sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Ocupação no morro dos outros é refresco

Não se fala de outra coisa: na cidade do Rio de Janeiro, criminosos/traficantes/arruaceiros queimam carros e ônibus e atacam postos policiais; a polícia revida invadindo morros, com direto a transmissão ao vivo e júbilo de comentaristas ao verem os tais bandidos fugindo de qualquer jeito.

Eu consigo agora mal e porcamente reparar em coisas que parecem que só são esquisitas para mim e poucos outros. Veja por exemplo essa matéria do Uol/Folha de S. Paulo: Forças Armadas reforçarão segurança no Rio, que tem 39 mortes em 6 dias de ataques.   No corpo da matéria, porém, a matança não merece nada além da menção, e boa parte dos parágrafos se dedica a falar de veículos incendiados, aí sim pelo menos onde, como e quando (por quem e por quê já não dá para saber). Assim, o aspecto mais grave dessa confusão toda: TÁ MORRENDO UM MONTE DE GENTE merece menos esclarecimento que uma kombi queimada. Caveirão merece até infográfico. Depois acham que a imprensa é perseguida, coitada.

Além dos mortos pela polícia não valerem nem uma linha em lugar nenhum, poucos conseguem perceber a ilegalidade e o risco para os moradores de uma operação militar numa favela ou em qualquer outro lugar, no contexto de repressão ao crime comum em uma democracia. E se alguém quer prova que o Brasil a desigualdade é tão entranhada, tão naturalizada, que esse tipo de operação militar parece não só indispensável como elogiável, releiam as notícias desse período, só que experimentando trocar onde está escrito Vila Carioca por Moema. Ou Pinheiros. Ou Morumbi, Tatuapé, Freguesia do Ó, Santana... escolha o bairro classe média ou alta, qualquer um, de qualquer cidade. Você pode ter uma experiência interessante.

Imagine também que toda a energia que se gasta atrás de criminosos de favelas fosse gasta contra criminosos de colarinho branco, com os mesmos métodos. Você leria uma notícia mais ou menos assim: "Polícia invade condomínios de luxo: sete contadores, advogados e executivos morrem na ação. Na manhã de ontem, seguindo uma denúncia anônima que haveria uma operação de descarregamento de champanhe francês, viaturas da polícia subiram ao condomínio German's Hill. Apesar dos obstáculos à entrada da polícia, compostas por guaritas blindadas, portões automáticos, câmeras de vigilâncias, elevadores com senhas, e cerca de dezenas de seguranças privados e advogados, a operação utilizou blindados Urutu e com o apoio de helicópteros conseguiu furar o cerco do elevador social. Já no primeiro lounge foi recebida com tiros de armas austríacas de cabo de madrepérola, da grife Sig Sauer. No revide, dois contadores e três advogados foram atingidos. Entretanto, quem ofereceu maior resistência foi o CEO, mister D., chefe do tráfico de champanhe e caviar e suspeito de desfalque, fraude, crime contra o sistema financeiro, falsificação de balanço e cobrança de juros de cheque especial. Depois de forte tiroteio no terraço gourmet, o chefe do grupo e seus personnal assistants finalmente se entregaram ao perceber que os policiais os cercaram a caminho do closet. Mister D. se manifestou através de sua assessoria de imprensa, dizendo que 'no Supremo, tinha facilidades', que as provas da polícia tinham sido obtidas por meio de grampos ilegais, e que as Veuve Cliquot encontradas em sua adega tinham sido plantadas pelos policiais, pois as dele eram da safra 1973, lógico. Grupos de direitos humanos questionaram a legalidade da ação da polícia, que utilizou violência desnecessária, segundo eles, por preconceito contra ricos e cheirosos. Já moradores e vizinhos que não quiseram se identificar disseram estar satisfeitos, pois o mister D. ameaçava a todos com sua Ferrari, que circulava ostensivamente no condomínio e arredores e promovia festas regadas a scotch 30 anos onde socialites foram vistas com jóias obscenamente caras."  [alerta de ironia: O Ministério da Saúde adverte: esse texto possui mais de 30 mil substâncias que produzem ironia]

