quinta-feira, 29 de julho de 2010

Para uma história futura da leitura

A História como disciplina acadêmica sofreu grandes transformações desde o início do século XX, principalmente devido ao desenvolvimento das ciências sociais (especialmente a sociologia e a antropologia) que, num diálogo bastante frutífero, modificou em profundidade o fazer histórico. De fato, a História preocupada com os grandes acontecimentos, com as narrativas épicas e com o fetiche das datas comemorativas cedeu lugar a diversas outras formas de pensar, entender e descrever o passado, agora voltadas aos pequenos homens (e mulheres), a processos mentais, a representações coletivas e práticas sociais (termos em muito devedores da sociologia de Durkheim). Novos objetos foram introduzidos na disciplina histórica, que deixou de ser apenas econômica e social para se tornar também cultural. A chamada nova história cultural, que ganhou pleno desenvolvimento especialmente a partir dos anos 1970, com a entrada em cena de novos atores e pensadores pós-1968, tornou-se praticamente a corrente hegemônica da disciplina acadêmica. A partir daí, foi possível pensar-se na história de quase todos os objetos culturais imagináveis, desde uma história da barba e dos pelos corporais, passando pelos cafés, pela masturbação, e foi escrita até mesmo uma história das notas de rodapé. Se, de um lado, essa nova história tornou-se quase pop, no sentido de produzir livros de acesso fácil a um público não-especializado, de outro é efetivamente o produto de uma série de micro-lutas que tiveram lugar na segunda metade do século passado, depois das quais não foi mais possível pensar a História como antes.

Nesse contexto, um dos objetos privilegiados no entendimento do passado é a leitura, processo cuja transformação derivada da invenção da imprensa está no cerne mesmo da Era Moderna. A produção do livro impresso e sua recepção por diferentes estratos sociais transformaram radicalmente o mundo e a maneira de compreendê-lo, de forma que a história do livro e da leitura facilmente foi adotada como um dos principais objetos da disciplina histórica. E, dentre os diversos historiadores da leitura, o francês Roger Chartier é um dos principais. Em diversos livros publicados, procurou analisar o impacto que as novas formas de disseminação do texto escrito tiveram sobre a França, principalmente durante o ancien régime.

Mas o ofício do historiador não é o de refletir unicamente sobre o passado, apesar deste se constituir como o seu principal objeto de trabalho; a investigação sobre o passado (que, obviamente, não é a de reconstituí-lo “como de fato foi”) também se faz a partir de inquietações do presente. Como nos trabalhos históricos de Michel Foucault, voltar ao passado implica questioná-lo visando responder indagações do presente, o que Foucault, recuperando Nietzsche, chamava genealogia. Walter Benjamin, outro filósofo de formação, também questionava a interrogação desinteressada do passado; a intenção da investigação histórica era, para ele, recuperar as esperanças perdidas, enxergar nas fissuras do presente aquilo que o passado não pôde realizar. Os historiadores, dessa forma, num diálogo com estes pensadores que modificaram profundamente a maneira de se conceber a História, podem e devem investigar no passado as explicações do momento presente. É nesse sentido que Chartier, no posfácio à sua coletânea de ensaios chamada A Ordem dos Livros, recupera alguns momentos da história do livro (ou, mais propriamente, do registro escrito do texto) para pensar o momento atual, em que se decreta prontamente a morte do livro (ou do registro impresso em papel) tal como o conhecemos.

Chartier começa seu texto com uma breve análise sobre a situação presente, a chamada “transformação radical nas modalidades de produção, de transmissão e de recepção do escrito” (p. 95), em que o livro se torna puramente eletrônico, acessível ao leitor por meio do suporte de uma tela de computador. Seu ponto de vista é o de um historiador da cultura escrita, que estuda os textos, seus suportes de transmissão e disseminação, e também suas leituras, usos e interpretações. Entendendo que, apesar das transformações tecnológicas (tal como a revolução da imprensa), o formato livro se impôs com poucas modificações há já 17 ou 18 séculos, a questão é: “como situar, na longa história do livro, da leitura e de suas relações com o escrito, a revolução anunciada – e de fato já iniciada - que faz a passagem do livro (ou do objeto escrito) tal como o conhecemos, com seus cadernos, suas folhas, suas páginas, para o texto eletrônico e a leitura na tela?” (p. 96).

