quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Eleições 2010: estressar o eleitor não é efeito colateral, é objetivo político

O Ministério da Saúde Adverte: nada, nada a ver com o famigerado 'Cansei'...

Faltando poucas horas para o 2° turno da eleição para presidente do Brasil, não é incomum encontrar eleitores já de saco cheio desse assunto - mesmo aqui nesse modesto bloguinho. E você, também anda cansado? Acha difícil de entender, ou de decidir quem  'mente menos' na propaganda eleitoral, em e-mails e spams e do twitter/facebook/orkut, das capas dos semanários e manchetadas dos diários, nos esquetes radiofônicos. Você não aguenta mais falar de eleição com seu barbeiro ou manicure ou barista (ex-balconista de padaria), com colegas de trabalho, nem o povo da academia, do busão/metrô. Você escuta os jingles eleitorais e a sua pressão já sobe. Nos papos com amigos e parentes, então, você sente dor de barriga, náuseas, tonturas, alucinações. Quer chamar a polícia e a cruz vermelha. Você tem coceiras. Surgem instintos assassinos. Ou dá vontade de sair correndo e fugir pro mato... Escutar seu sociólogo ou cientista político, então, nem morto. Aliás, você tem mais é vontade de esganar um especialista. Em suma, se você tem um ou mais desses sintomas você pode estar acometido de uma patologia que podemos chamar de Síndrome do Estresse Induzido pelo Sofrimento Pré-Eleitoral. Em época de eleição surgem crises agudas. É provocado pelo bando de gente querendo te influenciar a votar nesse ou nessa. Eu também quero influenciar, você já sabe, claro, é disso que se trata uma campanha eleitoral, mas nesse assunto e nesse momento espero dar só minha pequenina contribuição voluntária, e dar algum alívio pros atingidos de qualquer lado. Quem sabe podemos em futuro próximo fundar uma associação de auxílio mútuo, tipo 'Sofredores Eleitorais Anônimos'...

Então deve ter sido mais ou menos assim: vem desde o início do horário eleitoral, mas pode ter vindo bem, bem antes, talvez de eleições bem anteriores. Você que é um a pessoa esclarecida espera que cheguem informações sobre os candidatos, e em geral, vamos ser honestos, que essas informações apenas confirmem preferências (ou antipatias) anteriores, já adquiridas, como as partidárias ou de empatia com políticos com mandados anteriores. Se você, como a maioria, não tem opiniões ou posições políticas rígidas, então é a você que serão dirigidas centenas de milhares de horas de trabalho de produção da influência: trabalhos de som, de vídeo, de papo-furado, de estudos e pesquisas, de reportagens e matérias e entrevistas e debates, pôsteres, bâneres, santinhos, folhetos, comícios, de zilhões postagens em incontáveis sites e blogs, e de bilhões - senão trilhões - de e-mails. É um dinheirão. Só para organizar a eleição são quase meio bilhão de reais. Eu teria que pesquisar direitinho quanto custou a eleição brasileira, incluindo aí outras renúncias fiscais e gastos do Estado e uma estimativa de "caixa 2", mas digamos que o PIB eleitoral deve estar por volta de 1 bilhão a 5 bilhões de reais, chutando beeem baixinho (Eike Batista poderia pagar a eleição e ainda continuar rico). Isso quer dizer cada voto deve ter custado algo entre R$ 6 a R$ 30 por eleitor. Não é pouco. Mas é troco perto do impacto que podem ter as decisões dos novos eleitos, principalmente para os cargos executivos. Vou desenhar para todo mundo entender: cada voto vale um 'dinheirão' imenso perto do que ele custa. Até o da vovó já meio gagá.
Eu sempre acho que o resultado das eleições do Legislativo costumam ser em geral 'piores', no sentido que as ligações que tem o eleitor com os seus candidatos das três esferas do Legislativo (municipal, estadual, federal) é mais frágil, menos transparente, menos constante, para dizer pouco, aqui num Brasil presidencialista. Isso, quando o eleitor tem algum interesse e além do mais a 'sorte' de ter elegido todos os candidatos legislativos em que votou, o que não é o caso da maioria dos eleitores. Mas se a eleição legislativa pode ser estressante também, ela tem lá sua graça. Quero dizer: ao menos racionalmente, a eleição dos legislativos me estressa mais, ao saber que 'm3#)@' pode ser. Mas essa pelo menos já passou. E se os legislativos custam caro, eles 'valem' pouco, pois quem de fato comanda o grosso do orçamento público são os executivos.

Há vários lugares na internet para entender os mecanismos gerais do jogo sujo eleitoral, o que eu mesmo ando tentando dar uns pitacos no nosso Margens, mas leia-se esse artigo de quem não é exatamente do ramo: é um neurocientista (Miguel Nicolelis). Ele descreve a importação dos métodos eleitorais da direita norteamericana para a nossa eleição, em resumo, a mais suja, baixa, abjeta manipulação calculada de informações e desinformações direto de onde tudo roda em torno de trilhões. De dólares. De Euros. Bufunfa, money, grana, pacote... Frise-se que não estamos falando de dinheiro com ficha suja: o dinheiro da corrupção no Brasil pode ser até bastante, mas a corrução é só um indicadorzinho lateral e pouco confiável dos valores que estão envolvidos. 4 milhões do Paulo Preto... mensalões... rárárá.

Então, direto da cachola dos melhores manipuladores de emoções do mundo, que deu nada mais nada menos que a hegemonia hollywoodiana, mais a falta de escrúpulos que o estímulo monetário comprovadamente exerce, mais algumas alianças com setores que acreditam no sobrenatural, e pronto. Faz-se o eleitor ser inundado de estímulos que o levam da indignação à depressão quase suicida, passando pelo susto, pela angústia, pela raiva, ira, ultraje, constrangimento, pela confusão. Pelo medo. Pela certeza fanática. Mas o importante parece que não é isso: é manter o eleitor 'complacente', quero dizer, impedir que ele constitua, por si, com autonomia, seu posicionamento político, de acordo com sua situação e interesse. De acordo com sua história e consciência. Então, daí vem o nosso palpite de hoje, já entregue no título: estressar o eleitor por todos os meios possíveis e imagináveis  não é um efeito colateral, indesejado, um acidente da discussão política (incluindo ficção científica jornalística onde bolinha de papel é arma de destruição em massa). Cansar, exaurir os eleitores, espantá-los, é um objetivo político que com certeza foi traçado e decidido em reuniões de negócio, e bolou-se uma estratégia, viabilizaram-se os recursos e meios e todos os macroprocessos, processos, atividades e tarefas. E vamos lembrar, isso é Política I, de cozinhar o galo e criar confusão, por exemplo, numa assembléia estudantil para cansar e espantar os seres humanos normais e as decisões serem tomadas de madrugada só pelas panelinhas. Antes que me acusem, provavelmente isso foi inventado lá atrás, pelos contemporâneos atenienses de Aristóteles, os primeiros e legítimos demagogos.

Cansar o eleitor é um empreendimento dessa eleição. O estresse do eleitor é intencional e metodicamente produzido. E eu afirmo que é possível rastrear os responsáveis. E eu não estou contente de ter percebido isso só agora, tão perto da decisão.

