terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Amor à distância (2010) - lado masculino

'Amor à distância' (Going the distance) é, como quase todo filme que tem 'amor' no nome aqui no Brasil, uma comédia romântica. Esclareço que eu não tenho nada contra comédias românticas, mesmo as que não tem amor no nome, algumas inclusive eu gosto mesmo, como Harry e Sally, Música e Letra, 500 dias e afins. Mas existe uma certa idéia que tal tipo de filme só existe para que as namoradas (de todo tipo, idade e estado civil) possam ir ao cinema e levar o seu 'ómi' - que, 'na verdade', iria ver tais filmes só para agradar seu par feminino, já que o que ele gosta mesmo de ver é algo na linha The Expendables (Mercenários): porradas, tiros, explosões, homens tocha (para não falar de mulheres gostosas e daí pra baixo).
O nome do filme já é o spoiler, mas convém avisar que daqui por diante pode haver informações que quem não viu o filme pode considerar excessivas. Feito o aviso, o enredo é sobre como o casal formado por Erin (Drew Barrymore, meio apagada, mal filmada, sei lá) e Garret (Justin Long, que como Drew já tem uma carreira que vem de papéis infantis, e aqui o vemos 'quase' adulto) tentando se ajustar ao fato que ela está em San Francisco e ele em New York, se não me engano é mais que a distância entre Porto Alegre e Recife. A fórmula básica é a de sempre, casal se encontra, se gosta, se junta, se separa, junta, separa... o que varia são as forças separantes (guerra, família, raça, religião, idade, traumas secretos...). A força juntante, claro, é o amor, só podia. Veja que há filmes-cueca que seguem a mesma fórmula, tipo amigos de infância em que um vira bandido e o outro polícia quando crescem, se estapeiam até se reconciliarem (só como amigos, senão teria muito homoerotismo para o gosto médio).
Entonces, aqui a força separante principal seria o raio da distância, milhares de quilômetros. E então nosso casal enfrenta todas as dores da separação... mas, perguntaria da platéia o macho arrastado contrariado ao cinema, porque um não muda pra cidade do outro? E se trata de duas metrópoles, não é o perigo de caipiramento que impede, tampouco. Enquanto o filme distrai  o nosso  espectador dessa dúvida com belas coadjuvantes e com os amigos obrigatoriamente esquisitos (a esquisitice agora faz parte do papel escada, isto é, aquele que está na trama para 'fazer escada' para o personagem principal), você é repetidamente informada que o casal não se junta na mesma cidade porque ela é jornalista, buscando seu emprego, e ele é um 'manager-junior' de uma gravadora. Ou seja, estão em duas indústrias decadentes, não há empregos nem lá nem cá, o que disfarça o fato de que há uma crise lá fora não apenas para para jornalistas ou produtores musicais. E o filme também não se cansa de mostrar que se trata de gente, senão pobre, de recursos limitados, que bebe vinho da casa em copo e não mora em seu próprio apartamento, e que portanto não pode gastar em passagens aéreas. Ou seja, o roteiro tenta dar concretude à distância, e torná-la a vilã da história. Mas eta vilãzinha fraca: não dá pra desligar o cérebro e esquecer que, apesar da crise, com o desenvolvimento das comunicações nunca na história desse mundo a distância foi tão fácil de vencer. Calma, não precisa me xingar que eu já volto nesse ponto. E daí o filme vai para o suposto grande problema contemporâneo que ele quer comentar: quem, do casal, vai abrir mão de 'sua carreira' e seus interesses e se mudar para viver o grande amor numa outra cidade?
Voltando um pouco, se você é paulistano ou conhece São Paulo deve achar sim que distância pode arruinar suas chances com seu par que mora lááá longe, para não dizer de vagas em empregos, escolas e mesmo amizades. Só que distância, aqui, são no máximo algumas dezenas de quilômetros, e o que te impede, desculpe, é a preguiça. E eu não me excluo. Milhões de trabalhadores levam 5, 6 horas diariamente atravessando a cidade. Diga pra esses trabalhadores que eles não tem amor suficiente para você ver. Portanto, e a não ser que você seja milionário e ande de helicóptero, o problema de São Paulo não são exatamente as distâncias, mas a dificuldade, o custo e os riscos dos deslocamentos.