Chartier identifica, nessa longa história da leitura, três registros de mutações. A primeira é a revolução técnica do século XV, quando se modificam a forma de reprodução dos textos e a produção do livro, com a invenção dos caracteres móveis (a imprensa). O livro, esse “ objeto composto por folhas dobradas, reunidas em cadernos colados uns aos outros”, entretanto, permaneceu o mesmo. Nesse sentido, a revolução do nosso presente é mais importante, pois intenta abolir o próprio formato livro, ou seja, não somente a “técnica de reprodução do texto, mas também as estruturas e as próprias formas do suporte que o comunica aos seus leitores (...) Com a tela, substituta do códex, a transformação é mais radical, pois são os modos de organização, de estruturação, de consulta ao suporte do escrito que se modificaram” (p. 97-98).

A segunda revolução é no estilo da leitura, processo que tem lugar especialmente na segunda metade do século XVIII. A longa Idade Média já havia assistido à passagem de uma leitura essencialmente oralizada para uma leitura silenciosa e visual. Nesta revolução, o que se transforma é a leitura intensiva (“poucos textos, corpus limitado e fechado, lidos e relidos, memorizados e recitados, transmitidos entre gerações”, como a Bíblia) em extensiva. No XVIII, multiplicam-se as sociedades de leitura e as bibliotecas circulantes. A produção do livro se multiplica, o preço é reduzido, os jornais se transformam. O leitor passa cada vez mais a consumir impressos numerosos e diversos, devido a essas facilidades na produção e circulação dos livros.

A terceira revolução é a do presente em que vivemos. Para Chartier, “a revolução do texto eletrônico será ela também uma revolução da leitura. (...) Ela substitui a materialidade do livro pela imaterialidade de textos sem lugar específico; às relações de contiguidade estabelecidas no objeto impresso ela opõe a livre composição de fragmentos indefinidamente manipuláveis; à captura imediata da totalidade da obra, tornada visível pelo objeto que a contém, ela faz suceder a navegação de longo curso entre arquipélagos textuais sem margens nem limites” (p. 100-101). O que se encontra em curso é a criação de novas maneiras de ler, novas relações com a escrita, novas técnicas intelectuais. Essa revolução é, “antes de tudo, uma revolução dos suportes e formas que transmitem o escrito. Nisso ela tem um único precedente no mundo ocidental: a substituição do volumen pelo códex – do livro em forma de rolo pelo livro composto por cadernos reunidos -, nos primeiros séculos da era cristã” (p. 101).

A adoção do códex, que se deu primeiro entre as comunidades cristãs, modificou radicalmente a relação do leitor com o material da leitura, e consequentemente a sua própria maneira de ler, uma vez que o códex permite ler e escrever ao mesmo tempo (o que não era possível pelo escrito em rolo, que deveria ser segurado com as duas mãos, para ser desenrolado e lido). Compreender, portanto, a revolução que assistimos hoje exige inscrevê-la numa história de longa duração.

O texto eletrônico permitirá que dois limites sejam retirados. O primeiro é a possibilidade de intervenção do leitor no livro impresso (que só podia ser feito nos espaços virgens do livro): “se o leitor pretende (...) inscrever sua presença no objeto, ele só pode fazê-lo ocupando sub-repticiamente, clandestinamente os espaços do livro deixados de lado pelo escrito: a contracapa do encadernamento, folhas deixadas em branco, margens do texto, etc.” (p. 103). O texto eletrônico, de fato, torna o leitor também coautor, uma vez que permite intervenção direta sobre o material escrito, sendo possível indexação, cópia, desmembramento, recomposição, deslocamento... “A distinção, claramente visível no livro impresso, entre a escrita e a leitura, entre o autor do texto e o leitor do livro, apaga-se em benefício de uma outra realidade: aquela em que o leitor torna-se um dos autores de uma escrita de várias vozes ou, pelo menos, encontra-se em posição de constituir um texto novo a partir de fragmentos recortados e reunidos” (p. 103). Com isso, a noção de copyright imediatamente se torna problemática (e o principal problema disso, do ponto de vista comercial, é obviamente a repartição dos dividendos. Quanto do lucro caberia a cada um? Como determinar essa divisão? De resto, já faz uns bons anos que Foucault questionava a noção de autor na circulação dos discursos. Para ele, o autor é uma função).

