sábado, 22 de outubro de 2011

Não me abandone jamais (2010)

Faz muito tempo que ensaio escrever sobre Não me abandone jamais - o livro de Kazuo Ishiguro, publicado em 2005, e filmado no ano passado.

Eu assisti super desavisada: não sabia do que se tratava, não tinha expectativa alguma... nem sabia que era baseado em livro do Ishiguro (cuja literatura, por sinal, gosto bastante)! Talvez por isso mesmo, a experiência de assistir ao filme e, depois, de ler o livro, tenham sido tão intensas. Digo isso porque o Ishiguro, que também é o autor de Vestígios do Dia (que, quando filmado, contou com Anthony Hopkins e Emma Thompson no elenco), é um mestre dos detalhes e sutilezas, e constrói uma narrativa que nos pega desprevenidos; ele estrutura o livro de modo a aumentar nossa empatia com as personagens: como elas, notamos uma estranheza difícil de nomear, introduzida por meio da linguagem (pois algumas palavras têm seu sentido deslocado), mas principalmente por meio de um zoom potente sobre as relações sociais. Também como as personagens, ficamos ao mesmo tempo aliviados e assombrados quando a verdade, anunciada na estranheza, se revela por inteiro na fala de uma das professoras.

Destino, angústia com o tempo, a alegria do amor, mas também aquilo que Octavio Paz chamou de contradição essencial do amor [1] e, mais dolorosamente, a impotência e a conformação são temas do livro, que Ishiguro vai desenvolvendo como que despretenciosamente, mas por isso mesmo, de forma muito comovente. Se parte da tensão do livro se constrói sobre a tensão Nós-Outros, Ishiguro dá uma rasteira no leitor e nos provoca a tirar as consequências do fato de que a distância entre nós-eles é falsa, é mediada pelo nosso próprio desejo de sobreviver, pelo esforço em tornar invisíveis as contradições que tornam possível a vida (de alguns) boa e longa. Mas nos atira na cara, no mesmo movimento, os custos dessa invisibilidade, presente nas relações sociais que as personagens estabelecem, umas com as outras e também com os professores e a diretora de Hailsham, o colégio onde as personagens se conhecem e onde crescem juntas. Distinguir entre Nós-Outros nem sempre é fácil, afinal.

Por tudo isso, o filme é bastante atual, ao sugerir a impotência dos indivíduos em fazer frente a tantas contradições, mesmo quando o que está em jogo é sua sobrevivência física  - e nem vou tratar aqui do lugar que se confere, na narrativa, à escola, ainda que as personagens sejam "privilegiadas" por estudar numa das mais progressistas: o livro/filme faz uma crítica ácida ao papel que a escola tem para produzir a conformação e a legitimação da ordem social.

Não sei se por ter assistido ao filme antes de ler o livro, acho que este foi em grande medida feliz ao colocar em imagens a narrativa de Ishiguro (que participou do projeto, inclusive como produtor executivo), o que tem ficado ainda mais evidente por, este semestre, eu estar trabalhando com meus alunos da licenciatura o tema "Distopias e Educação".

De fato, quando pensado em relação a outros filmes distópicos (penso em Metrópolis, de Fritz Lang; Blade Runner, de Ridley Scott; Matrix, dos irmãos Wachowski; Farhenheit 451, de François Truffaut, entre outros. Na literatura, além de Fahrenheit 451, referências obrigatórias são 1984 e Admirável Mundo Novo), Não me abandone jamais apresenta um imaginário visual distante das cidades futurísticas, lúgubres e tecnológicas que costumam aparecer nos filmes distópicos. Pois se trata de um filme distópico que fala menos de um futuro sombrio do que de um presente alternativo, verossímil ao apresentar as consequências possíveis de inovações tecnológicas já em funcionamento entre nós, mas chocante ao evidenciar de forma crua o quanto tais inovações, se levadas às últimas consequências, implicariam em desumanização. É um filme distópico que apresenta um imaginário visual completamente distinto: é quase amarelado, alternando cenas mais escuras, em espaços fechados, e cenas abertas, nas pequenas incursões que as personagens fazem no mundo "normal", o mundo das pessoas que ajudam a salvar. Com essa constante contraposição, o filme parece sugerir que nada é assim tão plano, tão liso: mais uma vez, o tema da contradição, que - desesperadoramente - não resulta em movimento algum de resistência.



No livro e no filme, a narrativa flui sem obstáculos, num continuum sem clímax, só desfechos. Pois, como a própria linguagem utilizada no livro sugere, trata-se de uma sociedade que baniu a morte, esse fantasma que ronda as sociedades de segurança (de que Não me abandone jamais faz a crítica) [2]: para os seres humanos ela perde sua força porque as personagens permitem a extensão da vida; para as personagens, ela é dita como "completar", isto é, como o fim lógico e natural de seu destino. Por isso mesmo, embora o livro termine enquanto Kathy, a narradora, ainda está viva, não temos dúvida do que acontecerá na sequência: a narrativa inteiramente sob o signo da inevitabilidade.

Essa parece ser a principal crítica de Ishiguro: que esses jovens, até mesmo quando amando, jamais cheguem a pôr em questão a justiça e a pertinência do lugar que ocupam, que jamais coloquem em dúvida o objetivo a que foram destinados; que legitimem, com sua passividade, a ordem das coisas. E que, assim, "completem" - a narrativa, seu destino, suas vidas.

É um livro realmente perturbador. Triste, desesperançado. Que recusa a agência individual para modificar o mundo - como é tão comum nos livros/filmes distópicos -  e, ao invés disso, nos oferece uma visão privilegiada do momento atual: quando talvez nos faltem menos as virtualidades possíveis do que a "tinta vermelha" com que enunciá-las, escapando do fatalismo do destino. Mobilizar-se, não para conseguir uma moratória em nossa sina (como Tommy, que desembesta a desenhar, esperando dessa maneira adiar o início de suas "obrigações"), mas para deixar de acreditar que é a única sina possível. Recusar o jogo, rebelar-se, rasgar as páginas do livro por já saber onde ele vai dar e tornar-se livre para inventar outro desfecho: essa parece a interpelação desesperada que Ishiguro faz.

