terça-feira, 5 de outubro de 2010

A eleição de Tiririca: piada em debate

Não tinha pensado muito na eleição do Tiririca, que eu mal sabia quem era até que ele foi eleito. Sabia que era um palhaço profissional – palhaços amadores ou involuntários estão em outra categoria – e que tinha um programete eleitoral onde dizia “vote Tiririca, pior qui ta num fica” e coisas do gênero. E achava que ele ia ter um monte de votos, dada a propaganda lateral que ele acabou tendo, e concordava com a tese que seria um voto de protesto, basicamente pelo fato do voto ser obrigatório e parte dos eleitores protestaria contra a obrigatoriedade, contra os maus políticos e contra as próprias alternativas da política eleitoral votando no ‘pior’ candidato possível. Só que talvez essa explicação pelo menos mereça uma revisão, dado o andar das notícias e dos fatos. Se confirmada sua eleição, já que o Ministério Público Eleitoral quer melar sua candidatura, Tiririca não só será Deputado Federal do mais rico e poderoso estado da Federação como será, de longe, o mais votado... Se estivesse no partido com mais deputados e fosse um ‘político profissional’ poderia lançar-se candidato ‘natural’ à Presidência da Câmara, o terceiro cargo da República, apenas na força de seus votos. O falecido e fascista doidivana Eneas e o costureiro falecido, mas não fascista Clodovil foram os tiriricas de eleições anteriores.

A candidatura de Tiririca se junta ao lado mais pitoresco – mas que também já virou tradição - das eleições brasileiras, ao lado de candidaturas de ‘celebridades’, jogadores de futebol, prostitutas, sósias, pornostars, cantores e cantoras, filhos de celebridades, sobrinhos de celebridades, parente de político, e assim por diante. Assim como é tradicional o voto de protesto, seja no rinoceronte Cacareco, no macaco Simão, no Sinhozinho Malta... No século passado eu cheguei a ser fiscal numa eleição onde o voto era dado em cédulas de papel, e os votos nulos traziam uma variada gama de xingamentos, desenhos de pintos alados (isso mesmo, falos com asinhas), nomes inexistentes ou impossíveis (Tiradentes, Duque de Caxias, Silvio Santos...), mensagens mais enigmáticas (“Cão Fila Km 26”) ... a cédula praticamente virava a parede de banheiro público, cheia de grafitis.

Como eu estou sempre fazendo amizades, eu não vou me juntar aos que protestam (“xingam muito no twitter”) contra o Tiririca nem aos que acham sua eleição uma vergonha ou um absurdo. A menos que a justiça decida o contrário, o cidadão Tiririca e qualquer outro que a lei não impeça têm o direito de se candidatar, e é bom e democrático que seja assim. Assim como é saudável que os tipos mais variados arrisquem ser eleitos. Qualquer que seja sua motivação ou seu programa ou propostas. Claro que há coisas menos defensáveis e mesmo ilegais e/ou que claramente não podem e não devem ser defendidas: plataformas racistas ou discriminatórias, de dissolução do Estado Brasileiro, ou que vão contra os direitos humanos, por exemplo, não são aceitáveis. Agora, propor que o Brasil produza bombas atômicas (Eneas) ou a redução do número de deputados (Clodovil) são propostas tão dignas de discussão no parlamento quanto quaisquer outras, concorde-se com elas ou não. Se o Tiririca diz que quer ser eleito para descobrir o que faz um deputado federal e depois ele volta para contar ao povo... Ora, isso no fundo é educação política, um assunto da maior importância (sem piada!) e que, tirando o verniz que insinuava um certo cinismo oportunista que tanto ofendeu os cidadãos e políticos ‘sérios’, é uma proposta legítima, sim senhor. Eu mesmo achava que entendia alguma coisa do funcionamento do parlamento, até que por obrigação profissional passei um tempo a monitorar alguns projetos de lei do Congresso. Aí, sim, temos piadas sem graça...

Afinal, o que aconteceu para haver tantos ofendidos com a campanha à moda Tiririca, e ao mesmo tempo ter tantos eleitores? Poderíamos apelar à figura do ‘palhaço’ teórico (não ‘aquele’ teórico palhaço, mas de uma ‘teoria do palhaço’), do bobo-da-corte, do clown e, com alguma pesquisa, chegar à história social da piada e voltar, mas não é o caso e alguém já deve ter feito algo assim bem melhor do que eu. Talvez outro caminho a seguir fosse pelo ‘chiste’ ou ‘ato falho’ freudiano, mas não é a minha praia. Mas vamos partir do princípio que numa piada se pode comunicar, informar (no sentido de dar uma forma), resvalar ou desvelar um assunto, objeto ou intenção o qual, em outro contexto que não o da ‘graça’, do ‘não-sério’ e descompromissado não se poderia nem seria possível discutir ou expor, sem atentar às regras da polidez, da educação ou da suposta correção política, no limite de provocar uma reação desagradável ao mesmo tempo em que a desarma pelo riso. Numa piada pode haver um subtexto discriminatório ou até cruel, em um extremo (piadas de loira, de ‘português’ ou ‘japonês’ ou ‘judeu’ ou ‘sogra’ ou de ‘viado’...).

