quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Preconceito contra nordestinos e mudança social: vale-tudo da campanha cria clima de pode-tudo

Entre os 'efeitos indesejados' (se podemos chamar assim) da eleição presidencial de 2010, o que mais me incomoda foi a instrumentalização de preconceitos. Contra a mulher, notadamente para desvalorizar a candidata Dilma Rousseff (não dá conta, fantoche do Lula, blábláblá), mas também contra o voto do pobre ('bolsa esmola'), e contra nordestinos (Tiririca, mas em especial o rancor que já é histórico aqui em São Paulo contra Lula e o PT). Só para a Soninha não chorar, José Serra foi objeto de estereótipos também: contra carecas (alvo calvo que caracteriza o capilarmente desfavorecido atrator de projéteis sulfitosos esféricos A4 75g, em tucanês) e contra vampiros, essa categoria social tão crespuscular, e na qual evidentemente não se encaixa o noturno candidato José Serra, que beijou santas e santos e não se queimou, a não ser eleitoralmente.

O uso de preconceitos nessa campanha não foi nem acidental nem lapso nem lateral nem sem-querer-querendo: o uso desse expediente é central na tecnologia da infâmia eleitoral, importada da direita norteamericana e largamente utilizada pelo candidato calibre 45 e pelo submundo virtual de sua campanha. Nisso, estou me repetindo. Aparentemente causado por má interpretação (jornalística?) de um certo mapa onde os estados vermelhos e azuis representavam as vitórias eleitorais de Dilma e Serra, respectivamente, o meme 'nordestinos elegeram Dilma' fez inúmeros tuiteiros, orkuteiros e facebuqueiros caírem de boca suja no engano estatístico e exporem seu preconceito no hiperpúblico espaço virtual (se você é 'de maior', clique aqui e veja a compilação das baixarias, feita pelo blogueiro kioshi. O Ministério da Saúde adverte: tirem as crianças da sala). Você pode ver que esses incautos podem ser criminalizados pelas bobagens que espalharam.

Não é nenhuma novidade que o preconceito, isto é,  que movimentos organizados e outros autores atuam na internet brasileira em redes sociais e sites. Homofobia, supremacia branca, separatismo, paulistanismo e outros movimentos de ódio são inclusive temas de investigações específicas, já que são práticas vedadas pela nossa Constituição e pelo código penal. Sabe-se que oportunisticamente (ou não?) estiveram ligados a alguns episódios vergonhosos da eleição passada, como a produção de panfletos apócrifos e produção de spams. Mas aparentemente não são esses movimentos que estão por trás desse surto específico: parece que o paciente zero é uma moça que resolveu xingar os nordestinos no twitter, provavelmente no seu laptop cor de rosa, com seu perfil verdadeiro e erros de português, e que chateada achou que do mesmo modo que xinga suas amigas fofoqueiras poderia insultar os pretensos responsáveis pela derrota tucana. Uia, quase que inauguro o preconceito contra mocinhas tuiteiras...

Evidentemente, o preconceito não obedece nenhum imperativo racional - qualquer que fosse o resultado eleitoral, por exemplo, é de se duvidar que 'essa turma' passasse a gostar dos nordestinos, por mais talentosos que sejam Daniela Mercury ou Caymmi ou Fagner. Talvez se o outro candidato tivesse ganho a 'comemoração' fosse escarnecer ainda mais de nordestinos. Mas é preciso levar em conta que o 'detector de calúnias, mistificações e baixarias em geral', ou seja, um grande contingente de internautas, blogueiros, jornalistas estava em alerta máximo próximo da data das eleições - o bastante para uma tuitada muitíssimo mal intencionada (e mal dada) tivesse a repercussão que teve.

Gostaria de saber mais sobre o tema, mas as manifestações de preconceito em suas variadas formas são temas clássicos e, infelizmente, inesgotáveis da ciência social. Parece que onde houver gente vivendo ou forçada a viver em condições desiguais, e essa desigualdade for atribuída a caracteristicas étnicas, 'raciais', de gênero, de cor de cabelo, religião, nacionalidade ou origem etc. essas serão 'traduzidas' em diferentes formas do que chamamos 'preconceitos', arranjos  'explicativos' pré determinados onde a diferença 'explicaria' a condição - e vice versa. 