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[1] Octavio Paz, em seu livro A dupla chama: amor e erotismo (2ª ed. São Paulo: Siciliano, 1994), sugere que a principal contradição do amor está em sua capacidade de nos fazer perder de vista o tempo, ao mesmo tempo em que passamos a senti-lo em todo o seu peso. A formulação dele é precisa, no que tem de beleza e poesia: "[...] Amamor um ser mortal como se fosse imortal, Lope disse isso melhor: ao que é temporal chamar eterno. Sim, somos mortais, somos filhos do tempo e ninguém se salva da morte. Não só sabemos que vamos morrer como a pessoa que amamos também vai morrer. Somos o joguete do tempo e de seus acidentes: a doença e a velhice, que desfiguram o corpo e extraviam a alma. Mas o amor é uma das respostas que o homem inventou para olhar de frente a morte. Pelo amor, roubamos ao tempo que nos mata umas quantas horas que transformamos, às vezes em paraíso e outras em inferno. De ambas as formas o tempo se distende e deixa de ser uma medida. Mais além da felicidade ou infelicidade, embora seja as duas coisas, o amor é intensidade; não nos presenteia com a eternidade mas sim, com a vivacidade, esse minuto durante o qual se entreabrem as portas do tempo e do espaço - aqui é mais além e agora é sempre" (p.117-8).
[2] Michel Foucault, no capítulo final do primeiro volume de História da Sexualidade (A vontade de saber. 13ª ed. Rio de Janeiro: Graal, 1988, p.125 e ss.), sugere que a reclusão da morte na modernidade se deve, entre outros processos, ao aparecimento de um dispositivo biopolítico, que - em oposição ao poder soberano - se propõe como objetivo "fazer viver e deixar morrer". Assim, produzir "mais-vida", melhorar a qualidade de vida, impedir as doenças etc. se torna objetivo de governo, alterando, portanto, a relação e os significados da morte.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Talvez você já tenha sentido esse medo antes - acidentes radioativos e um pouco de sociologia

... Aparentemente, o terremoto-tsunami-acidente nuclear no Japão, de 11 de março, ainda terá complicações imprevisíveis, e como muitos na verdade eu gostaria de ajudar mais do que ficar sentado aqui monitorando sites e coisas do tipo. Fazer um post não alivia muito esse sentimento, mas pelo menos eu gostaria de, sei lá, fazer um gesto para as vítimas e aos sobreviventes publicando um trabalho que eu fiz na dissertação de mestrado, de 1997, sobre o 'Acidente' de Goiânia, que mesmo já meio envelhecido (não existia  o Google) espero que traga alguma luz para as discussões que voltam a nos demandar. E sei lá por que (preguiça? vergonha?) o texto só estava disponível em papel, na biblioteca da FFLCH USP, então aproveitei, com licença, obrigado, para pedefar e colocar online.

Como ninguém vai ler tantas páginas, a seguir eu copiei apenas a introdução, para dar uma ideiazinha do que se trata - e porque o resumo oficial é um pé no saco, admito.

(Para baixar a dissertação clique aqui)
[Atualização: pode ser visto também aqui ]



‘Acidentes’ tecnológicos e modernização reflexiva: o caso do Acidente de Goiânia
 
Introdução
Dia 1 de outubro de 1987, quinta-feira. Os brasileiros em geral e os habitantes de Goiânia em especial se depararam, neste dia, com uma notícia surpreendente - e logo se viu, especialmente ruim. A blindagem de um aparelho de radioterapia teria sido destruída com marretadas, em um ferro-velho, na cidade de Goiânia, capital do Estado de Goiás, provocando o mais grave acidente radioativo do país, como já se avaliava:
01/10/87 - Césio em ferro-velho espalha radioatividade em Goiânia - GOIÂNIA - Dezesseis pessoas internadas em estado grave e cerca de 40 em regime especial de observação médica por causa da radioatividade liberada por uma cápsula de césio 137, que sumira do Instituto Goiano de Radioterapia e fora vendida a um ferro-velho de Goiânia como sucata, na semana passada. (...)
O material fora recolhido, na quarta-feira da semana passada, por Wagner Mota Pereira e Roberto dos Santos Alves, (...) e vendido como sucata ao ferro-velho de propriedade de Devair Alves Ferreira. Há uma versão de que o material teria sido roubado. (...) Os problemas começaram a surgir na segunda-feira, quando Wagner Mota Pereira foi internado no Hospital de Doenças Tropicais com queimaduras. Roberto dos Santos Alves também foi internado. O dono do ferro-velho e toda sua família também estão contaminados com a radiação da cápsula, que estava no quintal de sua casa.
Ali, tentou quebrar o material, e toda vez que fazia isto ativava a liberação de radioatividade da cápsula, sem saber o que estava acontecendo. As crianças se divertiam, brincando naquela “pedra brilhosa”, como chegaram a dizer. O problema maior foi a tentativa de Devair Alves Ferreira, o dono do ferro-velho, de quebrar a peça com uma marreta e um martelo, e com isto, segundo o físico Rozental, diluiu o material radioativo, que se espalhou por toda a casa. “Aquele pó impregnou todas as pessoas.” As crianças até se divertiam, passando pelo corpo o pó que brilhava como purpurina. Momentos depois, estavam com queimaduras por todo o corpo, com vômitos e diarréias, as primeiras manifestações da contaminação radioativa.(...)[1]

O que se objetiva aqui é problematizar o ‘Acidente do Césio’ como um evento da modernidade em um país de modernização supostamente atrasada, através do conceito de acidente tecnológico como acontecimento e, portanto, através de uma reconstituição histórica. Enquanto um exemplo de evento da atualidade, e pelo fato de haver acontecido na forma de ‘acidente’, é uma oportunidade de observar algo básico para o entendimento da organização social, que é a maneira de lidar, na modernidade, com o que é considerado contingente, fortuito. Essa maneira é a ciência, mobilizada na técnica, nas aplicações tecnológicas da ciência, com o conhecimento construído e voltado para controlar a natureza: é através dessa maneira que se lida com o que estaria fora ou contra a vontade, mesmo num momento em que essa maneira aparentemente falha, como no Acidente de Goiânia, e deve ser reelaborada pelos seus agentes. Nesse processo, nos seus antecedentes, no seu desenrolar, nas suas conseqüências, nos sentidos que lhe foram atribuídos e nos problemas que levantou para o país, o Acidente de Goiânia ‘desconstruiu’ um complexo institucional pouco conhecido (o setor voltado à tecnologia nuclear) e permitiu visualizar diversos elementos constituintes da modernização reflexiva: a existência, realização ou possibilidade de riscos ou perigos não previstos ou não conhecidos, mas criados pelo próprio desenvolvimento da sociedade industrial; o papel da ciência e da tecnologia na produção, conhecimento e controle desses riscos e sua relação problemática com as outras esferas, como o Estado ou a população; a forma reflexiva de criação, apropriação e circulação de conhecimentos, forma característica que também surgiu com a modernização; a correlata constituição e desempenho de responsabilidades (isto é, de papéis sociais); o papel agora central dos agentes técnicos (peritos ou burocratas especializados); a peculiar dramaticidade do acontecimento derivada da situação de emergência e das tarefas de reconstituição de uma normalidade afetada pelo desastre.

