sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A volta dos que não foram: eleições 2010 e conservadorismo

Reproduzo abaixo alguns trechos de um interessante e provocador artigo de Antônio Flávio Pierucci, "Ciladas da Diferença" (publicado originalmente na revista Tempo Social, São Paulo, vol. 2 (2), 2º semestre 1990; disponível na íntegra aqui), infelizmente atualizado por conta da visibilidade que o pensamento conservador alcançou nestas eleições.

De fato, a despeito do miserê político dessas eleições, é necessário reconhecer que, sociologicamente, escancarou-se a persistência e o alcance do pensamento conservador em nossa sociedade - a questão, agora, será o que fazer disso: se e como uma sociedade "cordial", que tem como hábito a negação do conflito, irá colocar em sua grade de compreensão de si mesma como nação as tensões, contradições e paixões que tão claramente existem, restando "invisíveis" no dia-a-dia (ainda que operando nesse mesmo dia-a-dia, naturalizadas em convicções como a de que bandidos são mais matáveis que os "cidadãos de bem" ou que a vida de uns vale mais que a de outros, ou mesmo, simplesmente, nas torcidas de nariz em relação àqueles que parecem não conhecer ou não se conformar "ao seu lugar")? Como reestabelecer a ficção da tolerância após a evidência do ódio ter se espalhado subrepticiamente em panfletos apócrifos, mensagens de e-mail e até em atos falhos? Que as tensões tenham finalmente vindo à luz mais claramente abre possibilidade ou as encerra?

Em vários espaços ouvimos a expressão do mesmo desejo: "tomara que esses dias que restam até a eleição passem rapidamente"! Para que finalmente vá embora a sensação de sufocamento que sentimos, nós os cidadãos comuns que queríamos tanto crer na ilusão de que havíamos amadurecido nossa jovem democracia. Para que voltemos a poder frequentar as redes sociais sem medo de decepção com aqueles amigos mais próximos que insistem em repassar mensagens "engraçadinhas" profundamente ofensivas. Entendo e partilho desse desejo.

Mas me pergunto a qual "normalidade" voltaremos. Passará a inquietação? Será possível respirar mais leve agora que tanta coisa foi colocada na mesa? Saberemos, e poderemos (pois são coisas diferentes), reestabelecer os termos de um pacto social sem os contrangimentos da hipocrisia de antes da eleição e do risco eleitoral da crítica a um governo tão popular? Eu espero sinceramente que sim, mas não acredito que seja possível sem muito trabalho - de análises, de reflexões, de debates, de engajamentos. Fechadas as urnas no domingo dia 31 de outubro, pode até ser que uma fase termine, mas aí é que será mais necessário arregaçar as mangas e continuar a "falar de política". Porque, ao contrário das falas que - em geral para rejeitar o contraditório - afirmam que política é como "religião e futebol" e, assim, não se discute, não existe política sem discussão porque política não é coisa de indivíduo e cada um tem a sua: a política é justamente o que nós é comum, mesmo que contraditório e cheio de tensões.

Finalmente, reproduzo alguns trechos do artigo porque ele traz iluminações (de um modo bastante desconfortável para os que acreditamos nas ilusões das mudanças dos últimos 16 anos), sobre as razões de fundo da introdução - no debate eleitoral - de tópicos dos PNDHs. Menos que despolitização, a introdução desses temas talvez estejam a falar de zonas de sombra da política que prefeririamos não ver (ou não ter visto).

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Ciladas da Diferença
[...]
Os conservadores têm as seguintes convicções:

[...] Nem todos os seres humanos nascem com as mesmas potencialidades.
Não há razão para se instituir a igualdade salarial.
Só as pessoas com um determinado nível de intelegiência e educação deveriam poder votar.
[...] As leis atualmente vigentes não favorecem os ricos.
[...] A estatização leva à ineficiência.
[...] O tratamento que estamos dando aos criminosos não é rigoroso o bastante.
A pena de morte não é uma coisa de bárbaros.
[...] As leis contra o aborto não devem ser abolidas.
As leis do divórcio não deveriam ser alteradas no sentido de torná-lo mais fácil.
Uniões conjugais consensuais não são desejáveis.
[...] Os objetores de consciência são traidores.
[...] Não é errado que a homens seja permitida maior liberdade sexual do que às mulheres.
Nossas dificuldades presentes se devem antes a causas morais que econômicas.

A diferença vem da direita

Com este rol de enunciados daria para descrever quase com perfeição a mentalidade da direita encontradiça na maior metrópole brasileira nas décadas finais do século XX. Em minhas pesquisas com gravador em 1986 e 1987 pelos bairros de classe média baixa de São Paulo encontrei muita gente assim, que reage, sente e pensa tal e qual. É típico. São pessoas que, para surpresa minha no início, dizem alto ao pesquisador, alto e sem maiores rodeios, o que eles próprios pensam e sentem (e que tantos outras pensam e sentem, mas não dizem) a respeito da convivência ou da mera proximidade, é bem verdade que às vezes epidérmica, com indivíduos de certas categorias ou camadas sociais, certos grupos de origem que eles sabem distinguir muito bem numa cidade tão populosa quanto São Paulo.

