sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Eleições 2010: entendendo a produção da notícia: siga o dinheiro... ache o ódio calculado

A atuação política da imprensa, numa democracia moderna, não é nenhuma novidade e é esperado e mesmo saudável que aconteça. O modelo é mais ou menos o seguinte: o fazer ‘técnico, profissional’ de relatar fatos deve ser separado da função ‘editorial’ e de ‘opinião’, e guiado por regras como a relevância do fato (a sua ‘importância’), pela correta e completa descrição dos fatos, a busca da objetividade e impessoalidade, pelo equilíbrio de versões dos diferentes atores e pelo respeito à privacidade. Jornais de papel, rádiojornais e telejornais (e mesmo suas versões na internet) normalmente seguem a divisão em ‘editorias’ (política, economia, esportes, variedades). Numa editoria especial, a de opinião, o jornal ou revista manifesta sua preferência ideológica qualquer que seja ela – isso, numa democracia, claro. Aqui estamos nos referindo a um jornal generalista ou equivalente (como um portal de internet), chamado normalmente de ‘grande imprensa’ ou ‘imprensa de massa’. Há no mercado uma infinidade de órgãos informativos especializados num determinado tipo de notícia, como a imprensa sindical, a imprensa científica, imprensa esportiva ou de decoração ou arte ou gastronomia e assim por diante. Basta ver uma banca de jornal para uma amostra da variedade de assuntos e veículos. E até aqui, nenhuma novidade, certo? Só para lembrar, num contexto de um regime autoritário se reprime a variedade de opiniões, em especial as que não são favoráveis ao poderoso da hora. Num regime totalitário, a coisa é mais ‘simples’ ainda: há uma única opinião possível, a do governante, e pronto. O mecanismo de controle da opinião num regime autoritário ou totalitário é a censura, mas há outros mecanismos mais ou menos sutis, que não deixam de atuar mesmo numa democracia, como o poder econômico e o controle ou a posse dos meios de produção de informação. No regime antigo, havia a indistinção entre Estado e Igreja como arranjo para o controle das consciências.

Assim, teoricamente, se você vive numa democracia e quiser saber a previsão do tempo, o resultado do jogo, o movimento da bolsa ou os crimes da véspera, tanto faz se o jornal é de esquerda ou liberal ou conservador ou reacionário. Na prática, não é bem assim, já veremos isso um pouco melhor, já que há uma série de fatores que dependem da existência de uma liberdade fundamental, que é a de escolher qual o seu meio de informação. Se estamos falando de uma sociedade capitalista pós-industrial, onde existe em relação determinante um mercado complexo, é de se esperar uma variedade de escolha que pelo menos espelhe a diversidade que vem do aumento de interesses em jogo. Mas isso não é automático, claro. Depende de fatores históricos, para dizer o mínimo.

Então, imagine um país cuja economia é a oitava mais importante do mundo, possui duzentos milhões de habitantes, tem a economia em sintonia com as mais avançadas, centenas de milhares de empresas, quase seis mil municípios, um Estado de bem-estar que, grosso modo, conquista avanços importantes, e possui sucessos bastante reconhecidos, em campos dos mais variados, como a agroindústria, a indústria aeronáutica ou Gisele Bündchen. É o único pentacampeão. E, para o futuro, possui recursos naturais, biodiversidade, terra, água e petróleo. Muita água, muito petróleo. Muita terra. Agriculturável. E vai jogar a próxima Copa em casa. Mas esse país tem muito pouca imprensa, melhor dizer, poucas empresas de imprensa de massa.

É claro que estou simplificando, mas o fato é que muito poucas famílias – a imprensa no Brasil ainda é de empresas familiares, sintoma de ‘atraso’ nesse mercado – controlam os principais jornais, revistas, rádios e TVs (e parte da internet...) do Brasil. Os Marinho, os Mesquita, os (‘o’?) Frias, Saad, Civita... nem lembro de mais alguma. Então, isso é um fato: há muito poucas pessoas controlando os meios de produção de informação no Brasil. Isso mesmo: alerta amarelo!

OK, há certo setores econômicos em que os fatores de produção favorecem o surgimento de oligopólios, e a competição é bastante limitada, mesmo – ou especialmente - nos setores de tecnologia mais avançada (Intel X AMD e...?). Mas o que há de avançado na imprensa de massa brasileira? Decerto não é a estrutura de propriedade. Mesmo outra tradicional aberração – e aberração do ponto de vista do desenvolvimento capitalista! – o latifúndio agrário, vem ao menos sendo transformado: a legislação avançou, a aplicação da lei vem claudicante, mas vem vindo em boa parte graças à força do MST, e o próprio surgimento do ‘agronegócio’ ou arruinou ou vem obrigando a uma modernizaçãozinha da coronelada, bem de leve. Capitalismo no dos outros é refresco...