O Acidente em Goiânia foi o maior do tipo no Brasil (até agora) e um dos mais graves já ocorridos em todo o mundo: o primeiro no país a ter como vítimas a população em geral e não profissionais da área, nela provocando mortes e ferimentos; o primeiro a se espalhar por uma cidade povoada;  o primeiro a testar uma série de medidas de emergência que eram apenas hipotéticas ou, menos ainda, formais; e, principalmente, o primeiro experimentado como um grande evento público. Pareceu, e de fato se mostrou ser, algo tão grave que mereceu uma atenção especial, perigoso e de difícil compreensão, agora próximo mas também ainda distante, novo porém familiar; e brasileiro, mas também estranho, estrangeiro, como descreveu Fernando Gabeira (1987), inspirado em Freud. 

Não apenas surpresa, desagrado e estranhamento, mas uma multiplicidade de reações foi provocada. O “Acidente de Goiânia” ou “Acidente do Césio”, como ficou conhecido, teve a dimensão de algo incomum, capaz de abalar o cotidiano, de expor um novo perigo e de provocar nos brasileiros um medo antes desconhecido. De levantar temor quanto ao futuro imediato e desencadear o drama quanto ao destino das vítimas da contaminação. De fazer surgir manifestações, às vezes lamentáveis, às vezes surpreendentes, de discriminação e irracionalidade, mas também de indignação e solidariedade. Sobretudo, de provocar debates e de esclarecer posições entre autoridades, cientistas, técnicos, políticos e cidadãos: o espaço público, por algum tempo, foi preenchido por esse debate conflituoso e confuso veiculado e registrado através da imprensa. Teve a dimensão constituir esse debate como fato histórico, como intriga, no sentido de Veyne (1983)[2], mais que como um grande evento envolvendo grandes personalidades e grandes decisões.

Trata-se de uma experiência com uma nova forma de morrer. A morte por radiação é uma das invenções mais significativas deste século. Se for suficientemente forte, a radiação pode desintegrar uma pessoa, quebrando todas as moléculas do corpo e espalhando-as pelo espaço, tal como sucedeu às vítimas no hipocentro da explosão de Hiroshima[3]. Isso foi tão rápido e brutal que transformou o próprio conceito de morte: numa pequena fração de um instante, se vivia, entre outras pessoas e coisas, preocupações e alegrias, e depois, simplesmente, nada. Desaparece-se. Nenhuma prova material da existência anterior. Se a radiação não for tão forte para provocar a morte instantânea, ela radicaliza o conceito de morte, como em Goiânia: estenderá a agonia por minutos, por meses, anos ou gerações, e, antes, provocará uma espécie peculiar de morte social e de estigma. 

No acidente com o Césio-137, em Goiânia, os habitantes de todo o país tiveram uma experiência com essa morte radical. Pessoas foram contaminadas ou sofreram exposição à radiação de um outro tipo de bomba, que ao contrário da sua longínqua ancestral de Hiroshima, não produziu estrondo, nem vitória, e que ao contrário de uma bomba explosiva convencional, como se viu, é muito mais perigosa se for desmontada. O perigo em questão mostrou uma face sempre renovada do horror, e aqui ele tomou a forma de pedrinhas que emitiam uma luz azulada, linda; uma maravilha que saíra das entranhas de uma máquina velha e quebrada, que encantou os vizinhos e as crianças num bairro popular em Goiânia. 

“Leide morreu no início da noite [do dia 23 de outubro de 1987, cerca de um mês após sua contaminação], vitimada por uma contaminação e ingestão de césio-137 em níveis nunca antes observados pela medicina nuclear. A menina - que ingeriu pó de césio comendo pão com as mãos sujas - quando seu quarto no hospital estava às escuras mostrava uma aura azulada pelo efeito do césio, que continuava a irradiar. Até os médicos tinham que se aproximar dela com precaução para não se contaminarem. Nos últimos dias, Leide não respondia aos testes, alimentava-se por via parental e sofria muito com febre alta constante, diarréia, sangramento nos olhos e nariz e quadro hematológico muito grave.” [4]

A ameaça da morte por radiação já foi sentida como maior. Uma guerra termonuclear traria uma devastação global que faz parecer muito otimista a lendária resposta de Einstein à pergunta de com que armas ocorreria a terceira guerra mundial, que disse não saber, mas para ele a quarta seria, com certeza, com paus e pedras. A possibilidade ainda existe, porque as armas existem e estão prontas para serem usadas, e pelo fato de o futuro ser, por excelência, o campo das incertezas[5].
Isto coloca a questão de pensar esta etapa histórica como decorrente das maiores capacidades já alcançadas, ao mesmo tempo, tanto para a destruição quanto para a criação: “O que nos ocorre em primeiro lugar, naturalmente, é o tremendo aumento de poder humano de destruição, o fato de que somos capazes de destruir toda a vida orgânica da Terra e de que, algum dia, provavelmente seremos capazes de destruir a própria Terra. No entanto, não menos terrível e não menos difícil de compreender é o novo poder de criar, o fato de que podemos produzir novos elementos jamais encontrados na natureza, de que somos capazes não apenas de especular quanto às relações entre massa e energia e quanto à mais secreta identidade destas duas, mas, de fato, transformar massa em energia ou transformar radiação em matéria.” (Arendt, 1991: 280-81). A noção desse poder, que tem mais de cinqüenta anos, já é generalizada na população, gerando movimentos de contestação, e tema de inúmeras obras científicas ou de ficção. Mas de maneira geral, pela condição do Brasil de país do ‘Terceiro Mundo’, os brasileiros nunca se experimentaram sujeitos ou alvos (até no sentido literal) dessas grandes possibilidades e ameaças.

O que aconteceu em Goiânia? Como se poderia entendê-lo? Por que aquelas pessoas estavam morrendo? Apesar de parecer algo que diz respeito principalmente às ciências naturais, como a física nuclear e suas decorrências, as teorias da matéria ou da radiação, ou ainda, a artefatos como o aparelho de radioterapia (portanto às ciências exatas e suas aplicações tecnológicas), parece óbvio que há importância para as ciências sociais num evento dessa magnitude. Não se pode explicar, compreender ou mesmo apenas descrever o Acidente de Goiânia abstraindo as pessoas e instituições que dele participaram, direta ou indiretamente. Também não se pode aceitar, do ponto de vista da sociologia, que apenas responsabilidades individuais, como as buscadas pelas investigações policiais ou judiciárias (portanto as posições oficiais), sejam explicações suficientes não apenas para o caso em questão quanto para outros perigos advindos de uma grande e importante série de sistemas, que estão profundamente envolvidos na forma de organização da vida atual, e que estão agora nitidamente interligados: o sistema científico-tecnológico e produtivo, que, por sua vez, também está interligado com várias outras esferas, como a militar, econômica, política, ecológica, até o nível da determinação da individualidade.