Veja que não é que eu desdenhe do papel da ideologia, mas a quantidade de dinheiro é um indicador da gravidade e do tamanho da coisa. Nisso, nossa eleição é gigantesca.. Muuuuiiiitooo. TeraGigaHiperExtraMegaBlaster Turbo. Só de pré-sal temos uma Arábia Saudita. Senão duas. E amazônia. E mercadozinho de 200 milhões de cabeças. É por isso que quando a Economist e o Financial Times anunciam sua preferência por José Serra, já sabemos quem irá tratar melhor as corporações transnacionais que esses veículos representam.

Então, quanto vale nossa dor-de-cabeça, nosso estresse, nosso dodói? Claro que para quem está sentindo, eu mesmo sentia, vale muito. Mas para quem está provocando, vale mil, milhões de vezes mais. Tá se sentindo melhor agora?



Para lembrar de acabar em samba. Desejo a todos uma boa eleição.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A volta dos que não foram: eleições 2010 e conservadorismo

Reproduzo abaixo alguns trechos de um interessante e provocador artigo de Antônio Flávio Pierucci, "Ciladas da Diferença" (publicado originalmente na revista Tempo Social, São Paulo, vol. 2 (2), 2º semestre 1990; disponível na íntegra aqui), infelizmente atualizado por conta da visibilidade que o pensamento conservador alcançou nestas eleições.

De fato, a despeito do miserê político dessas eleições, é necessário reconhecer que, sociologicamente, escancarou-se a persistência e o alcance do pensamento conservador em nossa sociedade - a questão, agora, será o que fazer disso: se e como uma sociedade "cordial", que tem como hábito a negação do conflito, irá colocar em sua grade de compreensão de si mesma como nação as tensões, contradições e paixões que tão claramente existem, restando "invisíveis" no dia-a-dia (ainda que operando nesse mesmo dia-a-dia, naturalizadas em convicções como a de que bandidos são mais matáveis que os "cidadãos de bem" ou que a vida de uns vale mais que a de outros, ou mesmo, simplesmente, nas torcidas de nariz em relação àqueles que parecem não conhecer ou não se conformar "ao seu lugar")? Como reestabelecer a ficção da tolerância após a evidência do ódio ter se espalhado subrepticiamente em panfletos apócrifos, mensagens de e-mail e até em atos falhos? Que as tensões tenham finalmente vindo à luz mais claramente abre possibilidade ou as encerra?

Em vários espaços ouvimos a expressão do mesmo desejo: "tomara que esses dias que restam até a eleição passem rapidamente"! Para que finalmente vá embora a sensação de sufocamento que sentimos, nós os cidadãos comuns que queríamos tanto crer na ilusão de que havíamos amadurecido nossa jovem democracia. Para que voltemos a poder frequentar as redes sociais sem medo de decepção com aqueles amigos mais próximos que insistem em repassar mensagens "engraçadinhas" profundamente ofensivas. Entendo e partilho desse desejo.

Mas me pergunto a qual "normalidade" voltaremos. Passará a inquietação? Será possível respirar mais leve agora que tanta coisa foi colocada na mesa? Saberemos, e poderemos (pois são coisas diferentes), reestabelecer os termos de um pacto social sem os contrangimentos da hipocrisia de antes da eleição e do risco eleitoral da crítica a um governo tão popular? Eu espero sinceramente que sim, mas não acredito que seja possível sem muito trabalho - de análises, de reflexões, de debates, de engajamentos. Fechadas as urnas no domingo dia 31 de outubro, pode até ser que uma fase termine, mas aí é que será mais necessário arregaçar as mangas e continuar a "falar de política". Porque, ao contrário das falas que - em geral para rejeitar o contraditório - afirmam que política é como "religião e futebol" e, assim, não se discute, não existe política sem discussão porque política não é coisa de indivíduo e cada um tem a sua: a política é justamente o que nós é comum, mesmo que contraditório e cheio de tensões.

Finalmente, reproduzo alguns trechos do artigo porque ele traz iluminações (de um modo bastante desconfortável para os que acreditamos nas ilusões das mudanças dos últimos 16 anos), sobre as razões de fundo da introdução - no debate eleitoral - de tópicos dos PNDHs. Menos que despolitização, a introdução desses temas talvez estejam a falar de zonas de sombra da política que prefeririamos não ver (ou não ter visto).

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Ciladas da Diferença
[...]
Os conservadores têm as seguintes convicções:

[...] Nem todos os seres humanos nascem com as mesmas potencialidades.
Não há razão para se instituir a igualdade salarial.
Só as pessoas com um determinado nível de intelegiência e educação deveriam poder votar.
[...] As leis atualmente vigentes não favorecem os ricos.
[...] A estatização leva à ineficiência.
[...] O tratamento que estamos dando aos criminosos não é rigoroso o bastante.
A pena de morte não é uma coisa de bárbaros.
[...] As leis contra o aborto não devem ser abolidas.
As leis do divórcio não deveriam ser alteradas no sentido de torná-lo mais fácil.
Uniões conjugais consensuais não são desejáveis.
[...] Os objetores de consciência são traidores.
[...] Não é errado que a homens seja permitida maior liberdade sexual do que às mulheres.
Nossas dificuldades presentes se devem antes a causas morais que econômicas.

A diferença vem da direita

Com este rol de enunciados daria para descrever quase com perfeição a mentalidade da direita encontradiça na maior metrópole brasileira nas décadas finais do século XX. Em minhas pesquisas com gravador em 1986 e 1987 pelos bairros de classe média baixa de São Paulo encontrei muita gente assim, que reage, sente e pensa tal e qual. É típico. São pessoas que, para surpresa minha no início, dizem alto ao pesquisador, alto e sem maiores rodeios, o que eles próprios pensam e sentem (e que tantos outras pensam e sentem, mas não dizem) a respeito da convivência ou da mera proximidade, é bem verdade que às vezes epidérmica, com indivíduos de certas categorias ou camadas sociais, certos grupos de origem que eles sabem distinguir muito bem numa cidade tão populosa quanto São Paulo.

[...] Existe por aí, nos meios letrados e mais bem informados, uma espécie de evidência primeira, hegemônica e, talvez por isso mesmo, um tanto irrefletida, quase uma 'ideia recebida', que associa as ideologias, mentalidades e sensibilidades de direita, conservadoras, aristocráticas, autoritárias, colonialistas, elitistas, o que seja, com os racismos e chauvinismos de todos os tipos e níveis. Até aí, tudo bem, não há nada de errado com isto, pelo contrário. Mas existe também - e estas minhas reflexões pretendem mexer com o estado espontâneo das artes neste ponto em nosso país - uma outra 'ideia recebida', que pensa como suficiente, e por si todo-esclarecedora, a definição do(s) racismo(s) e chauvinismo(s) como sendo, em sua essência, rejeição da diferença. O racismo é interpretado como recusa, incapacidade ou impossibilidade de aceitar o outro, o diferente, o não-semelhante, o não-idêntico. Deste ponto de vista, pelo qual se expressa também a interpretação anti-racista hegemônica no senso comum intelectualizado, o racismo acaba limitado a priori por uma definição simplificadora, ou pelo menos pouco sofisticada (sobretudo para os dias que corre), que o circunscreve nos marcos da heterofobia, 'esta estranha recusa da diferença, na qual o racismo vem um dia se enxertar' (Delacampagne), esta 'recusa de outrem em nome de não importa qual diferença' (Memmi). 'O racismo é essencialmente heterofobia' (Gabel). É? [...]

