segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Livros, e-livros, o Livro de Eli

O Livro de Eli (2010)
Alerta de spoiler! O ministério da saúde adverte: fumar faz mal à saúde!
Estava na videolocadora, e entre duas histórias pós-apocalítipcas: a Estrada (2010) e esse O Livro de Eli. No unidunitê escolhi o Denzel, deixando o 'Aragorn' para outro dia. Talvez eu devesse ter feito um micro ciclo do pós fim do mundo e levado os dois (era dia de promoção), mas quem aguenta?

Só que pela quantidade de filmes, livros, quadrinhos, games e companhia com fantasias sobre o fim do mundo e pós fim do mundo parece que não só 'a gente' aguenta, como quer mais. Em algum momento, acho que nos anos Reagan, o cinema começou a fantasiar que depois de uma guerra termonuclear poderia haver sobreviventes (parece que sim, mas só se a tal guerra fosse em escala bem, mas bem limitada mesmo, o que quer dizer usar muito menos de 1% do arsenal nuclear, pois mais que isso o 'inverno nuclear' mataria o que tivesse sobrado de nós). Ou seja, revisa-se a ideia que não sobraria ninguém, que o mundo acabaria estupidamente por mãos humanas, ('Planeta dos Macacos' (1968), 'Silent Running' (1972), desculpe pelos spoilers), e mais que isso, sobraria um punhado de gente e uns caquinhos de civilização. Então, nessa variante de futuro alternativo, a humanidade estaria em apuros, os sobreviventes vivendo em comunidades sujas, na escassez e de sobras do presente (como no Terceiro Mundo...), governado por ditadores (idem, ibidem) e/ou atormentados por bandos de punks motoqueiros assassinos (como as gangues de imigrantes do Terceiro Mundo...) ou robôs rebeldes e insurrectos (ex-proletários aliados dos imigrantes trazidos pelos liberais...). Eis que de onde menos se espera aparece o herói, o salvador, o messias, o profetizado, para dar esperança e fé, vingar os fracos e oprimidos, unir os desunidos e, dependendo do dia, distribuir uns sopapos e restaurar o sonho americano. Tirando os sopapos, você pode ver que há uma inspiração, digamos, cristã: nisso se encaixam em alguma medida as séries Terminator e Matrix, e em outra chave, podemos pensar no Mad Max. Nem sempre dá certo: o esquecido Kevin Costner tentou não uma, mas duas vezes: com Waterworld (1995) e The Postman (1997, que eu nem achei tão ruim, mas pode ser porque eu já gostava do livro).

No Livro de Eli o que me chamou alguma atenção é que tal inspiração cristã, ou vá lá, bíblica, não somente é explícita como move em paráfrases tanto o herói (Denzel Washington, melhor como kickboxer que como o último moicano) quanto o vilão (Gary Oldman, até que não tão careteiro como costume); um porque conhece e domina A Palavra (mas não pratica tudo, notadamente o 'não matarás'), o outro porque quer conhecer e dominar a todo custo A Palavra (e sem se comprometer com mandamento nenhum, já que é o vilão). Aí, entra a fusão com outro gênero de filme, antigamente conhecido como 'filme de sexta-feira santa', com seus apelos à fé, crença no Ser Superior e nos seus milagres, como levar tiros e não morrer. Ah, sim, histórias de santos também são perfeitas para tal ocasião. E alguns santos já ensinavam que a pior fome é a fome de fé, portanto, nada fará mais falta no futuro onde tudo acabou que o livro que é o guia da fé.