Poucos eventos parecem ser tão expressivos da atualidade como os acidentes tecnológicos, por serem decorrentes e demonstrativos desse caráter ambivalente da condição moderna. No caso do Acidente de Goiânia, a ambivalência está até no próprio artefato, um aparelho que, projetado para curar o câncer, passa a provocá-lo. Parece ser justamente essa passagem um objeto por excelência para as ciências sociais, por explicitar essa ambivalência, ainda que ‘acidental’ (ou pelo fato de o acidental ser o aspecto mais visivelmente social). Acidentes são temas sociológicos de certo modo ‘clássicos’, mas são abordados geralmente em relação a um outro tema ‘maior’: acidentes de trabalho, por exemplo, entendidos como conseqüências da exploração capitalista. Acidentes tecnológicos, entende-se, devem ser abordados de uma outra maneira, que leve em conta que eles não são simples conseqüências: podem ser expressão de problemas tão graves que haveria o risco de eliminarem as suas próprias causas, isto é, a própria sociedade industrial que os produz[6]

Além desses elementos, por assim dizer, institucionais (os sistemas envolvidos na constituição da atualidade), passado o momento de emergência, sempre resta um sentimento de frustração e angústia: apesar de um dos efeitos do acidente ser o grande falatório, debates, apelos, dos mais diversos tons, que ele provoca, de algum modo, ou em virtude disso, não há sentidos evidentes nem efeitos previsíveis num acontecimento deste tipo, mas a sensação consensual de que algo muito grave aconteceu. As interpretações múltiplas não reconfortam, pelo contrário. Nenhuma explicação que contemple a gravidade das implicações do uso da energia nuclear pode ser tranquilizadora. Há toda a questão do passado, de uma linhagem que a mídia sempre faz questão de lembrar, e portanto atualizar, que começa em Hiroshima, passa pela Guerra Fria e Tchernobyl. Há a cultura, onde a radioatividade é mostrada pela ficção geralmente como a pior das ameaças: traz a imagem de um futuro que não queremos habitar[7]. Há o fato de se tomar consciência, forçosamente, de um perigo invisível, ou mais, que não pode ser apreendido por nenhum sentido, e para o qual não há prevenção individual que se possa tomar. A idéia que surge após um grande desastre como o de Goiânia é a de que o mundo está mais perigoso, mais ameaçado e degradado do que antes.

As conseqüências sociais do desastre abrem ou renovam, para todos, a necessidade de criar alternativas, ante a presença dessa e de outras ameaças à existência coletiva. Embora a maioria das pessoas possa lidar com acontecimentos desse tipo com uma espécie de resignação forçada (entre diversas outras maneiras, do tédio à paranóia passando pela militância política (Giddens, 1991:136-8)), cabe às ciências sociais um papel de esclarecimento que, pelo menos, dê uma forma organizada e crítica a um conhecimento que se produz no social, mesmo que de modo ‘acidental’, e no contexto de um país que até o Acidente se sentia algo fora de tais perigos: não participávamos daquela linhagem de tristes desastres. Sua realização nos mostrou por algum tempo que não estávamos totalmente fora desse mundo.
 "Quando forem devidamente avaliadas, as conseqüências do acidente com o césio-137, em Goiânia, o país terá pela primeira vez um retrato sem retoques de sua perigosa duplicidade, que faz conviver explosivamente a tecnologia de vanguarda com o atraso quase pré-histórico. (...) Não foi apenas uma ironia cruel que fez o biscateiro Roberto Santos Alves arrebentar a marretadas o pomposo status brasileiro de país dominador do ciclo completo de enriquecimento de urânio, anunciado pelo presidente José Sarney há apenas um mês. Foi um desfecho quase lógico de uma situação que vem sendo armada nas últimas décadas, e que pipocou, apenas por azar, em Goiânia."[8]
 O Acidente de Goiânia não aconteceu num universo separado, mas, totalmente ao contrário, aconteceu imerso no contexto de um Brasil ‘subdesenvolvido’ que muito parece ter a explicar. Mas interpretá-lo, e a outros acidentes tecnológicos de maneira a concluir que, por exemplo, o acidente do césio tenha sido apenas decorrência do estágio subdesenvolvido do Brasil, de não termos portanto a capacidade elementar de evitar acidentes, traz alguns problemas. Pode valer mais como uma denúncia do subdesenvolvimento, mais ideológica do que sociológica ou científica. Tentar-se-á aqui argumentar que o subdesenvolvimento não é mera causa, antecedente ou explicação última para a ocorrência desse e de outros desastres: algo ao contrário, a idéia, o tema ou a auto-imagem de subdesenvolvimento é também conseqüência do Acidente, surge da problematização que dele fazem seus atores, como explicação que eles se dão tanto para que o desastre tenha ocorrido quanto para suas conseqüências no futuro. O subdesenvolvido, no fundo, espera que sua própria condição explique e absolva seus erros passados quanto justifique sua omissão no futuro: talvez o grande temor seja o de se assumir como sujeito de seus próprios atos e perder os relativos confortos de ser prisioneiro das circunstâncias.