Ora bem, isto impede de atinar com tudo aquilo que nos racismos e chauvinismos existe e procede da atenção à diferença. Noutras palavras, isto nos impede de ver os racismos e chauvinismos de todos os tipos e graus como celebração da certeza das diferenças e, daí sim, como prescrição da urgência de sublinhar as diferenças para manter as distâncias (cf. De Rudder). O racista vê o mundo dos humanos sob a ótica privilegiada da diferença, melhor dizendo, pondo em foco a diferença; O racismo não é primeiro rejeição da diferença, mas obsessão com a diferença, seja ela constatável, ou apenas suposta, imaginada, atribuída. Estas linhas, que nascem do trato constante com as falas de cidadãos paulistanos que fazem da certeza da diferença uma razão para militar politicamente em favor de candidatos e propostas de direita, e direita autoritária, ousam sugerir um pouco mais de circunspecção no trato desta questão.

[...] Para um indivíduo dessa direita, o discurso não-palatável, aquele que mais do que qualquer outro desencadeia sua violência verbal, aquele que provoca sua ojeriza e lhe causa urticária é, ainda hoje, duzentos anos depois, o discurso dos Direitos Humanos, o discurso revolucionário da igualdade, seja a igualdade diante da lei, seja a igualdade de condições econômicas (a conquistar como direito), seja a igualdade primeira de pertencermos todos à mesma condição, a igualdade ao nascer (grifos meus). Vale dizer que em nosso país o discurso não palatável e imediatamente odioso ainda é, cento e poucos anos depois da abolição da escrevatura, o discurso abolicionista das desigualdades e subordinações, discriminações e humilhações, segregações e exclusões. Se há que procurar uma estrutura invariante e permanente das várias formações históricas de direita através desses últimos séculos da modernidade, tal estrutura se encontra nisto: na denegação do direito" (Balibar).
(PIERUCCI, Antônio Flávio. Ciladas da Diferença. In: ------------. Ciladas da Diferença. São Paulo: Editora 34/Curso de Pós-Graduação em Sociologia da USP, 1999, p.14-29.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Pequena contribuição para uma sociologia da panfletagem

Em um bairro de classe média alta da cidade de São Paulo, que vou chamar de Vila Tucanópolis (ali pertinho do Jardim Tucanalena), um grupo de militantes, a maioria (pela cara) de trabalhadores intelectuais e estudantes, fez uma panfletagem da candidata Dilma Rousseff para o segundo turno da eleição de 2010 para presidente da República. Eu, que já tinha feito algumas panfletagens e passeatas quando era estudante ("fora daqui o FMI..."), e agora acompanhado da família, tentei tirar a ferrugem e distribuir alguns adesivos para os carros que paravam no semáforo.

A primeira coisa a dizer é que agora os vidros dos carros são muito escuros e não dá para ver a) se tem gente dentro; b) se é homem ou mulher; c) velho ou jovem; e d) se estão me vendo ali, tentando fazer algum 'eye contact'... Esses carros com vidros escurecidos, que são maioria, parecem então dizer que querem privacidade e não serem reconhecidos, isto é, querem circular anonimamente. Por outro lado, também não dava pra ver direito se alguém estava apontando para mim, me xingando ou me mostrando o dedo médio. Provavelmente sim, desconfio, alguns deles aproveitavam o seu anonimacarro flex para me xingar. Claro, passaram muitos carros de vidros abertos ou vidros normais e alguns motoristas e acompanhantes nos xingaram, outros um pouco mais numerosos nos encaravam como se fôssemos um bando de comedores de criancinhas, outros balançaram as cabeças negativamente, muitos apenas 'rosnaram', quer dizer... bom, deu para entender. A grande maioria fingiu não nos ver, ou nem ligou para nossa presença, entretanto. E uns poucos carros aceitaram os adesivos e outros badulaques, passaram buzinando ou apenas sorrindo e/ou sinalizando 'thumbs up'. Fizemos muito mais sucesso com os passageiros de ônibus...

Claro que uma panfletagem desse tipo é uma ação mais simbólica, performática, que propriamente de esclarecimento ou de debate - quero ver quem consegue explicar a diferença entre a gestão macroeconômica dos governos FHC e do Lula nos poucos segundos da espera do semáforo indo além do "Lula pagou a dívida externa do FHC!!!" ou o "FMI foi embora daqui!!!" ou ainda "Lula pos o PIB pra fora..., digo, pra cima!!!". Na verdade, nem deu pra gritar muitas palavras de ordem. Mas de alguma maneira é importante que numa campanha eleitoral se faça algumas ações de 'presença', de visibilidade da campanha, especialmente num momento em que parece que todos os militantes (voluntários quase todos) ali presentes entenderam que a eleição não está ganha e era importante e necessário sair de casa num sabadão e, em plena tucanolândia, aparecer e 'fazer algum agito'.

Se eu gostasse de estereótipos o prato transbordaria: um senhor cinquentão, corpulento, dirigindo um jipão importado (esses tanques de guerra aerodinâmicos e caríssimos que infestam certos bairros ricos), de cabelos e olhos claros me olha feio e acho que me jogou praga nalguma língua eslava. Esse cidadão poderia ser um dos que Lula chamou de 'banqueiros loiros de olhos azuis' que provocaram a crise de 2008/09. Só que banqueiro de verdade deve ser muito rico até para dirigir o próprio carro (que seria uma limusine, mas não passou nenhuma dessas). Recebi olhares de desprezo de madames paulistanas que me fizeram pensar que para fazer uma cara daquela são necessárias décadas de desfaçatez de classe. Outras madames, mais classudas ainda, usaram aquele olhar que é bem pior que o de desprezo: o olhar de barreira, o olhar-que-não-vê, o olhar para você como se você fosse invisível, como se não estivesse ali, ou como se você fosse um poste ou uma pedra da calçada, o olhar que nega a sua existência, o olhar que te atravessa, coisifica e que transcende até a vitimização, pois nem digno de ódio ou qualquer sentimento ou mesmo o gasto de energia de te perceber ali. Esse olhar que 'nadifica' uma pessoa, que teleporta sua presença para a insignificância, te des-presencia, te des-pessoa, é um olhar que conhecem bem os faxineiros, lixeiros (há pesquisas, acho), mendigos, mas também os demais trabalhadores de serviços e, dependendo, bancários e mesmo médicos e outros trabalhadores mais qualificados. Meu palpite, entretanto, é que algumas categorias profissionais são mais orgulhosas que outras para admitir que são tratados dessa forma. É que essas mulheres são verdadeiras ninjas na arte da intimidação das classes 'subalternas'...

Bem, também atraímos alguma desamistosidade de mocinhas de chapinha e um ou outro pitboy, para registro que não apenas os mais velhos e ricos demonstraram sua contrariedade conosco, os petistas. Aliás, nas escolas desse bairro, City Long Beak, tidas como dentre as melhores pelo suplemento propagandístico que vem encartado numa revista semanal da imprensa golpista, chega ao fanatismo cego o tucanismo juvenil (talvez isso, mais o marinismo dos universitários, mereça uma pesquisa...). Como a maioria dos maiores de 16 não tirou seu título de eleitor porque papai ou mamãe não levou, não é ainda esse voto jovem que azulece esse bairro.

