sexta-feira, 16 de julho de 2010

O Partido Comunista é o Espírito Santo

Em 2008, por ocasião do lançamento do livro A Visão em Paralaxe no Brasil, Slavoj Žižek fez uma palestra no SESC Vila Mariana, que eu tive oportunidade de assistir com a Ana Lúcia. Žižek começou sua apresentação por uma análise do filme Kung Fu Panda. De acordo com sua interpretação, o filme representa a ideologia em seu estado mais puro, na contemporaneidade: a crítica ao sistema é o instrumento para a perpetuação do próprio sistema. O simpático Panda dublado por Jack Black passa o filme inteiro fazendo piadas com o kung fu, desacreditando na profecia que o apontava como o escolhido, para ao final descobrir que sim, a profecia estava correta. A mensagem, de acordo com o autor, não poderia ser mais clara: "ainda que você saiba que não é verdade e faça piadas em cima disso, você deve agir como se acreditasse". A ideologia funciona, por mais que se possa criticá-la conceitualmente; sabe-se o que é ideológico, e ainda assim agimos sob o efeito da ideologia.

Žižek mostrou-se uma figura absolutamente fascinante, como já sabíamos pelos seus textos. Um sujeito barbudo, de cabelo mal arrumado, cheio de tiques (a sua exasperante mania de mexer no nariz com a mão aparece em todos os seus vídeos) e com um inglês de sotaque carregadíssimo, mas capaz de misturar a filosofia do mais alto nível de abstração (como eu tentei explicar a colegas meus, ele se propõe a juntar Hegel com Lacan para explicar Marx) com exemplos da cultura pop mais recente.

Neste vídeo, íntegra do programa Roda Viva, ele responde a perguntas de Maria Rita Kehl e Vladimir Safatle, dentre outros, sobre temas tão diversos como democracia, a opção pela continuidade do uso do termo "proletariado", e a necessidade de se manter a política como eixo interpretativo principal (Žižek se posiciona claramente contra o conceito de "tolerância" que, segundo ele, "culturaliza" os problemas, daí a necessidade de se recolocar a política como fator explicativo). Respondendo a Maria Rita Kehl, Žižek mostra que a sociedade atual não é, como gostariam alguns interprétes do 11 de stembro, pós-traumática, mas sim a sociedade do trauma permanente. Tudo isto para chegar à conclusão de que a teorização é cada vez mais importante. Talvez agora seja o momento de interpretar mais do que agir.

No auge da crise econômica americana e mundial, Žižek enfatiza o fato de que o capitalismo não é o horizonte último da história humana, e tenta apontar, sem contudo cair num anti-americanismo tolo, algumas das frestas pelas quais o capitalismo já se encontra fissurado (a propriedade intelectual é uma das mais importantes). Ou, como fala ao se despedir do entrevistador em outro vídeo, "See you. Either in hell or in communism". Se você for de direita, conclui Žižek, você pensaria "Mas é a mesma coisa!!!"

PS: A frase que dá título a este post encontra-se aos 38 minutos do vídeo.
O programa, exibido originalmente em 02/02/2009, também pode ser visto no site oficial do Roda Viva.

Adendo: Pedro me indicou um link com a transcrição completa da entrevista. Uma ótima iniciativa, promovida pela Fapesp: Memória Roda Viva.

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