[1] JORNAL DO BRASIL. 01/10/87. Césio em ferro-velho espalha radioatividade em Goiânia.
[2]Os factos não existem isoladamente, no sentido de que o tecido da história é o que chamaremos uma intriga, uma mistura muito humana e muito pouco ‘científica’ de causas materiais, de fins e de acasos; numa palavra, uma fatia de vida, que o historiador recorta a seu bel-prazer e onde os factos têm as suas ligações objetivas e a sua importância relativa (...)” (Veyne, 1983: 48). (A tradução brasileira utiliza a palavra trama, em lugar de intriga).
[3]Vi quatro ou cinco meninos brincando na rua, e uma mãe carregando um bebê nas costas, ao mesmo tempo em que conduzia pela mão outra criança, de seus 3 anos. Quando elas estavam a uns 10 metros de mim, houve o clarão da explosão. A mãe e as crianças desapareceram. O que vi não foi fumaça. Foi uma espécie de vapor, que se levantou da mãe e das crianças. Logo depois, elas desapareceram.”  (Depoimento de um sobrevivente de Hiroshima). VEJA, 2 de agosto de 1995. Hiroshima, 50 anos. Memórias dos filhos do clarão. Editora Abril, Ano 28. N. 31: 62.
[4] JORNAL DA TARDE. 24/10/87. Césio 137: morrem duas vítimas.
[5] “O novo sempre acontece à revelia da esmagadora força das leis estatísticas e de sua probabilidade que, para fins práticos e cotidianos, equivale à certeza; assim, o novo sempre surge sob o disfarce do milagre. O fato de que o homem é capaz de realizar o infinitamente improvável (...) Contudo, embora as várias limitações e fronteiras que encontramos em todo corpo político possam oferecer certa proteção contra a tendência, inerente à ação, de violar todos os limites, são totalmente impotentes para neutralizar-lhe a segunda característica relevante: sua inerente imprevisibilidade. Não se trata apenas da mera impossibilidade de se prever todas as conseqüências lógicas de determinado ato, pois se assim fosse um computador eletrônico poderia prever o futuro; a imprevisibilidade decorre diretamente da história que, como resultado da ação, se inicia e se estabelece assim que passa o instante fugaz do ato. O problema é que, seja qual for a natureza e o conteúdo da história subsequente - quer transcorra na vida pública ou na vida privada, quer envolva muitos ou poucos atores - seu pleno significado somente se revela quando ela termina.” . (Arendt, 1991: 191 e 204)
[6]  Pode parecer uma ironia (ou coisa pior) dizer que a sociedade industrial capitalista pode desaparecer por sua própria conseqüência quando alguns celebram a morte do marxismo. Mas nesse caso, não seria o socialismo que avançaria pela Terra.
[7]  “Assisti muito filme de guerra e de bomba atômica e aprendi o que é irradiação.” Ernesto Fabiano, uma das vítimas, que carregou um pedaço de césio 137 no bolso da calça. O ESTADO DE S. PAULO, 21/10/87.
[8]  ISTOÉ, 14/10/87. Diante da morte e perplexos.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Revolução como signo

É terrível escrever posts que são praticamente apenas para dizer "sinto muito, não estou conseguindo escrever posts", mas infelizmente tem sido difícil ser de outra maneira. Esta semana me lembrei de trechinhos desse segundo texto de Foucault sobre "O que é o iluminismo" (este é de 1983), em que ele se debruça menos sobre o texto homônimo de Kant e mais sobre a análise kantiana sobre a Revolução, tendo como objeto principal a Revolução Francesa.

Porque o tempo, como os leões, "ruge", peço desculpas pela falta de explicações ou considerações sobre a citação do Foucault e peço mais desculpas ainda pela sugestão sem mediações de relação entre a citação e os acontecimentos recentes no Egito (e na Tunísia, e no Iêmen, e no Irã, e em alguns países da África...) por meio da introdução de uma foto das manifestações ao final do post. De todo modo, menos que explicar, a lembrança do texto foi um esforço de buscar referências com que pensar o presente.

***

"Em 1978 Kant vai, de certa forma, dar sequência ao texto de 1784 ["O que é o iluminismo?"]. Em 1784 ele tentara responder á pergunta que lhe faziam: "O que é esta Aufklärung da qual fazemos parte?" e em 1798 ele responde a uma questão que a atualidade lhe colocava, mas que estava formulada desde 1794 por toda discussão filosófica na Alemanha. Esta pergunta era: "O que é a Revolução?".
[...]
Prestem atenção, diz Kant a seus leitores, não é nos grandes acontecimentos que devemos procurar o signo rememorativo, demonstrativo, prognóstico do progresso; é em acontecimentos muito menos grandiosos muito menos perceptíveis. Não se pode fazer esta análise de nosso próprio presente nestes valores significativos sem se livrar a uma numeração que permitirá dar ao que, aparentemente, é sem significação e valor, a significação e o valor importantes que nós procuramos. Ora, o que é este acontecimento que não é então um "grande" acontecimento? Há evidentemente um paradoxo em dizer que a Revolução não é um acontecimento estrondoso. Não é o exemplo mesmo de um acontecimento que inverte, que faz com o que era grande se torne pequeno, o que era pequeno se torne grande, e que engole as estruturas aparentemente mais sólidas da sociedade e dos Estados? Ora, para Kant, não é este o aspecto da Revolução que faz sentido. O que constitui o acontecimento com valor rememorativo, demonstrativo e prognóstico não é propriamente o drama revolucionário, não são os feitos revolucionários, nem a gesticulação que o acompanha. O que é significativo é a maneira pela qual a Revolução faz espetáculo, é a maneira pela qual ela é acolhida ao redor pelos espectadores que não participam mas que a consideram, que assistem e que, para o melhor ou para o pior, se deixam arrastar por ela. Não é a reviravolta revolucionária que constitui a prova do progresso; primeiro sem dúvida porque ela não faz senão inverter as coisas, e também porque se se tivesse que refazer esta revolução, não se a refaria. [...]
Por outro lado, o que faz sentido e o que vai constituir o signo do progresso é que bem em volta da Revolução há, diz Kant, "uma simpatia de aspiração que frisa o entusiasmo". O que é importante na Revolução não é a própria Revolução, é o que se passa na cabeça dos que não a fazem ou que, em todo caso, não são seus atores principais, é a relação que eles têm com esta Revolução da qual eles não são os agentes ativos. O entusiasmo pela Revolução é signo, segundo Kant, de uma disposição moral da humanidade; esta disposição se manifesta em permanência de duas maneiras: primeiramente, no direito de todos os povos de se darem a constituição política que lhes convém e no princípio conforme ao direito e à moral de uma constituição política tal que evite, em razão de seus próprios princípios, toda guerra ofensiva. Portanto, é a disposição conduzindo a humanidade em direção de uma tal constituição, que é representada pelo entusiamo pela Revolução. [...]
Sabe-se igualmente que são estes dois elementos, a constituição política escolhida à vontade pelos homens e uma constituição política que evita a guerra que são o processo mesmo da Aufkälrung, e é nesta medida também que a Aufkälrung e a Revolução são acontecimentos que não se podem mais esquecer [...]
A Revolução de todo modo arriscará sempre cair na rotina, mas como acontecimento cujo conteúdo mesmo não é importante, sua existência atesta uma virtualidade permanente e que não pode ser esquecida: para a história futura é a garantia da própria continuidade de um passo em direção ao progresso. [...]".

Michel Foucault. O que é o iluminismo. In: ESCOBAR, C. Henrique (org.) O Dossier (últimas entrevistas). Rio de Janeiro: Taurus, 1984 [1983], p.103-112.


Imagem: Mohhamed Abed/25.1.2011 (AFP)

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Um sociólogo numa motocicleta*

* Título copiado da introdução de Celso Castro (Sociologia e a arte da manutenção de motocicletas) para o livro Sobre o artesanato intelectual e outros ensaios, de C. Wright Mills (Zahar, 2009), que eu nem li ainda mas já gostei. Já admirava Mills - depois disso, virou meu ídolo. Mills deve ser apenas o segundo ou terceiro sociólogo motoqueiro que eu já ouvi falar. O trecho a seguir é da introdução já citada.

