terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Revolução como signo

É terrível escrever posts que são praticamente apenas para dizer "sinto muito, não estou conseguindo escrever posts", mas infelizmente tem sido difícil ser de outra maneira. Esta semana me lembrei de trechinhos desse segundo texto de Foucault sobre "O que é o iluminismo" (este é de 1983), em que ele se debruça menos sobre o texto homônimo de Kant e mais sobre a análise kantiana sobre a Revolução, tendo como objeto principal a Revolução Francesa.

Porque o tempo, como os leões, "ruge", peço desculpas pela falta de explicações ou considerações sobre a citação do Foucault e peço mais desculpas ainda pela sugestão sem mediações de relação entre a citação e os acontecimentos recentes no Egito (e na Tunísia, e no Iêmen, e no Irã, e em alguns países da África...) por meio da introdução de uma foto das manifestações ao final do post. De todo modo, menos que explicar, a lembrança do texto foi um esforço de buscar referências com que pensar o presente.

***

"Em 1978 Kant vai, de certa forma, dar sequência ao texto de 1784 ["O que é o iluminismo?"]. Em 1784 ele tentara responder á pergunta que lhe faziam: "O que é esta Aufklärung da qual fazemos parte?" e em 1798 ele responde a uma questão que a atualidade lhe colocava, mas que estava formulada desde 1794 por toda discussão filosófica na Alemanha. Esta pergunta era: "O que é a Revolução?".
[...]
Prestem atenção, diz Kant a seus leitores, não é nos grandes acontecimentos que devemos procurar o signo rememorativo, demonstrativo, prognóstico do progresso; é em acontecimentos muito menos grandiosos muito menos perceptíveis. Não se pode fazer esta análise de nosso próprio presente nestes valores significativos sem se livrar a uma numeração que permitirá dar ao que, aparentemente, é sem significação e valor, a significação e o valor importantes que nós procuramos. Ora, o que é este acontecimento que não é então um "grande" acontecimento? Há evidentemente um paradoxo em dizer que a Revolução não é um acontecimento estrondoso. Não é o exemplo mesmo de um acontecimento que inverte, que faz com o que era grande se torne pequeno, o que era pequeno se torne grande, e que engole as estruturas aparentemente mais sólidas da sociedade e dos Estados? Ora, para Kant, não é este o aspecto da Revolução que faz sentido. O que constitui o acontecimento com valor rememorativo, demonstrativo e prognóstico não é propriamente o drama revolucionário, não são os feitos revolucionários, nem a gesticulação que o acompanha. O que é significativo é a maneira pela qual a Revolução faz espetáculo, é a maneira pela qual ela é acolhida ao redor pelos espectadores que não participam mas que a consideram, que assistem e que, para o melhor ou para o pior, se deixam arrastar por ela. Não é a reviravolta revolucionária que constitui a prova do progresso; primeiro sem dúvida porque ela não faz senão inverter as coisas, e também porque se se tivesse que refazer esta revolução, não se a refaria. [...]
Por outro lado, o que faz sentido e o que vai constituir o signo do progresso é que bem em volta da Revolução há, diz Kant, "uma simpatia de aspiração que frisa o entusiasmo". O que é importante na Revolução não é a própria Revolução, é o que se passa na cabeça dos que não a fazem ou que, em todo caso, não são seus atores principais, é a relação que eles têm com esta Revolução da qual eles não são os agentes ativos. O entusiasmo pela Revolução é signo, segundo Kant, de uma disposição moral da humanidade; esta disposição se manifesta em permanência de duas maneiras: primeiramente, no direito de todos os povos de se darem a constituição política que lhes convém e no princípio conforme ao direito e à moral de uma constituição política tal que evite, em razão de seus próprios princípios, toda guerra ofensiva. Portanto, é a disposição conduzindo a humanidade em direção de uma tal constituição, que é representada pelo entusiamo pela Revolução. [...]
Sabe-se igualmente que são estes dois elementos, a constituição política escolhida à vontade pelos homens e uma constituição política que evita a guerra que são o processo mesmo da Aufkälrung, e é nesta medida também que a Aufkälrung e a Revolução são acontecimentos que não se podem mais esquecer [...]
A Revolução de todo modo arriscará sempre cair na rotina, mas como acontecimento cujo conteúdo mesmo não é importante, sua existência atesta uma virtualidade permanente e que não pode ser esquecida: para a história futura é a garantia da própria continuidade de um passo em direção ao progresso. [...]".

Michel Foucault. O que é o iluminismo. In: ESCOBAR, C. Henrique (org.) O Dossier (últimas entrevistas). Rio de Janeiro: Taurus, 1984 [1983], p.103-112.


Imagem: Mohhamed Abed/25.1.2011 (AFP)

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Um sociólogo numa motocicleta*

* Título copiado da introdução de Celso Castro (Sociologia e a arte da manutenção de motocicletas) para o livro Sobre o artesanato intelectual e outros ensaios, de C. Wright Mills (Zahar, 2009), que eu nem li ainda mas já gostei. Já admirava Mills - depois disso, virou meu ídolo. Mills deve ser apenas o segundo ou terceiro sociólogo motoqueiro que eu já ouvi falar. O trecho a seguir é da introdução já citada.