Não, não, não. Não apoio bandido, e eu e minha família temos tanto medo e tomamos as precauções a nosso alcance quanto qualquer outra. Mas não posso deixar de ver, numa operação desse tipo, que é necessário aperfeiçoar o controle da violência oficial, apesar dos avanços sobre essa questão; que a imprensa reveja a prioridade da informação que presta - não se sabe quem e em quais circunstâncias tanta gente anda morrendo, dando a impressao que o problema são os carros queimados, e que passemos a difundir a ideia que não, não é normal ver tanques nas ruas, e que quando vão para a rua eles não são a solução perfeita. É claro que o problema  do controle da criminalidade comum é muitíssimo mais complicado, e ainda mais numa situação de crise, onde aparentemente há sim a intenção do crime organizado de promover vandalismo e atentados. Entretanto, se há crise, parece que se pode dar alguma razão ao governo estadual do RJ de que esses atentados são 'simbólicos' (expressão minha) da eficiência da implantação das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) em certos bairros. Pelo menos esse depoimento (Celso Athayde, via Nassif) dá alguma pista sobre as alterações e crise do crime organizado nas favelas: para obter drogas ilegais os clientes 'do asfalto' agora tem outros fornecedores. Tudo como mais uma questão de mercado: os atentados agora seriam expressão do enfraquecimento comercial desse ramo do crime organizado. Acho que as duas coisas são possíveis, e convergentes: as UPPs funcionam e o tráfico está mudando, e deve se dar o crédito devido ao governo carioca. Entretanto, operações violentas, de altíssimo risco para moradores e policiais, sem transparência, que são ilegais, e que produzem tantos cadáveres, não podem ser admitidas como normais, por mais que tanta gente esteja comemorando a fuga dos bandidos: aqueles caras, pretos magrinhos, maltrapilhos, embora armados, não são de longe os personagens mais importantes. São, aparentemente, apenas os que vão virar um número, que poucos querem saber o que significa.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Para que estudar ..... se eu não vou usar? (preencha os pontos com qualquer disciplina escolar)

Papo no almoço, o tema "filhos", assunto "estudo", e a conversa dá no que parece ser uma queixa generalizada dos pais e mães naquela na mesa: - meu filho(a) sempre me pergunta 'porque é que eu tenho que estudar ..... (preencha com qualquer disciplina escolar) se eu não vou trabalhar com isso/ nunca mais vou ver isso na vida/ detesto essa disciplina/ vou ser político e não vou precisar?'. E assim por diante. Alguns se confessam desarmados com tais afirmações dos filhos e me perguntam o que eu respondo. Sem pensar e sem pousar o garfo, aquelas coisas que se falam para manter a conversa fluindo, respondo algo na linha: - 'eles devem estudar o máximo de coisas o melhor possível, pelo menos, para não serem engambelados por qualquer um'.

Com certa surpresa, vejo que o meu 'conselho' - que não é meu, claro, deve ter vindo do tempo dos faraós - ganha adesão e até entusiasmo imediato. ´É isso mesmo, se o sujeito não estuda vira um sem-noção na mão de a) médicos, b) advogados, c) padres, d) economistas, e) sociólogos, f) mecânicos...' escolha o seu especialista predileto, novamente. Aí a mesa lembra de vários exemplos pessoais onde faltou um pingo de conhecimento para não não errar nem tomar prejuízo. E onde eu, mais interessado na sobremesa, realimento o debate 'teoria da utilidade defensiva do estudo generalista' versus 'teoria da especialização precoce para o trabalho': - Não acho que o que há para aprender no ensino médio sobre matemática/química/ história seja inútil. Talvez as aulas não sejam boas / professores capacitados / atraentes para os alunos [detector de chavão em alerta!] e os adolescentes com certeza estão pensando em 'outra coisa' (nisso mesmo, seus mentes sujas). Mas, será que não tem um pingo de razão o moleque de cabelo 'lambido' que acha que quando for CEO de uma multinacional não vai precisar saber quem foi Joaquim Nabuco ou Rosa Luxemburgo nem Mário Quintana nem Heidegger ou o que é uma mitose? Nada disso afinal  parece ser necessário para ser CEO...

Depois de pensar um pouco, tendo a mudar um pouco de ideia  sobre o lema sempre-alerta-e-preparado-pra-tudo, embora acho que o palpite que eu dei nem foi tão ruim, e tenho até ideia de onde veio: quando era moleque, adorava a série O Túnel do Tempo (The Time Tunnel, 1966), que era sobre dois cientistas que entravam no tal túnel e ficavam presos no passado, em momentos chave, tipo a batalha do Peloponeso ou a explosão do Krakatoa. O que eu achava mais legal é que os dois eram físicos nucleares mas sabiam TODOS os fatos, datas e detalhes e personagens históricos com os quais topavam, e o fato de saber o que tinha acontecido é que permitia que eles escapassem das enrascadas, até o próximo episódio. Na minha imaginação infantil parecia ser uma boa ideia estudar bastante para estar preparado para viagens no tempo, se perder em outro planeta e outras emergências desse naipe. Depois de um tempinho, assim uns 20, 30, vá lá, 40 anos, é que você atenta que não deve ser coincidência a presença de personagens sabichões em produtos da cultura pop, do Mister Spock ao McGyver ou Yoda ou ao Dumbledore. Sim, alguém, algum personagem, tem que explicar o que raios está acontecendo naquela estorinha que está rolando.  Nada como um cientista, médico, pajé, juiz, padre, qualquer um que tenha credibilidade assim de chapa para em algum momento chave fazer o discurso ah-há-então-é-isso-que-tá-rolando. O 'negativo' dessa variante é o 'cientista louco', tipo Dr. Frankenstein, que igualmente em algum momento explica pro mocinho porque, afinal, dessa mania de conquistar o mundo. Se você tira o personagem explicador, vira um filme europeu... ou Lost.

