quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Eleições 2010: estressar o eleitor não é efeito colateral, é objetivo político

O Ministério da Saúde Adverte: nada, nada a ver com o famigerado 'Cansei'...

Faltando poucas horas para o 2° turno da eleição para presidente do Brasil, não é incomum encontrar eleitores já de saco cheio desse assunto - mesmo aqui nesse modesto bloguinho. E você, também anda cansado? Acha difícil de entender, ou de decidir quem  'mente menos' na propaganda eleitoral, em e-mails e spams e do twitter/facebook/orkut, das capas dos semanários e manchetadas dos diários, nos esquetes radiofônicos. Você não aguenta mais falar de eleição com seu barbeiro ou manicure ou barista (ex-balconista de padaria), com colegas de trabalho, nem o povo da academia, do busão/metrô. Você escuta os jingles eleitorais e a sua pressão já sobe. Nos papos com amigos e parentes, então, você sente dor de barriga, náuseas, tonturas, alucinações. Quer chamar a polícia e a cruz vermelha. Você tem coceiras. Surgem instintos assassinos. Ou dá vontade de sair correndo e fugir pro mato... Escutar seu sociólogo ou cientista político, então, nem morto. Aliás, você tem mais é vontade de esganar um especialista. Em suma, se você tem um ou mais desses sintomas você pode estar acometido de uma patologia que podemos chamar de Síndrome do Estresse Induzido pelo Sofrimento Pré-Eleitoral. Em época de eleição surgem crises agudas. É provocado pelo bando de gente querendo te influenciar a votar nesse ou nessa. Eu também quero influenciar, você já sabe, claro, é disso que se trata uma campanha eleitoral, mas nesse assunto e nesse momento espero dar só minha pequenina contribuição voluntária, e dar algum alívio pros atingidos de qualquer lado. Quem sabe podemos em futuro próximo fundar uma associação de auxílio mútuo, tipo 'Sofredores Eleitorais Anônimos'...

Então deve ter sido mais ou menos assim: vem desde o início do horário eleitoral, mas pode ter vindo bem, bem antes, talvez de eleições bem anteriores. Você que é um a pessoa esclarecida espera que cheguem informações sobre os candidatos, e em geral, vamos ser honestos, que essas informações apenas confirmem preferências (ou antipatias) anteriores, já adquiridas, como as partidárias ou de empatia com políticos com mandados anteriores. Se você, como a maioria, não tem opiniões ou posições políticas rígidas, então é a você que serão dirigidas centenas de milhares de horas de trabalho de produção da influência: trabalhos de som, de vídeo, de papo-furado, de estudos e pesquisas, de reportagens e matérias e entrevistas e debates, pôsteres, bâneres, santinhos, folhetos, comícios, de zilhões postagens em incontáveis sites e blogs, e de bilhões - senão trilhões - de e-mails. É um dinheirão. Só para organizar a eleição são quase meio bilhão de reais. Eu teria que pesquisar direitinho quanto custou a eleição brasileira, incluindo aí outras renúncias fiscais e gastos do Estado e uma estimativa de "caixa 2", mas digamos que o PIB eleitoral deve estar por volta de 1 bilhão a 5 bilhões de reais, chutando beeem baixinho (Eike Batista poderia pagar a eleição e ainda continuar rico). Isso quer dizer cada voto deve ter custado algo entre R$ 6 a R$ 30 por eleitor. Não é pouco. Mas é troco perto do impacto que podem ter as decisões dos novos eleitos, principalmente para os cargos executivos. Vou desenhar para todo mundo entender: cada voto vale um 'dinheirão' imenso perto do que ele custa. Até o da vovó já meio gagá.
Eu sempre acho que o resultado das eleições do Legislativo costumam ser em geral 'piores', no sentido que as ligações que tem o eleitor com os seus candidatos das três esferas do Legislativo (municipal, estadual, federal) é mais frágil, menos transparente, menos constante, para dizer pouco, aqui num Brasil presidencialista. Isso, quando o eleitor tem algum interesse e além do mais a 'sorte' de ter elegido todos os candidatos legislativos em que votou, o que não é o caso da maioria dos eleitores. Mas se a eleição legislativa pode ser estressante também, ela tem lá sua graça. Quero dizer: ao menos racionalmente, a eleição dos legislativos me estressa mais, ao saber que 'm3#)@' pode ser. Mas essa pelo menos já passou. E se os legislativos custam caro, eles 'valem' pouco, pois quem de fato comanda o grosso do orçamento público são os executivos.

