segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Pequena contribuição para uma sociologia da panfletagem

Em um bairro de classe média alta da cidade de São Paulo, que vou chamar de Vila Tucanópolis (ali pertinho do Jardim Tucanalena), um grupo de militantes, a maioria (pela cara) de trabalhadores intelectuais e estudantes, fez uma panfletagem da candidata Dilma Rousseff para o segundo turno da eleição de 2010 para presidente da República. Eu, que já tinha feito algumas panfletagens e passeatas quando era estudante ("fora daqui o FMI..."), e agora acompanhado da família, tentei tirar a ferrugem e distribuir alguns adesivos para os carros que paravam no semáforo.

A primeira coisa a dizer é que agora os vidros dos carros são muito escuros e não dá para ver a) se tem gente dentro; b) se é homem ou mulher; c) velho ou jovem; e d) se estão me vendo ali, tentando fazer algum 'eye contact'... Esses carros com vidros escurecidos, que são maioria, parecem então dizer que querem privacidade e não serem reconhecidos, isto é, querem circular anonimamente. Por outro lado, também não dava pra ver direito se alguém estava apontando para mim, me xingando ou me mostrando o dedo médio. Provavelmente sim, desconfio, alguns deles aproveitavam o seu anonimacarro flex para me xingar. Claro, passaram muitos carros de vidros abertos ou vidros normais e alguns motoristas e acompanhantes nos xingaram, outros um pouco mais numerosos nos encaravam como se fôssemos um bando de comedores de criancinhas, outros balançaram as cabeças negativamente, muitos apenas 'rosnaram', quer dizer... bom, deu para entender. A grande maioria fingiu não nos ver, ou nem ligou para nossa presença, entretanto. E uns poucos carros aceitaram os adesivos e outros badulaques, passaram buzinando ou apenas sorrindo e/ou sinalizando 'thumbs up'. Fizemos muito mais sucesso com os passageiros de ônibus...

Claro que uma panfletagem desse tipo é uma ação mais simbólica, performática, que propriamente de esclarecimento ou de debate - quero ver quem consegue explicar a diferença entre a gestão macroeconômica dos governos FHC e do Lula nos poucos segundos da espera do semáforo indo além do "Lula pagou a dívida externa do FHC!!!" ou o "FMI foi embora daqui!!!" ou ainda "Lula pos o PIB pra fora..., digo, pra cima!!!". Na verdade, nem deu pra gritar muitas palavras de ordem. Mas de alguma maneira é importante que numa campanha eleitoral se faça algumas ações de 'presença', de visibilidade da campanha, especialmente num momento em que parece que todos os militantes (voluntários quase todos) ali presentes entenderam que a eleição não está ganha e era importante e necessário sair de casa num sabadão e, em plena tucanolândia, aparecer e 'fazer algum agito'.

Se eu gostasse de estereótipos o prato transbordaria: um senhor cinquentão, corpulento, dirigindo um jipão importado (esses tanques de guerra aerodinâmicos e caríssimos que infestam certos bairros ricos), de cabelos e olhos claros me olha feio e acho que me jogou praga nalguma língua eslava. Esse cidadão poderia ser um dos que Lula chamou de 'banqueiros loiros de olhos azuis' que provocaram a crise de 2008/09. Só que banqueiro de verdade deve ser muito rico até para dirigir o próprio carro (que seria uma limusine, mas não passou nenhuma dessas). Recebi olhares de desprezo de madames paulistanas que me fizeram pensar que para fazer uma cara daquela são necessárias décadas de desfaçatez de classe. Outras madames, mais classudas ainda, usaram aquele olhar que é bem pior que o de desprezo: o olhar de barreira, o olhar-que-não-vê, o olhar para você como se você fosse invisível, como se não estivesse ali, ou como se você fosse um poste ou uma pedra da calçada, o olhar que nega a sua existência, o olhar que te atravessa, coisifica e que transcende até a vitimização, pois nem digno de ódio ou qualquer sentimento ou mesmo o gasto de energia de te perceber ali. Esse olhar que 'nadifica' uma pessoa, que teleporta sua presença para a insignificância, te des-presencia, te des-pessoa, é um olhar que conhecem bem os faxineiros, lixeiros (há pesquisas, acho), mendigos, mas também os demais trabalhadores de serviços e, dependendo, bancários e mesmo médicos e outros trabalhadores mais qualificados. Meu palpite, entretanto, é que algumas categorias profissionais são mais orgulhosas que outras para admitir que são tratados dessa forma. É que essas mulheres são verdadeiras ninjas na arte da intimidação das classes 'subalternas'...