Mas, será que vale mesmo ser sabichão fora das telas - ou pelo menos, ter alguma noção de que, na dúvida, vale apelar senão para o método científico, pelo menos para o senso crítico?  A escola pode/deve fazer o quê? Cabe esclarecer que não estou pensando numa volta a uma escola de conteúdos 'clássicos' nem 'decorebas', mas pelo menos que pensemos que a escola é mais que um lugar que prepara o sujeito para o trabalho - apenas. Nós aparentemente damos pouca ou insuficiente ênfase nisso, mas educar alguém tem mais objetivos, talvez mais importantes, valiosos, que preparar alguém apenas para ser um 'trabalhador'. Se me lembro direito, a própria Lei de Diretrizes e Bases da Educação LDB, logo depois da exposição de motivos, se esquece dos demais nobres objetivos do sistema de educação nacional e parte logo para a educação para o trabalho - e praticamente é só disso que trata. Aliás, educar o cara para ser trabalhador parece que também se resume à pobreza da fórmula 'passar da teoria para a prática' querendo dizer 'da escola para o trabalho', ou seja,  o utilitarismo mais rasteiro, que a escola 'legítima' seria aquela que forma para o que o 'mercado' quer. Dentro dessa armadilha, qualquer conteúdo que não tenha 'utilidade' ou uso no mercado - nem que seja o mero entretenimento - não 'merece' o esforço de ser aprendido. Talvez daí venha a queixa ouvida por tantos pais.

Acontece que a escola teve já outras funções além de formar trabalhadores. Formava cristãos, católicos, judeus, muçulmanos... formava patriotas. Formava pais e mães de família. Formava gente 'educada', no sentido de etiqueta, formava também gente que reconhecia a autoridade e as leis. Na verdade, talvez a escola continue formando tudo isso, notadamente em caríssimas e tradicionais escolas particulares, mas agora também tem que 'tirar da rua' as crianças, formar cidadãos, indivíduos autônomos e críticos... não é mole, não. Mas o modelo de escola voltada só para resultados, ou seja,  que passa seus alunos no vestibular e, portanto, os inicia numa carreira profissional é o que parece agora dominante. Conteúdos 'humanistas' entram na escola-de-resultados como a laranja na feijoada, só para suavizar o caldo - e porque, claro, são obrigatórios, caso recente da própria sociologia, e ainda caem no vestibular.

Há muito o que dizer sobre esse assunto, mas não é o lugar e eu estou longe de estar preparado para isso. No entanto... vamos tentar rascunhar algumas hipóteses. Em primeiro lugar, escola é escola e trabalho é trabalho, ou seja, são esferas e/ou instituições diferentes e autônomas, embora relacionadas. É compreensível que o trabalho (e a forma como é organizado, por exemplo, no 'capitalismo concorrencial') seja  em alguma medida subordinador de várias esferas, como 'família', por exemplo, no sentido que relaciona chefe de família como igual a trabalhador.  O relacionamento do trabalho com escola, entretanto, parece que vem mudando, mas não era nem único nem isento de contradições. Por exemplo, ainda se encontra exemplarmente na condição do 'trabalho infantil' a oposição entre trabalho e escola. Uma excluindo a outra, pelo menos nessa fatia da sociedade. No outro extremo, a ideia que trabalho, ou certos trabalhos, só são legitimamente designados aos que não somente são bem sucedidos, mas o são em certas escolas específicas - embora outros mecanismos  posicionais ou situacionais também sabemos que atuam para colocação nesses postos privilegiados. Haveria por aqui então pelo menos três grandes modelos de escola, e respectivos públicos: a escola pública, para os pobres, a escola tradicional de elite (para a elite tradicional, dãã), e a escola privada de massa, para a crescente classe média, formada por redes de escolas organizadas como grifes, administradas como corporações lucrativas e que lançam mão, por exemplo, das mais recentes técnicas de marketing. Nessas, o próprio ensino é um empreendimento com foco na utilidade, portanto se utilizam apostilas padronizadas e outros recursos 'racionalizadores' e 'mais eficientes'. De certa forma é desse estrato médio que, pelo menos desde os anos 1980,  parece que surgem as iniciativas dinâmicas, as novidades, tanto em termos de tamanho quanto de propostas, e que redundam em movimentos de complementação, oposição e atrito entre os diferentes modelos de escola. Um dos efeitos que nos interessa é o esvaziamento do ideário e do prestígio da escola pública diretamente proporcional à sua massificação e inversamente proporcional à classe social que atendia: se antes atendia a poucos, da elite, hoje a escola pública atende à massa, dos pobres. No espaço deixado (ou aberto?), a escola privada de massa surge e se desenvolve, não por coincidência, no período mais (neo)liberal dos anos 1990 até meados dos 2000. E a primeira ideia-força da escola privada de massa só poderia ser que a educação deve ser completa e cegamente subordinada ao mercado. A segunda ideia-força, necessária e que suporta a primeira, é que a educação pública e gratuita é sempre  ruim e 'de pobre'. De lasquinha, a escola de elite é, nessa visão, antiquada, rançosa e ultrapassada.