Mas o que explica a existência da imprensa latifundiária, meia dúzia de famílias que controlam o grosso da informação a 200 milhões de brasileiros? Vontade divina? Os únicos que sabem jornalismo no Brasil são essas famílias? Fatores de mercado? Meu palpite, para não enrolar muito, e que nem deve ser original, e talvez seja semelhante a lugares como a Argentina, é que essas famílias aproveitaram sua influência e se posicionaram estrategicamente nas mudanças de poder/regime, em certas ocasiões fazendo força para fechar, e em outras ocasiões para abrir, de acordo com seus interesses situacionais. Em 1964, fizeram força para fechar (por exemplo, em 1 de abril de 1964 o Estadão não circulou, mas no dia 2 a sua manchete foi: ‘Vitorioso o Levante Democrático’... eu vi num arquivo, não sou tãããoo velho). No começo dos anos 1980, para abrir (“Folha, não dá para não ler”) e ganhar leitores ávidos por ar fresco. Como empresários, membros do ‘núcleo duro’ da elite brasileira, fizeram o que faz a elite brasileira: planejaram, construíram ou compraram ou grilaram, desenvolveram, e lutam, lutam muito, e lutam baixíssimo para manter um pacotaço de privilégios à custa da máquina do Estado e, por tabela, à custa da população que não faz parte da elite. Como toda elite, essa é endogâmica, tem veleidades aristocráticas, forma panelinha fechada, e até expulsa os Chateaubriands e demais novos-ricos sem pedigree.

A imprensa brasileira, dita grande, ditadura, ditabranda; sempre deu um jeito de estar próxima, influenciar, fazer alianças, trocar favores – e exterminar inimigos comuns – produzir celebridades, candidaturas ou escândalos, influenciar votações e leis, criar e destruir reputações, e pressionar (talvez até pior) aos governantes de plantão pelo menos até 2003 (quando Lula foi eleito e tolerado bem a contragosto enquanto se esperava que caísse sozinho, afinal era só um nordestino iletrado... que virou o mais bem sucedido presidente que tivemos. Talvez Lula só tenha se distanciado mais da imprensa após a reeleição de 2006). Numa frase, a imprensa tinha grande capacidade de pautar as ações do governo. A política de relacionamento próximo aos sistemas de poder é uma questão pragmática, do ponto de vista dos negócios, isto é, de garantir a ‘reserva de mercado’ da informação (pela posse das empresas de comunicação continuar a ser de brasileiros, exceção (aberrante?) da lei brasileira). Isso garante a repartição bem graúda a cada um do butim das verbas publicitárias, inclusive verbas públicas, e a capacidade de ditar o preço aos anunciantes. Livros, jornais, revistas e papel de impressão gozam ainda de isenções tributárias constitucionais (Art. 150, “d”). Começamos aqui a ver mais de perto, ou pelo menos imaginar, o dinheiro circular.

É interessante notar que o aprofundamento da democracia, o desenvolvimento social e econômico, a organização dos trabalhadores, o avanço tecnológico e o advento da internet, a internacionalização da economia, o crescimento das cidades do interior, o aumento da população com nível superior, são vários dos fatores dos últimos 20, 30 anos que poderiam impulsionar o negócio da informação, sem necessitar de muletas históricas. E na verdade impulsionaram... talvez não para aquela mesma meia dúzia de famílias. Entretanto, parece haver uma relação forte entre a difusão da internet e a queda da circulação e da importância política e cultural da ‘mídia impressa’, mundo afora. E aqui no Brasil também: o encerramento da versão impressa do veterano Jornal do Brasil não tem sequer um mês, acho. Aparentemente, e isso é facilmente localizado – onde mais? – na internet, as tiragens dos jornais e revistas vêm caindo sistematicamente aqui no Brasil. Estão seguindo o dinheiro?

Voltando um pouco, eu havia dito que achava que os atuais proprietários da produção da informação no Brasil haviam conseguido se posicionar vantajosamente nas mudanças de regime, jogado o jogo tradicional do poder desde então e portanto, sejam eles os poucos dinossauros sobreviventes. Talvez agora, com as grandes transformações pelas quais passamos – e estou falando, por exemplo, de redução da desigualdade, mas muito mais que isso – as seis famílias tenham percebido que fizeram escolhas estratégicas erradas e o jogo do poder não é mais aquele onde sempre ganhavam. Afundadas em seu próprio preconceito, apostaram e agiram contra o governo Lula, quando este, por exemplo, democratizou e descentralizou para veículos regionais a distribuição de verbas da publicidade oficial (olha o $$$!). Se envolveram em negócios suspeitíssimos (como mostra o sensacional blog NaMaria) com o Governo José Serra e tucanagem e democompanhia. Falharam em enxergar que há novos atores surgindo, e esses novos atores não tem a ligação de identidade (até sentimental) com a imprensa tradicional, isto é, não conseguiu novos leitores e vem perdendo os que tinha. Perde, e vem perdendo, com isso, influência, e principalmente, o $$$$.