Alguém (não lembro quem, é a idade), falando sobre as grandes religiões monoteístas, aponta que entre os pontos em comum estão as ideas de origem e de fim de tudo, e sobre o que está no meio como um teste extenso de fé. Então, a vida é essencialmente uma corrida de resistência, uma viagem ou jornada de provas e provação, de volta ao Paraíso, isso se sua vida foi de obediência às leis divinas, aos mandamentos e aos sacramentos (é, tinha que ter alguma burocracia). No filme, ficamos sabendo que o mundão de abundância (paradisíaca) do jovem Eli foi literalmente 'queimado', e no futuro o Eli vaga pelo que foram os EUA como um monge guerreiro viajante que se incumbe de proteger o último exemplar da Bíblia, o tal livro do Eli, enquanto tenta manter alguns resquícios de civilidade, como 'tomar banho' e não fornicar. Seu único luxo é Al Green. É o último gentleman, ainda capaz de dizer uma prece antes da refeição, e avisar antes de cortar o braço de um folgado. Eli vai parar num povoado de faroeste pós apocalíptico onde o mandachuva é Carnegie (Oldman), que é dono monopolista do poço de água e que procura obsessivamente pelo livro que ele sabe permitirá alargar muito seu poder, bem mais que o seu bando de capangas e a sua chave da torneira. Em comum com Eli, Carnegie também é meio velho, dos poucos que se lembra 'de antes'. Só que Carnegie, sedentário, apesar da nostalgia, olha para o futuro; sabe, pelo que viveu antes, que precisa da Palavra para conseguir seu 'empreendimento', que é meio que refundar a civilização, refundando a religião 'institucionalmente'. Só não menciona refundar o Estado, lógico. Eli meio que olha para trás, para a origem - para a expulsão do Paraíso, e para o futuro apenas como fim de sua jornada pessoal, individual, quase egoísta. Então, o clássico choque menos de interesses que de métodos, mais de interpretação que de posição, quase fraternal (no quanto Caim pode ser fraterno a Abel e vice-versa. O dado curioso aqui é que os The Hughes Brothers, que dirigem o filme, e o assinam como irmãos, aparentemente são gêmeos idênticos). Carnegie quer iniciar onde Eli terminaria, se fosse o caso de repetir a história como farsa; mas Eli não topa o projeto do vilão de refundação da civilização de 'espalhar a palavra' como pouco mais que o verniz de legitimidade sagrada à dominação econômica e militar, preferindo continuar sua jornada solitária, pois essa sim seria legítima e (bem) sem verniz.

Mas nada no filme é tão bom assim, nem tão profundo assim. Como em muitos filmes ruins, a vontade que dá é começar elogiando a fotografia... As mulheres do filme, por exemplo, são típicas escravas-que-dão-a-volta-por-cima: a mocinha que até ontem fazia sitcoms (Mila Kunis), e a moçona que estrelou Flashdance (1983) e, mais recentemente, a série 'The L Word' (Jennifer Beals). Não que não se desencumbam dos respectivos papéis, a mocinha até que vai razoavelmente, mas os diálogos são todos meio ruins, o que extermina a credibilidade dos motivos de cada personagem (e Tom Waits é o Q, sem 007!). Talvez tenha faltado alguém que tenha mesmo lido a Bíblia e conheça passagens menos manjadas que as que Eli recita, meio que sem convicção. Mesmo assim, depois de apenas um versículo e meio (e uma dúzia de capangas fatiados) a mocinha resolve largar tudo e d..., digo, seguir Eli na sua missão. Num filme onde o livro que traz a Palavra é tão importante (porém, a Bíblia também é, e muito mais, o 'Mac Guffin' desse filme), usar tão pouco e mau as palavras é de doer.

Porém, e já que nessa semana é a Bienal do Livro de São Paulo, onde chegam timidamente e com atraso ao mercado brasileiro um punhado de livros digitais, os e-livros (e-books), podemos até especular se o livro mais importante depois do fim do mundo seria mesmo a Bíblia ou se seria 'sobrevivência pós nuclear for dummies' ou coisa parecida. Qualquer que fosse o escolhido, (ou escolhidos, lembra o filme), apenas seriam úteis os bons e velhos livros de papel, já que que os livros digitais provavelmente não sobreviveriam aos pulsos eletromagnéticos e à falta de energia. Ipods também seriam inúteis, mas aí Eli ficaria sem Al Green. Se sobrarem livros, no futuro de escassez ou de abundância, livros de papel ou não, talvez o livro mais importante seja esse, ou algo parecido. Sim, eu sei, mas de algum lugar se deve começar. Eu e mais 30 milhões começamos aí.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Lei e Ordem

 
Se tem uma série de TV que frequentemente me deixa surpresa, é Law and Order. Não é a toa que ela resistiu a tantas temporadas (foram vinte!). A série se desenvolve na articulação entre o que, aqui no Brasil, chamamos de fase do inquérito policial (as investigações da polícia em relação aos crimes, sempre homicídios no caso dessa que é a "nave mãe" de filhotes como Law and Order SVU,  Criminal Intent ou Trial by Juri) e a fase do processo judiciário. Os personagens principais são policiais e promotores; os espaços privilegiados são a delegacia e o escritório de promotores e juízes.