Se for por esse caminho, então, acho que já podemos entrar no túnel do tempo e voltar até aquele bate-papo no almoço. A conversa dá no que parece ser uma queixa generalizada dos pais e mães naquela na mesa: - meu filho(a) sempre me pergunta 'porque é que eu tenho que estudar ..... (preencha com qualquer disciplina escolar) se eu não vou trabalhar com isso/ nunca mais vou ver isso na vida/ detesto essa disciplina/ vou ser político e não vou precisar?'. E assim por diante. Alguns se confessam desarmados com tais afirmações dos filhos e me perguntam o que eu respondo.

Como eu sou um viajante do tempo, poderia responder sem largar o garfo: 'Gente, a questão não é o que responder - é claro que esse papo dos nossos filhos é só uma queixa dentre as milhares que eles gostam de nos fazer sobre a escola. Nossos filhos devem estudar uma porção de coisas mesmo que não saibamos se vamos ou não usar no nosso futuro, no trabalho ou em outro lugar, porque se espera que numa sociedade democrática, do ponto de vista liberal, todos tenham o mesmo 'ponto de partida' ou seja, igualdade de condições para desfrutar das oportunidades e  responder às responsabilidades que terão quando forem adultos. Isso significa ter um repertório comum, dado pela educação formal e instucional, ou seja, a escola. E nós, os adultos, queremos que vocês tenham condições de apreciar o melhor que a espécie humana produziu, em ciência, na arte e no engenho, e tenham condições de evitar as burradas, pelo menos as mais perigosas. Nós, pais, não sabemos o que responder quando nos fazem a pergunta do 'aprender para quê?' porque provavelmente nós é que fomos educados, justamente, a entender a educação e a escola tendo valor e foco somente no aspecto do trabalho, e agora essa questão nos preocupa porque não sabemos respondê-la para nós mesmos. Vejam vocês que Bill Gates, Lula, José de Alencar, são só uns exemplos de caras que são bem sucedidos mesmo não tendo curso superior, enquando Obama é exemplo do cara que subiu por ter estudado, mas o mais comum é gente como nós, que estudou tanto para o trabalho que nem responder uma pergunta de um adolescente a gente sabe.'

Aí, tendo eu respondido isso, as pessoas ficam em silêncio por dois segundos, e mudam rapidinho de assunto. Acho que é por isso que eu nunca vi um personagem sabichão de ficção científica que seja sociólogo.  Mas não é perseguição: tudo é uma questão de tempo de drama, ora.


sábado, 6 de novembro de 2010

Ainda Eleições 2010: De luz e de sombras

O meu desejo era ter conseguido escrever este post antes do 2º turno. Mas a correria é sempre tamanha que não houve tempo. Ainda assim, faço aqui este exercício de pensamento pois, ainda que as eleições tenham se encerrado, as questões e problemas que nos interpelam se mantém no horizonte.

A política é o reino da visibilidade. O que é propriamente político é aquilo que vem à luz, que é posto no espaço público, que pode ser visto, considerado, questionado. É aquilo que ganha nome na ação daquele que fala e, nesse movimento, insere no espaço plural da política, sua própria posição. A condição humana da ação, para falar nos termos da Hannah Arendt, se realiza no espaço propriamente político e não se constitui em jogo de interesses - ao contrário, é o que produz inter-esses: o senso comum, o mundo que compartilhamos uns com os outros.

Começo dizendo isso porque acredito que essas eleições encenaram um intenso jogo de luz e sombra, em pelo menos dois sentidos.

O primeiro deles se relaciona com a distância entre a visibilidade dos projetos (grandes ou pequenos, claros ou cinzentos, coesos ou frouxos) que se disputam nos mecanismos de democracia representativa e a invisibilidade da gestão pública, do dia-a-dia dos milhares de pessoas que dão aos projetos corpo e alma, dos milhares de pessoas que traduzem os projetos em possíveis.

O segundo tem a ver com o fato bastante concreto de estar em disputa, nessa eleição federal, a sucessão de um presidente que chega ao final de oito anos de governo com o inédito índice 83% de aprovação da população - do ponto de vista do jogo eleitoral, esse fato acaba por interditar certos assuntos pois que, certamente, resultariam em perdas eleitorais. Esse interdito, portanto, lança sombras sobre aquilo que pode ou não ser claramente enunciado,  e reduz o escopo daquilo que pode ser trazido à luz dos debates. Frente a este cenário, havia duas escolhas para a oposição: assumir a perda, mas apostar no ganho de médio prazo de reintroduzir na agenda política temas e modos de fazer alternativos ao que se vêm fazendo. Muito provavelmente seria uma estratégia que não ganharia esta eleição - mas seria uma maneira de zelar pelo que o Edu veio chamando de futebol-arte. Outra alternativa,  caminho efetivamente trilhado pela oposição, seria a de tentar ganhar a todo custo, tomando em conta a zona de sombra criada pelos interditos em relação ao governo que está a se encerrar e trazendo à luz apenas temas e agendas cujos custos eleitorais não fossem significativos.