Há vários lugares na internet para entender os mecanismos gerais do jogo sujo eleitoral, o que eu mesmo ando tentando dar uns pitacos no nosso Margens, mas leia-se esse artigo de quem não é exatamente do ramo: é um neurocientista (Miguel Nicolelis). Ele descreve a importação dos métodos eleitorais da direita norteamericana para a nossa eleição, em resumo, a mais suja, baixa, abjeta manipulação calculada de informações e desinformações direto de onde tudo roda em torno de trilhões. De dólares. De Euros. Bufunfa, money, grana, pacote... Frise-se que não estamos falando de dinheiro com ficha suja: o dinheiro da corrupção no Brasil pode ser até bastante, mas a corrução é só um indicadorzinho lateral e pouco confiável dos valores que estão envolvidos. 4 milhões do Paulo Preto... mensalões... rárárá.

Então, direto da cachola dos melhores manipuladores de emoções do mundo, que deu nada mais nada menos que a hegemonia hollywoodiana, mais a falta de escrúpulos que o estímulo monetário comprovadamente exerce, mais algumas alianças com setores que acreditam no sobrenatural, e pronto. Faz-se o eleitor ser inundado de estímulos que o levam da indignação à depressão quase suicida, passando pelo susto, pela angústia, pela raiva, ira, ultraje, constrangimento, pela confusão. Pelo medo. Pela certeza fanática. Mas o importante parece que não é isso: é manter o eleitor 'complacente', quero dizer, impedir que ele constitua, por si, com autonomia, seu posicionamento político, de acordo com sua situação e interesse. De acordo com sua história e consciência. Então, daí vem o nosso palpite de hoje, já entregue no título: estressar o eleitor por todos os meios possíveis e imagináveis  não é um efeito colateral, indesejado, um acidente da discussão política (incluindo ficção científica jornalística onde bolinha de papel é arma de destruição em massa). Cansar, exaurir os eleitores, espantá-los, é um objetivo político que com certeza foi traçado e decidido em reuniões de negócio, e bolou-se uma estratégia, viabilizaram-se os recursos e meios e todos os macroprocessos, processos, atividades e tarefas. E vamos lembrar, isso é Política I, de cozinhar o galo e criar confusão, por exemplo, numa assembléia estudantil para cansar e espantar os seres humanos normais e as decisões serem tomadas de madrugada só pelas panelinhas. Antes que me acusem, provavelmente isso foi inventado lá atrás, pelos contemporâneos atenienses de Aristóteles, os primeiros e legítimos demagogos.

Cansar o eleitor é um empreendimento dessa eleição. O estresse do eleitor é intencional e metodicamente produzido. E eu afirmo que é possível rastrear os responsáveis. E eu não estou contente de ter percebido isso só agora, tão perto da decisão.

Veja que não é que eu desdenhe do papel da ideologia, mas a quantidade de dinheiro é um indicador da gravidade e do tamanho da coisa. Nisso, nossa eleição é gigantesca.. Muuuuiiiitooo. TeraGigaHiperExtraMegaBlaster Turbo. Só de pré-sal temos uma Arábia Saudita. Senão duas. E amazônia. E mercadozinho de 200 milhões de cabeças. É por isso que quando a Economist e o Financial Times anunciam sua preferência por José Serra, já sabemos quem irá tratar melhor as corporações transnacionais que esses veículos representam.

Então, quanto vale nossa dor-de-cabeça, nosso estresse, nosso dodói? Claro que para quem está sentindo, eu mesmo sentia, vale muito. Mas para quem está provocando, vale mil, milhões de vezes mais. Tá se sentindo melhor agora?



Para lembrar de acabar em samba. Desejo a todos uma boa eleição.

Um comentário:

  1. ...Miguel Nicolelis não precisa de apresentação minha, mas para quem não conhece, assistam os vídeos de uma aula inaugural do segundo semestre de 2009 na UnB (do Nassif). Vejam o que é o cara: http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/miguel-nicolelis-sonhando-o-impossivel

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