 Dan Wakefield relembra um episódio corrido quando trabalhava como assistente de pesquisa de Mills. Um homem que pertencia a um pequeno grupo socialista veio pedir sua assinatura numa petição para que a organização deixasse de ser classificada como "subversiva" pelo governo. Mills assinou, mas passou a debater criticamente as ideias políticas de seu interlocutor, que exasperado, perguntou, afinal, em que Mills acreditava. Ele, que naquele momento estava consertando sua motocicleta, respondeu sem hesitar: "motores alemães".

O sociólogo na motocicleta. Imagem via: http://www.cwrightmills.org/


 Talvez essa resposta seja mais do que uma simples brincadeira, e que o ideal do artesanato tenha ocupado uma dimensão mais plena na vida de Mills e em seu ofício de sociólogo. Ele começou a pilotar uma motocicleta BMW modelo R69 (a mesma que aparece na capa deste livro) devido à dificuldade em estacionar em Morningside Heights, onde fica a Universidade de Columbia. Três vezes por semana, vestindo jeans e camiseta, Mills cobria de moto, em uma hora, os 50 km entre sua casa em Pomona (NY) e Columbia.

  Quando Mills viajou para a Europa pela primeira vez, em janeiro de 1956, o fez não para compromissos acadêmicos, mas para para o curso de manutenção de motocicletas durante duas semanas na fábrica da BMW em Munique. Ao final, recebeu o diploma de mecânico de 1a classe, que orgulhosamente mandou emoldurar. Neste mesmo ano, fez um grande tour pela europa numa BMW. Em carta a um amigo, escrita no verão de 1956, descreveu seu estado de espírito: "Buda numa motocicleta".

  (...)

  Segundo Dan Wakefield, Mills proclamava em suas aulas que cada um deveria construir sua própria casa - como ele mesmo o fizera - e, com o estudo adequado, construir seu próprio carro. Além de motores alemães e de construir casas, Mills gostava também de fotografar, de tocar violão e de cozinhar. Wakefield lembra que, em sua primeira visita à casa de Mills, após este lhe servir uma refeição que havia preparado, perguntou com incredulidade: "Meu Deus, homem, você quer dizer que não faz seu próprio pão?" Três dias após o nascimento de seu filho Nikolas, Mills escreveu a um amigo contando que "ele tem mãos exatamente com as de meu pai (e minhas) e quase tão grandes! Verdadeiras luvas de beisebol. Espero que ele se torne um honesto carpinteiro ou um mecânico de corridas, se ainda tiverem restado carros decentes quando ele tiver dez ou 12 anos e puder chegar perto de um motor".

 Esses indícios, presentes na biografia de Mills, parecem sugerir que o modo de vida do artesão tenha sido, para ele mais que apenas um tipo ideal sociológico. Nada mais apropriado para quem, como poucos, defendeu que vida e obra devem se alimentar mutuamente.

 A propósito, muitos anos após a morte de seu pai, Nikolas Mills apaixonou-se por reformar carros antigos e tornou-se um artista e designer.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Sociologia do(e) guarda roupa II - cabides em conflito

Estou atrasado, sem desculpas. No primeiro post, vimos que alguns ricões novaiorquinos acham que é necessário pagar para alguém para lhes mandar jogar fora coisas que acumularam, incluindo roupas de grife e lembranças dos filhos, para conseguirem organizar seus guarda roupas, ops, desculpe, closets. Mas vamos vendo mais algum material de pesquisa: quem tiver paciência para assistir algum dos vídeos a seguir pelo menos aprenderá algumas dicas de organização de armários. Se estiver sem paciência, aqui vai um resumo do principal: 

1) antes de mais nada é mandatório jogar fora o 'excesso' de coisas: o organizado é sempre sóbrio (portanto, o excesso é sempre atrator do caos, sempre dionisíaco, sempre simbólico da perda de controle: todos os organizadores seriam apolíneos, ora pois).
2) NUNCA use cabides que não combinem - parece que os organizadores todos, todos, odeiam cabides descombinados; 
3) coloque junto 'coisas' iguais (calças com calças, lenços com lenços...), e a seguir, por cores, das escuras para as claras ou vice-versa assim como se faz com lápis de cor - fica fácil de achar, e se é fácil de achar automaticamente está organizado; e 
4) organizar armários elimina o stress, clareia a mente, organiza as ideias, traz paz de espírito e felicidade e até mesmo traz harmonia com o divino... 

Parece que esse último quesito é a questão fundamental, pelo menos nesse nível mais imediato: tirar da vista a barafunda privada e íntima de roupas e badulaques se afirma ser a via caseira da reconexão ou reconstituição de um certo equilíbrio, de retomada de um grau de 'ordem' e determinação, e ao mesmo tempo da aproximação a um 'ideal' estético (e prático), correspondente (mas não redutível) a outros anseios de 'ordem' ou 'organização' que temos. Por exemplo: a noção de que há implícita ou apriorísticamente uma certa 'ordem' / 'organização' pode ser relacionada à temas distintos como família, trabalho, politica, cidade, ou mesmo a uma certa 'ordem' natural (da natureza mesmo, bichos e plantas) indo até a ordem divina (o Paraíso cristão, por exemplo, parece que era bem organizadinho, até Adão... bom, o resto vocês sabem).

Tal (ou qualquer) ordem pode ser perdida ou estar ameaçada, daí ser necessária a ação até drástica para colocar ou restabelecer a 'ordem' no galinheiro. Ordem mental, organização social, o equilíbrio espiritual ou a ordem da gaveta de meias parece que até estabelecem uma hierarquia ou um 'sistema', mas isso é assunto para outro post (eu vou até lá no Egito arrumar umas gavetas e já volto).






















quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Sociologia do(e) guarda roupa

Provavelmente precisarei de dois ou mais posts, mas o 'motto' pode ser apresentado aqui: uma reportagem do New York Times sobre uma implacável organizadora profissional de armários dos ricos novaiorquinos (original em inglês aqui), que não vacila em jogar fora as lembrancinhas queridas das crianças.  O Google e eu fizemos uma tradução 'presa' - porque livre é que não foi - on the foot of the letter.

Talvez o motivo do post seja menos complicado, na verdade. Como a maioria, nós vivemos em espaços limitados no nosso apartamentinhozinho, então, a negociação do que é para guardar ou para jogar fora chega a temperaturas elevadas - imagino que assim seja para muitos, pois o 'mercado' oferece uma variedade tão grande de produtos e serviços organizatórios, mas tão grande, que o tema da 'organização doméstica' pela própria vastidão se torna... uma bagunça. Nem de perto pretendo 'organizar' nada, ou seja, esse é um exercício especulatório. No próximo post eu quero comentar alguns aspectos que a reportagem ilustra, por exemplo, se o cúmulo da organização é a loucura.

