segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Livros, e-livros, o Livro de Eli

O Livro de Eli (2010)
Alerta de spoiler! O ministério da saúde adverte: fumar faz mal à saúde!
Estava na videolocadora, e entre duas histórias pós-apocalítipcas: a Estrada (2010) e esse O Livro de Eli. No unidunitê escolhi o Denzel, deixando o 'Aragorn' para outro dia. Talvez eu devesse ter feito um micro ciclo do pós fim do mundo e levado os dois (era dia de promoção), mas quem aguenta?

Só que pela quantidade de filmes, livros, quadrinhos, games e companhia com fantasias sobre o fim do mundo e pós fim do mundo parece que não só 'a gente' aguenta, como quer mais. Em algum momento, acho que nos anos Reagan, o cinema começou a fantasiar que depois de uma guerra termonuclear poderia haver sobreviventes (parece que sim, mas só se a tal guerra fosse em escala bem, mas bem limitada mesmo, o que quer dizer usar muito menos de 1% do arsenal nuclear, pois mais que isso o 'inverno nuclear' mataria o que tivesse sobrado de nós). Ou seja, revisa-se a ideia que não sobraria ninguém, que o mundo acabaria estupidamente por mãos humanas, ('Planeta dos Macacos' (1968), 'Silent Running' (1972), desculpe pelos spoilers), e mais que isso, sobraria um punhado de gente e uns caquinhos de civilização. Então, nessa variante de futuro alternativo, a humanidade estaria em apuros, os sobreviventes vivendo em comunidades sujas, na escassez e de sobras do presente (como no Terceiro Mundo...), governado por ditadores (idem, ibidem) e/ou atormentados por bandos de punks motoqueiros assassinos (como as gangues de imigrantes do Terceiro Mundo...) ou robôs rebeldes e insurrectos (ex-proletários aliados dos imigrantes trazidos pelos liberais...). Eis que de onde menos se espera aparece o herói, o salvador, o messias, o profetizado, para dar esperança e fé, vingar os fracos e oprimidos, unir os desunidos e, dependendo do dia, distribuir uns sopapos e restaurar o sonho americano. Tirando os sopapos, você pode ver que há uma inspiração, digamos, cristã: nisso se encaixam em alguma medida as séries Terminator e Matrix, e em outra chave, podemos pensar no Mad Max. Nem sempre dá certo: o esquecido Kevin Costner tentou não uma, mas duas vezes: com Waterworld (1995) e The Postman (1997, que eu nem achei tão ruim, mas pode ser porque eu já gostava do livro).

No Livro de Eli o que me chamou alguma atenção é que tal inspiração cristã, ou vá lá, bíblica, não somente é explícita como move em paráfrases tanto o herói (Denzel Washington, melhor como kickboxer que como o último moicano) quanto o vilão (Gary Oldman, até que não tão careteiro como costume); um porque conhece e domina A Palavra (mas não pratica tudo, notadamente o 'não matarás'), o outro porque quer conhecer e dominar a todo custo A Palavra (e sem se comprometer com mandamento nenhum, já que é o vilão). Aí, entra a fusão com outro gênero de filme, antigamente conhecido como 'filme de sexta-feira santa', com seus apelos à fé, crença no Ser Superior e nos seus milagres, como levar tiros e não morrer. Ah, sim, histórias de santos também são perfeitas para tal ocasião. E alguns santos já ensinavam que a pior fome é a fome de fé, portanto, nada fará mais falta no futuro onde tudo acabou que o livro que é o guia da fé.