Bem, também atraímos alguma desamistosidade de mocinhas de chapinha e um ou outro pitboy, para registro que não apenas os mais velhos e ricos demonstraram sua contrariedade conosco, os petistas. Aliás, nas escolas desse bairro, City Long Beak, tidas como dentre as melhores pelo suplemento propagandístico que vem encartado numa revista semanal da imprensa golpista, chega ao fanatismo cego o tucanismo juvenil (talvez isso, mais o marinismo dos universitários, mereça uma pesquisa...). Como a maioria dos maiores de 16 não tirou seu título de eleitor porque papai ou mamãe não levou, não é ainda esse voto jovem que azulece esse bairro.

E há a questão do 'clima' de animosidade, de ódios e rancores insuflados nessa campanha em especial, quando as técnicas de 'spammificação' da campanha, de 'melação', difamação, catimba grossa e mistificação aprendidas dos consultores eleitorais da extrema direita norteamericana (como o tal consultor de nome indiano e turbante, que baixou no comitê adversário) estão sendo largamente usadas. Some-se a conjunção com a bem mal disfarçada disposição golpista da meia-dúzia de famílias controladoras das mais importantes empresas de informação brasileiras, e a aliança com a tradicional extrema-direita brasileira e religiosos conservadores - o que em alguns casos, como da TFP, é quase a mesma coisa - e se tem um cenário potencial faiscante e ácido nas ruas.

Vejam, não quero que me entendam mal: dessa vez não fui, e não fomos, mais maltratados que outros fulanos uniformizados e ligeiramente atrapalhando o tráfego costumam ser aqui em sampa. A panfletagem, no pouco tempo que pude estar ali, e considerando o clima atual de ai-que-vontade-de-ferrar-um-petista-fdp, foi muito tranquila e alegre e 'pra cima' até porque a ideia é desarmar os espíritos, e fazer campanha numa boa. Especialmente quando parava um ônibus, e mais gente se dispunha a interagir conosco (e até aceitar panfletos). E a manifestação contrária era esperada, é necessária e faz parte da democracia. - sem a parte dos rosnados contra nós, claro. O que foi possível fazer para 'ganhar as massas' foi feito. Sorrimos, pedimos licença, obrigado, e mandamos beijinhos e tchaus. Não é fingimento, somos simpáticos mesmo... As provocações, xingamentos e gracinhas foram respondidas o mais espirituosamente possível, sem nenhuma animosidade de nossa parte. E nem fiquei pensando muito nisso ali na hora: panfletar também requer uma certa prática, algumas tentativas até que o estranhamento de estar ali na rua bandeirando (e tentando 'ler' a receptividade por trás de vidros escuros) passe, e a gente pegue algumas 'manhas'. Isso, além de alguns cuidados, como não ser atropelado nem atrapalhar ninguém pra não dizerem 'ai, só podia ser da Dilma'...

Mas aí a gente chega em casa e fica pensando, afinal, porque um estranho teria raiva de mim (ou eu raiva dele) a ponto de me xingar ou ficar tão aborrecido em receber a oferta de um panfleto, que eu acho que estragamos o sábado de uns eleitores do outro candidato. Estranhos que nunca se viram na vida, mas prontos a se provocarem, ou mesmo partirem para o pugilato, como diziam antigamente as gazetas, apenas pelas diferentes cores de camisa existem hoje, por exemplo, na figura das torcidas organizadas de futebol - mas também, em outros países, além do futebol, em conflitos étnicos, entre nacionalidades e outras populações. Em geral, há atritos devido a disputas de território, interesses, recursos e status, que ajudam a acirrar os ânimos (e também de torcidas, quando os times representam facções ou diferentes populações ou etnias, como parece ter sido o campeonato da extinta Iugoslávia).

Acho que foi nas aulas de antropologia na faculdade aprendemos que a dinâmica que opõe iguais x diferentes; nós x eles; nacionais x estrangeiros; minha família x sua família; meu time x seu time; meu partido x seu partido; minha classe x sua classe e outras oposições desse tipo não apenas são comuns (aparentemente universais) como são constituidoras do que se entende por 'identidade', 'cultura', 'tradicão' - e política. Estou esquematizando muitíssimo, mas a ideia básica é que por movimentos de contraste, oposição, identificação, distanciamento, dependência ou parentesco, choque e assimilação, e assim por diante, grupos vão tomando formas e as manifestam das mais variadas maneiras (gostos, aparências, símbolos e assim por diante, até sistemas de pensamento). Numa sociedade democrática moderna as definições básicas da identidade individual vão se tornando por definição mais escolhidas que herdadas ou tradicionais. Nessas sociedades, onde o indivíduo tem relativa autonomia em relação ao seu grupo de origem (família, etnia, gênero etc.), ele pode definir, por exemplo, se terá religião e qual será, com quem se casará, qual profissão ou trabalho, onde irá morar (de acordo, claro, com seus recursos), a ideia de tolerância com o diferente ou o dissonante é fundamental. Fundamental para o funcionamento da mobilidade, que é fundamental para a modernização, que é um processo que dilui ou destrói as diferenças até então estabelecidas. Aliás, tolerância deve ser diretamente relacionada ao direito à diferença entre cidadãos que vivem pelo estatuto da igualdade. A igualdade aqui diz respeito ao usufruto de direitos, como os direitos políticos de votar (ou seja, de escolher) e de ser escolhido (candidatar-se).