A série acerta ao articular, portanto, dimensões que parecem separadas, ao expor as contradições e ambiguidades do sistema de justiça americano (sistema do qual os Estados Unidos se orgulham e que, apesar de suas falhas, é uma instituição muitíssimo interessante): ela acompanha o processo de descoberta da verdade do crime, do ponto de vista da investigação policial, mas, posteriormente, também segue  o processo de construção da verdade judiciária. A própria não coincidência dessas duas "verdades", por vezes complicada devido às regras constituídas justamente para colocar limites internos ao próprio sistema, protegendo, desse modo, o princípio de que "o réu é inocente até prova em contrário", já dá muito o que pensar...

Na semana passada, Edu havia me mandado um artigo do The New York Times, intitulada "Law and Order provavelmente não gosta de você" (em inglês). O argumento que o autor desenvolve é que, a menos que você seja um indivíduo absolutamente mediano e, portanto, sem razões evidentes de requerer da justiça um tratamento diferenciado, é bastante provável que "Law and Order" não goste de você. Segundo o autor do artigo, um dos temas centrais em "Law and Order" é o do homem médio, que procura viver seu cotidiano de forma justa e adequada às normas e instituições, o que inclui os policiais e promotores que são agentes da lei. Nesse sentido, os que se destacam - por sua beleza, por sua riqueza, por seu poder - são "rejeitados" porque sua posição social lhes faz sentir como se estivessem à parte do sistema de justiça, o que é profundamente ameaçador ao sistema. De certo modo, Law and Order seria uma série sobre a importância da confiança nas instituições (e em sua impessoalidade) para seu funcionamento adequado:

Na realidade, no fim das contas, eles [os policiais e promotores] não são diferentes dos outros [criminosos ricos, artistas, famosos, políticos, que se destacam e, por isso, desejam encontrar na justiça consideração por sua “excepcionalidade”], exceto por sua determinação em desempenhar seus papéis sob o governo de leis, não de homens. Homens (e mulheres), entretanto, estão sempre tentando capturar os procedimentos de governo e dobrá-los à sua vontade, esta é a mensagem central da série: o Estado liberal está comprometido com um regime de justiça que não respeita as pessoas, mas as pessoas – especialmente pessoas que conseguiram se distinguir de alguma maneira – estão sempre trabalhando para miná-lo. A cada episódio, “Law and Order” está empenhado em uma ação permanente contra as forças que ameaçam seus ideais, forças que residem e têm sua existência nas classes sociais que possuem tempo e recursos para perseguir agendas abomináveis e auto-interessadas (Trecho do artigo, em minha tradução apressada).

Já falei bastante de séries aqui - em parte por assisti-las em limites muito superiores ao recomedável, mas também porque algumas delas são, de fato, muito reveladoras de certos aspectos sociológicos de nosso presente.

Hoje, por exemplo, enquanto esperava o anti-gripal fazer efeito e levar consigo minha insistente dor de cabeça, acabei assistindo um episódio que é bastante dissonante do andamento normal da série. Trata-se do episódio Aftershock (1996). Nesse episódio, começa-se pelo fim e só nas últimas cenas é que tomamos conhecimento daquilo que seria o início: o crime e suas circunstâncias. O episódio inicia com uma execução, ao qual os promotores e policiais responsáveis pelo caso comparecem. Ainda que sejam parabenizados por todos - colegas, cidadãos, vizinhos... - há um incômodo que transtorna a todos, de modo que acompanhamos um dia atípico dos personagens, em cenários muito diversos daqueles nos quais o cotidiano se desenvolva. Eles tiram o dia de folga, para tentar digerir a experiência.

Ao final, a chefe da delegacia é quem exprime com maior precisão o incômodo que todos sentem e do qual todos tentam escapar. Ainda que não tenha assistido a execução, ela fica insone e seu marido a encontra escrevendo uma carta para sua mãe. Ela conta que está na dúvida se vai mandá-la, e o marido pede que ela leia em voz alta.

