terça-feira, 13 de julho de 2010

É preciso queimar a psicanálise?

A França, como se sabe, sempre foi palco frequente de acaloradas polêmicas. Por lá, o debate de ideias não se restringe ao meio universitário, mas alcança também as primeiras páginas dos jornais, e até mesmo programas de entrevista com audiência bastante significativa. Uma das mais recentes polêmicas envolve o filósofo Michel Onfray, famoso pelo projeto de uma Contra-História da Filosofia, cujo objetivo era examinar, em seis volumes, "vinte e cinco séculos de filosofia esquecida". Não satisfeito em concluir tão ambiciosa empreitada (o volume 6 foi publicado em fevereiro de 2009), Onfray resolveu investir contra o pai fundador da psicanálise, ninguém menos do que o próprio Sigmund Freud.

Em um grosso volume de mais de 600 páginas, intitulado Le Crépuscule d'une Idole: l'affabulation freudienne (O Crepúsculo de um Ídolo, em clara referência a Nietzsche), Onfray tenta reconstituir passagens da vida de Freud, que teriam sido até então neglicenciadas, para provar que o pensador vienense era um "falsário", motivado pelo "dinheiro, a crueldade, a inveja e o ódio", chegando ao ponto de cobrar 450 euros por uma consulta psicanalítica (valor atualizado para os dias de hoje, cálculo que também se tornou objeto de controvérsia). E mais: afirma Freud era fascinado por Mussolini, e que a psicanálise tornou-se desde o princípio uma ciência racista, co-responsável pelo extermínio dos judeus no Holocausto.

A reação foi imediata. Elisabeth Roudinesco, umas das mais psicanalistas mais ativas da atualidade, publicou um manifesto bastante incisivo, criticando duramente o livro de Michel Onfray, quase chegando às vias da ofensa pessoal. O texto logo foi traduzido em português, sob o título Onfray e o fantasma anti-freudiano (o original em francês pode ser encontrado aqui: Porquoi tant de haine?).

A partir daí, criou-se uma polêmica interminável, com ataques frequentes de parte a parte e que, não duvido, catapultaram as vendas do livro. Em seu blog, Onfray publicou seguidos posts sobre Roudinesco, como este: Roudinesco sur Onfray. Em seguida, tentando responder às acusações de que não sabia interpretar os dados históricos, criando uma cronologia bastante confusa da vida de Freud, lançou na internet um pequeno texto, corrigindo algumas datas, mas mantendo o espírito de ataque a Freud: Freud, une chronologie sans légende. É claro que Roudinesco, que gastou boa parte deste ano refutando as teses de Onfray, novamente contradiz esta cronologia, apontando que diversos erros continuavam presentes: Onfray revisite son affabulation.

Uma das últimas peças desta polêmica foi publicada no jornal argentino Clarín, no dia 03 de julho: Onfray y la fantasía antifreudiana. Neste texto, Roudinesco faz um pequeno resumo do livro e de sua possível refutação. Ao que parece, esta discussão ainda terá muitos desdobramentos...

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