sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Ocupação no morro dos outros é refresco

Não se fala de outra coisa: na cidade do Rio de Janeiro, criminosos/traficantes/arruaceiros queimam carros e ônibus e atacam postos policiais; a polícia revida invadindo morros, com direto a transmissão ao vivo e júbilo de comentaristas ao verem os tais bandidos fugindo de qualquer jeito.

Eu consigo agora mal e porcamente reparar em coisas que parecem que só são esquisitas para mim e poucos outros. Veja por exemplo essa matéria do Uol/Folha de S. Paulo: Forças Armadas reforçarão segurança no Rio, que tem 39 mortes em 6 dias de ataques.   No corpo da matéria, porém, a matança não merece nada além da menção, e boa parte dos parágrafos se dedica a falar de veículos incendiados, aí sim pelo menos onde, como e quando (por quem e por quê já não dá para saber). Assim, o aspecto mais grave dessa confusão toda: TÁ MORRENDO UM MONTE DE GENTE merece menos esclarecimento que uma kombi queimada. Caveirão merece até infográfico. Depois acham que a imprensa é perseguida, coitada.

Além dos mortos pela polícia não valerem nem uma linha em lugar nenhum, poucos conseguem perceber a ilegalidade e o risco para os moradores de uma operação militar numa favela ou em qualquer outro lugar, no contexto de repressão ao crime comum em uma democracia. E se alguém quer prova que o Brasil a desigualdade é tão entranhada, tão naturalizada, que esse tipo de operação militar parece não só indispensável como elogiável, releiam as notícias desse período, só que experimentando trocar onde está escrito Vila Carioca por Moema. Ou Pinheiros. Ou Morumbi, Tatuapé, Freguesia do Ó, Santana... escolha o bairro classe média ou alta, qualquer um, de qualquer cidade. Você pode ter uma experiência interessante.

Imagine também que toda a energia que se gasta atrás de criminosos de favelas fosse gasta contra criminosos de colarinho branco, com os mesmos métodos. Você leria uma notícia mais ou menos assim: "Polícia invade condomínios de luxo: sete contadores, advogados e executivos morrem na ação. Na manhã de ontem, seguindo uma denúncia anônima que haveria uma operação de descarregamento de champanhe francês, viaturas da polícia subiram ao condomínio German's Hill. Apesar dos obstáculos à entrada da polícia, compostas por guaritas blindadas, portões automáticos, câmeras de vigilâncias, elevadores com senhas, e cerca de dezenas de seguranças privados e advogados, a operação utilizou blindados Urutu e com o apoio de helicópteros conseguiu furar o cerco do elevador social. Já no primeiro lounge foi recebida com tiros de armas austríacas de cabo de madrepérola, da grife Sig Sauer. No revide, dois contadores e três advogados foram atingidos. Entretanto, quem ofereceu maior resistência foi o CEO, mister D., chefe do tráfico de champanhe e caviar e suspeito de desfalque, fraude, crime contra o sistema financeiro, falsificação de balanço e cobrança de juros de cheque especial. Depois de forte tiroteio no terraço gourmet, o chefe do grupo e seus personnal assistants finalmente se entregaram ao perceber que os policiais os cercaram a caminho do closet. Mister D. se manifestou através de sua assessoria de imprensa, dizendo que 'no Supremo, tinha facilidades', que as provas da polícia tinham sido obtidas por meio de grampos ilegais, e que as Veuve Cliquot encontradas em sua adega tinham sido plantadas pelos policiais, pois as dele eram da safra 1973, lógico. Grupos de direitos humanos questionaram a legalidade da ação da polícia, que utilizou violência desnecessária, segundo eles, por preconceito contra ricos e cheirosos. Já moradores e vizinhos que não quiseram se identificar disseram estar satisfeitos, pois o mister D. ameaçava a todos com sua Ferrari, que circulava ostensivamente no condomínio e arredores e promovia festas regadas a scotch 30 anos onde socialites foram vistas com jóias obscenamente caras."  [alerta de ironia: O Ministério da Saúde adverte: esse texto possui mais de 30 mil substâncias que produzem ironia]

Não, não, não. Não apoio bandido, e eu e minha família temos tanto medo e tomamos as precauções a nosso alcance quanto qualquer outra. Mas não posso deixar de ver, numa operação desse tipo, que é necessário aperfeiçoar o controle da violência oficial, apesar dos avanços sobre essa questão; que a imprensa reveja a prioridade da informação que presta - não se sabe quem e em quais circunstâncias tanta gente anda morrendo, dando a impressao que o problema são os carros queimados, e que passemos a difundir a ideia que não, não é normal ver tanques nas ruas, e que quando vão para a rua eles não são a solução perfeita. É claro que o problema  do controle da criminalidade comum é muitíssimo mais complicado, e ainda mais numa situação de crise, onde aparentemente há sim a intenção do crime organizado de promover vandalismo e atentados. Entretanto, se há crise, parece que se pode dar alguma razão ao governo estadual do RJ de que esses atentados são 'simbólicos' (expressão minha) da eficiência da implantação das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) em certos bairros. Pelo menos esse depoimento (Celso Athayde, via Nassif) dá alguma pista sobre as alterações e crise do crime organizado nas favelas: para obter drogas ilegais os clientes 'do asfalto' agora tem outros fornecedores. Tudo como mais uma questão de mercado: os atentados agora seriam expressão do enfraquecimento comercial desse ramo do crime organizado. Acho que as duas coisas são possíveis, e convergentes: as UPPs funcionam e o tráfico está mudando, e deve se dar o crédito devido ao governo carioca. Entretanto, operações violentas, de altíssimo risco para moradores e policiais, sem transparência, que são ilegais, e que produzem tantos cadáveres, não podem ser admitidas como normais, por mais que tanta gente esteja comemorando a fuga dos bandidos: aqueles caras, pretos magrinhos, maltrapilhos, embora armados, não são de longe os personagens mais importantes. São, aparentemente, apenas os que vão virar um número, que poucos querem saber o que significa.

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