Alguém (não lembro quem, é a idade), falando sobre as grandes religiões monoteístas, aponta que entre os pontos em comum estão as ideas de origem e de fim de tudo, e sobre o que está no meio como um teste extenso de fé. Então, a vida é essencialmente uma corrida de resistência, uma viagem ou jornada de provas e provação, de volta ao Paraíso, isso se sua vida foi de obediência às leis divinas, aos mandamentos e aos sacramentos (é, tinha que ter alguma burocracia). No filme, ficamos sabendo que o mundão de abundância (paradisíaca) do jovem Eli foi literalmente 'queimado', e no futuro o Eli vaga pelo que foram os EUA como um monge guerreiro viajante que se incumbe de proteger o último exemplar da Bíblia, o tal livro do Eli, enquanto tenta manter alguns resquícios de civilidade, como 'tomar banho' e não fornicar. Seu único luxo é Al Green. É o último gentleman, ainda capaz de dizer uma prece antes da refeição, e avisar antes de cortar o braço de um folgado. Eli vai parar num povoado de faroeste pós apocalíptico onde o mandachuva é Carnegie (Oldman), que é dono monopolista do poço de água e que procura obsessivamente pelo livro que ele sabe permitirá alargar muito seu poder, bem mais que o seu bando de capangas e a sua chave da torneira. Em comum com Eli, Carnegie também é meio velho, dos poucos que se lembra 'de antes'. Só que Carnegie, sedentário, apesar da nostalgia, olha para o futuro; sabe, pelo que viveu antes, que precisa da Palavra para conseguir seu 'empreendimento', que é meio que refundar a civilização, refundando a religião 'institucionalmente'. Só não menciona refundar o Estado, lógico. Eli meio que olha para trás, para a origem - para a expulsão do Paraíso, e para o futuro apenas como fim de sua jornada pessoal, individual, quase egoísta. Então, o clássico choque menos de interesses que de métodos, mais de interpretação que de posição, quase fraternal (no quanto Caim pode ser fraterno a Abel e vice-versa. O dado curioso aqui é que os The Hughes Brothers, que dirigem o filme, e o assinam como irmãos, aparentemente são gêmeos idênticos). Carnegie quer iniciar onde Eli terminaria, se fosse o caso de repetir a história como farsa; mas Eli não topa o projeto do vilão de refundação da civilização de 'espalhar a palavra' como pouco mais que o verniz de legitimidade sagrada à dominação econômica e militar, preferindo continuar sua jornada solitária, pois essa sim seria legítima e (bem) sem verniz.

Mas nada no filme é tão bom assim, nem tão profundo assim. Como em muitos filmes ruins, a vontade que dá é começar elogiando a fotografia... As mulheres do filme, por exemplo, são típicas escravas-que-dão-a-volta-por-cima: a mocinha que até ontem fazia sitcoms (Mila Kunis), e a moçona que estrelou Flashdance (1983) e, mais recentemente, a série 'The L Word' (Jennifer Beals). Não que não se desencumbam dos respectivos papéis, a mocinha até que vai razoavelmente, mas os diálogos são todos meio ruins, o que extermina a credibilidade dos motivos de cada personagem (e Tom Waits é o Q, sem 007!). Talvez tenha faltado alguém que tenha mesmo lido a Bíblia e conheça passagens menos manjadas que as que Eli recita, meio que sem convicção. Mesmo assim, depois de apenas um versículo e meio (e uma dúzia de capangas fatiados) a mocinha resolve largar tudo e d..., digo, seguir Eli na sua missão. Num filme onde o livro que traz a Palavra é tão importante (porém, a Bíblia também é, e muito mais, o 'Mac Guffin' desse filme), usar tão pouco e mau as palavras é de doer.

Porém, e já que nessa semana é a Bienal do Livro de São Paulo, onde chegam timidamente e com atraso ao mercado brasileiro um punhado de livros digitais, os e-livros (e-books), podemos até especular se o livro mais importante depois do fim do mundo seria mesmo a Bíblia ou se seria 'sobrevivência pós nuclear for dummies' ou coisa parecida. Qualquer que fosse o escolhido, (ou escolhidos, lembra o filme), apenas seriam úteis os bons e velhos livros de papel, já que que os livros digitais provavelmente não sobreviveriam aos pulsos eletromagnéticos e à falta de energia. Ipods também seriam inúteis, mas aí Eli ficaria sem Al Green. Se sobrarem livros, no futuro de escassez ou de abundância, livros de papel ou não, talvez o livro mais importante seja esse, ou algo parecido. Sim, eu sei, mas de algum lugar se deve começar. Eu e mais 30 milhões começamos aí.

Um comentário:

  1. A atuação do ator Denzel Washington foi primorosa neste filme, o que eu entendi foi que seu papel não era de um cego como pesava e o mais incrível é que durante 30 anos ele aprendeu ler em braille e ao final bem antes de morrer ele descreveu todos os versículos da Bíblia que possibilitou editar um novo livro.
    A atuação de Mila Kunis foi meio apagada o mesmo dos outros atores, porém eu viso a história e esta foi muito boa.

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