É pela mediação dessa carta à mãe da chefe de delegacia que ficamos conhecendo o crime pelo qual o prisioneiro morrera - um caso terrível, de estupro e homicídio após uma batida de carro, testemunhados por cerca de 30 pessoas que nada fizeram para defender a vítima. Aliás, durante o episódio, aparece o tema da omissão e também da pena de morte como vingança da sociedade, como ato ritual pelo reestabelecimento da ordem. A imaginação dos roteiristas, ao colocar no crime uma situação de omissão coletiva parece provocar ainda mais o espectador em relação a esse "homicídio legal" - ou, talvez, num jogo de reflexos, provocar a pensar a existência desse tipo de pena como omissão equivalente (é, aliás, ótima a resposta do Promotor de Nova York, pessoalmente contra a pena de morte, quando perguntado por jornalistas se mudou de ideia. "O povo mudou de ideia", ele diz, reforçando o adjetivo "popular" que acompanha a situação de júri).

E é a chefe de polícia quem diz mais claramente tanto da contradição que gera o incômodo, quanto dos termos a partir dos quais se contrói - na sociedade americana, mas podemos pensar que também nas sociedades de regime liberal - o problema do governo, da lei e da punição. Diz ela, na carta, "Hoje, o estado de NY matou um homem", e então descreve o crime, para concluir, "Não foi o suficiente; foi demasiado ("It was not enough; it was too much"). Não é suficiente para reparar um crime desse tipo; é muito, pois a morte ao mesmo tempo que é a maior punição, faz a punição dos homens cessar. O problema que  então se coloca para a justiça, quando confrontada com essa forma de punição que contém certa dose de absurdo, é: qual deve ser a medida da justiça? Qual deve ser a medida da punição? Para que não sejam nem demasiadas, nem deficientes? Para que nem estimulem a repetição do crime, nem estimulem a revolta? Qual o limite da justiça? Como estabelecê-lo?

Questões que são muito atuais, especialmente para nós, hoje, aqui neste país (como sugerem os artigos de Gabriel  de Santis Feltran, "Margens da política, fronteiras da violência: uma ação coletiva nas periferias de São Paulo" e "Crime e Castigo na cidade: o repertório da justiça e a questão dos homicídios na periferia de São Paulo".

