domingo, 25 de julho de 2010

Quando a vida é uma ordem

Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
(Carlos Drummond de Andrade, "Os ombros suportam o mundo")

Hoje, não sei bem por quê, lembrei de um site super bonito, que fazia tempo que não visitava: chama-se Days with my father, e apresenta fotos feitas por Phillip Toledano durante os três anos em que conviveu com seu pai - que sofria de Alzheimer - antes que este morresse. São fotos lindas, delicadas, pungentes. Sobretudo, são fotos profundamente amorosas.

Ao me lembrar desse site, lembrei-me também de algumas reportagens publicadas pela Revista Época, há quase dois anos, sobre a unidade de Cuidados Paliativos do Hospital do Servidor: A enfermaria entre a vida e a morte e A mulher que alimentava. As reportagens, de Eliane Brum, são lindamente  ilustradas por fotos de Marcelo Min (que, talvez não por acaso, também tem feito fotos lindas de partos).

A ideia de Cuidados Paliativos representa um limite ao imperativo da "vida" ao qual a medicina, com a ajuda de conhecimentos e tecnologias cada vez mais avançadas, foi progressivamente aderindo. A lógica parece simples: se há recursos, o importante é utilizá-los, garantir a boa consciência da medicina e dos que ficam, em detrimento do cuidado com aquele que está de partida.

Acho muito significativo o quanto essa lógica se torna clara - porque tensionada pelas contradições e ambiguidades da situação - nos momentos de nascer e de morrer. Em relação àquilo que não é doença, àquilo que é propriamente fisiológico, a medicina só com esforço consegue exercer seu papel de cuidado - no sentido delicado do termo, daquele ou daquela que ampara, apóia, suporta, intervindo somente quando necessário.

Na ala de cuidados paliativos, o importante é garantir a vida, mas não a qualquer custo, porque não se trata de qualquer vida. A vida que se tenta preservar não é a do sinal elétrico do coração ou do cérebro, mas a vida da consciência e do conforto.

Recentemente, a revista Época voltou a tratar do tema, mas olhando para uma experiência ainda mais "subversiva" em relação aos modelos de medicina que a gente têm: em O filho possível, acompanharam o cotidiano de uma unidade de cuidados paliativos numa UTI neonatal. A reportagem é de chorar - de dor, mas também de esperança, porque no fundo a gente sabe que, num hospital "normal", não se daria chance ao luto, o que significa (paradoxalmente) que não se daria chance à vida*.
Se, nesses nossos tempos, tomar a decisão de interromper - isto é, de dar um basta à tecnologia, aos medicamentos, aos exames invasivos quando eles não têm mais eficácia (e, sim, existe um momento, uma fronteira a partir da qual sua eficácia cessa) - quando se trata de adultos e idosos já é dura, parece especialmente mais difícil quando se trata de um bebê ou uma criança. Aceitar o fim de uma vida (mal ou bem) vivida parece mais justificável que aceitar o fim de uma vida que mal começa, que está por ser vivida, que, no momento inicial, é uma mistura dos sonhos e esperanças dos pais.

Se antigamente (e nem há tanto tempo assim), a morte de um recém nascido era fatalidade ou  vontade de Deus, a mesma invenção de técnicas e procedimentos que salva muitas vidas também parece impor àqueles que não têm chances de viver a sina de serem submetidos a técnicas e procedimentos para aplacar a dor dos que ficarão, para que saibam que fizeram "todo o possível". Mas saber que se fez o possível não é igual a viver o luto; tentar ir além dos limites da vida não significa cimentar o buraco que fica. Como já disse, quando a medicina se encontra com o imponderável da vida e da morte, ela mostra seus limites e suas contradições - mas pode recuperar parte de sua grandeza ao abraçar tais limites e contradições, ao ceder o protagonismo da técnica às escolhas do indivíduo que tem à sua frente, ao resistir à tentação das promessas e comunicar com clareza o que se passa.

Recusar a vida como ordem, para fazer caber nela também a dor - algo que nosso modelo de medicina  (e não só ele) se preocupa tanto em fazer parar. Mas assim como a vida e a morte são limites claros, pois que incontroláveis, há dores que não há como anestesiar - mas que, apesar disso, podem ser cuidadas.

* Em relação à importância do luto para que a vida seja possível, após ter realizado essa reportagem na UTI neonatal, a mesma Eliane Brum publicou um texto muitíssimo delicado, em suas crônicas: A mãe orfã.

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