sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Para que estudar ..... se eu não vou usar? (preencha os pontos com qualquer disciplina escolar)

Papo no almoço, o tema "filhos", assunto "estudo", e a conversa dá no que parece ser uma queixa generalizada dos pais e mães naquela na mesa: - meu filho(a) sempre me pergunta 'porque é que eu tenho que estudar ..... (preencha com qualquer disciplina escolar) se eu não vou trabalhar com isso/ nunca mais vou ver isso na vida/ detesto essa disciplina/ vou ser político e não vou precisar?'. E assim por diante. Alguns se confessam desarmados com tais afirmações dos filhos e me perguntam o que eu respondo. Sem pensar e sem pousar o garfo, aquelas coisas que se falam para manter a conversa fluindo, respondo algo na linha: - 'eles devem estudar o máximo de coisas o melhor possível, pelo menos, para não serem engambelados por qualquer um'.

Com certa surpresa, vejo que o meu 'conselho' - que não é meu, claro, deve ter vindo do tempo dos faraós - ganha adesão e até entusiasmo imediato. ´É isso mesmo, se o sujeito não estuda vira um sem-noção na mão de a) médicos, b) advogados, c) padres, d) economistas, e) sociólogos, f) mecânicos...' escolha o seu especialista predileto, novamente. Aí a mesa lembra de vários exemplos pessoais onde faltou um pingo de conhecimento para não não errar nem tomar prejuízo. E onde eu, mais interessado na sobremesa, realimento o debate 'teoria da utilidade defensiva do estudo generalista' versus 'teoria da especialização precoce para o trabalho': - Não acho que o que há para aprender no ensino médio sobre matemática/química/ história seja inútil. Talvez as aulas não sejam boas / professores capacitados / atraentes para os alunos [detector de chavão em alerta!] e os adolescentes com certeza estão pensando em 'outra coisa' (nisso mesmo, seus mentes sujas). Mas, será que não tem um pingo de razão o moleque de cabelo 'lambido' que acha que quando for CEO de uma multinacional não vai precisar saber quem foi Joaquim Nabuco ou Rosa Luxemburgo nem Mário Quintana nem Heidegger ou o que é uma mitose? Nada disso afinal  parece ser necessário para ser CEO...

Depois de pensar um pouco, tendo a mudar um pouco de ideia  sobre o lema sempre-alerta-e-preparado-pra-tudo, embora acho que o palpite que eu dei nem foi tão ruim, e tenho até ideia de onde veio: quando era moleque, adorava a série O Túnel do Tempo (The Time Tunnel, 1966), que era sobre dois cientistas que entravam no tal túnel e ficavam presos no passado, em momentos chave, tipo a batalha do Peloponeso ou a explosão do Krakatoa. O que eu achava mais legal é que os dois eram físicos nucleares mas sabiam TODOS os fatos, datas e detalhes e personagens históricos com os quais topavam, e o fato de saber o que tinha acontecido é que permitia que eles escapassem das enrascadas, até o próximo episódio. Na minha imaginação infantil parecia ser uma boa ideia estudar bastante para estar preparado para viagens no tempo, se perder em outro planeta e outras emergências desse naipe. Depois de um tempinho, assim uns 20, 30, vá lá, 40 anos, é que você atenta que não deve ser coincidência a presença de personagens sabichões em produtos da cultura pop, do Mister Spock ao McGyver ou Yoda ou ao Dumbledore. Sim, alguém, algum personagem, tem que explicar o que raios está acontecendo naquela estorinha que está rolando.  Nada como um cientista, médico, pajé, juiz, padre, qualquer um que tenha credibilidade assim de chapa para em algum momento chave fazer o discurso ah-há-então-é-isso-que-tá-rolando. O 'negativo' dessa variante é o 'cientista louco', tipo Dr. Frankenstein, que igualmente em algum momento explica pro mocinho porque, afinal, dessa mania de conquistar o mundo. Se você tira o personagem explicador, vira um filme europeu... ou Lost.