 Dan Wakefield relembra um episódio corrido quando trabalhava como assistente de pesquisa de Mills. Um homem que pertencia a um pequeno grupo socialista veio pedir sua assinatura numa petição para que a organização deixasse de ser classificada como "subversiva" pelo governo. Mills assinou, mas passou a debater criticamente as ideias políticas de seu interlocutor, que exasperado, perguntou, afinal, em que Mills acreditava. Ele, que naquele momento estava consertando sua motocicleta, respondeu sem hesitar: "motores alemães".

O sociólogo na motocicleta. Imagem via: http://www.cwrightmills.org/


 Talvez essa resposta seja mais do que uma simples brincadeira, e que o ideal do artesanato tenha ocupado uma dimensão mais plena na vida de Mills e em seu ofício de sociólogo. Ele começou a pilotar uma motocicleta BMW modelo R69 (a mesma que aparece na capa deste livro) devido à dificuldade em estacionar em Morningside Heights, onde fica a Universidade de Columbia. Três vezes por semana, vestindo jeans e camiseta, Mills cobria de moto, em uma hora, os 50 km entre sua casa em Pomona (NY) e Columbia.

  Quando Mills viajou para a Europa pela primeira vez, em janeiro de 1956, o fez não para compromissos acadêmicos, mas para para o curso de manutenção de motocicletas durante duas semanas na fábrica da BMW em Munique. Ao final, recebeu o diploma de mecânico de 1a classe, que orgulhosamente mandou emoldurar. Neste mesmo ano, fez um grande tour pela europa numa BMW. Em carta a um amigo, escrita no verão de 1956, descreveu seu estado de espírito: "Buda numa motocicleta".

  (...)

  Segundo Dan Wakefield, Mills proclamava em suas aulas que cada um deveria construir sua própria casa - como ele mesmo o fizera - e, com o estudo adequado, construir seu próprio carro. Além de motores alemães e de construir casas, Mills gostava também de fotografar, de tocar violão e de cozinhar. Wakefield lembra que, em sua primeira visita à casa de Mills, após este lhe servir uma refeição que havia preparado, perguntou com incredulidade: "Meu Deus, homem, você quer dizer que não faz seu próprio pão?" Três dias após o nascimento de seu filho Nikolas, Mills escreveu a um amigo contando que "ele tem mãos exatamente com as de meu pai (e minhas) e quase tão grandes! Verdadeiras luvas de beisebol. Espero que ele se torne um honesto carpinteiro ou um mecânico de corridas, se ainda tiverem restado carros decentes quando ele tiver dez ou 12 anos e puder chegar perto de um motor".

 Esses indícios, presentes na biografia de Mills, parecem sugerir que o modo de vida do artesão tenha sido, para ele mais que apenas um tipo ideal sociológico. Nada mais apropriado para quem, como poucos, defendeu que vida e obra devem se alimentar mutuamente.

 A propósito, muitos anos após a morte de seu pai, Nikolas Mills apaixonou-se por reformar carros antigos e tornou-se um artista e designer.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Sociologia do(e) guarda roupa II - cabides em conflito

Estou atrasado, sem desculpas. No primeiro post, vimos que alguns ricões novaiorquinos acham que é necessário pagar para alguém para lhes mandar jogar fora coisas que acumularam, incluindo roupas de grife e lembranças dos filhos, para conseguirem organizar seus guarda roupas, ops, desculpe, closets. Mas vamos vendo mais algum material de pesquisa: quem tiver paciência para assistir algum dos vídeos a seguir pelo menos aprenderá algumas dicas de organização de armários. Se estiver sem paciência, aqui vai um resumo do principal: 

1) antes de mais nada é mandatório jogar fora o 'excesso' de coisas: o organizado é sempre sóbrio (portanto, o excesso é sempre atrator do caos, sempre dionisíaco, sempre simbólico da perda de controle: todos os organizadores seriam apolíneos, ora pois).
2) NUNCA use cabides que não combinem - parece que os organizadores todos, todos, odeiam cabides descombinados; 
3) coloque junto 'coisas' iguais (calças com calças, lenços com lenços...), e a seguir, por cores, das escuras para as claras ou vice-versa assim como se faz com lápis de cor - fica fácil de achar, e se é fácil de achar automaticamente está organizado; e 
4) organizar armários elimina o stress, clareia a mente, organiza as ideias, traz paz de espírito e felicidade e até mesmo traz harmonia com o divino... 

Parece que esse último quesito é a questão fundamental, pelo menos nesse nível mais imediato: tirar da vista a barafunda privada e íntima de roupas e badulaques se afirma ser a via caseira da reconexão ou reconstituição de um certo equilíbrio, de retomada de um grau de 'ordem' e determinação, e ao mesmo tempo da aproximação a um 'ideal' estético (e prático), correspondente (mas não redutível) a outros anseios de 'ordem' ou 'organização' que temos. Por exemplo: a noção de que há implícita ou apriorísticamente uma certa 'ordem' / 'organização' pode ser relacionada à temas distintos como família, trabalho, politica, cidade, ou mesmo a uma certa 'ordem' natural (da natureza mesmo, bichos e plantas) indo até a ordem divina (o Paraíso cristão, por exemplo, parece que era bem organizadinho, até Adão... bom, o resto vocês sabem).

Tal (ou qualquer) ordem pode ser perdida ou estar ameaçada, daí ser necessária a ação até drástica para colocar ou restabelecer a 'ordem' no galinheiro. Ordem mental, organização social, o equilíbrio espiritual ou a ordem da gaveta de meias parece que até estabelecem uma hierarquia ou um 'sistema', mas isso é assunto para outro post (eu vou até lá no Egito arrumar umas gavetas e já volto).