Façamos como Jack: vamos por partes, começando do primeiro ponto. O jogo eleitoral é um dos mecanismos formais da democracia representativa - tem regras, rituais, ritmos... Ainda que faça parte da vida de uma sociedade democrática, é também um momento ímpar na vida dessa mesma sociedade, pois, em certo sentido, "suspende" o fazer cotidiano para colocar sob exame dos cidadãos os ideais que governam - de modo mais ou menos perceptível - a vida de todo dia. Os termos em que esse exame se dará depende, ao mesmo tempo, da capacidade do governo em exercício em conferir visibilidade às suas realizações e da capacidade da oposição em se afirmar como portadora de um projeto legítimo e viável. Isso, é claro, num mundo ideal - como sabemos, há muito mais mistérios entre o céu e a terra, o que significa que há uma infinidade de varíaveis (sociais, políticas, econômicas, culturais, contingenciais, éticas, morais...) que podem tornar a disputa mais ou menos embaralhada.

Quando falei da distância que vai dos termos que entram em jogo nesses ritos democráticos ao cotidiano, estava pensando de modo especial em algumas características dessas duas gestões do Lula: além da figura carismática e emblemática de uma possibilidade de modernização política, ambas as gestões propiciaram dentros dos Ministérios, Secretarias e Programas uma sensação fervilhante de construção institucional e contribuição para um projeto de país mais inclusivo, justo e equitativo.Isso se deveu a uma direção clara sinalizada pelo presidente, mas também, acredito, a alguns princípios caros ao "modo petista de governar": ade modo especial, a participação de diversos atores e o esforço de construção coletiva dos projetos. (pensemos, por serem exemplares, na centralidade adquirida pelas conferências setoriais, em variados níveis). Não estou dizendo que seja perfeito, ou efetivamente super-hiper-mega-blaster democrático - sabemos bem, ainda mais quando se trata de espaços de representação da chamada sociedade civil, das contradições que envolvem sua atuação e sua escolha em detrimento de outras. No entanto, do ponto de vista da pluralidade de visões, opiniões e perspectivas, ainda é um modelo que se contrapõe à tecnocracia e que confere às decisões que modificam as práticas estatais um caráter propriamente político - nesse sentido comentado acima, de uma medida comumente acertada, coletivamente construída e legitimada.

O interessante para pensarmos é que, a despeito de todas as acusações de personalismo sofridas pelo presidente Lula, uma das ciladas (eleitorais, bem entendido) desse modelo descentralizado e participativo é a dificuldade de identificar "pais" ou "autores", ou seja, a dificuldade em levar crédito por eles. Ao mesmo tempo, como eles acontecem a partir de mecanismos muito mais efetivamente próximos aos cidadãos, muito mais aparentados aos mecanismos da democracia participativa, é difícil traduzi-los em algo visível, para além dos resultados propriamente ditos.

Um dos grandes desafios, portanto, me parece ser conferir visibilidade a essas variadas dimensões do dia a dia da política num determinado "modo de governo" nos projetos que aparecem à epoca das eleições. É uma importante diferença em relação a projetos que afirmam o valor da tecnocracia e do cidadão consumidor, por exemplo.

E aqui abro um pequeno parênteses para reconhecer - ainda pensando nesse cotidiano da política não-eleitoral - o esforço e o compromisso de muitos homens e mulheres que assumiram responsabilidades dentro dos Ministérios, Secretarias, Programas. São pessoas que apostam parte de suas vidas para fazer um projeto de país funcionar, sair do papel, tornar-se realidade: às vezes, ficam longe da família, perdem um pedaço da infância dos filhos, ficam doentes de tanto trabalho, são os primeiros a chegar e os últimos a sair das instituições onde se encontram. Sei que a gente costuma dizer que atualmente não há utopias, pelo menos dessas grandes narrativas, capazes de nos engajar num projeto de transformação. Me permitam discordar um bocadinho, nem que seja só para registrar aqui a minha admiração por aqueles que assumem as contradições e ambiguidades dos possíveis de que dispomos e que, cotidianamente, dão seu tempo e sua energia para alargar as fronteiras desses possíveis.

Esse post já tá ficando comprido demais, daqui há pouco será meia-noite e eu estou quase virando abóbora, mas vou só comentar o segundo ponto, tentando ser bem breve. A alta popularidade do governo Lula deixou a oposição em uma baita saia-justa, pois constituiu uma zona de sombra - todos aqueles pontos que, efetivamente, distinguem os dois projetos (o do PT e o do PSDB), só podiam ser claramente enunciados sob o risco de assumir os custos eleitorais dessa visibilidade. [E eu só formulei essa hipótese nesses termos por conta de um cientista político, chamado Paul Pierson, num interessante artigo - infelizmente indisponível  na rede - de fim dos anos 90, em que ele sugere que, a despeito de toda a ameaça de "retração" do Estado de Bem-Estar pós crises, devido ao alto custo eleitoral de corte de serviços (com evidentes variações nacionais), os governantes tendiam ou a promover processos de transformação de vícios em virtudes, melhorando a qualidade dos gastos públicos, corrigindo distorções, aumentando a transparência etc. ou a promover reformas de modo "invisível", num processo de blame avoidance, evitando, portanto, os custos eleitorais da responsabilidade pelas mudanças].