E há a questão do 'clima' de animosidade, de ódios e rancores insuflados nessa campanha em especial, quando as técnicas de 'spammificação' da campanha, de 'melação', difamação, catimba grossa e mistificação aprendidas dos consultores eleitorais da extrema direita norteamericana (como o tal consultor de nome indiano e turbante, que baixou no comitê adversário) estão sendo largamente usadas. Some-se a conjunção com a bem mal disfarçada disposição golpista da meia-dúzia de famílias controladoras das mais importantes empresas de informação brasileiras, e a aliança com a tradicional extrema-direita brasileira e religiosos conservadores - o que em alguns casos, como da TFP, é quase a mesma coisa - e se tem um cenário potencial faiscante e ácido nas ruas.

Vejam, não quero que me entendam mal: dessa vez não fui, e não fomos, mais maltratados que outros fulanos uniformizados e ligeiramente atrapalhando o tráfego costumam ser aqui em sampa. A panfletagem, no pouco tempo que pude estar ali, e considerando o clima atual de ai-que-vontade-de-ferrar-um-petista-fdp, foi muito tranquila e alegre e 'pra cima' até porque a ideia é desarmar os espíritos, e fazer campanha numa boa. Especialmente quando parava um ônibus, e mais gente se dispunha a interagir conosco (e até aceitar panfletos). E a manifestação contrária era esperada, é necessária e faz parte da democracia. - sem a parte dos rosnados contra nós, claro. O que foi possível fazer para 'ganhar as massas' foi feito. Sorrimos, pedimos licença, obrigado, e mandamos beijinhos e tchaus. Não é fingimento, somos simpáticos mesmo... As provocações, xingamentos e gracinhas foram respondidas o mais espirituosamente possível, sem nenhuma animosidade de nossa parte. E nem fiquei pensando muito nisso ali na hora: panfletar também requer uma certa prática, algumas tentativas até que o estranhamento de estar ali na rua bandeirando (e tentando 'ler' a receptividade por trás de vidros escuros) passe, e a gente pegue algumas 'manhas'. Isso, além de alguns cuidados, como não ser atropelado nem atrapalhar ninguém pra não dizerem 'ai, só podia ser da Dilma'...

Mas aí a gente chega em casa e fica pensando, afinal, porque um estranho teria raiva de mim (ou eu raiva dele) a ponto de me xingar ou ficar tão aborrecido em receber a oferta de um panfleto, que eu acho que estragamos o sábado de uns eleitores do outro candidato. Estranhos que nunca se viram na vida, mas prontos a se provocarem, ou mesmo partirem para o pugilato, como diziam antigamente as gazetas, apenas pelas diferentes cores de camisa existem hoje, por exemplo, na figura das torcidas organizadas de futebol - mas também, em outros países, além do futebol, em conflitos étnicos, entre nacionalidades e outras populações. Em geral, há atritos devido a disputas de território, interesses, recursos e status, que ajudam a acirrar os ânimos (e também de torcidas, quando os times representam facções ou diferentes populações ou etnias, como parece ter sido o campeonato da extinta Iugoslávia).

Acho que foi nas aulas de antropologia na faculdade aprendemos que a dinâmica que opõe iguais x diferentes; nós x eles; nacionais x estrangeiros; minha família x sua família; meu time x seu time; meu partido x seu partido; minha classe x sua classe e outras oposições desse tipo não apenas são comuns (aparentemente universais) como são constituidoras do que se entende por 'identidade', 'cultura', 'tradicão' - e política. Estou esquematizando muitíssimo, mas a ideia básica é que por movimentos de contraste, oposição, identificação, distanciamento, dependência ou parentesco, choque e assimilação, e assim por diante, grupos vão tomando formas e as manifestam das mais variadas maneiras (gostos, aparências, símbolos e assim por diante, até sistemas de pensamento). Numa sociedade democrática moderna as definições básicas da identidade individual vão se tornando por definição mais escolhidas que herdadas ou tradicionais. Nessas sociedades, onde o indivíduo tem relativa autonomia em relação ao seu grupo de origem (família, etnia, gênero etc.), ele pode definir, por exemplo, se terá religião e qual será, com quem se casará, qual profissão ou trabalho, onde irá morar (de acordo, claro, com seus recursos), a ideia de tolerância com o diferente ou o dissonante é fundamental. Fundamental para o funcionamento da mobilidade, que é fundamental para a modernização, que é um processo que dilui ou destrói as diferenças até então estabelecidas. Aliás, tolerância deve ser diretamente relacionada ao direito à diferença entre cidadãos que vivem pelo estatuto da igualdade. A igualdade aqui diz respeito ao usufruto de direitos, como os direitos políticos de votar (ou seja, de escolher) e de ser escolhido (candidatar-se).

Aqui no Brasil estamos numa sociedade jovem, recém-urbanizada, recentissimamente democratizada, em direção a uma sociedade ocidental, moderna e capitalista, mas ainda muito desigual, ainda cheia de atritos, de zonas de sombra e incompreensão. Ou seja, de fermentação e elaboração de igualdades e diferenças entre grupos e pessoas que ainda não estão estabilizadas ou estão em dinâmicas de choque. A tolerância num contexto como esse é ainda mais importante, para permitir que os 'arranjos identitários' sejam resolvidos e evoluam sem conflitos mais violentos, ou então, caso contrário, as diferenças se cristalizarão, entrincheirizando as disputas e represando mudanças claramente necessárias. Caso, por exemplo, da questão racial nos Estados Unidos, mas também dos conflitos étnicos (e que equivocadamente, acho, se atribuem aos imigrantes) na Europa.

Lógico que tolerância não é vale tudo, não é admitir mentirada, nem que se chame o bispo, nem que se catimbe o jogo. O Brasil e sua diversidade étnica e cultural é vendido no exterior como país de tolerância, mas era ainda o país que não crescia, não se livrava da pobreza, e na verdade possuia uma elite que se aproveitava dessa pobreza (literalmente, caso dos baixos salários) e a reproduzia (veja o caso da qualidade da educação pública) e reprimia (veja-se a atuação das polícias nas favelas)... e impedia a construção de um aparelho de Estado que enfrentasse de fato essa situação.

O meu singelo palpite, portanto, é que naquele bairro onde há poucas décadas houve uma fazenda de café, depois um loteamento popular e cemitérios, depois estudantes e intelectuais, e agora é um bairro da moda, Vila Marina, Jardim Índio da Serra, parte dos habitantes vê sua ascensão incomodada pelas notícias de que nos rincões do Brasil não saem mais empregados domésticos como antes, não há cabeças baixas como antes, não há pobreza como dantes. Naquele sabadão, e horas depois, e agora, lembrando do companheiro que foi o primeiro a pegar um adesivo - um catador de papel e sua carroça, e isso justo comigo que não favoreço os estereótipos - talvez esteja começando a entender o incômodo que provocamos em certos motoristas de jipão. Eu estava ali, eu que sou quase igual a eles, mas estando vestido de petista - de Lula, de Dilma, de Marta, de sindicalista, de MST - eu estava ali, de bandeira e adesivos, nessa visão tão distorcida e tão classe média , nada mais, nada menos que panfletando a traição de classe... como um palmeirense gritando gol no meio da torcida corintiana.

Isto é, é 'quase' como se Hebe Camargo fizesse uma panfletagem do PCO dentro da Daslu... Como se um cidadão torcer para outro time perto da outra torcida fosse um crime...