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

6 de agosto, 8:15h: Hiroshima e Nagasaki, e Marcuse

"A ameaça de uma catástrofe atômica, que poderia exterminar a raça humana, não servirá, também, para proteger as próprias forças que perpetuam esse perigo? Os esforços para impedir tal castástrofe ofuscam a procura de suas causas potenciais na sociedade industrial comtemporânea. Essas causas ainda não foram identificadas, reveladas e consideradas pelo público porque refluem diante da ameaça do exterior, demasiado visível - do Oriente contra o Ocidente, do Ocidente contra o Oriente. É igualmente óbvia a necessidade de se estar preparado, de se viver à beira do abismo, de se aceitar o desafio. Nós nos submetemos à produção pacífica dos meios de destruição, à perfeição do desperdício, a ser educados para uma defesa que deforma os defensores e aquilo que estes defendem.
Se tentarmos relacionar as causas do perigo com a forma pela qual a sociedade é organizada e organiza os seus membros, defrontamos, imediatamente, com o fato de a sociedade industrial desenvolvida se tornar mais rica, maior e melhor ao perpetuar o perigo. A estrutura de defesa torna a vida mais fácil para um maior número de criaturas e expande o domínio do homem sobre a natureza. Em tais circunstâncias, os nossos meios de informação em massa encontram pouca dificuldade em fazer aceitar interesses particulares como sendo de todos os homens sensatos. As necessidades políticas da sociedade se tornam necessidades e aspirações individuais, suas satisfação promove os negócios e a comunidade, e o conjunto parece constituir a própria personificação da Razão.
Não obstante, essa sociedade é irracional como um todo. Sua produtividade é destruidora do livre desenvolvimento das necessidades e faculdades humanas; sua paz, mantida pela constante ameaça de guerra; seu crescimento, dependente da repressão das possibilidades reais de amenizar a luta pela existência - individual, nacional e internacional. Essa repressão, tão diferente daquela que caracgterizou as etapas anteriores, menos desenvolvidas, de nossa sociedade, não opera, hoje, de uma posição de imaturidade natural e técnica, mas de força. As aptidões (intelectuais e materiais) da sociedade contemporânea são incomensuravelmente maiores do que nunca dantes - o que significa que o alcance da dominação da sociedade sobre o indivíduo é incomensuravelmente maior do que nunca dantes. A nossa sociedade se distingue por conquistar as forças sociais centrífugas mais pela Tecnologia do que pelo Terror, com dúplice base numa eficiência esmagadora e num padrão de vida crescente."
Com esses fortes parágrafos Herbert Marcuse inicia e introduz A Ideologia da Sociedade Industrial - o homem unidimensional, de 1964, talvez seu livro mais popular, que imaginamos foi leitura 'obrigatória' nas barricadas de 1968 ('leitura obrigatória' em movimento libertário é engraçado, mas vai que ilustra os paradoxos de derrubar a burguesia...). Marcuse tenta elucidar as charadas paradoxais do mundo da Guerra Fria e pós-Auschwitz, como a perda do impulso transformador do proletariado e a paralisia da crítica social frente a novas formas de controle, mais sutis, mais 'doces', 'suaves' e mesmo 'democráticas'.
As pressões atuais dos países que possuem armas atômicas para barrar as tentativas do Irã desenvolver tecnologia nuclear mostram que ainda não é velha nem anacrônica a ideia que o 'Oriente' é o fantasma que pode ser agitado para assustar as massas e mesmo justificar possíveis guerras - marmelada que as diplomacias turca e brasileira colocaram a nu, no primeiro semestre, ao conseguir um pequeno acordo que foi, digamos, 'desqualificado' ('sabotado' e 'atropelado' não é diplomático dizer) pelos países mais bem armados. E sim, acho que ainda movimentamos um sistema social onde o perigo, seja a nova mudança climática, a (im?)previsível crise capitalista ou a velha e boa ameaça nuclear, servem mais a perpetuar a si e as forças que as produzem que a contribuir para que sejam ultrapassadas. Portanto lembremos Hiroshima, e sobretudo, tentemos entender, não somente Hiroshima, mas como a guerra que Hiroshima simboliza talvez nunca tenha 'terminado', apenas passado a outro campo de disputa.

MARCUSE, Herbert. A Ideologia da Sociedade Industrial - O homem unidimensional. Zahar Editores, Rio de Janeiro. 1982.
Fonte: platypus1917.org


quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Encalacradelas ou Quando a falta de imaginação política atinge o cotidiano


Saíram ontem duas matérias, uma no The New York Times e outra no Financial Times; ainda que de pontos de vista diferentes, ambas sobre a situação difícil da classe média nos Estados Unidos. As histórias são de de uma dolorosa pungência - porque são histórias de pessoas que viram ou estão vendo todas as pequeninas certezas e esperanças que sustentam uma vida penderem por um fio, prestes a arrebentar.

A imagem não é gratuita. "Viver por um fio" era uma condição comum a trabalhadoras e trabalhadores, desde o princípio da revolução industrial. Em seus escritos sobre a condição operária, Simone Weil narra a sensação de esgotamento de viver cada dia de uma vez, contando centavos em cada movimento realizado, forçando o corpo a suportar o número de operações necessárias a garantir a comida e o teto por mais um dia. A pobreza absoluta de não ter outro pensamento que não contar centavos. Quando se fala em mais-valia absoluta, aquela que se produz piorando as condições de trabalho do trabalhador e pagando a ele o estritamente necessário à sua reprodução, é de situações dessas que se trata.

Após a II Guerra Mundial, uma série de motivos e condições políticas propiciaram a montagem de um duplo dispositivo de segurança: do ponto de vista da economia, as orientações keynesianas confiaram ao Estado o papel de organizador dos ciclos "naturais" ao capitalismo; do ponto de vista social, as orientações do Plano Beveridge contribuíram para que as bases da tecnologia de seguros fossem rearticuladas em nível estatal e nacional. Em ambos os casos, tratava-se de minimizar as inseguranças próprias ao processo capitalista, no intuito inclusive de conciliar democracia e diferenças ocupacionais ou de posição social.