Agora, no desespero, vê crescer a influência dos blogs, a produção e distribuição de informação ‘em rede’, muito mais rápida e incontrolável, muito pouco suscetível ao controle, capaz de confrontar versões, desmontar boatos, e ‘pior’, capaz de crítica, de desmontar esquemas e modelos, de usar arquivos, memórias e documentos de forma até então inimaginável. Capaz, como foi na eleição de Obama, de pelo menos momentaneamente inverter a lógica do poder. Por isso, as 6 famílias com certeza vêem como um risco o Plano Nacional da Banda Larga... acho que nem preciso e$$$plicar. Alerta Vermelho!!!

Então, acho que há boas razões para dizer que, nessa eleição, a atuação política da grande imprensa brasileira ultrapassou todos os limites, aparentemente como ato de desespero, que uniu as 6 famílias a despeito de suas diferenças. O primeiro limite é o da própria divisão ‘editorial’: veículos inteiros foram ‘politizados’, até novelas, e todas as editorias, todos os colunistas foram convocados a marchar ordem-unida, na difícil missão de esconder todos os fatos positivos do governo e superamplificar, quando não inventar, as piores notícias do pior modo possível, esquecendo de qualquer boa prática jornalista que porventura tenha existido e, em certos momentos, segurado a máscara democrática dessas famílias. Em alguns momentos não dá para disfarçar, como no caso da demissão da Maria Rita Kehl do Estadão e pela Folha de S. Paulo publicar um ‘spam’ de ódio e calúnia contra a Dilma como manchete. O segundo limite, como conseqüência, é o da prudência, de arriscar seu próprio capital social, sua credibilidade junto aos consumidores, anunciantes – e cidadãos. O terceiro limite é o da civilidade: como animal ferido (detector de clichê apitando!) se torna mais perigoso, e se o juiz dessa partida fosse mais sério já teria distribuído cartões vermelhos às pencas para esse time.

Talvez a pior conseqüência seja a radicalização, em especial a da ‘direita’: ao partir para o vale-tudo mal disfarçado em notícia, essa elite ‘tão chique’ dá a senha para todos os hooligans, profissionais ou meros voluntários, cavalgadores de todos os tipos e subtipos de ódio, difamadores, caluniadores, mistificadores, gente que adora uma fofoca, um barraco, gente que não se deveria levar a sério no século XXI saiam de suas tocas e cloacas e venham para o espaço público como as sete pragas do Egito de carona em tsunamis do inferno. Ressentidos, paranóicos, gente com nenhuma estima, preconceituosos, covardões anônimos, linchadores, ou sei lá, talvez mesmo um batalhão de ingênuos numa era em que a ingenuidade é mortal – gente que, pelo menos, guardava para o seu espaço privado tais ideias. Não há como ser condescendente, na luta política democrática, contra calúnias quanto a religião ou sexualidade ou gênero ou que atingem a honra do presidente da República e da candidata Dilma. Embora isso não seja novidade – o próprio Fernando Henrique Cardoso, que foi vítima de calúnias difamatórias pesadas dos apoiadores de Jânio Quadros – eu vi os panfletos – na eleição para prefeito de São Paulo de 1985, hoje se presta, mesmo como ex-presidente, e talvez pior, como sociólogo, a validar esse vale-tudo nojento.

Qual seria, afinal, a motivação dessa gente toda, de ex-professores universitários renomados e até ontem, razoáveis, a gente que mantém sites neonazistas, passando por pastores oportunistas, especialistas de aluguel, padres ligados a seitas secretas, spammers profissionais e desocupados do submundo virtual, especuladores da Bolsa interessados em derrubar as ações da Petrobrás, a ala direita do Partido Republicano norteamericano, estrangeiros de olhão no pré-sal, ambientalistas de gabinete, jornalistas mercenários, cantores-cineastas... numa grande frente que não é nem de oposição política, nem se fecha ou reduz em disputas partidárias, mas é explicitamente de ódio ao presidente Lula, à candidata Dilma, ao PT, e por tabela, também ódio aos nordestinos, às mulheres, às minorias. Ódio aos funcionários públicos. Aos professores... hoje é dia dos professores... Ódio de classe, de saudades do escravo e daquele pobre submisso. Ódio à nova classe média de gente parda que lota shoppings centers e concessionárias e aeroportos. Ódio ao Neymar e todos os neymares abusados e dribladores que não sabem o seu lugar... e não jogam para perder como sempre perderam os pobres desse país.

Por falar em perdedores, qualquer que seja o resultado dessa eleição, o perdedor para mim terá sido aquele que o leitor já sabe: o futebol arte.

3 comentários:

  1. coronelismo midiático ou negócio familiar. belo texto! uma boa oportunidade para que as pessoas tenham acesso a uma leitura com referências importantes à atual conjuntura política em disputa.
    abs, carla rabelo.

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  2. Delicioso texto, muito importante e bem escrito. Me foi repassado por uma amiga. Lembro que no Rio Grande do Sul, Bahia e Maranhão também há a reverberação da nojeira da elite paulista e dos cariocas Marinho: famílias Sirotsky, Magalhães e Sarney.

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  3. Puente Llaguno: documentário mostra a manipulação de imagens, mas na Venezuela: no site do Azenha:

    http://www.viomundo.com.br/politica/puente-llaguno-o-documentario-que-poucos-viram-no-brasil.html

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