites” (p. 100-101). O que se encontra em curso é a criação de novas maneiras de ler, novas relações com a escrita, novas técnicas intelectuais. Essa revolução é, “antes de tudo, uma revolução dos suportes e formas que transmitem o escrito. Nisso ela tem um único precedente no mundo ocidental: a substituição do volumen pelo códex – do livro em forma de rolo pelo livro composto por cadernos reunidos -, nos primeiros séculos da era cristã” (p. 101).

A adoção do códex, que se deu primeiro entre as comunidades cristãs, modificou radicalmente a relação do leitor com o material da leitura, e consequentemente a sua própria maneira de ler, uma vez que o códex permite ler e escrever ao mesmo tempo (o que não era possível pelo escrito em rolo, que deveria ser segurado com as duas mãos, para ser desenrolado e lido). Compreender, portanto, a revolução que assistimos hoje exige inscrevê-la numa história de longa duração.

O texto eletrônico permitirá que dois limites sejam retirados. O primeiro é a possibilidade de intervenção do leitor no livro impresso (que só podia ser feito nos espaços virgens do livro): “se o leitor pretende (...) inscrever sua presença no objeto, ele só pode fazê-lo ocupando sub-repticiamente, clandestinamente os espaços do livro deixados de lado pelo escrito: a contracapa do encadernamento, folhas deixadas em branco, margens do texto, etc.” (p. 103). O texto eletrônico, de fato, torna o leitor também coautor, uma vez que permite intervenção direta sobre o material escrito, sendo possível indexação, cópia, desmembramento, recomposição, deslocamento... “A distinção, claramente visível no livro impresso, entre a escrita e a leitura, entre o autor do texto e o leitor do livro, apaga-se em benefício de uma outra realidade: aquela em que o leitor torna-se um dos autores de uma escrita de várias vozes ou, pelo menos, encontra-se em posição de constituir um texto novo a partir de fragmentos recortados e reunidos” (p. 103). Com isso, a noção de copyright imediatamente se torna problemática (e o principal problema disso, do ponto de vista comercial, é obviamente a repartição dos dividendos. Quanto do lucro caberia a cada um? Como determinar essa divisão? De resto, já faz uns bons anos que Foucault questionava a noção de autor na circulação dos discursos. Para ele, o autor é uma função).

O segundo limite retirado é que o texto eletrônico permitirá finalmente realizar um sonho ocidental eterno: uma biblioteca universal que supera o limite imposto inextricavelmente ao desenvolvimento de qualquer coleção que, por maior que seja, não é nada mais que apenas um “fragmento ínfimo do saber universal”. “A comunicação de textos à distância, anulando a distinção, até então irremediável, entre o lugar do texto e o lugar do leitor, torna pensável, acessível, esse antigo sonho. (...) A disponibilidade universal do patrimônio escrito se torna possível” (p. 104).

Percebe-se que o objetivo de Chartier, ao retraçar alguns momentos importantes na história ocidental da leitura, é inscrever as transformações que o presente experimenta em uma longa duração. A revolução em curso não é a primeira, e provavelmente não será a última; para entender o seu processo em curso, é preciso recuperar essa longa história. Entretanto, o objetivo maior do autor é mostrar a necessidade de preservação dessa história. Considerando que “a significação, ou melhor, as significações, histórica e socialmente diferenciadas de um texto, qualquer que ele seja, não podem separar-se das modalidades materiais que o dão a ler aos seus leitores” (p.105), conclui que “a possível transferência do patrimônio escrito de um suporte ao outro, do códex para a tela, inaugura imensas possibilidades, mas será também uma violência contra os textos, assim separados de formas que contribuíram para construir as suas significações históricas” (p. 106). O risco dessa revolução é a perda da “inteligibilidade de uma cultura textual assentada sobre um elo entre o conceito de texto e uma forma particular de livro”. Uma vez que o livro é parte fundamental da cultura ocidental, tal como se desenvolveu ao longo dos séculos, e que o processo da leitura encontra-se intimamente ligado ao seu formato físico, é preciso preservar esse nexo, para que o futuro, que ainda não conhecemos, possa entender como a sociedade ocidental funcionou durante quase 2 mil anos. A possibilidade de entendimento do nosso presente, e também do nosso passado, é que deve ser mantida.

Chartier enfatiza então o papel da biblioteca do futuro, e a impossibilidade da substituição total dos livros que conhecemos pelos textos eletrônicos (o que, infelizmente, muitas bibliotecas hoje já estão fazendo). “A biblioteca do futuro deverá ser, também, o lugar onde poderão ser mantidos o conhecimento e a compreensão da cultura escrita nas formas que foram, e que ainda hoje são, majoritariamente as suas. A representação eletrônica de todos os textos cuja existência não começa com a informática não deve, em absoluto, significar o abandono, o esquecimento, ou pior, a destruição de objetos que foram os seus suportes. Mais do que nunca, talvez, uma das tarefas essenciais das grandes bibliotecas é a de coletar, proteger, recensear (...) e, também, tornar acessível a ordem dos livros que ainda é a nossa, e que foi a de homens e mulheres que leem desde os primeiros séculos da era cristã. Apenas preservando a inteligência da cultura do códex poderemos gozar a ‘felicidade extravagante’ prometida pela tela” (p. 107).