Nessa eleição, infelizmente, a tolerância foi calculadamente deixada de lado pela candidatura demoemplumada. O espanto pelo salto desses novos personagens e a negação da sua igualdade - demonstrada pela Maria Rita Kehl quando ela questionou a desvalorização do voto do pobre no artigo que enfureceu o Conselho editorial do Estadão e causou sua demissão - a negação da competência de Lula, da honestidade do PT e da mulheridade da candidata Dilma, e outras várias afirmações de intolerância é que quebraram a tal da janela que precede o vandalismo, uma das figuras que tanto gostam os que advogam, aliás, a 'tolerância zero' como política para tudo.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Eleições 2010: entendendo a produção da notícia: siga o dinheiro... ache o ódio calculado

A atuação política da imprensa, numa democracia moderna, não é nenhuma novidade e é esperado e mesmo saudável que aconteça. O modelo é mais ou menos o seguinte: o fazer ‘técnico, profissional’ de relatar fatos deve ser separado da função ‘editorial’ e de ‘opinião’, e guiado por regras como a relevância do fato (a sua ‘importância’), pela correta e completa descrição dos fatos, a busca da objetividade e impessoalidade, pelo equilíbrio de versões dos diferentes atores e pelo respeito à privacidade. Jornais de papel, rádiojornais e telejornais (e mesmo suas versões na internet) normalmente seguem a divisão em ‘editorias’ (política, economia, esportes, variedades). Numa editoria especial, a de opinião, o jornal ou revista manifesta sua preferência ideológica qualquer que seja ela – isso, numa democracia, claro. Aqui estamos nos referindo a um jornal generalista ou equivalente (como um portal de internet), chamado normalmente de ‘grande imprensa’ ou ‘imprensa de massa’. Há no mercado uma infinidade de órgãos informativos especializados num determinado tipo de notícia, como a imprensa sindical, a imprensa científica, imprensa esportiva ou de decoração ou arte ou gastronomia e assim por diante. Basta ver uma banca de jornal para uma amostra da variedade de assuntos e veículos. E até aqui, nenhuma novidade, certo? Só para lembrar, num contexto de um regime autoritário se reprime a variedade de opiniões, em especial as que não são favoráveis ao poderoso da hora. Num regime totalitário, a coisa é mais ‘simples’ ainda: há uma única opinião possível, a do governante, e pronto. O mecanismo de controle da opinião num regime autoritário ou totalitário é a censura, mas há outros mecanismos mais ou menos sutis, que não deixam de atuar mesmo numa democracia, como o poder econômico e o controle ou a posse dos meios de produção de informação. No regime antigo, havia a indistinção entre Estado e Igreja como arranjo para o controle das consciências.

Assim, teoricamente, se você vive numa democracia e quiser saber a previsão do tempo, o resultado do jogo, o movimento da bolsa ou os crimes da véspera, tanto faz se o jornal é de esquerda ou liberal ou conservador ou reacionário. Na prática, não é bem assim, já veremos isso um pouco melhor, já que há uma série de fatores que dependem da existência de uma liberdade fundamental, que é a de escolher qual o seu meio de informação. Se estamos falando de uma sociedade capitalista pós-industrial, onde existe em relação determinante um mercado complexo, é de se esperar uma variedade de escolha que pelo menos espelhe a diversidade que vem do aumento de interesses em jogo. Mas isso não é automático, claro. Depende de fatores históricos, para dizer o mínimo.

Então, imagine um país cuja economia é a oitava mais importante do mundo, possui duzentos milhões de habitantes, tem a economia em sintonia com as mais avançadas, centenas de milhares de empresas, quase seis mil municípios, um Estado de bem-estar que, grosso modo, conquista avanços importantes, e possui sucessos bastante reconhecidos, em campos dos mais variados, como a agroindústria, a indústria aeronáutica ou Gisele Bündchen. É o único pentacampeão. E, para o futuro, possui recursos naturais, biodiversidade, terra, água e petróleo. Muita água, muito petróleo. Muita terra. Agriculturável. E vai jogar a próxima Copa em casa. Mas esse país tem muito pouca imprensa, melhor dizer, poucas empresas de imprensa de massa.

É claro que estou simplificando, mas o fato é que muito poucas famílias – a imprensa no Brasil ainda é de empresas familiares, sintoma de ‘atraso’ nesse mercado – controlam os principais jornais, revistas, rádios e TVs (e parte da internet...) do Brasil. Os Marinho, os Mesquita, os (‘o’?) Frias, Saad, Civita... nem lembro de mais alguma. Então, isso é um fato: há muito poucas pessoas controlando os meios de produção de informação no Brasil. Isso mesmo: alerta amarelo!

OK, há certo setores econômicos em que os fatores de produção favorecem o surgimento de oligopólios, e a competição é bastante limitada, mesmo – ou especialmente - nos setores de tecnologia mais avançada (Intel X AMD e...?). Mas o que há de avançado na imprensa de massa brasileira? Decerto não é a estrutura de propriedade. Mesmo outra tradicional aberração – e aberração do ponto de vista do desenvolvimento capitalista! – o latifúndio agrário, vem ao menos sendo transformado: a legislação avançou, a aplicação da lei vem claudicante, mas vem vindo em boa parte graças à força do MST, e o próprio surgimento do ‘agronegócio’ ou arruinou ou vem obrigando a uma modernizaçãozinha da coronelada, bem de leve. Capitalismo no dos outros é refresco...

Mas o que explica a existência da imprensa latifundiária, meia dúzia de famílias que controlam o grosso da informação a 200 milhões de brasileiros? Vontade divina? Os únicos que sabem jornalismo no Brasil são essas famílias? Fatores de mercado? Meu palpite, para não enrolar muito, e que nem deve ser original, e talvez seja semelhante a lugares como a Argentina, é que essas famílias aproveitaram sua influência e se posicionaram estrategicamente nas mudanças de poder/regime, em certas ocasiões fazendo força para fechar, e em outras ocasiões para abrir, de acordo com seus interesses situacionais. Em 1964, fizeram força para fechar (por exemplo, em 1 de abril de 1964 o Estadão não circulou, mas no dia 2 a sua manchete foi: ‘Vitorioso o Levante Democrático’... eu vi num arquivo, não sou tãããoo velho). No começo dos anos 1980, para abrir (“Folha, não dá para não ler”) e ganhar leitores ávidos por ar fresco. Como empresários, membros do ‘núcleo duro’ da elite brasileira, fizeram o que faz a elite brasileira: planejaram, construíram ou compraram ou grilaram, desenvolveram, e lutam, lutam muito, e lutam baixíssimo para manter um pacotaço de privilégios à custa da máquina do Estado e, por tabela, à custa da população que não faz parte da elite. Como toda elite, essa é endogâmica, tem veleidades aristocráticas, forma panelinha fechada, e até expulsa os Chateaubriands e demais novos-ricos sem pedigree.

A imprensa brasileira, dita grande, ditadura, ditabranda; sempre deu um jeito de estar próxima, influenciar, fazer alianças, trocar favores – e exterminar inimigos comuns – produzir celebridades, candidaturas ou escândalos, influenciar votações e leis, criar e destruir reputações, e pressionar (talvez até pior) aos governantes de plantão pelo menos até 2003 (quando Lula foi eleito e tolerado bem a contragosto enquanto se esperava que caísse sozinho, afinal era só um nordestino iletrado... que virou o mais bem sucedido presidente que tivemos. Talvez Lula só tenha se distanciado mais da imprensa após a reeleição de 2006). Numa frase, a imprensa tinha grande capacidade de pautar as ações do governo. A política de relacionamento próximo aos sistemas de poder é uma questão pragmática, do ponto de vista dos negócios, isto é, de garantir a ‘reserva de mercado’ da informação (pela posse das empresas de comunicação continuar a ser de brasileiros, exceção (aberrante?) da lei brasileira). Isso garante a repartição bem graúda a cada um do butim das verbas publicitárias, inclusive verbas públicas, e a capacidade de ditar o preço aos anunciantes. Livros, jornais, revistas e papel de impressão gozam ainda de isenções tributárias constitucionais (Art. 150, “d”). Começamos aqui a ver mais de perto, ou pelo menos imaginar, o dinheiro circular.

