sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Amor à distância (2010) - lado feminino


Casal de sociólogo tem dessas loucuras: o programa de domingo à noite acaba virando papo sociológico e dois post em blog...

O Edu já falou bastante sobre o filme e seu desenvolvimento, então vou só comentar algumas coisas que talvez se diferenciem um pouco da "versão" do Edu - e já começo confessando minhas dúvidas em relação a quanto das diferenças devem ser creditadas a gênero e quanto são diferenças explicáveis por quaisquer outras razões: geração, experiências, trajetórias. Vamos ver...

Eu quis assistir o filme porque gosto muito da Drew Barrymore - ela é uma querida, super divertida e "esquisita". O Edu falou de "Letra e Música", mas eu também adoro "Como se fosse a primeira vez" - e, desculpem a divagação, mas depois de parar para procurar esse link no IMDb, vou ter que contar que, em Portugal, esse filme tem título-spoiler-piada-pronta e chama "Minha namorada tem amnésia". Voltando ao assunto, gosto da Drew Barrymore porque, das mocinhas de comédias românticas, ela é - talvez ao lado da Sandra Bullock - a mais "comum". Sabe, ordinary people? E isso torna as histórias mais verossímeis, mais fáceis da gente se identificar (totalmente diferente do que acontece com outro filme que o Edu mencionou, "500 Dias com Ela" - fala sério que dá para se identificar com a Zooey Deschanel? Aliás, no filme, ela aparece mesmo nesse papel do amor idealizado, tão perfeita quanto distante: inatingível.

Divago de novo, mas não tanto, porque acho que, apesar da distância que aparece no título, a maior virtude e talvez o maior defeito do filme seja a proximidade que tenta estabelecer com o espectador - as coisas são cotidianas, banais, o que tem mesmo de extraordinário é a paixão, e depois o amor, entre os dois personagens, posto à prova justamente no mar de prosaicidades ao qual está submetido.

Por outro lado, o filme também fala desse momento presente - da tranquilidade da liberação feminina (sem levantar nenhuma bandeira ou provocar nenhuma crise, os mocinhos ficam juntos no primeiro encontro e beleza!); da intranquilidade de ter que conferir sentido à própria trajetória; da mudança do lugar do homem na sociedade (e eu acho super significativo que o momento em que a ficha cai pro Garret - o mocinho - é enquanto ele conversa com seu cunhado, mais velho, casado há muitos anos, e que aparece em certa cena dando uma bronca em Garret por seu comportamento de namorado carinhoso...); da crise econômica e das mudanças na estrutura ocupacional. É um retrato tão atual e talvez por isso mesmo tão pouco... ficcionalizado? Acho que é isso - não há distância suficiente em relação ao que vivemos para que seja possível narrar uma história capaz de provocar alguma emoção menos à flor da pele.

O Edu comentou que a distãncia, nesses tempos de skype, celular e companhias aéreas baratinhas, é uma vilã fraquinha. Se tomada literalmente, como no caso do filme, talvez seja mesmo. Mas se a gente pensar num outro filme, que está longe de ser comédia romântica e que tem "perto" do nome, "Perto demais", encontrar o "ponto de equilíbrio" da proximidade nos relacionamentos amorosos aparece como uma questão contemporânea - incomparavelmente mais bem formulada, do ponto de vista cinematográfico, em Closer que nessa modesta comédia romântica que, aliás, não estava desde o princípio interessada em virar papo sociológico :-) O que as personagens de Closer têm em intensidade, as de Going the distance têm de leveza; o que aquelas têm de furiosa vontade de mergulhar no outro, estas têm de doçura terna de mãos dadas.

Num tempo em que é tão fundamental assumir a dor e a delícia de sermos indivíduos, estar perto do outro é estar perigosamente perto de depender, de se misturar, de ter que depois revisar de novo todos os novos contornos do que é a gente depois de um encontro. É uma trabalheira danada! É por um desses encontros que a Erin, mocinha do filme, "se atrasa" no cronograma da vida: largou a faculdade por um amor, numa época em que não se faz mais isso. Numa época, aliás, que não comporta mais nenhum tipo de "erro" estratégico. Mas é aí que a esquisitice dos dois personagens se combina - como o Edu notou, ambos trabalham em indústrias decadentes, e ambos têm com o trabalho (e talvez mesmo com a vida) uma relação menos instrumental, que não passa pela ideia de uma carreira de sucesso (conforme os signos que associaríamos a isso, como ganhar muito dinheiro, ser muito reconhecido etc.), mas pela felicidade de fazer o que gostam e no que são bons. E é provável que aí esteja uma das razões pelas quais o filme é tão linear - a catarse nas comédias românticas costuma se dar em torno de alguma ficha que cai, a de que "o amor é mais importante que o trabalho", a de que "é importante alguma flexibilidade para se viver a dois", a de que "a perfeição não existe", enfim... alguma lição que retira o obstáculo no caminho dos amantes. Mas em Amor á distância, as personagens já parecem saber todos os segredos de antemão, o que torna o conflito externo mesmo a eles - não tem projetos fabulosos de carreira, nem colegas gostosões que interfiram no amor dos dois, só a impossibilidade de viver juntos, todos os dias.

Quando isso se torna possível, quando a distância já não é um problema, tudo se ajeita. Porque a vida é assim mesmo, a maior parte do tempo: uma pequena sucessão de ajeitamentos, um ajuste de nossas vontades por entre as margens do que nos é possível (e é claro que as margens de uns são mais largas que as de outros).

E vou parando por aqui porque já cutucamos demais um filme que queria mesmo era ser divertido (e não faz feio nessa intenção). Mas antes deixo vocês com essa música linda-linda, que fala também sobre amor, proximidades e distâncias - sem prosa, revolvendo o amor e o dia a dia em pura poesia.

3 comentários:

  1. '50 first dates' se chamou 'minha namorada tem amnésia' em Portugal... huahahahahahuahah nãoconsigopararderirnãoseiporque... huahahhahah!
    Mas, já disse o Simão, 'pior namorada é a minha, que lembra de TUDO!' RÁRÁRÁ...

    Quando eu disse lá embaixo que a distância hoje é uma vilazinha semvergonha, tava meio pensando na Odisséia, no Ulisses que ficou dez anos na guerra, demorou mais 10 anos para voltar, e ainda assim a mulher dele, Penélope, se eu me lembro direito, esperando pacientemente e com fé e sem notícia e enrolando os pretendentes com aquele negócio de fazer a mortalha de dia e desfazer de noite... Veja bem que a favor de Ulisses temos que lembrar que a ciumenta deusa Hera é que ficou pondo atrasos no caminho, como sereias e tal, e o Ulisses tentando voltar e não conseguindo... Isso sim é que é distância épica, senso estrito, que pode separar um casal! Mas, daí para fazer 'Odisséia - a comédia romãntica' o roteirista teria que ser muito, mas muito bom. Odisséia, aliás, deu um filme estilo sandália-e-espada, com o Michael Douglas, acho... vou ver se acho.

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  2. Noooosssa, troquei as bolas, digo, os atores; Kirk Douglas, pai de Michael Douglas, fez Ulisses em 1954, parece que um filme mezzo-italiano. http://www.imdb.com/title/tt0047630/ , e antes do célebre Spartacus, que é de 1960. Adoro o imdb! Aliás, o homem fez mais de 90 filmes, alguns deles excelentes (a montanha dos sete abutres, 20.000 léguas submarinas, glória feita de sangue...)

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