segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Meritocracia e Pastel de Carne


Na semana passada, ainda em meio às suas férias, o Edu resolveu passar na feira para comprar uns pastéis para o almoço. A feira aqui de casa não é muito boa, em termos de preços ou oferta de boas verduras e legumes, mas o pastel é muito bom! Ele tinha ido na banca da rua de cima, que não é a mais perto, mas é prestigiada já que reza a lenda que a dona ganhou o prêmio de 2º melhor pastel de carne de São Paulo. Não é pouca coisa!

Enquanto esperava o preparo dos pastéis, Edu ficou ouvindo algumas conversas. Uma delas, sobre a nova edição do concurso de melhor pastel. Ao cliente que perguntava se ela iria participar novamente, a dona respondia que não. E explicou: "você viu o que aconteceu na Fórmula 1 no final de semana? Aquela história do Massa? Então. Se na Fórmula 1 que é tão grande e envolve tanto dinheiro tem marmelada, imagine no concurso de pastel!".

Com esse argumento, encerrou a conversa e marcou as dificuldades de manutenção da credibilidade pública no mito meritocrático. Afinal, para que a meritocracia funcione, algumas condições são necessárias: a primeira, que de fato haja um sistema legítimo de reconhecimento do mérito; a segunda, que as pessoas aceitem tal sistema e a estrutura que ele edifica e se disponham a jogar conforme as regras. A conversa ouvida pelo Edu sugere que pelo menos uma dessas duas condições (ou ambas) não anda funcionando muito bem, e as metáforas extraídas dos esportes - espaço privilegiado de competividade, onde o mérito pessoal ou de time se traduz em primeiro, segundo ou terceiro lugar, isto é, numa posição social hierarquicamente organizada - lançam algumas luzes sobre o tema.

Na minha pesquisa de mestrado (Entre desalento e invenção: experiências de desemprego e desenraizamento em São Paulo. São Paulo: Annablume, 2009), em especial nas entrevistas realizadas com jovens, eu notei o quanto seu desalento (no contexto da pesquisa, entendido como sua decisão de interromper a procura por um novo trabalho) se devia ao reconhecimento de que as regras alardeadas não eram as que, de fato, funcionavam. Alguns se esforçavam loucamente para acumular o maior número possível de diplomas e certificados, reafirmando o valor das regras. Se a dona da banca de pastéis fosse como eles, tentaria melhorar seu pastel, colocar mais recheio, testar novos temperos, fazer um curso de boas práticas, obter uma ISO qualquer... Em outras palavras, saber do mau funcionamento das regras em algumas situações, "marmeladas" em que a ação individual conta pouco, talvez a incitasse a agir compulsivamente sobre as variáveis sob seu controle.


Outros jovens que entrevistei, porém, operavam a crítica das regras - identificavam a marmelada e, a partir daí, faziam uma espécie de jogo duplo: ao tempo em que se mantinham seguindo as regras, procuravam espaços nos quais pudessem jogar com sua ambiguidade. Se a dona da banca de pastéis fosse como eles, ela se inscreveria no concurso, faria seu pastel direitinho, mas tentaria aumentar as chances de ganhar por meio de seus contatos pessoais, por exemplo (quais tivesse a seu alcance, já que não se trata tanto da eficácia da ação, mas da eficácia simbólica de "fazer todo o possível").

Tratam-se de duas reações diferentes à mesma constatação: o jogo não é mais o mesmo - está mais "fechado" aos talentos, méritos e sortes individuais e mais determinado por regras externas ao próprio jogo. É só a gente pensar no que acontece no futebol, em que, apesar das regras serem claras, como bem observou a Bia numa conversa este final de semana, cresce o número de disputas jurídicas fora do campo para tentar determinar se, em casos nos quais há (ou parece haver) erro, a arbitragem tinha condições de entender corretamente o lance. Há, assim, um juiz que julga os juízes, à distância do tempo da partida, para tomar decisões cujo impacto não se dá no jogo, mas no campeonato.

A ambivalência dessas competições é que foram de tal modo entremeadas por lógicas opostas a elas (e nem se trata só da busca de lucros, mas da própria meta de "ganhar sempre" e toda a estrutura administrativo-burocrática que se monta em torno dela) que ainda que mantenham a lógica do jogo, negam a própria ideia da competitividade que premia o mérito.

Não adianta estar à frente numa corrida, se o companheiro de equipe está à frente do campeonato e o chefe escande candidamente sílabas para ordenar sem dar a ordem. As competições esportivas - não todas, é claro, talvez as mais "industrializadas" delas entre nós, como a fórmula 1 e o futebol - equilibram-se fragilmente, portanto, entre o dito e o não dito, entre a regra do jogo e a regra do campeonato.


Daí a importância disruptiva da atitude de Rubinho, quando mostrou que não era por falta de mérito que se deixava ultrapassar, evidenciando que, ao contrário do que queremos crer, não vence sempre o melhor. Ao expor a fratura da lógica competitiva atualmente, pôs em crise também toda a confiança que tínhamos (ainda mais depois de anos neoliberais, em que o importante era competir e criar condições de competição) na justeza das regras.

Oito anos depois, milhões de recursos gastos para reconstruir o jogo, as regras e, sobretudo, a confiança em sua justeza, a Ferrari e Massa contribuíram novamente para minar nossa confiança e nossas esperanças. Contribuíram, certamente, para tirar um bom concorrente do concurso paulistano de pastéis de feira.

Um comentário:

  1. Para não sair do assunto - pastel - recomendamos também a pastelaria Yoka, na Liberdade (www.yoka.com.br), onde tem um pastel de tofu com shitake que é uma delícia (sério!)!, e também o turístico pastel de bacalhau do mercado municipal central (na rua da Cantareira), mas a melhor e legítima experiência paulistana de comer pastel de feira é na barraca do Taka, na feira livre de Pinheiros (rua Antonio Bicudo esquina com a Artur de Azevedo, às quintas-feiras). Vai lá.
    Sobre marmelada, só a cascão, com queijo meia cura do sul de Minas... ai, que fome que deu!

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