Não é só isso o que explica que, com uma zona de sombra que custaria muito iluminar, a oposição tenha optado por uma estratégia de jogar sua lanterna para outras paragens, mais "neutras", capazes de interferir sobre o jogo eleitoral, mas evitando a responsabilidade da proposição de um projeto alternativo. Sabemos bem sobre quais aspectos de nossa sociedade essa luz foi jogada. Como já sugeri, resta saber agora o que faremos com esse conflito aberto, incitado e aumentado por mal-entendidos e desinformações, mas de todo modo presente, pois que deu vazão às variadas disputas que operam - de novo - no tempo e no espaço invisível no dia-a-dia, tão integradas às nossas formas de estar no mundo que até passam por naturais.

Mas se a política é mesmo o reino do visível e do compartilhado, desses diferentes jogos de luz e sombra  que vieram operando nessas eleições, quem sabe possamos sair mais maduros, quem sabe finalmente estejamos a inserir o dissenso em nosso campo de possibilidades. Quem sabe? Não custa sugerir, nem que seja só porque hoje é sexta-feira, as eleições se encerraram há menos de uma semana, e por enquanto a eleição da Dilma ainda pode aparecer como um novo nascimento (e olhem aí a coincidência: ao procurar este link, acabei de notar que a eleição aconteceu no mesmo dia em que o Margens completou dois anos de existência!).

Imagem: daqui.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Preconceito contra nordestinos e mudança social: vale-tudo da campanha cria clima de pode-tudo

Entre os 'efeitos indesejados' (se podemos chamar assim) da eleição presidencial de 2010, o que mais me incomoda foi a instrumentalização de preconceitos. Contra a mulher, notadamente para desvalorizar a candidata Dilma Rousseff (não dá conta, fantoche do Lula, blábláblá), mas também contra o voto do pobre ('bolsa esmola'), e contra nordestinos (Tiririca, mas em especial o rancor que já é histórico aqui em São Paulo contra Lula e o PT). Só para a Soninha não chorar, José Serra foi objeto de estereótipos também: contra carecas (alvo calvo que caracteriza o capilarmente desfavorecido atrator de projéteis sulfitosos esféricos A4 75g, em tucanês) e contra vampiros, essa categoria social tão crespuscular, e na qual evidentemente não se encaixa o noturno candidato José Serra, que beijou santas e santos e não se queimou, a não ser eleitoralmente.

O uso de preconceitos nessa campanha não foi nem acidental nem lapso nem lateral nem sem-querer-querendo: o uso desse expediente é central na tecnologia da infâmia eleitoral, importada da direita norteamericana e largamente utilizada pelo candidato calibre 45 e pelo submundo virtual de sua campanha. Nisso, estou me repetindo. Aparentemente causado por má interpretação (jornalística?) de um certo mapa onde os estados vermelhos e azuis representavam as vitórias eleitorais de Dilma e Serra, respectivamente, o meme 'nordestinos elegeram Dilma' fez inúmeros tuiteiros, orkuteiros e facebuqueiros caírem de boca suja no engano estatístico e exporem seu preconceito no hiperpúblico espaço virtual (se você é 'de maior', clique aqui e veja a compilação das baixarias, feita pelo blogueiro kioshi. O Ministério da Saúde adverte: tirem as crianças da sala). Você pode ver que esses incautos podem ser criminalizados pelas bobagens que espalharam.

Não é nenhuma novidade que o preconceito, isto é,  que movimentos organizados e outros autores atuam na internet brasileira em redes sociais e sites. Homofobia, supremacia branca, separatismo, paulistanismo e outros movimentos de ódio são inclusive temas de investigações específicas, já que são práticas vedadas pela nossa Constituição e pelo código penal. Sabe-se que oportunisticamente (ou não?) estiveram ligados a alguns episódios vergonhosos da eleição passada, como a produção de panfletos apócrifos e produção de spams. Mas aparentemente não são esses movimentos que estão por trás desse surto específico: parece que o paciente zero é uma moça que resolveu xingar os nordestinos no twitter, provavelmente no seu laptop cor de rosa, com seu perfil verdadeiro e erros de português, e que chateada achou que do mesmo modo que xinga suas amigas fofoqueiras poderia insultar os pretensos responsáveis pela derrota tucana. Uia, quase que inauguro o preconceito contra mocinhas tuiteiras...

Evidentemente, o preconceito não obedece nenhum imperativo racional - qualquer que fosse o resultado eleitoral, por exemplo, é de se duvidar que 'essa turma' passasse a gostar dos nordestinos, por mais talentosos que sejam Daniela Mercury ou Caymmi ou Fagner. Talvez se o outro candidato tivesse ganho a 'comemoração' fosse escarnecer ainda mais de nordestinos. Mas é preciso levar em conta que o 'detector de calúnias, mistificações e baixarias em geral', ou seja, um grande contingente de internautas, blogueiros, jornalistas estava em alerta máximo próximo da data das eleições - o bastante para uma tuitada muitíssimo mal intencionada (e mal dada) tivesse a repercussão que teve.