Esse duplo dispositivo não foi montado do mesmo modo em todos os lugares. Afinal, não se tratavam de escolhas puramente técnicas, ao contrário: tratavam-se de arranjos principalmente políticos e institucionais, o que significa dizer que o campo de possibilidades era distinto em cada um dos países conforme a composição de atores, instituições, programas político-partidários etc.

Esping-Andersen, um autor que procurou explicar os diferentes padrões de bem-estar nacionais chegou à conclusão de que existem pelo menos três regimes, que consistem não somente em graus distintos de proteção e desmercadorização*, mas também em diferentes arranjos entre três instituições fundamentais: Estado, Família e Igreja.

Há o regime mais abrangente, que ele chama de social-democrata. Neste regime, o Estado contribuiu para a desmercadorização de grande parte dos serviços sociais, tornando o cidadão um indivíduo bastante independente do mercado e da família (para Esping-Andersen, trataria-se de países nos quais a Igreja e seus valores repercutiram menos nas políticas sociais). Nesses países, usar os serviços públicos é considerado um direito, e o nivelamento dos serviços públicos se deu "por cima", desestimulando que serviços privados proliferassem. Esse regime, mesmo típico-ideal, pode ser reconhecido na experiência de um número restrito de países, como Suécia, Dinamarca ou Holanda.

Há também o regime que ele chamou de meritocrático-conservador, em que as relações fortes do Estado e da Igreja, bem como a pressão de sindicatos corporativos logrou constituir um sistema de proteção social que reproduz a estratificação social por posição na ocupação. Bem menos redistributivo que o social-democrata, ainda assim promove algum grau de desmercadorização em serviços essenciais e estimula moderadamente os serviços privados, voltados àqueles com condições de diferenciar-se dos demais.

E há um padrão liberal, que oferece proteção somente àqueles que não se encontram em condições de manterem a si mesmos - em geral, são modos de proteção estigmatizantes e temporários, pois como o princípio implícito é de que as pessoas devem buscar o atendimento de suas necessidades no mercado, é necessário estimular seu retorno a ele tão logo quanto possível. Em Estados liberais, o indivíduo está, de certa maneira, a mercê de sua sorte ou azar, pois se os mecanismos de mercado falham, ele só pode contar com o Estado para provisão de mínimos sociais. É o caso dos Estados Unidos.

Não é difícil imaginar que, do regime social-democrata ao regime liberal, há enorme diferenças em termos de homogeneidade ou desigualdade social. No regime social-democrata, a diferenciação seria menor, isto é, a distância do mais pobre ao mais rico não apenas seria menor em termos absolutos quanto em termos relativos, já que todos teriam acesso aos mesmos serviços. No regime meritocrático-conservador, tanto mais em contexto democrático em que há pressões crescentes para a expansão dos direitos, ainda que haja distância entre os mais ricos e os mais pobres, há uma ampla classe média que confere sustentabilidade ao regime. Já no regime liberal, em que cada um depende apenas de si mesmo na definição das posições sociais, os mais ricos criam mecanismos de mercado para continuarem ricos (investimentos, seguro de vida, de saúde, contra invalidez, de de carro, de desemprego, previdência privada etc.), enquanto os mais pobres gastam seus parcos recursos indo ao mercado comprar ao menos os serviços mínimos que lhe dizem ser necessários. Analisando as políticas sociais norte-americanas, Theda Sckopol escreveu um livro chamado "The Missing Middle", isto é, o "meio" que falta, reconhecendo como as políticas sociais nesse país penalizam a classe média, diminuindo ainda mais as chances de que se estabeleçam alianças extensas entre esta e os mais pobres.