Talvez esse 'Amor à distância' sofra de problema parecido, que é de esclarecer exatamente qual é a força, ou forças, que tentam centrifugar o casal. Na era do skype e dos 'value jets' (acho que  é  assim que são apelidadas as companhias aéreas baratinhas), a distância é tão decadente quanto a indústria jornalística ou fonográfica - mas essas não estão mortas, pelo contrário. Ambas ainda são formadas por grandes corporações que tem lá seu poder - inclusive o de aparecer numa comédia romântica como força capaz de separar um grande amor, ao invés do usual  terceiro 'ricardão' ou 'ricardona'. Isso porque os personagens não podem simplesmente, numa época de crise econômica e escassez de empregos, mudar de cidade para ficar com seu par - e se há algo de que o amor romântico trata é que 'não há barreiras para o amor', ou seja, nem as 'convenções sociais' (classe, status, raça...) nem as materiais (distância, dinheiro) nem problemas pessoais (ciúme, por excelência) e, finalmente, nem os profissionais, separam casais ao final das comédias românticas. A grande âncora de ambos, o que impede o sonhado encontro, são os respectivos, raros, malpagos, escassos empregos. O filme talvez funcionasse melhor, dramaticamente, se deixasse para lá esse papo da 'necessidade' de emprego e filmasse o jornalismo ou o ramo das gravadoras como sendo tão sedutores quanto um(a) amante latino(a),  se contasse a história transformando 'emprego' em 'missão' e 'profissão' em 'vocação'. Aí sim, os personagens teriam um problemão para resolver, mais hipérbolico, mais fantasioso talvez - claro - mas também mais saboroso. 
A crise econômica parece ter 'modestizado', mundanizado demais o roteiro, que ficou com vergonha de ganhar peso e bater na indústria jornalística e fonográfica que, a exemplo de outras, não oferece mais empregos - o que não quer dizer que esteja decadente, de fato. Como qualquer outra, nessa época, ela terceiriza, precariza, demite, se faz de coitadinha, esperneia, mas continua lucrando e sendo muito influente. E parece que não foi por falta de saber o que fazer no roteiro: foram opções equivocadas quando se delineou os personagens principais - até porque dá para ver que os coadjuvantes esquisitos são mais lembráveis que o casal central. 
Nesse filme, pelo menos, faltaria do ponto de vista do filme-cueca o momento indispensável da revelação da identidade secreta do vilão, a força que tramou toda a conspiração separatista: nesse momento, os mocinhos quase derrotados encontram suas últimas forças e viram o placar. Mesmo que o vilão seja o próprio inconsciente do herói, ou seu trauma de infância, o medo de morcego, essas questões íntimas que ele derrota dando porrada para todo lado.  Bom, o mocinho até que faz o que deveria fazer, mas meio envergonhado... Do ponto de vista do filme-para-moças, parece que nesse aqui faltou exatamente o que é tão caro no filme-para-moças, que é a moça lutar por suas decisões:  (spoiler alerta!) a decisão fundamental não é da mocinha! O personagem que, digamos assim, cresce, fica adulto, é o do mocinho! Decididamente, esse filme teve problema em focar seu público.
Ainda assim, Amor à distância não foi o pior filme que vimos nos feriados: esse título vai para Comer, rezar, amar, péssimo, com Julia Roberts tão apagada que eu só lembro dela comendo espaguete, e isso porque deu fome.

Agora, se você é o homem da casa e quer levar sua mulher no cinema, pode (deve!) ir ver Enrolados (Tangled) sem medo: ela vai adorar - e tu também, irmão! Tem uma cena sobre as alterações de humor feminino que vai virar um clássico.

Trailer para Amor à distãncia. Aviso: as melhores piadas já são gastas nele

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