quarta-feira, 14 de julho de 2010

Vale notar

Nesses tempos tão complicados, vale registrar um trecho, extraído do prefácio escrito por Paulo Sérgio Pinheiro ao livro de Barry Glasner, Cultura do Medo (São Paulo: Francis, 2003).

"Tão importante quanto o que se diz na mídia eletrônica são os silêncios, o que não se diz. O comportamento das classes populares, particularmente o dos contingentes de descendência africana, é esmiuçado; o comportamento das elites e das classes dominantes recebe um tratamento mais delicado, alcatifado. Registre-se que a imprensa brasileira menciona o título e a profissão mesmo do homicida, se diplomado, e mesmo de um escroque, se no governo. Todos continuam a ser tratados por "doutor". O criminoso extraído do populacho é "o elemento". Há um uso abundante de metáforas médicas e recorre-se com frequência a especialistas, às vozes competentes, para amortecer a crítica aos criminosos extraídos do establishment, das elites" (Paulo Sérgio Pinheiro, p.17)

Lembrei-me do meu espanto, ao ler os autos de um julgamento, em perceber que nem a idade e nem a profissão do acusado estavam registradas. Em lugar nenhum do processo, isto é, nem o advogado de defesa  apresentou a informação, nem que fosse para tentar alegar que o réu era "pobre, porém trabalhador"!  É como se o réu em julgamento estivesse numa espécie de "vazio social" - sem profissão, sem idade, sem cor... É apenas um "elemento"...

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