terça-feira, 2 de novembro de 2010

Mais uma saída do baú

Parágrafos de apresentação ao trabalho que preparei  para avaliação final na disciplina "Introdução à Sociologia do Desenvolvimento", ministrada pelo Prof. Glauco Arbix na pós-graduação em Sociologia, em 2004:

Existem algumas imagens que, por si mesmas, podem nos revelar algumas das persistentes indagações presentes em nossa sociedade. O espanto e a incredulidade de José Serra após a perda eleitoral para Luís Inácio Lula da Silva nos parece ser uma dessas imagens.

Após o início, em grande medida, cordial, as últimas semanas que precederam o segundo turno das eleições presidenciais de 2002 transformaram-se, da parte de José Serra, numa série de ataques à Lula e a seu partido: segundo a campanha, Lula não poderia ser presidente do Brasil por não ter formação universitária; o PT não teria nenhuma experiência administrativa e Lula seria um voluntarista inconseqüente que não teria competência técnica para lidar com a crise econômica[1]. Além disso, uma conhecida atriz brasileira foi ao ar professar seu medo de que Lula fosse eleito porque, (depreendia-se), suas palavras não tinham valor de compromisso e abriam espaço para que todas as (piores) possibilidades se concretizassem.

Ao fim da campanha, após a eleição de Lula se transformar num fato certo, José Serra estava muito abatido. Nem mesmo seus ataques mantinham a mesma força e seus argumentos foram se esvaziando, pela dificuldade mesma que ele tinha de decifrar o que estava acontecendo. Suas chaves de interpretação eram antigas: populismo, voluntarismo, fragilidade partidária. Mas nenhuma delas lhe foi suficiente para entender os possíveis significados da vitória de Lula e do PT.

Este trabalho se propõe a pensar, sem pretensão alguma de explorar todas as possibilidades e esgotar o tema, sobre a atualidade do debate acerca do desenvolvimento, nos termos forjados por Celso Furtado e Fernando Henrique Cardoso. Buscaremos recuperar o essencial da discussão para refletir sobre uma questão que nos parece um dos problemas centrais neste momento histórico brasileiro: quais são as possibilidades e os limites para a constituição de um projeto de desenvolvimento num contexto democrático? O atual marco institucional, para falar como Celso Furtado, é fundamentalmente diferente daquele em que os autores aqui tratados trabalharam, ainda que do ponto de vista dos desafios econômicos haja algumas persistências.

No entanto, uma vez que as mudanças ocorridas nos últimos vinte anos estão longe de terem sido compreendidas ou decifradas – como as falas e representações que transparecem na atitude de “mau perdedor” assumida por José Serra mostram – faz-se necessário uma espécie de exercício criativo, que nos permita imaginar novas maneiras e novos arranjos capazes de, a um só tempo, preservar e consolidar o espaço democrático e promover o desenvolvimento sustentado num longo prazo.


[1] Basta lembrar que, uma vez que as eleições ocorreram simultaneamente com a exacerbação da crise Argentina, este argumento foi apresentado de maneira quase humorística: num cenário desolador, um homem solitário tocava ao violão “Don’t cry for me Argentina”, no entanto, a letra dizia, ameaçadora “Olha a lição da Argentina!”.

Um comentário:

  1. Eu procurei a vinheta do "olha a lição da argentina..." mas ainda não achei.
    Mas a Regina Duarte com medo é fácil, já que é um clássico:
    http://www.youtube.com/watch?v=DEeNSkXn5mY&p=FA14B2D5974FB06A&playnext=1&index=46
    E acho que a Regina Duarte ou é formada em Ciências Sociais ou frequentou o curso. Ela foi aluna de FHC.

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