Aqui no Brasil estamos numa sociedade jovem, recém-urbanizada, recentissimamente democratizada, em direção a uma sociedade ocidental, moderna e capitalista, mas ainda muito desigual, ainda cheia de atritos, de zonas de sombra e incompreensão. Ou seja, de fermentação e elaboração de igualdades e diferenças entre grupos e pessoas que ainda não estão estabilizadas ou estão em dinâmicas de choque. A tolerância num contexto como esse é ainda mais importante, para permitir que os 'arranjos identitários' sejam resolvidos e evoluam sem conflitos mais violentos, ou então, caso contrário, as diferenças se cristalizarão, entrincheirizando as disputas e represando mudanças claramente necessárias. Caso, por exemplo, da questão racial nos Estados Unidos, mas também dos conflitos étnicos (e que equivocadamente, acho, se atribuem aos imigrantes) na Europa.

Lógico que tolerância não é vale tudo, não é admitir mentirada, nem que se chame o bispo, nem que se catimbe o jogo. O Brasil e sua diversidade étnica e cultural é vendido no exterior como país de tolerância, mas era ainda o país que não crescia, não se livrava da pobreza, e na verdade possuia uma elite que se aproveitava dessa pobreza (literalmente, caso dos baixos salários) e a reproduzia (veja o caso da qualidade da educação pública) e reprimia (veja-se a atuação das polícias nas favelas)... e impedia a construção de um aparelho de Estado que enfrentasse de fato essa situação.

O meu singelo palpite, portanto, é que naquele bairro onde há poucas décadas houve uma fazenda de café, depois um loteamento popular e cemitérios, depois estudantes e intelectuais, e agora é um bairro da moda, Vila Marina, Jardim Índio da Serra, parte dos habitantes vê sua ascensão incomodada pelas notícias de que nos rincões do Brasil não saem mais empregados domésticos como antes, não há cabeças baixas como antes, não há pobreza como dantes. Naquele sabadão, e horas depois, e agora, lembrando do companheiro que foi o primeiro a pegar um adesivo - um catador de papel e sua carroça, e isso justo comigo que não favoreço os estereótipos - talvez esteja começando a entender o incômodo que provocamos em certos motoristas de jipão. Eu estava ali, eu que sou quase igual a eles, mas estando vestido de petista - de Lula, de Dilma, de Marta, de sindicalista, de MST - eu estava ali, de bandeira e adesivos, nessa visão tão distorcida e tão classe média , nada mais, nada menos que panfletando a traição de classe... como um palmeirense gritando gol no meio da torcida corintiana.

Isto é, é 'quase' como se Hebe Camargo fizesse uma panfletagem do PCO dentro da Daslu... Como se um cidadão torcer para outro time perto da outra torcida fosse um crime...

Nessa eleição, infelizmente, a tolerância foi calculadamente deixada de lado pela candidatura demoemplumada. O espanto pelo salto desses novos personagens e a negação da sua igualdade - demonstrada pela Maria Rita Kehl quando ela questionou a desvalorização do voto do pobre no artigo que enfureceu o Conselho editorial do Estadão e causou sua demissão - a negação da competência de Lula, da honestidade do PT e da mulheridade da candidata Dilma, e outras várias afirmações de intolerância é que quebraram a tal da janela que precede o vandalismo, uma das figuras que tanto gostam os que advogam, aliás, a 'tolerância zero' como política para tudo.

4 comentários:

  1. Enquanto isso, também no Rio de Janeiro... http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/o-voto-e-o-preconceito-de-classe#more

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  2. Tentei compartilhar este texto no meu facebook e aparece que este texto foi marcado como spam. Isto impede que eu o compartilhe. !!??

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  3. Olá Anônimo: até onde eu sei a gente não espalha spam, e esse post é original nosso e não repassado nem republicado. Talvez alguém que não tenha gostado dele tenha marcado como spam, mas isso eu ainda não sei dizer. Vou pesquisar...
    Abraços

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  4. Olá Edu, tenho certeza que não é spam. Acho que foi alguém que não gostou. Tinha um outro documento, um comparativo entre Lula, Fhc, Dilma e Serra que o face tbém não aceitou. Abraços.

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