Como diz o Millôr, não existe piada a favor. Mas não são as piadas que criam as discriminações ou assimetrias ou paradoxos: as piadas as denunciam ao expô-las, como objeto e impulso além das risadas. Não acho que piadas ‘reproduzam’ simplesmente a discriminação, portanto. Piadas são ‘pistas’, flashes ou instantes de verdades, reveladoras tanto de quem conta a piada, como de quem dela ri como de quem é dela objeto (pense nisso quando contar a próxima...). No contexto da piada política há sempre um poderoso pego em situação ridícula ou ridicularizado como seu objeto; há o piadista/palhaço e há a platéia em quem se provoca o riso. Por ter poderosos como objeto a piada política sempre foi reprimida, já que a disposição natural para desnudar o rei é das crianças e dos palhaços. Para ilustrar a verve política de Getúlio Vargas, conta-se que ele, ao contrário, não reprimia, mas colecionava piadas e ‘charges’, principalmente as que eram contra ele.

Sem insistir muito na sociologia da piada – já está perdendo a graça, mesmo - acho que Tiririca, que fez campanha caracterizado, fantasiado, on acting, enfiou o dedo até o cotovelo na ferida da hipocrisia da política institucional – e está sendo linchado por isso pelos que querem a política ‘séria, com propostas, programas’ e companhia. Isso é um tipo ideal weberiano do popular ‘vestir a carapuça’. Tiririca faz graça do político ganancioso, do político aproveitador folgado e vagabundo, do político nepotista, do político ignorante e enganador. Tiririca denuncia a vida fácil e mamatas do político. Tiririca faz graça das falsas disputas, dá o vislumbre do ‘telecatch’ marmelada das tribunas e das negociações ocultas. Tiririca político mostra sua foto sem fantasia e de gravata, que surgirá na urna, e explica que aquele é ele, ele é aquele, e Tiririca palhaço pede: vote no abestado, melhor político não haverá. Esses tipos os quais Tiririca satiriza merecem tanto o escárnio que ele teve 1,3 milhão de votos, só no Estado de SP. Tiririca dá curso de realpolitik pra lá de sintético.

Lateralmente, Tiririca tira onda de quem quer levar a política tão a sério, tão limpinha, tão organizada: talvez seja o que enfureça parte dos seus detratores. Talvez seja sua cara de nordestino, talvez seu tipo de humor seja grosso demais para certos orifícios – estou falando dos ouvidos, seus mentes-sujas. Tiririca acabou por criar carapuças que servem em muitas cabeças, em algumas ocasiões até na minha. Mas há carecas de certo respeito que também espantam eleitores. Sinto muito, por mais que eu faça campanha pelo futebol arte, simpatias e antipatias pelas figuras, pelos personagens, pelas pessoas fazem parte dos aspectos não-racionais da escolha eleitoral. No quanto é possível, Tiririca fez campanha das mais honestas – chegando a cínica, talvez - e é dos poucos candidatos que se viu trabalhando, na sua profissão original, em plena campanha. Pode haver palhaços mais engraçados que Tiririca, mas é improvável que Tiririca vá ser o mais palhaço dos políticos...

Eu confesso que só estou achando graça na piada agora. Afinal, eu também sou um rapaz sério. Mais sério, só a bancada ruralista, como também a bancada da bala, a bancada da Bíblia, a bancada dos banqueiros... Tipos incrivelmente superrepresentados no parlamento, que pode representar as escolhas, mas não a população. Quanto custa, e quais as consequências de termos essas bancadas tão, tão, tão sérias? Sério, mesmo, é que eu que prefiro no lugar da Kátia Abreu e Cia., a bancada João Bosco & Aldir Blanc, com a Leonor (ou Dagmar), taxistas, prostitutas, bóias-frias, pais-de-santo, paus-de-arara, passistas, flagelados, pingentes, balconistas, palhaços, marcianos, canibais, lírios, pirados, faraós embalsamados.



TV Pirata, Rede Globo, acho que 1988.

3 comentários:

  1. foi bom ler este texto!
    a candidatura sincera do tiririca, que diz que não sabe como funciona a política e vai lá para nos contar depois, é simplesmente o olho espiatório desejado. a utópica verdade vigiada. o big brother político com o palhaço lá dentro, dizendo que aquele também é seu lugar.
    como é preciso pensar, antes de criti-riricar.
    saudações!
    carla rabelo

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    1. detalhe ele não vai poder nos contar, porque ele vai se enquadrar na lei da salvaguarda e vigilância que é reservada - não pode ser divulgada.

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  2. http://www.advivo.com.br/node/220405

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