sexta-feira, 6 de agosto de 2010

6 de agosto, 8:15h: Hiroshima e Nagasaki, e Marcuse

"A ameaça de uma catástrofe atômica, que poderia exterminar a raça humana, não servirá, também, para proteger as próprias forças que perpetuam esse perigo? Os esforços para impedir tal castástrofe ofuscam a procura de suas causas potenciais na sociedade industrial comtemporânea. Essas causas ainda não foram identificadas, reveladas e consideradas pelo público porque refluem diante da ameaça do exterior, demasiado visível - do Oriente contra o Ocidente, do Ocidente contra o Oriente. É igualmente óbvia a necessidade de se estar preparado, de se viver à beira do abismo, de se aceitar o desafio. Nós nos submetemos à produção pacífica dos meios de destruição, à perfeição do desperdício, a ser educados para uma defesa que deforma os defensores e aquilo que estes defendem.
Se tentarmos relacionar as causas do perigo com a forma pela qual a sociedade é organizada e organiza os seus membros, defrontamos, imediatamente, com o fato de a sociedade industrial desenvolvida se tornar mais rica, maior e melhor ao perpetuar o perigo. A estrutura de defesa torna a vida mais fácil para um maior número de criaturas e expande o domínio do homem sobre a natureza. Em tais circunstâncias, os nossos meios de informação em massa encontram pouca dificuldade em fazer aceitar interesses particulares como sendo de todos os homens sensatos. As necessidades políticas da sociedade se tornam necessidades e aspirações individuais, suas satisfação promove os negócios e a comunidade, e o conjunto parece constituir a própria personificação da Razão.
Não obstante, essa sociedade é irracional como um todo. Sua produtividade é destruidora do livre desenvolvimento das necessidades e faculdades humanas; sua paz, mantida pela constante ameaça de guerra; seu crescimento, dependente da repressão das possibilidades reais de amenizar a luta pela existência - individual, nacional e internacional. Essa repressão, tão diferente daquela que caracgterizou as etapas anteriores, menos desenvolvidas, de nossa sociedade, não opera, hoje, de uma posição de imaturidade natural e técnica, mas de força. As aptidões (intelectuais e materiais) da sociedade contemporânea são incomensuravelmente maiores do que nunca dantes - o que significa que o alcance da dominação da sociedade sobre o indivíduo é incomensuravelmente maior do que nunca dantes. A nossa sociedade se distingue por conquistar as forças sociais centrífugas mais pela Tecnologia do que pelo Terror, com dúplice base numa eficiência esmagadora e num padrão de vida crescente."
Com esses fortes parágrafos Herbert Marcuse inicia e introduz A Ideologia da Sociedade Industrial - o homem unidimensional, de 1964, talvez seu livro mais popular, que imaginamos foi leitura 'obrigatória' nas barricadas de 1968 ('leitura obrigatória' em movimento libertário é engraçado, mas vai que ilustra os paradoxos de derrubar a burguesia...). Marcuse tenta elucidar as charadas paradoxais do mundo da Guerra Fria e pós-Auschwitz, como a perda do impulso transformador do proletariado e a paralisia da crítica social frente a novas formas de controle, mais sutis, mais 'doces', 'suaves' e mesmo 'democráticas'.
As pressões atuais dos países que possuem armas atômicas para barrar as tentativas do Irã desenvolver tecnologia nuclear mostram que ainda não é velha nem anacrônica a ideia que o 'Oriente' é o fantasma que pode ser agitado para assustar as massas e mesmo justificar possíveis guerras - marmelada que as diplomacias turca e brasileira colocaram a nu, no primeiro semestre, ao conseguir um pequeno acordo que foi, digamos, 'desqualificado' ('sabotado' e 'atropelado' não é diplomático dizer) pelos países mais bem armados. E sim, acho que ainda movimentamos um sistema social onde o perigo, seja a nova mudança climática, a (im?)previsível crise capitalista ou a velha e boa ameaça nuclear, servem mais a perpetuar a si e as forças que as produzem que a contribuir para que sejam ultrapassadas. Portanto lembremos Hiroshima, e sobretudo, tentemos entender, não somente Hiroshima, mas como a guerra que Hiroshima simboliza talvez nunca tenha 'terminado', apenas passado a outro campo de disputa.

MARCUSE, Herbert. A Ideologia da Sociedade Industrial - O homem unidimensional. Zahar Editores, Rio de Janeiro. 1982.
Fonte: platypus1917.org


Um comentário:

  1. Mais Marcuse (fontes em inglês):
    Página oficial: http://www.marcuse.org/herbert/, possui inclusive alguns livros para download.
    Documentário sobre os anos de Marcuse como professor universitário na Califórnia: http://video.google.com/videoplay?docid=-5311625903124176509#

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