Gostaria de saber mais sobre o tema, mas as manifestações de preconceito em suas variadas formas são temas clássicos e, infelizmente, inesgotáveis da ciência social. Parece que onde houver gente vivendo ou forçada a viver em condições desiguais, e essa desigualdade for atribuída a caracteristicas étnicas, 'raciais', de gênero, de cor de cabelo, religião, nacionalidade ou origem etc. essas serão 'traduzidas' em diferentes formas do que chamamos 'preconceitos', arranjos  'explicativos' pré determinados onde a diferença 'explicaria' a condição - e vice versa. 


Até onde sei, e correndo o risco de erros grosseiros, o relacionamento desigual entre brancos e negros no Brasil como  manifestação de 'preconceito' é, dentre múltiplas outras facetas, um dos aspectos em que Florestan Fernandes foi pioneiro ou estava dentre os pioneiros (outros nomes notáveis são os de Octávio Ianni, João Baptista Borges Pereira, Oracy Nogueira...), e que opôs Florestan e os sociólogos (e sociólogas) da USP à Gilberto Freyre e às ideias de 'democracia racial' ou 'harmonia racial', se não me engano, por volta dos anos 1960. Mais do que isso, Florestan  tinha elaborado a hipótese que as diferenças 'raciais' eram sobredeterminadas pelas diferenças de classe, isto é, haveria uma dupla barreira ou uma dupla determinação na definição das distinções: 'raça' e classe, ou seja, condição biológica e condição social, ser preto e pobre, ser preto por ser pobre, ser pobre por ser preto. Estou, claro, simplificando, senão estragando uma contribuição fantástica do pensamento social brasileiro. Portanto, paro por aqui antes que o leitor sofra ainda mais de vergonha alheia. Meu palpitezinho nesse campo é só que devemos monitorar as transformações e possíveis atritos trazidos pela redução de desigualdade de renda.

E o que há para ser contra nordestinos? Ou cariocas, baianos, mineiros... Se essas recentíssimas manifestações de preconceitos dizem algo diferente, não é por seu conteúdo ou forma. Eu até pensei em colocar os exemplos, mas esse aqui é até um blog 'sujo', mas nem tanto.  Vou só dar uma ideia: Além de desejar a morte aos nordestinos, acusam-os de ignorantes, pobres, dependentes do bolsa família (e dos impostos dos paulistas), de cheirar mal, de feiúra, amaldiçoam-os com 'seca eterna' e mandam $#&*. Embora horríveis, essas manifestações não são diferentes das que se podem ouvir em certos ambientes privados, inclusive de gente acima de qualquer suspeita. E quanto a aparecerem na internet, isso também não é recente, como já vimos. Tampouco são inéditas tais manifestações na ocorrência de eleições, ou Lula não teria sido desde sua primeira candidatura alvo frequente de insultos.

O pior aspecto, e que foi isso sim foi inédito ao menos em grau, foi a administração calculada do ódio e do preconceito com finalidade eleitoral. De ódio organizado. De ódio como recurso eleitoral.  Cevar e estimular preconceito para ganhar voto. De não demonstrar o mínimo respeito por assuntos não-eleitorais, como aborto, religião ou orientação sexual. Esses expedientes criaram, ao menos em determinados círculos, a 'legitimidade' necessária, a abertura da porteira, a terra arrasada. Na mais dura campanha eleitoral desse século, a da presidência dos Estados Unidos de 2008, Barack Hussein Obama foi tão, senão mais falsamente acusado que Dilma Rousseff (aliás, quem fez a campanha lá fez a campanha daqui praticamente igual). Lá no Norte, entre as possíveis consequências, passados dois anos, está a radicalização de camada da população, o movimento Tea Party (a derrota nas eleições do dia 2/11, porém, parece mais ligada à inação do governo democrata). Naquela ocasião já nos chamou a atenção o discurso do candidato derrotado John McCain, que em resumo foi um bom perdedor: reconheceu a soberania popular, desautorizou as vaias para Obama, chamou a unidade nacional ameaçada pelas baixarias e radicalizações, validou e elogiou o patriotismo de Obama e o chamou de 'meu presidente'.

O candidato derrotado José Serra talvez não tenha compactuado com a estratégia da infâmia, embora  seu estilo extremamente centralizador enfraqueça essa ideia, e nem se sinta responsável pela sua campanha ter servido para estimular tais manifestações desastrosas de seus apoiadores. Objetivamente não se pode acusá-lo disso, creio eu, pois não há evidência nesse sentido. Mas é responsável por não ter desautorizado nem desestimulado em momento algum essas manifestações - e no caso 'bolinhagate', ter claramente catimbado. Não fez nenhum gesto para impedir manifestações radicalizadas de pessoas comuns, de fora da campanha, que foram 'fermentando' e fugindo da fôrma, e dado o primarismo de  alguns de seus apoiadores, é bem possível que esses cidadãos tenham entendido que manifestar seu apoio a José Serra equivaleria a se manifestar com estridência em público, mesmo preconceituosamente, mesmo baixamente, mesmo deixando de lado a educação que mamãe deu. Se era para usar o know-how do partido republicano, poderia ter pelo menos atitude semelhante a do McCain. E José Serra provavelmente não se achará responsável, nem pode ser responsabilizado, mas sua frustrada apoiadora, que iniciou toda a quizumba, perdeu o emprego, vai ser processada e provavelmente será persona non grata em Canoa Quebrada, ganhou o quê? Só o estigma... Trolls profissionais pelo menos são mercenários cínicos, pagos, e sabem do risco.