A história futura da leitura depende, assim, da preservação dos próprios livros. O seu fim pode significar o fim da própria possibilidade de escrever a História.

CHARTIER, Roger. Do códex à tela: as trajetórias do escrito. In: A Ordem dos Livros. Brasília, Ed. da UnB, 1999. p. 95-111.

domingo, 25 de julho de 2010

Quando a vida é uma ordem

Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
(Carlos Drummond de Andrade, "Os ombros suportam o mundo")

Hoje, não sei bem por quê, lembrei de um site super bonito, que fazia tempo que não visitava: chama-se Days with my father, e apresenta fotos feitas por Phillip Toledano durante os três anos em que conviveu com seu pai - que sofria de Alzheimer - antes que este morresse. São fotos lindas, delicadas, pungentes. Sobretudo, são fotos profundamente amorosas.

Ao me lembrar desse site, lembrei-me também de algumas reportagens publicadas pela Revista Época, há quase dois anos, sobre a unidade de Cuidados Paliativos do Hospital do Servidor: A enfermaria entre a vida e a morte e A mulher que alimentava. As reportagens, de Eliane Brum, são lindamente  ilustradas por fotos de Marcelo Min (que, talvez não por acaso, também tem feito fotos lindas de partos).

A ideia de Cuidados Paliativos representa um limite ao imperativo da "vida" ao qual a medicina, com a ajuda de conhecimentos e tecnologias cada vez mais avançadas, foi progressivamente aderindo. A lógica parece simples: se há recursos, o importante é utilizá-los, garantir a boa consciência da medicina e dos que ficam, em detrimento do cuidado com aquele que está de partida.

Acho muito significativo o quanto essa lógica se torna clara - porque tensionada pelas contradições e ambiguidades da situação - nos momentos de nascer e de morrer. Em relação àquilo que não é doença, àquilo que é propriamente fisiológico, a medicina só com esforço consegue exercer seu papel de cuidado - no sentido delicado do termo, daquele ou daquela que ampara, apóia, suporta, intervindo somente quando necessário.

Na ala de cuidados paliativos, o importante é garantir a vida, mas não a qualquer custo, porque não se trata de qualquer vida. A vida que se tenta preservar não é a do sinal elétrico do coração ou do cérebro, mas a vida da consciência e do conforto.

Recentemente, a revista Época voltou a tratar do tema, mas olhando para uma experiência ainda mais "subversiva" em relação aos modelos de medicina que a gente têm: em O filho possível, acompanharam o cotidiano de uma unidade de cuidados paliativos numa UTI neonatal. A reportagem é de chorar - de dor, mas também de esperança, porque no fundo a gente sabe que, num hospital "normal", não se daria chance ao luto, o que significa (paradoxalmente) que não se daria chance à vida*.
Se, nesses nossos tempos, tomar a decisão de interromper - isto é, de dar um basta à tecnologia, aos medicamentos, aos exames invasivos quando eles não têm mais eficácia (e, sim, existe um momento, uma fronteira a partir da qual sua eficácia cessa) - quando se trata de adultos e idosos já é dura, parece especialmente mais difícil quando se trata de um bebê ou uma criança. Aceitar o fim de uma vida (mal ou bem) vivida parece mais justificável que aceitar o fim de uma vida que mal começa, que está por ser vivida, que, no momento inicial, é uma mistura dos sonhos e esperanças dos pais.

Se antigamente (e nem há tanto tempo assim), a morte de um recém nascido era fatalidade ou  vontade de Deus, a mesma invenção de técnicas e procedimentos que salva muitas vidas também parece impor àqueles que não têm chances de viver a sina de serem submetidos a técnicas e procedimentos para aplacar a dor dos que ficarão, para que saibam que fizeram "todo o possível". Mas saber que se fez o possível não é igual a viver o luto; tentar ir além dos limites da vida não significa cimentar o buraco que fica. Como já disse, quando a medicina se encontra com o imponderável da vida e da morte, ela mostra seus limites e suas contradições - mas pode recuperar parte de sua grandeza ao abraçar tais limites e contradições, ao ceder o protagonismo da técnica às escolhas do indivíduo que tem à sua frente, ao resistir à tentação das promessas e comunicar com clareza o que se passa.