É interessante notar que o aprofundamento da democracia, o desenvolvimento social e econômico, a organização dos trabalhadores, o avanço tecnológico e o advento da internet, a internacionalização da economia, o crescimento das cidades do interior, o aumento da população com nível superior, são vários dos fatores dos últimos 20, 30 anos que poderiam impulsionar o negócio da informação, sem necessitar de muletas históricas. E na verdade impulsionaram... talvez não para aquela mesma meia dúzia de famílias. Entretanto, parece haver uma relação forte entre a difusão da internet e a queda da circulação e da importância política e cultural da ‘mídia impressa’, mundo afora. E aqui no Brasil também: o encerramento da versão impressa do veterano Jornal do Brasil não tem sequer um mês, acho. Aparentemente, e isso é facilmente localizado – onde mais? – na internet, as tiragens dos jornais e revistas vêm caindo sistematicamente aqui no Brasil. Estão seguindo o dinheiro?

Voltando um pouco, eu havia dito que achava que os atuais proprietários da produção da informação no Brasil haviam conseguido se posicionar vantajosamente nas mudanças de regime, jogado o jogo tradicional do poder desde então e portanto, sejam eles os poucos dinossauros sobreviventes. Talvez agora, com as grandes transformações pelas quais passamos – e estou falando, por exemplo, de redução da desigualdade, mas muito mais que isso – as seis famílias tenham percebido que fizeram escolhas estratégicas erradas e o jogo do poder não é mais aquele onde sempre ganhavam. Afundadas em seu próprio preconceito, apostaram e agiram contra o governo Lula, quando este, por exemplo, democratizou e descentralizou para veículos regionais a distribuição de verbas da publicidade oficial (olha o $$$!). Se envolveram em negócios suspeitíssimos (como mostra o sensacional blog NaMaria) com o Governo José Serra e tucanagem e democompanhia. Falharam em enxergar que há novos atores surgindo, e esses novos atores não tem a ligação de identidade (até sentimental) com a imprensa tradicional, isto é, não conseguiu novos leitores e vem perdendo os que tinha. Perde, e vem perdendo, com isso, influência, e principalmente, o $$$$.

Agora, no desespero, vê crescer a influência dos blogs, a produção e distribuição de informação ‘em rede’, muito mais rápida e incontrolável, muito pouco suscetível ao controle, capaz de confrontar versões, desmontar boatos, e ‘pior’, capaz de crítica, de desmontar esquemas e modelos, de usar arquivos, memórias e documentos de forma até então inimaginável. Capaz, como foi na eleição de Obama, de pelo menos momentaneamente inverter a lógica do poder. Por isso, as 6 famílias com certeza vêem como um risco o Plano Nacional da Banda Larga... acho que nem preciso e$$$plicar. Alerta Vermelho!!!

Então, acho que há boas razões para dizer que, nessa eleição, a atuação política da grande imprensa brasileira ultrapassou todos os limites, aparentemente como ato de desespero, que uniu as 6 famílias a despeito de suas diferenças. O primeiro limite é o da própria divisão ‘editorial’: veículos inteiros foram ‘politizados’, até novelas, e todas as editorias, todos os colunistas foram convocados a marchar ordem-unida, na difícil missão de esconder todos os fatos positivos do governo e superamplificar, quando não inventar, as piores notícias do pior modo possível, esquecendo de qualquer boa prática jornalista que porventura tenha existido e, em certos momentos, segurado a máscara democrática dessas famílias. Em alguns momentos não dá para disfarçar, como no caso da demissão da Maria Rita Kehl do Estadão e pela Folha de S. Paulo publicar um ‘spam’ de ódio e calúnia contra a Dilma como manchete. O segundo limite, como conseqüência, é o da prudência, de arriscar seu próprio capital social, sua credibilidade junto aos consumidores, anunciantes – e cidadãos. O terceiro limite é o da civilidade: como animal ferido (detector de clichê apitando!) se torna mais perigoso, e se o juiz dessa partida fosse mais sério já teria distribuído cartões vermelhos às pencas para esse time.

Talvez a pior conseqüência seja a radicalização, em especial a da ‘direita’: ao partir para o vale-tudo mal disfarçado em notícia, essa elite ‘tão chique’ dá a senha para todos os hooligans, profissionais ou meros voluntários, cavalgadores de todos os tipos e subtipos de ódio, difamadores, caluniadores, mistificadores, gente que adora uma fofoca, um barraco, gente que não se deveria levar a sério no século XXI saiam de suas tocas e cloacas e venham para o espaço público como as sete pragas do Egito de carona em tsunamis do inferno. Ressentidos, paranóicos, gente com nenhuma estima, preconceituosos, covardões anônimos, linchadores, ou sei lá, talvez mesmo um batalhão de ingênuos numa era em que a ingenuidade é mortal – gente que, pelo menos, guardava para o seu espaço privado tais ideias. Não há como ser condescendente, na luta política democrática, contra calúnias quanto a religião ou sexualidade ou gênero ou que atingem a honra do presidente da República e da candidata Dilma. Embora isso não seja novidade – o próprio Fernando Henrique Cardoso, que foi vítima de calúnias difamatórias pesadas dos apoiadores de Jânio Quadros – eu vi os panfletos – na eleição para prefeito de São Paulo de 1985, hoje se presta, mesmo como ex-presidente, e talvez pior, como sociólogo, a validar esse vale-tudo nojento.

Qual seria, afinal, a motivação dessa gente toda, de ex-professores universitários renomados e até ontem, razoáveis, a gente que mantém sites neonazistas, passando por pastores oportunistas, especialistas de aluguel, padres ligados a seitas secretas, spammers profissionais e desocupados do submundo virtual, especuladores da Bolsa interessados em derrubar as ações da Petrobrás, a ala direita do Partido Republicano norteamericano, estrangeiros de olhão no pré-sal, ambientalistas de gabinete, jornalistas mercenários, cantores-cineastas... numa grande frente que não é nem de oposição política, nem se fecha ou reduz em disputas partidárias, mas é explicitamente de ódio ao presidente Lula, à candidata Dilma, ao PT, e por tabela, também ódio aos nordestinos, às mulheres, às minorias. Ódio aos funcionários públicos. Aos professores... hoje é dia dos professores... Ódio de classe, de saudades do escravo e daquele pobre submisso. Ódio à nova classe média de gente parda que lota shoppings centers e concessionárias e aeroportos. Ódio ao Neymar e todos os neymares abusados e dribladores que não sabem o seu lugar... e não jogam para perder como sempre perderam os pobres desse país.