Crédito da foto: Richard Perry NYT

Organize Isso!
ELISSA GOOTMAN - The New York Times, 7 de janeiro 2011

Chegando ao
apartamento de Susan Hitzig e Ken Yaffe, em um prédio 'com porteiro' no Central Park West, Bárbara Reich não perde tempo admirando o óbvio: a cozinha elegante, a vista do Museu Americano de História Natural, o sofisticado living-room sem vestígios dos três filhos do casal. Em vez disso, a Sra. Reich olhou em um armário, onde encontrou cabides que não combinavam e decretou: "Isso está errado." 

Ms. Reich acercou-se de uma pilha de livros e jogos sobre o chão: "Não há nenhuma razão que devemos ter uma pilha de coisas como esta." Então ela começou a trabalhar. 

Um quebra-cabeça com um pedaço faltando? Lixo. Um barco Playmobil semimontado? Do mesmo modo. Uma gaveta cheia de blocos de madeira? Idem. Lembrancinhas de aniversário estão sujeitos à regra das 24 horas: "Você deixa-os jogar com ele por 24 horas, então é lixo." Um jogo de damas foi um presente recente de um parente, mas tem apenas peças pretas. "Ela não vai te amar menos", diz Reich, jogando-o fora. Então estavam os cadernos, preenchidos com a primeira letra do filho de 8 anos de idade do casal, Lucas. "Todo mundo vai aprender a ler e escrever", diz Reich disse. "Você não precisa de provas." 


Três horas - e US$ 450 - mais tarde, uma dúzia de sacos de lixo tinha sido levado para fora, contendo, entre outros tesouros, uma pizza de brinquedo, o jogo Operação e dois
uniformes esportivos de poliéster de épocas passadas, com base na avaliação franca Sra. Reich que era improvável que Lucas estará algum dia no Hall of Fame. 

"Muito disso é um desperdício", Reich reconheceu olhando para um saco cheio de jogos e bolas e bichinhos de pelúcia. "Nossa sociedade é um desperdício." 

Então ela se virou para a Senhora Hitzig e disse: "Mas isso vai libertar sua mente. Sua mente estará livre. " 

Ms. Hitzig, uma loura esbelta em seus 40 anos que trabalhou como advogada imobiliária até seus gêmeos nascerem, há cinco anos, testemunhou: "Esta mulher mudou a minha vida." 

Conheça Barbara Reich, organizadora da casa dos ricos, se não tão famosos; descomplicadora [streamliner] de pulseiras
Hermès e bolsas Birkin, jogos de tabuleiro e projetos de arte da terceira série, objeto de recomendações fervorosas em festas em escolas privadas para angariar fundos e coquetéis da West End Avenue até o Park. Por US$ 150 por hora, a Sra. Reich, 42, antes consultora de gestão com um MBA, irá limpar a confusão, codificar as camisolas por cor - e classificar todos os tipos de recipientes de armazenamento com a rotuladora Brother P-touch que ela instrui seus clientes  comprar. Ela é agendada com três semanas de antecedência. 

Sua profissão oferece um vislumbre das gavetas da elite de Nova York e, por extensão, as suas vidas. A Sra. Reich viu papéis de
transações imobiliárias de alta potência, notas discriminando os custos de manutenção de uma piscina na região dos Hamptons, acordos pré-nupciais secretos, pílulas que traiam uma doença escondida. Muitas vezes, o que começa como desbagunçamento torna-se algo mais: conselhos sobre como conseguir que as crianças façam a lição de casa, ou pegar seus brinquedos em casa como eles fazem na escola, ou dormir durante a noite; orientação sobre quanto pagar para a babá ou o caseiro; sugestões sobre um eletricista que pode esconder um emaranhado de fios indecoroso. 

Certa vez, os esforços de organização a Sra. Reich revelou furtos praticados por uma babá que estava contando com a confusão de coisas para garantir que ela não seria descoberta. Mais de uma vez, a Sra. Reich conheceu uma mulher estava planejando deixar o marido antes que ele o fizesse. "O que posso fazer para ter meus patinhos em fila?", ela foi perguntada em tais ocasiões. 

Quando o marido de uma cliente morreu de câncer, a Sra. Reich ofereceu para retornar sem cobrar. 

"A imagem é de eu estar paralisada, sentada no chão da minha sala, com Barbara passando por pilhas e pilhas de papéis", lembrou a viúva. "Um ano depois que ele morreu, ela veio e me ajudou a esvaziar o seu armário e colocar as coisas em sacos para a caridade. Eu nunca poderia, nunca, nunca ter feito isso. " 

A Sra. Reich vive em
uma casa renovada de três andares de na zona leste, onde partilha 350 metros quadrados com o marido, que é um advogado imobiliário, e seus gêmeos, que fizeram 11 esta semana. Ela prontamente reconhece que ela e seus clientes são privilegiados - a sorte de ter tantas coisas, a sorte de ser capaz de jogá-los fora, a sorte de ser capaz de contratar alguém para ajudá-los a fazê-lo. Mas o privilégio não alivia o stress. Stress é desordem, e a desordem é stress

"Digamos que você tem uma casa em Aspen e você deveria ter um jantar de negócios para 30 na sexta-feira, e você prometeu para sua filha de 8 anos ir ao seu jogo de beisebol e, em seguida o gerente da casa em Aspen se demite, e sua filhinha está chorando para ir para o jogo de beisebol ", disse ela. "É um problema de alta classe, mas o stress é o mesmo de qualquer forma. E eu posso ajudá-lo a lidar com isso. " 

O negócio de organização a Sra. Reich, Resourceful Consultants, começou quando as crianças eram pequenas e ela se viu gastando os dias de brincar com elas reorganizando as coisas de outras pessoas. Ela se descreve como "do tipo A-mais", cujo dom - não, necessidade - para superfícies puras, caixas de armazenamento uniforme e perfeitamente alinhadas perpendicularmente é evidência de que ela está
"doente da cabeça". Tendo crescido na Flórida, ela se sentia desconfortável nos pernoites infantis. "Eu nunca gostei de pessoas tocando as minhas coisas", disse ela. "Eu sempre quis colocá-las de volta." 

"Isso é quem eu sou", disse ela. "Eu tomei minhas neuroses pessoais e fiz um negócio com isso." 

A Associação Nacional de Organizadores Profissionais tem 3.739 membros, incluindo 320 no Estado de Nova York, vindo de 1.444 membros de 10 anos atrás (cerca de 150 em Nova York). Barbara Reich não é um deles. 