Mas, será que vale mesmo ser sabichão fora das telas - ou pelo menos, ter alguma noção de que, na dúvida, vale apelar senão para o método científico, pelo menos para o senso crítico?  A escola pode/deve fazer o quê? Cabe esclarecer que não estou pensando numa volta a uma escola de conteúdos 'clássicos' nem 'decorebas', mas pelo menos que pensemos que a escola é mais que um lugar que prepara o sujeito para o trabalho - apenas. Nós aparentemente damos pouca ou insuficiente ênfase nisso, mas educar alguém tem mais objetivos, talvez mais importantes, valiosos, que preparar alguém apenas para ser um 'trabalhador'. Se me lembro direito, a própria Lei de Diretrizes e Bases da Educação LDB, logo depois da exposição de motivos, se esquece dos demais nobres objetivos do sistema de educação nacional e parte logo para a educação para o trabalho - e praticamente é só disso que trata. Aliás, educar o cara para ser trabalhador parece que também se resume à pobreza da fórmula 'passar da teoria para a prática' querendo dizer 'da escola para o trabalho', ou seja,  o utilitarismo mais rasteiro, que a escola 'legítima' seria aquela que forma para o que o 'mercado' quer. Dentro dessa armadilha, qualquer conteúdo que não tenha 'utilidade' ou uso no mercado - nem que seja o mero entretenimento - não 'merece' o esforço de ser aprendido. Talvez daí venha a queixa ouvida por tantos pais.

Acontece que a escola teve já outras funções além de formar trabalhadores. Formava cristãos, católicos, judeus, muçulmanos... formava patriotas. Formava pais e mães de família. Formava gente 'educada', no sentido de etiqueta, formava também gente que reconhecia a autoridade e as leis. Na verdade, talvez a escola continue formando tudo isso, notadamente em caríssimas e tradicionais escolas particulares, mas agora também tem que 'tirar da rua' as crianças, formar cidadãos, indivíduos autônomos e críticos... não é mole, não. Mas o modelo de escola voltada só para resultados, ou seja,  que passa seus alunos no vestibular e, portanto, os inicia numa carreira profissional é o que parece agora dominante. Conteúdos 'humanistas' entram na escola-de-resultados como a laranja na feijoada, só para suavizar o caldo - e porque, claro, são obrigatórios, caso recente da própria sociologia, e ainda caem no vestibular.

Há muito o que dizer sobre esse assunto, mas não é o lugar e eu estou longe de estar preparado para isso. No entanto... vamos tentar rascunhar algumas hipóteses. Em primeiro lugar, escola é escola e trabalho é trabalho, ou seja, são esferas e/ou instituições diferentes e autônomas, embora relacionadas. É compreensível que o trabalho (e a forma como é organizado, por exemplo, no 'capitalismo concorrencial') seja  em alguma medida subordinador de várias esferas, como 'família', por exemplo, no sentido que relaciona chefe de família como igual a trabalhador.  O relacionamento do trabalho com escola, entretanto, parece que vem mudando, mas não era nem único nem isento de contradições. Por exemplo, ainda se encontra exemplarmente na condição do 'trabalho infantil' a oposição entre trabalho e escola. Uma excluindo a outra, pelo menos nessa fatia da sociedade. No outro extremo, a ideia que trabalho, ou certos trabalhos, só são legitimamente designados aos que não somente são bem sucedidos, mas o são em certas escolas específicas - embora outros mecanismos  posicionais ou situacionais também sabemos que atuam para colocação nesses postos privilegiados. Haveria por aqui então pelo menos três grandes modelos de escola, e respectivos públicos: a escola pública, para os pobres, a escola tradicional de elite (para a elite tradicional, dãã), e a escola privada de massa, para a crescente classe média, formada por redes de escolas organizadas como grifes, administradas como corporações lucrativas e que lançam mão, por exemplo, das mais recentes técnicas de marketing. Nessas, o próprio ensino é um empreendimento com foco na utilidade, portanto se utilizam apostilas padronizadas e outros recursos 'racionalizadores' e 'mais eficientes'. De certa forma é desse estrato médio que, pelo menos desde os anos 1980,  parece que surgem as iniciativas dinâmicas, as novidades, tanto em termos de tamanho quanto de propostas, e que redundam em movimentos de complementação, oposição e atrito entre os diferentes modelos de escola. Um dos efeitos que nos interessa é o esvaziamento do ideário e do prestígio da escola pública diretamente proporcional à sua massificação e inversamente proporcional à classe social que atendia: se antes atendia a poucos, da elite, hoje a escola pública atende à massa, dos pobres. No espaço deixado (ou aberto?), a escola privada de massa surge e se desenvolve, não por coincidência, no período mais (neo)liberal dos anos 1990 até meados dos 2000. E a primeira ideia-força da escola privada de massa só poderia ser que a educação deve ser completa e cegamente subordinada ao mercado. A segunda ideia-força, necessária e que suporta a primeira, é que a educação pública e gratuita é sempre  ruim e 'de pobre'. De lasquinha, a escola de elite é, nessa visão, antiquada, rançosa e ultrapassada.