A eleição de Obama sem dúvida representou uma oportunidade de constituição de um novo pacto social, mas esbarrou no azar da crise e da realização das virtualidades contidas no modelo americano: as histórias apresentadas nas matérias são exemplares a esse respeito. Uma mulher, desempregada há 99 semanas (e já havia sido uma imensa briga estender o prazo do seguro-desemprego além das 60), perde tudo ao ficar sem emprego: aos 49 anos, não tem mais casa, vive às custas de pequenas doações de amigos (embora saiba que são raras, pois é forte o imaginário de que se trata de uma questão de força de vontade encontrar um novo trabalho); ainda que qualificada, já procurou empregos de todo tipo, e nos últimos 12 meses só foi chamada para uma entrevista. Passa seus dias no motel, na frente do computador, enviando currículos, desesperada frente a perspectiva que lhe cortem o celular - única forma estável de contactá-la. Perdeu sua identidade profissional, mas perdeu principalmente seu lugar no mundo!

O título da matéria é revelador das dificuldades analíticas: os 99 weekers não são desempregados (unemployed), são sem-trabalho (jobless). Desempregado, como sabemos, é categoria estatística e institucional; não serve àqueles que falharam diante das expectativas institucionais. Segundo a matéria, ela não é uma vítima da crise e das regras institucionais, é uma vítima da má-sorte.

Mesmo frente a todas as evidências de crise e das altas taxas de desemprego, ao invés de incitar a imaginação, mesmo institucional (como no caso das categorizações que surgiram na França, por exemplo, "desempregado de longa duração", "desemprego juvenil" etc.), os argumentos que barraram a extensão do seguro-desemprego além das 99 semanas foi dos mais tradicionais entre os liberais: não é possível estimular que as pessoas estejam fora do mercado. Ainda que no mercado não haja nenhum lugar para elas.

É difícil saber onde essa experiência, comum a grande parte dessa geração, de desqualificação profissional pode dar nos Estados Unidos. Poderia apontar para soluções imaginativas, para a crítica da armadilha que criaram para si mesmos. Mas pode também apontar para o Tea Party, pois há uma racionalidade no conservadorismo que só muito cuidadosamente pode ser ultrapassada por propostas de transformação. Quando as vidas individuais misturam-se tão fortemente aos processos históricos, há uma chance de inteligibilidade da política e do cotidiano. Mas é uma chance que pode ser facilmente desperdiçada, para o sofrimento daqueles que têm sua vida suspensa entre os fios emaranhados.

* Desmercadorização é o termo empregado por Esping-Andersen para se referir ao grau de liberdade que os serviços oferecidos pelo Estado provêm em relação ao mercado. Por exemplo, se o Estado gerencia a aposentadoria, provê educação desde os anos iniciais, saúde e transporte público, além da renda bruta advinda do trabalho, os cidadãos contam com uma espécie de renda adicional, que resulta da desoneração do orçamento familiar com serviços essenciais. É desmercadorização porque, ao invés de terem que ir ao mercado procurar por tais serviços, os indivíduos têm sempre a escolha de contar com os serviços públicos, do Estado.

Para ler mais:
A agonia da classe média americana
99 weeks later: jobless have only desperation
Marta Arretche. Emergência e Desenvolvimento do Welfare-State: teorias explicativas.

Imagem: http://www.gettyimages.com/

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Meritocracia e Pastel de Carne


Na semana passada, ainda em meio às suas férias, o Edu resolveu passar na feira para comprar uns pastéis para o almoço. A feira aqui de casa não é muito boa, em termos de preços ou oferta de boas verduras e legumes, mas o pastel é muito bom! Ele tinha ido na banca da rua de cima, que não é a mais perto, mas é prestigiada já que reza a lenda que a dona ganhou o prêmio de 2º melhor pastel de carne de São Paulo. Não é pouca coisa!

Enquanto esperava o preparo dos pastéis, Edu ficou ouvindo algumas conversas. Uma delas, sobre a nova edição do concurso de melhor pastel. Ao cliente que perguntava se ela iria participar novamente, a dona respondia que não. E explicou: "você viu o que aconteceu na Fórmula 1 no final de semana? Aquela história do Massa? Então. Se na Fórmula 1 que é tão grande e envolve tanto dinheiro tem marmelada, imagine no concurso de pastel!".