Do ponto de vista da educação política para a democracia, portanto, essa eleição deixou a desejar. É trágico que um país que teve um intelectual como presidente, que tem um operário como presidente, e que terá uma mulher nerd workaholic divorciada e 'ex-guerrilheira' como próxima presidenta, tenha saído com camadas de sua população tão (des)enganadas a respeito do que é o processo eleitoral democrático. Política 101: eleição não é vale-tudo. Aliás, até o esporte que era chamado de vale-tudo tinha lá suas regras.  Se de certa forma, e representado assim, o processo de governo brasileiro parece avançar, por outro lado, certos atores parecem não entender seu papel nesse processo mais amplo. Para encerrar, por mais que eu tenha preferência por um jogador ou um time, eu gosto sobretudo do jogo, e acho que devemos todos gostar do jogo - não necessariamente só de ganhar. Mas o jogo é pesadíssimo, é importantérrimo, planetário, significa muito. Significará, significaria muito, muito mais, se bem jogado. Engraçado como Lula, que é dos que entendem isso, consegue explicar só usando futebol. Eu preciso apelar para o kick-boxe.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Mais uma saída do baú

Parágrafos de apresentação ao trabalho que preparei  para avaliação final na disciplina "Introdução à Sociologia do Desenvolvimento", ministrada pelo Prof. Glauco Arbix na pós-graduação em Sociologia, em 2004:

Existem algumas imagens que, por si mesmas, podem nos revelar algumas das persistentes indagações presentes em nossa sociedade. O espanto e a incredulidade de José Serra após a perda eleitoral para Luís Inácio Lula da Silva nos parece ser uma dessas imagens.

Após o início, em grande medida, cordial, as últimas semanas que precederam o segundo turno das eleições presidenciais de 2002 transformaram-se, da parte de José Serra, numa série de ataques à Lula e a seu partido: segundo a campanha, Lula não poderia ser presidente do Brasil por não ter formação universitária; o PT não teria nenhuma experiência administrativa e Lula seria um voluntarista inconseqüente que não teria competência técnica para lidar com a crise econômica[1]. Além disso, uma conhecida atriz brasileira foi ao ar professar seu medo de que Lula fosse eleito porque, (depreendia-se), suas palavras não tinham valor de compromisso e abriam espaço para que todas as (piores) possibilidades se concretizassem.

Ao fim da campanha, após a eleição de Lula se transformar num fato certo, José Serra estava muito abatido. Nem mesmo seus ataques mantinham a mesma força e seus argumentos foram se esvaziando, pela dificuldade mesma que ele tinha de decifrar o que estava acontecendo. Suas chaves de interpretação eram antigas: populismo, voluntarismo, fragilidade partidária. Mas nenhuma delas lhe foi suficiente para entender os possíveis significados da vitória de Lula e do PT.

Este trabalho se propõe a pensar, sem pretensão alguma de explorar todas as possibilidades e esgotar o tema, sobre a atualidade do debate acerca do desenvolvimento, nos termos forjados por Celso Furtado e Fernando Henrique Cardoso. Buscaremos recuperar o essencial da discussão para refletir sobre uma questão que nos parece um dos problemas centrais neste momento histórico brasileiro: quais são as possibilidades e os limites para a constituição de um projeto de desenvolvimento num contexto democrático? O atual marco institucional, para falar como Celso Furtado, é fundamentalmente diferente daquele em que os autores aqui tratados trabalharam, ainda que do ponto de vista dos desafios econômicos haja algumas persistências.

No entanto, uma vez que as mudanças ocorridas nos últimos vinte anos estão longe de terem sido compreendidas ou decifradas – como as falas e representações que transparecem na atitude de “mau perdedor” assumida por José Serra mostram – faz-se necessário uma espécie de exercício criativo, que nos permita imaginar novas maneiras e novos arranjos capazes de, a um só tempo, preservar e consolidar o espaço democrático e promover o desenvolvimento sustentado num longo prazo.


[1] Basta lembrar que, uma vez que as eleições ocorreram simultaneamente com a exacerbação da crise Argentina, este argumento foi apresentado de maneira quase humorística: num cenário desolador, um homem solitário tocava ao violão “Don’t cry for me Argentina”, no entanto, a letra dizia, ameaçadora “Olha a lição da Argentina!”.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Infelizmente, passado

Arrumando (ou tentando arrumar) a bagunça do escritório, encontrei esse documento da CNBB, para orientação dos fiéis em relação às eleições de 1994. Depois dos episódios a que assistimos nessas eleições,  é triste perceber a distância que nos separa daquele momento, em que a brisa das esperanças da teologia da libertação ainda se faziam sentir nas palavras e nas práticas da Igreja no país.

Para aumentar, é só clicar sobre a imagem.