Recusar a vida como ordem, para fazer caber nela também a dor - algo que nosso modelo de medicina  (e não só ele) se preocupa tanto em fazer parar. Mas assim como a vida e a morte são limites claros, pois que incontroláveis, há dores que não há como anestesiar - mas que, apesar disso, podem ser cuidadas.

* Em relação à importância do luto para que a vida seja possível, após ter realizado essa reportagem na UTI neonatal, a mesma Eliane Brum publicou um texto muitíssimo delicado, em suas crônicas: A mãe orfã.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

O Partido Comunista é o Espírito Santo

Em 2008, por ocasião do lançamento do livro A Visão em Paralaxe no Brasil, Slavoj Žižek fez uma palestra no SESC Vila Mariana, que eu tive oportunidade de assistir com a Ana Lúcia. Žižek começou sua apresentação por uma análise do filme Kung Fu Panda. De acordo com sua interpretação, o filme representa a ideologia em seu estado mais puro, na contemporaneidade: a crítica ao sistema é o instrumento para a perpetuação do próprio sistema. O simpático Panda dublado por Jack Black passa o filme inteiro fazendo piadas com o kung fu, desacreditando na profecia que o apontava como o escolhido, para ao final descobrir que sim, a profecia estava correta. A mensagem, de acordo com o autor, não poderia ser mais clara: "ainda que você saiba que não é verdade e faça piadas em cima disso, você deve agir como se acreditasse". A ideologia funciona, por mais que se possa criticá-la conceitualmente; sabe-se o que é ideológico, e ainda assim agimos sob o efeito da ideologia.

Žižek mostrou-se uma figura absolutamente fascinante, como já sabíamos pelos seus textos. Um sujeito barbudo, de cabelo mal arrumado, cheio de tiques (a sua exasperante mania de mexer no nariz com a mão aparece em todos os seus vídeos) e com um inglês de sotaque carregadíssimo, mas capaz de misturar a filosofia do mais alto nível de abstração (como eu tentei explicar a colegas meus, ele se propõe a juntar Hegel com Lacan para explicar Marx) com exemplos da cultura pop mais recente.

Neste vídeo, íntegra do programa Roda Viva, ele responde a perguntas de Maria Rita Kehl e Vladimir Safatle, dentre outros, sobre temas tão diversos como democracia, a opção pela continuidade do uso do termo "proletariado", e a necessidade de se manter a política como eixo interpretativo principal (Žižek se posiciona claramente contra o conceito de "tolerância" que, segundo ele, "culturaliza" os problemas, daí a necessidade de se recolocar a política como fator explicativo). Respondendo a Maria Rita Kehl, Žižek mostra que a sociedade atual não é, como gostariam alguns interprétes do 11 de stembro, pós-traumática, mas sim a sociedade do trauma permanente. Tudo isto para chegar à conclusão de que a teorização é cada vez mais importante. Talvez agora seja o momento de interpretar mais do que agir.

No auge da crise econômica americana e mundial, Žižek enfatiza o fato de que o capitalismo não é o horizonte último da história humana, e tenta apontar, sem contudo cair num anti-americanismo tolo, algumas das frestas pelas quais o capitalismo já se encontra fissurado (a propriedade intelectual é uma das mais importantes). Ou, como fala ao se despedir do entrevistador em outro vídeo, "See you. Either in hell or in communism". Se você for de direita, conclui Žižek, você pensaria "Mas é a mesma coisa!!!"

PS: A frase que dá título a este post encontra-se aos 38 minutos do vídeo.
O programa, exibido originalmente em 02/02/2009, também pode ser visto no site oficial do Roda Viva.

Adendo: Pedro me indicou um link com a transcrição completa da entrevista. Uma ótima iniciativa, promovida pela Fapesp: Memória Roda Viva.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Vale notar

Nesses tempos tão complicados, vale registrar um trecho, extraído do prefácio escrito por Paulo Sérgio Pinheiro ao livro de Barry Glasner, Cultura do Medo (São Paulo: Francis, 2003).

"Tão importante quanto o que se diz na mídia eletrônica são os silêncios, o que não se diz. O comportamento das classes populares, particularmente o dos contingentes de descendência africana, é esmiuçado; o comportamento das elites e das classes dominantes recebe um tratamento mais delicado, alcatifado. Registre-se que a imprensa brasileira menciona o título e a profissão mesmo do homicida, se diplomado, e mesmo de um escroque, se no governo. Todos continuam a ser tratados por "doutor". O criminoso extraído do populacho é "o elemento". Há um uso abundante de metáforas médicas e recorre-se com frequência a especialistas, às vozes competentes, para amortecer a crítica aos criminosos extraídos do establishment, das elites" (Paulo Sérgio Pinheiro, p.17)

Lembrei-me do meu espanto, ao ler os autos de um julgamento, em perceber que nem a idade e nem a profissão do acusado estavam registradas. Em lugar nenhum do processo, isto é, nem o advogado de defesa  apresentou a informação, nem que fosse para tentar alegar que o réu era "pobre, porém trabalhador"!  É como se o réu em julgamento estivesse numa espécie de "vazio social" - sem profissão, sem idade, sem cor... É apenas um "elemento"...

terça-feira, 13 de julho de 2010

É preciso queimar a psicanálise?