Com esse argumento, encerrou a conversa e marcou as dificuldades de manutenção da credibilidade pública no mito meritocrático. Afinal, para que a meritocracia funcione, algumas condições são necessárias: a primeira, que de fato haja um sistema legítimo de reconhecimento do mérito; a segunda, que as pessoas aceitem tal sistema e a estrutura que ele edifica e se disponham a jogar conforme as regras. A conversa ouvida pelo Edu sugere que pelo menos uma dessas duas condições (ou ambas) não anda funcionando muito bem, e as metáforas extraídas dos esportes - espaço privilegiado de competividade, onde o mérito pessoal ou de time se traduz em primeiro, segundo ou terceiro lugar, isto é, numa posição social hierarquicamente organizada - lançam algumas luzes sobre o tema.

Na minha pesquisa de mestrado (Entre desalento e invenção: experiências de desemprego e desenraizamento em São Paulo. São Paulo: Annablume, 2009), em especial nas entrevistas realizadas com jovens, eu notei o quanto seu desalento (no contexto da pesquisa, entendido como sua decisão de interromper a procura por um novo trabalho) se devia ao reconhecimento de que as regras alardeadas não eram as que, de fato, funcionavam. Alguns se esforçavam loucamente para acumular o maior número possível de diplomas e certificados, reafirmando o valor das regras. Se a dona da banca de pastéis fosse como eles, tentaria melhorar seu pastel, colocar mais recheio, testar novos temperos, fazer um curso de boas práticas, obter uma ISO qualquer... Em outras palavras, saber do mau funcionamento das regras em algumas situações, "marmeladas" em que a ação individual conta pouco, talvez a incitasse a agir compulsivamente sobre as variáveis sob seu controle.


Outros jovens que entrevistei, porém, operavam a crítica das regras - identificavam a marmelada e, a partir daí, faziam uma espécie de jogo duplo: ao tempo em que se mantinham seguindo as regras, procuravam espaços nos quais pudessem jogar com sua ambiguidade. Se a dona da banca de pastéis fosse como eles, ela se inscreveria no concurso, faria seu pastel direitinho, mas tentaria aumentar as chances de ganhar por meio de seus contatos pessoais, por exemplo (quais tivesse a seu alcance, já que não se trata tanto da eficácia da ação, mas da eficácia simbólica de "fazer todo o possível").

Tratam-se de duas reações diferentes à mesma constatação: o jogo não é mais o mesmo - está mais "fechado" aos talentos, méritos e sortes individuais e mais determinado por regras externas ao próprio jogo. É só a gente pensar no que acontece no futebol, em que, apesar das regras serem claras, como bem observou a Bia numa conversa este final de semana, cresce o número de disputas jurídicas fora do campo para tentar determinar se, em casos nos quais há (ou parece haver) erro, a arbitragem tinha condições de entender corretamente o lance. Há, assim, um juiz que julga os juízes, à distância do tempo da partida, para tomar decisões cujo impacto não se dá no jogo, mas no campeonato.

A ambivalência dessas competições é que foram de tal modo entremeadas por lógicas opostas a elas (e nem se trata só da busca de lucros, mas da própria meta de "ganhar sempre" e toda a estrutura administrativo-burocrática que se monta em torno dela) que ainda que mantenham a lógica do jogo, negam a própria ideia da competitividade que premia o mérito.

Não adianta estar à frente numa corrida, se o companheiro de equipe está à frente do campeonato e o chefe escande candidamente sílabas para ordenar sem dar a ordem. As competições esportivas - não todas, é claro, talvez as mais "industrializadas" delas entre nós, como a fórmula 1 e o futebol - equilibram-se fragilmente, portanto, entre o dito e o não dito, entre a regra do jogo e a regra do campeonato.


Daí a importância disruptiva da atitude de Rubinho, quando mostrou que não era por falta de mérito que se deixava ultrapassar, evidenciando que, ao contrário do que queremos crer, não vence sempre o melhor. Ao expor a fratura da lógica competitiva atualmente, pôs em crise também toda a confiança que tínhamos (ainda mais depois de anos neoliberais, em que o importante era competir e criar condições de competição) na justeza das regras.

Oito anos depois, milhões de recursos gastos para reconstruir o jogo, as regras e, sobretudo, a confiança em sua justeza, a Ferrari e Massa contribuíram novamente para minar nossa confiança e nossas esperanças. Contribuíram, certamente, para tirar um bom concorrente do concurso paulistano de pastéis de feira.