Até onde sei, e correndo o risco de erros grosseiros, o relacionamento desigual entre brancos e negros no Brasil como  manifestação de 'preconceito' é, dentre múltiplas outras facetas, um dos aspectos em que Florestan Fernandes foi pioneiro ou estava dentre os pioneiros (outros nomes notáveis são os de Octávio Ianni, João Baptista Borges Pereira, Oracy Nogueira...), e que opôs Florestan e os sociólogos (e sociólogas) da USP à Gilberto Freyre e às ideias de 'democracia racial' ou 'harmonia racial', se não me engano, por volta dos anos 1960. Mais do que isso, Florestan  tinha elaborado a hipótese que as diferenças 'raciais' eram sobredeterminadas pelas diferenças de classe, isto é, haveria uma dupla barreira ou uma dupla determinação na definição das distinções: 'raça' e classe, ou seja, condição biológica e condição social, ser preto e pobre, ser preto por ser pobre, ser pobre por ser preto. Estou, claro, simplificando, senão estragando uma contribuição fantástica do pensamento social brasileiro. Portanto, paro por aqui antes que o leitor sofra ainda mais de vergonha alheia. Meu palpitezinho nesse campo é só que devemos monitorar as transformações e possíveis atritos trazidos pela redução de desigualdade de renda.

E o que há para ser contra nordestinos? Ou cariocas, baianos, mineiros... Se essas recentíssimas manifestações de preconceitos dizem algo diferente, não é por seu conteúdo ou forma. Eu até pensei em colocar os exemplos, mas esse aqui é até um blog 'sujo', mas nem tanto.  Vou só dar uma ideia: Além de desejar a morte aos nordestinos, acusam-os de ignorantes, pobres, dependentes do bolsa família (e dos impostos dos paulistas), de cheirar mal, de feiúra, amaldiçoam-os com 'seca eterna' e mandam $#&*. Embora horríveis, essas manifestações não são diferentes das que se podem ouvir em certos ambientes privados, inclusive de gente acima de qualquer suspeita. E quanto a aparecerem na internet, isso também não é recente, como já vimos. Tampouco são inéditas tais manifestações na ocorrência de eleições, ou Lula não teria sido desde sua primeira candidatura alvo frequente de insultos.

O pior aspecto, e que foi isso sim foi inédito ao menos em grau, foi a administração calculada do ódio e do preconceito com finalidade eleitoral. De ódio organizado. De ódio como recurso eleitoral.  Cevar e estimular preconceito para ganhar voto. De não demonstrar o mínimo respeito por assuntos não-eleitorais, como aborto, religião ou orientação sexual. Esses expedientes criaram, ao menos em determinados círculos, a 'legitimidade' necessária, a abertura da porteira, a terra arrasada. Na mais dura campanha eleitoral desse século, a da presidência dos Estados Unidos de 2008, Barack Hussein Obama foi tão, senão mais falsamente acusado que Dilma Rousseff (aliás, quem fez a campanha lá fez a campanha daqui praticamente igual). Lá no Norte, entre as possíveis consequências, passados dois anos, está a radicalização de camada da população, o movimento Tea Party (a derrota nas eleições do dia 2/11, porém, parece mais ligada à inação do governo democrata). Naquela ocasião já nos chamou a atenção o discurso do candidato derrotado John McCain, que em resumo foi um bom perdedor: reconheceu a soberania popular, desautorizou as vaias para Obama, chamou a unidade nacional ameaçada pelas baixarias e radicalizações, validou e elogiou o patriotismo de Obama e o chamou de 'meu presidente'.

O candidato derrotado José Serra talvez não tenha compactuado com a estratégia da infâmia, embora  seu estilo extremamente centralizador enfraqueça essa ideia, e nem se sinta responsável pela sua campanha ter servido para estimular tais manifestações desastrosas de seus apoiadores. Objetivamente não se pode acusá-lo disso, creio eu, pois não há evidência nesse sentido. Mas é responsável por não ter desautorizado nem desestimulado em momento algum essas manifestações - e no caso 'bolinhagate', ter claramente catimbado. Não fez nenhum gesto para impedir manifestações radicalizadas de pessoas comuns, de fora da campanha, que foram 'fermentando' e fugindo da fôrma, e dado o primarismo de  alguns de seus apoiadores, é bem possível que esses cidadãos tenham entendido que manifestar seu apoio a José Serra equivaleria a se manifestar com estridência em público, mesmo preconceituosamente, mesmo baixamente, mesmo deixando de lado a educação que mamãe deu. Se era para usar o know-how do partido republicano, poderia ter pelo menos atitude semelhante a do McCain. E José Serra provavelmente não se achará responsável, nem pode ser responsabilizado, mas sua frustrada apoiadora, que iniciou toda a quizumba, perdeu o emprego, vai ser processada e provavelmente será persona non grata em Canoa Quebrada, ganhou o quê? Só o estigma... Trolls profissionais pelo menos são mercenários cínicos, pagos, e sabem do risco.