A Sra. Reich se associou alguns anos atrás, mas deixou sua adesão expirar: ela não precisa das referências extras. Ela vê geralmente dois clientes por dia, durante duas ou três horas cada, ela poderia ser mais ocupada, mas por quê? "Eu não vou curar o câncer", disse ela. 

Seu primeiro cliente a organizar, em 2004, era sócio de uma consultoria de um antigo colega, que estava montando um escritório em casa. Muitos clientes a contratam por cerca de 10 sessões,  voltando a chamá-la quando estão em mudança, ou redecorando ou para ter um bebê. Outros que visita semanalmente. "Algumas pessoas não funcionam sem um treinador", diz Sra. Reich. "Algumas pessoas não abrem seu correio sem mim." 

Valerie Feigen, que é co-proprietária da boutique Edit na Lexington Avenue - "uma experiência de compras de luxo para mulheres distintas e de estilo" - contratou a Sra. Reich repetidamente ao longo dos últimos três anos. "A bolsa perfeita ou um grande par de sapatos pode lhe dar tanto prazer, mas pode torturá-la quando você não sabe onde colocá-lo",
disse Ms. Feigen. "Quando os seus bens estão fora de controle, eu acho que é muito difícil de ser organizada, em geral, sobre sua vida. Você não quer que suas coisas é que te possuam. " 

Sr. Yaffe, o pai do menino cujas lembrancinhas de aniversário e primeiros escritos foram para o lixo, disse que sabia que pode parecer absurdo pagar a alguém para mandar a sua famíli
a jogar coisas fora, mas que se ele tivesse uma lareira, ele penduraria uma pintura a óleo da Senhora Reich acima dela. 

"Eu me apaixonei por minha esposa por muitas de suas grandes qualidades", disse Yaffe, 47, disse. "A organização não é necessariamente uma deles." 

Com suas botas Searle e bolsa Prada, a Sra. Reich habita o mundo dos seus clientes, o que é essencial para ganhar a confiança deles. Já é suficientemente difícil abrir sua gaveta de roupas íntimas para alguém, sem tê-los engasgados com o preço do conteúdo. 

Anos de desembaraço de bagunças pessoais - vendo o que eles tem, o que eles usam, o que eles precisam, para onde viajam, o que os tras de volta - rendeu muitos insights sociológicos. 

Entre eles: bolsas oversize estão fora de moda, mas estão voltando (este, cortesia da Sra. Feigen, cuja bolsa armário - sim, todo um armário para bolsas - ela reordenadas em uma manhã recente). Os brinquedos sexuais são mais difundidos do que se poderia pensar (Sra. Reich uma vez inocentemente colocou um deles numa caixa rotulada "pequenos eletrônicos"). E os homens não acham que preservativos pertencem à caixa "mensal", juntamente com produtos de higiene feminina ("diário" seria melhor). 


Ms. Reich também tem algumas indicações gerais: 

1. Em seu arquivo "administração da casa", mantenha uma lista de gorjetas para porteiros, cabeleireiros, et al., tornando mais fácil para aumentá-las a cada ano. (Eles sempre lembrarão o quanto você deu, a Sra. Reich avisou, mesmo que não o façam). 

2. Tenha um arquivo chamado "atividades para crianças," então, quando você precisa ver se existe futebol no aniversário de Martin Luther King, você sabe onde olhar. 

3. Memorizar um número de cartão de crédito: ele vai "fazer a sua vida infinitamente mais fácil." 

4. Sabe aqueles "tinta invisível" de marcadores mágicos? Eles não são invisíveis no mobiliário. 

Muitos dos clientes Sra. Reich tem filhos pequenos e, portanto, apartamentos bordados com projetos de arte de papier-mâché, cartões de festas e lembranças de aniversários muito tempo após a sua expiração de 24 horas, e brinquedos, brinquedos, brinquedos. Ela acredita em guardar trabalhos escolares criativos, mas há uma trave alta: para cada criança, cerca de dois anos deve caber em uma caixa de três polegadas. Ela gosta de Magna-Tiles, mas odeia as coisas que falam. 

Um T-Rex de montar e pintar? Lixo, porque no momento em que a criança tem idade suficiente para fazê-lo sozinho, ele não está mais interessado. Candy Land? Entre os eventos esportivos, aulas de música e galas de caridade, quem tem tempo? Adeus! 

"Como muitas pessoas têm cinco conjuntos de baralhos e seis jogos de memória, e como muitas dessas pessoas nunca jogará sequer uma vez um jogo de memória, ou nunca vai usar seus baralhos?" Sra. Reich disse. "Acho que para um monte de gente é muito renovador quando eles estão correndo nesta corrida apenas por estar, e ter alguém para dizer: 'Isso é ridículo. Nenhuma dessas crianças vai ser um jogador de beisebol profissional. " 

"O outro lado é", ela acrescentou, "como mãe, tenho também continuar dizendo isso para mim mesma como um mantra: Isso tudo é loucura, tudo isso é loucura, tudo isso é loucura." 

De pé em uma cozinha brilhante, Rebecca Reich, seu cabelo puxado para trás em uma faixa de cabeça, refletiu sobre a vida como filha da organizadora. "Eu não me importo se há almofadas no chão, e todos na família acham que é a maior crise", disse ela. "Almofadas podem esperar". 

"Não, eles não podem", exclamou o gêmeo de Rebecca, Matthew. "É perturbador." 

Uma vez  a Sra. Reich encontrou seu filho limpando o fundo do seu tênis com toalhetes Clorox. "Matthew", ela aconselhou: "você limpe
em cima." 

Na família Reich, mesmo os 
Silly Bandz dos gêmeos são meticulosamente organizados por tipo (criaturas, esportes, "raro"). Os carros de brinquedo de Matthew estão estacionados no peitoril da janela, perfeitamente paralelos, a poucos centímetros de distância. Ao lado deles está o raro troféu sobrevivente - a Sra. Reich joga fora os troféus de participação obrigatória dada a todos em uma equipe - O Campista Mais Organizado de 2010 do Timber Lake Camp. 

"Jeff ficou horrorizado", ela disse de seu marido. "Ele disse: 'Isso foi o que ganhou, e não, tipo, Melhor Atleta?'" 

Atravessando a cidade, no apartamento Hitzig-Yaffe, a coleção de
troféus do pequeno Lucas permanece intacta. "Há certas coisas que eu posso privar meus filhos de, e certas coisas que eu não posso", ela disse Hitzig. Ela se desfez de um número de uniformes velhos de Lucas, apesar das objeções do marido. 

"Espero que possamos ter a última risada", disse Yaffe, um executivo da National Hockey League ", porque eu espero que ele estará em algum Hall da Fama algum dia."