Por falar em perdedores, qualquer que seja o resultado dessa eleição, o perdedor para mim terá sido aquele que o leitor já sabe: o futebol arte.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Judiciário, candidaturas e o papel da imprensa brasileira: o caso das eleições majoritárias de 2010

A análise de um vídeo obtido com câmera oculta mostra os principais órgãos da imprensa escrita brasileira, Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo e a revista Veja em pleno trabalho de produzir informação independente, objetiva e apartidária, nas eleições presidenciais de 2010. Quando viram ameaçada a sagrada liberdade de imprensa, apelaram para o juízo de Sir Gilmar Mendes de Camelot. A câmera oculta flagra o exato momento em que um candidato careca à presidência (não dá pra ver a careca, infelizmente) telefona para Sir para dar sua contribuição decisiva. Assista com exclusividade o vídeo bomba:



Monty Phyton e o Cálice Sagrado, de 1975 (http://www.imdb.com/title/tt0071853/)

Não deixe de ver a página anti-boatos de Dilma.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Das temporalidades dos direitos


(Clique na tirinha para aumentar)

Então que, por coincidência (é o texto de referência da aula que dou esta semana), estava relendo o texto clássico do T. H. Marshall sobre cidadania, classe social e status (Cidadania e classe social. In: MARSHALL, T.H. Cidadania, classe social e status: Rio de Janeiro, Zahar, 1978, p.57-114). Escrito para uma conferência em 1948 e publicado no ano seguinte, o ensaio é de uma precisão e de uma atualidade assombrosas, identificando com muita clareza o tênue fio no qual equilibramos a equação entre a igualdade da cidadania e uma estrutura social desigual.

Mas nem foi isso o que me chamou a atenção. Marshall propôs que o que entendemos hoje por  aquilo que podemos chamar aqui de cidadania plena - o conjunto de direitos civis, políticos e sociais que tem um cidadão, em uma dada sociedade nacional - foi constituída em processos descompassados no tempo. Em primeiro lugar, no século XVIII, teriam se consolidado e universalizado os direitos civis - a liberdade de ir e vir, a liberdade de imprensa, a liberdade de ter uma propriedade e de estabelecer contratos, a possibilidade de ser julgado conforme as regras de uma justiça comum... No século XIX, teriam se universalizado (para os cidadãos, isto é, os homens livres) os direitos políticos - direito a votar e ser votado, a participar de instâncias e conselhos locais... E, finalmente, mas não menos importante, no século XX teriam se constituído, a duras penas já que em conflito claro com as liberdades todas instauradas pelo direito civil, os direitos sociais.

É claro que essa distinção que ele faz é apenas para organizar as ideias e mostrar como cada dimensão que hoje pensamos envolvida na condição de cidadania levou tempo a ser gestada e desenvolvida, e interferiu definitivamente na estrutura social - tanto legitimando algumas desigualdades quanto conformando expectativas crescentes de uma sociedade mais igualitária.

Comentando sobre os direitos civis e políticos, Marshall toma dois exemplos que são muito interessantes para ilustrar como, menos que igualdade de fato, foi a igualdade no status de cidadãos que modificou as práticas sociais. Ele comenta, por exemplo, que lentamente foi se constituindo a ideia de uma justiça que deveria ser a mesma para todos, independentemente de origem, ocupação ou renda - desse modo, ainda que a composição social dos juízes e advogados pouco tivesse mudado (eram filhos de nobres ou de profissionais liberais de alta sociedade), seu modo de operar a justiça modificara-se imensamente a partir da universalização dos direitos civis.

Já em relação aos direitos políticos, Marshall observa que, para promover condições mais igualitárias, não se tratou apenas de prevenir estratégias de compra de votos ou  pressões, políticas e econômicas que poderiam ser exercidas sobre as classes mais pobres (instituindo o voto secreto, por exemplo). Imenso desafio, segundo o autor, foi o processo que tornou possível às classes trabalhadoras, além de votarem, candidatarem-se e, mais ainda, serem eleitas:

"[...] algum tempo se passou até que desapareceu a idéia, predominantemente entre as classes trabalhadoras como em outras, de que os representantes do povo e, ainda mais, os membros do Governo deveriam ser recrutados das elites que nasceram e foram educadas para a liderança" (MARSHALL, 1979: p.81).

A superação desses preconceitos de classe é lida pelo autor como um indicador de universalização do status de cidadania.

Me falta tempo para poder fazer todas as mediações que seriam necessárias; peço desculpas por isso. Mas de todo modo, acho que a discussão de Marshall guarda muita relação com todas as reflexões expostas pelo Edu em relação à eleição do Tiririca, assim como poderia ser um ótimo ponto de partida para pensarmos a insuperada crítica que se fez a Lula em todos os seus oito anos de governo - ainda que ele tenha se mostrado um presidente inteligente, hábil, um político como existem poucos atualmente, vira e mexe alguém vem desqualificar suas origens, seu suposto analfabetismo... Toda a campanha de Serra não tentou se inserir justamente nesses preconceitos, afirmando e reafirmando a todo o tempo o quanto ele era "preparado", o quanto ele tinha "currículo"? Será que representar os interesses do povo é questão de currículo? Com as escolas que a gente tem - vamos ser honestos, mesmo as particulares - alguém acreditaria seriamente que o "preparo" necessário para o exercício de um cargo desses se aprende na escola? Por que a escolarização ou, mais ainda, a graduação parece ser um fator tão central na consideração de um representante?

E isso porque estamos falando aqui das possibilidades de eleger representantes que não sejam apenas aqueles oriundos das classes dirigentes. Imaginem se fossemos enveredar pelo tema da qualificação/desqualificação dos eleitores - "povo sem educação", "que não sabe votar", "massa de ignorantes"... Parece que nesse nosso-Brasil-brasileiro-moderno-dos-anos-2010, ainda tem gente que gostaria de voltar ao voto plural - aquele que dava maior peso ao voto de proprietários e instruídos.

PP: a charge do Laerte foi dica da Neide, no livro das faces. Obrigada! [e só depois percebi que o Edu também tinha linkado num dos comentários de posts anteriores...).

Atualização: dois artigos que se relacionam ao tema do post.
Maria Rita Kehl: Dois pesos
Tânia Bacelar Araújo: O voto do Nordeste: para além do preconceito

terça-feira, 5 de outubro de 2010

A eleição de Tiririca: piada em debate

Não tinha pensado muito na eleição do Tiririca, que eu mal sabia quem era até que ele foi eleito. Sabia que era um palhaço profissional – palhaços amadores ou involuntários estão em outra categoria – e que tinha um programete eleitoral onde dizia “vote Tiririca, pior qui ta num fica” e coisas do gênero. E achava que ele ia ter um monte de votos, dada a propaganda lateral que ele acabou tendo, e concordava com a tese que seria um voto de protesto, basicamente pelo fato do voto ser obrigatório e parte dos eleitores protestaria contra a obrigatoriedade, contra os maus políticos e contra as próprias alternativas da política eleitoral votando no ‘pior’ candidato possível. Só que talvez essa explicação pelo menos mereça uma revisão, dado o andar das notícias e dos fatos. Se confirmada sua eleição, já que o Ministério Público Eleitoral quer melar sua candidatura, Tiririca não só será Deputado Federal do mais rico e poderoso estado da Federação como será, de longe, o mais votado... Se estivesse no partido com mais deputados e fosse um ‘político profissional’ poderia lançar-se candidato ‘natural’ à Presidência da Câmara, o terceiro cargo da República, apenas na força de seus votos. O falecido e fascista doidivana Eneas e o costureiro falecido, mas não fascista Clodovil foram os tiriricas de eleições anteriores.