Do ponto de vista da educação política para a democracia, portanto, essa eleição deixou a desejar. É trágico que um país que teve um intelectual como presidente, que tem um operário como presidente, e que terá uma mulher nerd workaholic divorciada e 'ex-guerrilheira' como próxima presidenta, tenha saído com camadas de sua população tão (des)enganadas a respeito do que é o processo eleitoral democrático. Política 101: eleição não é vale-tudo. Aliás, até o esporte que era chamado de vale-tudo tinha lá suas regras.  Se de certa forma, e representado assim, o processo de governo brasileiro parece avançar, por outro lado, certos atores parecem não entender seu papel nesse processo mais amplo. Para encerrar, por mais que eu tenha preferência por um jogador ou um time, eu gosto sobretudo do jogo, e acho que devemos todos gostar do jogo - não necessariamente só de ganhar. Mas o jogo é pesadíssimo, é importantérrimo, planetário, significa muito. Significará, significaria muito, muito mais, se bem jogado. Engraçado como Lula, que é dos que entendem isso, consegue explicar só usando futebol. Eu preciso apelar para o kick-boxe.

5 comentários:

  1. Ai, meus sais... por falar em falta de educação política (e vergonha alheia)... "Querem vitimizar nordeste, diz movimento SP para Paulistas". No Terra Magazine http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4772959-EI6578,00-Querem+vitimizar+Nordeste+diz+Movimento+SP+para+Paulistas.html
    Entre as pérolas, essa aqui é a mais perigosa: que o presidente não foi eleito por eles - perdeu no Estado de São Paulo - 'portanto', não deveria ser reconhecido pelos paulistas: "E o pessoal de lá (do Nordeste) acaba elegendo um governo que... São Paulo fica subjugado a um governo que não elegeu, na verdade (...) São Paulo sustenta e eles (nordestinos) decidem quem vai nos governar."
    Desenhando:
    1 - São Paulo elegeu o presidente, mesmo que o vencedor no Brasil não tenha ganho em São Paulo, porque a eleição é brasileira, não paulista. O Brasil elegeu o presidente, e São Paulo também, pois (ainda) fica no Brasil.
    2 - São Paulo não fica subjugado, pois São Paulo é um Estado de uma Federação e não um lutador de jiu-jitsu que tomou uma invertida. São Paulo participa da Federação com atribuições, direitos e responsabilidades como os demais Estados.
    3 - São Paulo é o mais nordestino dos Estados brasileiros. E o mais mineiro, baiano, sergipano, talvez carioca... Simplesmente não haveria São Paulo sem essa característica. São Paulo, sem os imigrantes/migrantes, é que seria o 'nordeste', e os paulistas é que migrariam, e hoje estariam sendo 'sustentados' (outra bobajada) pela União, de acordo com esse mesmo mito. Afinal, o trabalho de quem é que criou a riqueza de São Paulo?
    4 - é um também um mito a idéia que São Paulo de algum modo contribui 'mais' que deveria para a União, ou que receberia 'menos'. As transferências constitucionais tanto para lá como para cá obedecem as mesmas regras e são automáticas (caem na conta corrente) para os municípios e Estados. Não dependem de simpatias partidárias.

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  2. Daniela Mercury, pai? Todo mundo sabe que a referência, agora, é Ivete.

    Excelente, as always...

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  3. links importantes:
    Rodrigo Vianna: Serra plantou ódio e o Brasil colhe preconceito
    http://www.rodrigovianna.com.br/plenos-poderes/serra-plantou-odio-brasil-colhe-preconceito-as-manifestacoes-contra-nordestinos-na-internet.html
    Eduardo Guimarães: Campanha tucana desmascarou elite paulista:
    http://www.blogcidadania.com.br/2010/11/campanha-tucana-desmascarou-elite-paulista/
    e também: Vereador de São Paulo representa ao MPF contra racistas do Twitter:
    http://www.blogcidadania.com.br/2010/11/vereador-de-sao-paulo-representa-ao-mpf-contra-racistas-do-twitter/

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  4. Serra plantou ódio e o Brasil colhe preconceito! +1

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  5. Se pagassem um salário digno e justo para os trabalhadores eles nao iriam precisar dessa Bolsa-Família ou Bolsa-Esmola,como muitos chaman.Vocês mesmo estao mostrando sua atitude e falta de respeito,desvalorizando os trabalhadores,seu próprio povo.Quem criam um bando de "Vagabundos"como muitos se exprêssam. Sao justamente pessoas como vocês que escravisam.Se eu perguntar:você podia sôbreviver com um salário que um trabalhador nordestino ganha?Como funcionária os hospitais sem os fachineiros?As ruas e cidades sem os lixeiros?A linguagem vulgar que muitos usam já estao dizendo que tipo de brasileiros vocês sao!

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