O segundo limite retirado é que o texto eletrônico permitirá finalmente realizar um sonho ocidental eterno: uma biblioteca universal que supera o limite imposto inextricavelmente ao desenvolvimento de qualquer coleção que, por maior que seja, não é nada mais que apenas um “fragmento ínfimo do saber universal”. “A comunicação de textos à distância, anulando a distinção, até então irremediável, entre o lugar do texto e o lugar do leitor, torna pensável, acessível, esse antigo sonho. (...) A disponibilidade universal do patrimônio escrito se torna possível” (p. 104).

Percebe-se que o objetivo de Chartier, ao retraçar alguns momentos importantes na história ocidental da leitura, é inscrever as transformações que o presente experimenta em uma longa duração. A revolução em curso não é a primeira, e provavelmente não será a última; para entender o seu processo em curso, é preciso recuperar essa longa história. Entretanto, o objetivo maior do autor é mostrar a necessidade de preservação dessa história. Considerando que “a significação, ou melhor, as significações, histórica e socialmente diferenciadas de um texto, qualquer que ele seja, não podem separar-se das modalidades materiais que o dão a ler aos seus leitores” (p.105), conclui que “a possível transferência do patrimônio escrito de um suporte ao outro, do códex para a tela, inaugura imensas possibilidades, mas será também uma violência contra os textos, assim separados de formas que contribuíram para construir as suas significações históricas” (p. 106). O risco dessa revolução é a perda da “inteligibilidade de uma cultura textual assentada sobre um elo entre o conceito de texto e uma forma particular de livro”. Uma vez que o livro é parte fundamental da cultura ocidental, tal como se desenvolveu ao longo dos séculos, e que o processo da leitura encontra-se intimamente ligado ao seu formato físico, é preciso preservar esse nexo, para que o futuro, que ainda não conhecemos, possa entender como a sociedade ocidental funcionou durante quase 2 mil anos. A possibilidade de entendimento do nosso presente, e também do nosso passado, é que deve ser mantida.

Chartier enfatiza então o papel da biblioteca do futuro, e a impossibilidade da substituição total dos livros que conhecemos pelos textos eletrônicos (o que, infelizmente, muitas bibliotecas hoje já estão fazendo). “A biblioteca do futuro deverá ser, também, o lugar onde poderão ser mantidos o conhecimento e a compreensão da cultura escrita nas formas que foram, e que ainda hoje são, majoritariamente as suas. A representação eletrônica de todos os textos cuja existência não começa com a informática não deve, em absoluto, significar o abandono, o esquecimento, ou pior, a destruição de objetos que foram os seus suportes. Mais do que nunca, talvez, uma das tarefas essenciais das grandes bibliotecas é a de coletar, proteger, recensear (...) e, também, tornar acessível a ordem dos livros que ainda é a nossa, e que foi a de homens e mulheres que leem desde os primeiros séculos da era cristã. Apenas preservando a inteligência da cultura do códex poderemos gozar a ‘felicidade extravagante’ prometida pela tela” (p. 107).

A história futura da leitura depende, assim, da preservação dos próprios livros. O seu fim pode significar o fim da própria possibilidade de escrever a História.

CHARTIER, Roger. Do códex à tela: as trajetórias do escrito. In: A Ordem dos Livros. Brasília, Ed. da UnB, 1999. p. 95-111.

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