A candidatura de Tiririca se junta ao lado mais pitoresco – mas que também já virou tradição - das eleições brasileiras, ao lado de candidaturas de ‘celebridades’, jogadores de futebol, prostitutas, sósias, pornostars, cantores e cantoras, filhos de celebridades, sobrinhos de celebridades, parente de político, e assim por diante. Assim como é tradicional o voto de protesto, seja no rinoceronte Cacareco, no macaco Simão, no Sinhozinho Malta... No século passado eu cheguei a ser fiscal numa eleição onde o voto era dado em cédulas de papel, e os votos nulos traziam uma variada gama de xingamentos, desenhos de pintos alados (isso mesmo, falos com asinhas), nomes inexistentes ou impossíveis (Tiradentes, Duque de Caxias, Silvio Santos...), mensagens mais enigmáticas (“Cão Fila Km 26”) ... a cédula praticamente virava a parede de banheiro público, cheia de grafitis.

Como eu estou sempre fazendo amizades, eu não vou me juntar aos que protestam (“xingam muito no twitter”) contra o Tiririca nem aos que acham sua eleição uma vergonha ou um absurdo. A menos que a justiça decida o contrário, o cidadão Tiririca e qualquer outro que a lei não impeça têm o direito de se candidatar, e é bom e democrático que seja assim. Assim como é saudável que os tipos mais variados arrisquem ser eleitos. Qualquer que seja sua motivação ou seu programa ou propostas. Claro que há coisas menos defensáveis e mesmo ilegais e/ou que claramente não podem e não devem ser defendidas: plataformas racistas ou discriminatórias, de dissolução do Estado Brasileiro, ou que vão contra os direitos humanos, por exemplo, não são aceitáveis. Agora, propor que o Brasil produza bombas atômicas (Eneas) ou a redução do número de deputados (Clodovil) são propostas tão dignas de discussão no parlamento quanto quaisquer outras, concorde-se com elas ou não. Se o Tiririca diz que quer ser eleito para descobrir o que faz um deputado federal e depois ele volta para contar ao povo... Ora, isso no fundo é educação política, um assunto da maior importância (sem piada!) e que, tirando o verniz que insinuava um certo cinismo oportunista que tanto ofendeu os cidadãos e políticos ‘sérios’, é uma proposta legítima, sim senhor. Eu mesmo achava que entendia alguma coisa do funcionamento do parlamento, até que por obrigação profissional passei um tempo a monitorar alguns projetos de lei do Congresso. Aí, sim, temos piadas sem graça...

Afinal, o que aconteceu para haver tantos ofendidos com a campanha à moda Tiririca, e ao mesmo tempo ter tantos eleitores? Poderíamos apelar à figura do ‘palhaço’ teórico (não ‘aquele’ teórico palhaço, mas de uma ‘teoria do palhaço’), do bobo-da-corte, do clown e, com alguma pesquisa, chegar à história social da piada e voltar, mas não é o caso e alguém já deve ter feito algo assim bem melhor do que eu. Talvez outro caminho a seguir fosse pelo ‘chiste’ ou ‘ato falho’ freudiano, mas não é a minha praia. Mas vamos partir do princípio que numa piada se pode comunicar, informar (no sentido de dar uma forma), resvalar ou desvelar um assunto, objeto ou intenção o qual, em outro contexto que não o da ‘graça’, do ‘não-sério’ e descompromissado não se poderia nem seria possível discutir ou expor, sem atentar às regras da polidez, da educação ou da suposta correção política, no limite de provocar uma reação desagradável ao mesmo tempo em que a desarma pelo riso. Numa piada pode haver um subtexto discriminatório ou até cruel, em um extremo (piadas de loira, de ‘português’ ou ‘japonês’ ou ‘judeu’ ou ‘sogra’ ou de ‘viado’...).

Como diz o Millôr, não existe piada a favor. Mas não são as piadas que criam as discriminações ou assimetrias ou paradoxos: as piadas as denunciam ao expô-las, como objeto e impulso além das risadas. Não acho que piadas ‘reproduzam’ simplesmente a discriminação, portanto. Piadas são ‘pistas’, flashes ou instantes de verdades, reveladoras tanto de quem conta a piada, como de quem dela ri como de quem é dela objeto (pense nisso quando contar a próxima...). No contexto da piada política há sempre um poderoso pego em situação ridícula ou ridicularizado como seu objeto; há o piadista/palhaço e há a platéia em quem se provoca o riso. Por ter poderosos como objeto a piada política sempre foi reprimida, já que a disposição natural para desnudar o rei é das crianças e dos palhaços. Para ilustrar a verve política de Getúlio Vargas, conta-se que ele, ao contrário, não reprimia, mas colecionava piadas e ‘charges’, principalmente as que eram contra ele.

Sem insistir muito na sociologia da piada – já está perdendo a graça, mesmo - acho que Tiririca, que fez campanha caracterizado, fantasiado, on acting, enfiou o dedo até o cotovelo na ferida da hipocrisia da política institucional – e está sendo linchado por isso pelos que querem a política ‘séria, com propostas, programas’ e companhia. Isso é um tipo ideal weberiano do popular ‘vestir a carapuça’. Tiririca faz graça do político ganancioso, do político aproveitador folgado e vagabundo, do político nepotista, do político ignorante e enganador. Tiririca denuncia a vida fácil e mamatas do político. Tiririca faz graça das falsas disputas, dá o vislumbre do ‘telecatch’ marmelada das tribunas e das negociações ocultas. Tiririca político mostra sua foto sem fantasia e de gravata, que surgirá na urna, e explica que aquele é ele, ele é aquele, e Tiririca palhaço pede: vote no abestado, melhor político não haverá. Esses tipos os quais Tiririca satiriza merecem tanto o escárnio que ele teve 1,3 milhão de votos, só no Estado de SP. Tiririca dá curso de realpolitik pra lá de sintético.

Lateralmente, Tiririca tira onda de quem quer levar a política tão a sério, tão limpinha, tão organizada: talvez seja o que enfureça parte dos seus detratores. Talvez seja sua cara de nordestino, talvez seu tipo de humor seja grosso demais para certos orifícios – estou falando dos ouvidos, seus mentes-sujas. Tiririca acabou por criar carapuças que servem em muitas cabeças, em algumas ocasiões até na minha. Mas há carecas de certo respeito que também espantam eleitores. Sinto muito, por mais que eu faça campanha pelo futebol arte, simpatias e antipatias pelas figuras, pelos personagens, pelas pessoas fazem parte dos aspectos não-racionais da escolha eleitoral. No quanto é possível, Tiririca fez campanha das mais honestas – chegando a cínica, talvez - e é dos poucos candidatos que se viu trabalhando, na sua profissão original, em plena campanha. Pode haver palhaços mais engraçados que Tiririca, mas é improvável que Tiririca vá ser o mais palhaço dos políticos...

Eu confesso que só estou achando graça na piada agora. Afinal, eu também sou um rapaz sério. Mais sério, só a bancada ruralista, como também a bancada da bala, a bancada da Bíblia, a bancada dos banqueiros... Tipos incrivelmente superrepresentados no parlamento, que pode representar as escolhas, mas não a população. Quanto custa, e quais as consequências de termos essas bancadas tão, tão, tão sérias? Sério, mesmo, é que eu que prefiro no lugar da Kátia Abreu e Cia., a bancada João Bosco & Aldir Blanc, com a Leonor (ou Dagmar), taxistas, prostitutas, bóias-frias, pais-de-santo, paus-de-arara, passistas, flagelados, pingentes, balconistas, palhaços, marcianos, canibais, lírios, pirados, faraós embalsamados.



TV Pirata, Rede Globo, acho que 1988.