Se for por esse caminho, então, acho que já podemos entrar no túnel do tempo e voltar até aquele bate-papo no almoço. A conversa dá no que parece ser uma queixa generalizada dos pais e mães naquela na mesa: - meu filho(a) sempre me pergunta 'porque é que eu tenho que estudar ..... (preencha com qualquer disciplina escolar) se eu não vou trabalhar com isso/ nunca mais vou ver isso na vida/ detesto essa disciplina/ vou ser político e não vou precisar?'. E assim por diante. Alguns se confessam desarmados com tais afirmações dos filhos e me perguntam o que eu respondo.

Como eu sou um viajante do tempo, poderia responder sem largar o garfo: 'Gente, a questão não é o que responder - é claro que esse papo dos nossos filhos é só uma queixa dentre as milhares que eles gostam de nos fazer sobre a escola. Nossos filhos devem estudar uma porção de coisas mesmo que não saibamos se vamos ou não usar no nosso futuro, no trabalho ou em outro lugar, porque se espera que numa sociedade democrática, do ponto de vista liberal, todos tenham o mesmo 'ponto de partida' ou seja, igualdade de condições para desfrutar das oportunidades e  responder às responsabilidades que terão quando forem adultos. Isso significa ter um repertório comum, dado pela educação formal e instucional, ou seja, a escola. E nós, os adultos, queremos que vocês tenham condições de apreciar o melhor que a espécie humana produziu, em ciência, na arte e no engenho, e tenham condições de evitar as burradas, pelo menos as mais perigosas. Nós, pais, não sabemos o que responder quando nos fazem a pergunta do 'aprender para quê?' porque provavelmente nós é que fomos educados, justamente, a entender a educação e a escola tendo valor e foco somente no aspecto do trabalho, e agora essa questão nos preocupa porque não sabemos respondê-la para nós mesmos. Vejam vocês que Bill Gates, Lula, José de Alencar, são só uns exemplos de caras que são bem sucedidos mesmo não tendo curso superior, enquando Obama é exemplo do cara que subiu por ter estudado, mas o mais comum é gente como nós, que estudou tanto para o trabalho que nem responder uma pergunta de um adolescente a gente sabe.'

Aí, tendo eu respondido isso, as pessoas ficam em silêncio por dois segundos, e mudam rapidinho de assunto. Acho que é por isso que eu nunca vi um personagem sabichão de ficção científica que seja sociólogo.  Mas não é perseguição: tudo é uma questão de tempo de drama, ora.


Um comentário:

  1. Você esqueceu o pior sabichão de todos e que também é do Irwin Allen : o Will Robinson.

    É impressionante como a forma de pensar o mundo moldada segundo a conveniência econômica já está algo consolidada na adolescência. Marx e sua noção de ideologia como resultado dos métodos produtivos reinam supremos aí. Ocorre entretanto duas coisas. A primeira é que categorizações conceituais não são estanques e a consciência que intelege o faz sem fazer discernimento compartimentalizado de seus recursos.Assim, o engenheiro vai entender a tecnologia na medida daquilo que souber de desenvolvimento social e situação histórica, o artista concebe a harmonia segundo recorre ao que lhe impressionou acerca dos pitagóricos e da trigonometria. O segundo ponto é que a consciência , que tem o conhecimento e a sensibilidade como essência só vai encontrar mesmo propósito e beleza persistentes e substanciais na ciência e na arte. O resto ( que inclui dinheiro, carreira ....) pelo caráter impermanente e desiderativo só vai trazer mesmo angústia e ansiedade caso seja erroneamente tomado no primeiro plano da vida.

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