[...] Existe por aí, nos meios letrados e mais bem informados, uma espécie de evidência primeira, hegemônica e, talvez por isso mesmo, um tanto irrefletida, quase uma 'ideia recebida', que associa as ideologias, mentalidades e sensibilidades de direita, conservadoras, aristocráticas, autoritárias, colonialistas, elitistas, o que seja, com os racismos e chauvinismos de todos os tipos e níveis. Até aí, tudo bem, não há nada de errado com isto, pelo contrário. Mas existe também - e estas minhas reflexões pretendem mexer com o estado espontâneo das artes neste ponto em nosso país - uma outra 'ideia recebida', que pensa como suficiente, e por si todo-esclarecedora, a definição do(s) racismo(s) e chauvinismo(s) como sendo, em sua essência, rejeição da diferença. O racismo é interpretado como recusa, incapacidade ou impossibilidade de aceitar o outro, o diferente, o não-semelhante, o não-idêntico. Deste ponto de vista, pelo qual se expressa também a interpretação anti-racista hegemônica no senso comum intelectualizado, o racismo acaba limitado a priori por uma definição simplificadora, ou pelo menos pouco sofisticada (sobretudo para os dias que corre), que o circunscreve nos marcos da heterofobia, 'esta estranha recusa da diferença, na qual o racismo vem um dia se enxertar' (Delacampagne), esta 'recusa de outrem em nome de não importa qual diferença' (Memmi). 'O racismo é essencialmente heterofobia' (Gabel). É? [...]

Ora bem, isto impede de atinar com tudo aquilo que nos racismos e chauvinismos existe e procede da atenção à diferença. Noutras palavras, isto nos impede de ver os racismos e chauvinismos de todos os tipos e graus como celebração da certeza das diferenças e, daí sim, como prescrição da urgência de sublinhar as diferenças para manter as distâncias (cf. De Rudder). O racista vê o mundo dos humanos sob a ótica privilegiada da diferença, melhor dizendo, pondo em foco a diferença; O racismo não é primeiro rejeição da diferença, mas obsessão com a diferença, seja ela constatável, ou apenas suposta, imaginada, atribuída. Estas linhas, que nascem do trato constante com as falas de cidadãos paulistanos que fazem da certeza da diferença uma razão para militar politicamente em favor de candidatos e propostas de direita, e direita autoritária, ousam sugerir um pouco mais de circunspecção no trato desta questão.

[...] Para um indivíduo dessa direita, o discurso não-palatável, aquele que mais do que qualquer outro desencadeia sua violência verbal, aquele que provoca sua ojeriza e lhe causa urticária é, ainda hoje, duzentos anos depois, o discurso dos Direitos Humanos, o discurso revolucionário da igualdade, seja a igualdade diante da lei, seja a igualdade de condições econômicas (a conquistar como direito), seja a igualdade primeira de pertencermos todos à mesma condição, a igualdade ao nascer (grifos meus). Vale dizer que em nosso país o discurso não palatável e imediatamente odioso ainda é, cento e poucos anos depois da abolição da escrevatura, o discurso abolicionista das desigualdades e subordinações, discriminações e humilhações, segregações e exclusões. Se há que procurar uma estrutura invariante e permanente das várias formações históricas de direita através desses últimos séculos da modernidade, tal estrutura se encontra nisto: na denegação do direito" (Balibar).
(PIERUCCI, Antônio Flávio. Ciladas da Diferença. In: ------------. Ciladas da Diferença. São Paulo: Editora 34/Curso de Pós-Graduação em Sociologia da USP, 1999, p.14-29.

2 comentários:

  1. Companheiros,

    Observações gerais interessantes, mas creio que tem outros fatores para explicar a persistência de idéias conservadoras.

    Apoio um voto crítico em Dilma, mas não podemos esquecer o que aconteceu nos últimos 8 anos. A realidade é que o próprio governo Lula cedeu à direita em muitos dessas lutas por direitos humanos. O PT tem políticas progressistas em muitas dessas questões, mas o governo do PT fez pouca coisa. Na questão de aborto, por exemplo, como foi avançado nos últimos 8 anos? A própria candidata à Presidência, e a cínica cupula do partido, vacilam demais nesta questão por não ameaçar suas coligações e "respeitabilidade" eleitoral.

    E a farça do PNDH? O governo nem defendeu as propostas modestas dos seus próprios representantes.

    E cotas e ação afirmativa? A secretária do programa, uma das únicas mulheres negras numa posição de poder no governo, foi sacrficada, tal como Benedita da Silva, pelo Lula em minutos por infrações pequenas enquanto os coruptos no partido como Dirceu foram defendidos e eventualmente reintegrados no partido.

    E coligações e alianças informais com assassinos como Delfim Netto, Jader Barbalho, Paulo Maluf, José Sarney e Fernando Collor? Como pode desafiar a lógica da ordem conservadora quando você se alia com essa gente com sangue nas suas mãos?

    E a distância do governo dos movimentos sociais como o MST? E o pacto com neoliberalismo?

    A defesa dessas políticas é que "é assim no Brasil" "para governar precisa fazer alianças" etc. etc. Talvez o problema seja menos o conservadorismo dentro da sociedade brasileira e mais a falta de realmente construir e lutar para uma alternativa.

    Sem uma firme defesa e implementação de direitos humanos e uma política economia realmente nos interesses do povo, o governo do PT alimentou a direita, deixando espaço político para ela aproveitar da ambiguidade e vacilação.

    Sem enfrentar essa questões vamos estar na mesma posição em mais quatro anos.

    Abraços fraternos, Sean

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  2. Fabiana

    Eu estou neste coro do "to cansada" e cansei desta discussao infrutifera que foi esta eleicao.

    dos dois lados a conducao foi nojenta, pobre.

    Espero poder discutir e fazer politica a partir de 01/11 em vez de fazer comparacoes pifias entre coisas incomparaveis ou competicoes de quem é o pior.

    a partir de 01/11, independente do resultado, quero parar de discutir o passado e voltar a discutir o futuro.

    hoje isso é inviavel.

    bjs

    Raquel Marques

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