A França, como se sabe, sempre foi palco frequente de acaloradas polêmicas. Por lá, o debate de ideias não se restringe ao meio universitário, mas alcança também as primeiras páginas dos jornais, e até mesmo programas de entrevista com audiência bastante significativa. Uma das mais recentes polêmicas envolve o filósofo Michel Onfray, famoso pelo projeto de uma Contra-História da Filosofia, cujo objetivo era examinar, em seis volumes, "vinte e cinco séculos de filosofia esquecida". Não satisfeito em concluir tão ambiciosa empreitada (o volume 6 foi publicado em fevereiro de 2009), Onfray resolveu investir contra o pai fundador da psicanálise, ninguém menos do que o próprio Sigmund Freud.

Em um grosso volume de mais de 600 páginas, intitulado Le Crépuscule d'une Idole: l'affabulation freudienne (O Crepúsculo de um Ídolo, em clara referência a Nietzsche), Onfray tenta reconstituir passagens da vida de Freud, que teriam sido até então neglicenciadas, para provar que o pensador vienense era um "falsário", motivado pelo "dinheiro, a crueldade, a inveja e o ódio", chegando ao ponto de cobrar 450 euros por uma consulta psicanalítica (valor atualizado para os dias de hoje, cálculo que também se tornou objeto de controvérsia). E mais: afirma Freud era fascinado por Mussolini, e que a psicanálise tornou-se desde o princípio uma ciência racista, co-responsável pelo extermínio dos judeus no Holocausto.

A reação foi imediata. Elisabeth Roudinesco, umas das mais psicanalistas mais ativas da atualidade, publicou um manifesto bastante incisivo, criticando duramente o livro de Michel Onfray, quase chegando às vias da ofensa pessoal. O texto logo foi traduzido em português, sob o título Onfray e o fantasma anti-freudiano (o original em francês pode ser encontrado aqui: Porquoi tant de haine?).

A partir daí, criou-se uma polêmica interminável, com ataques frequentes de parte a parte e que, não duvido, catapultaram as vendas do livro. Em seu blog, Onfray publicou seguidos posts sobre Roudinesco, como este: Roudinesco sur Onfray. Em seguida, tentando responder às acusações de que não sabia interpretar os dados históricos, criando uma cronologia bastante confusa da vida de Freud, lançou na internet um pequeno texto, corrigindo algumas datas, mas mantendo o espírito de ataque a Freud: Freud, une chronologie sans légende. É claro que Roudinesco, que gastou boa parte deste ano refutando as teses de Onfray, novamente contradiz esta cronologia, apontando que diversos erros continuavam presentes: Onfray revisite son affabulation.

Uma das últimas peças desta polêmica foi publicada no jornal argentino Clarín, no dia 03 de julho: Onfray y la fantasía antifreudiana. Neste texto, Roudinesco faz um pequeno resumo do livro e de sua possível refutação. Ao que parece, esta discussão ainda terá muitos desdobramentos...

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Weber e o sentido da vida

"(...) a vida individual do civilizado está imersa no 'progresso' e no infinito e, segundo seu sentido imanente, essa vida não deveria ter fim. Com efeito, há sempre possibilidade de novo progresso para aquele que vive no progresso; nenhum dos que morrem chega jamais a atingir o pico, pois que o pico se põe no infinito. Abrão ou os camponeses de outrora morreram 'velhos e plenos de vida', pois que estavam instalados no ciclo orgânico da vida, porque esta lhes havia ofertado, ao fim de seus dias, todo o sentido que podia proporcionar-lhes e porque não subsistia enigma que eles ainda teriam desejado resolver. Podiam, portanto, considerar-se satisfeitos com a vida. O homem civilizado, ao contrário, colocado em meio ao caminhar de uma civilização que se enriquece continuamente de pensamentos, de experiências e de problemas, pode sentir-se 'cansado' da vida, mas não 'pleno' dela. Com efeito, ele não pode jamais apossar-se senão de uma parte ínfima do que a vida do espírito incessamente produz, ele não pode captar senão o provisório e nunca o definitivo. Por esse motivo, a morte é, a seus olhos, um acontecimento que não tem sentido. E porque a morte não tem sentido, a vida do civilizado também não o tem, pois a 'progressividade' despojada de significação faz da vida um acontecimento igualmente sem significação".

WEBER, Max. A Ciência como Vocação. In: Ciência e Política: Duas Vocações. São Paulo, Cultrix, 1993. p. 31.