terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Um sociólogo numa motocicleta*

* Título copiado da introdução de Celso Castro (Sociologia e a arte da manutenção de motocicletas) para o livro Sobre o artesanato intelectual e outros ensaios, de C. Wright Mills (Zahar, 2009), que eu nem li ainda mas já gostei. Já admirava Mills - depois disso, virou meu ídolo. Mills deve ser apenas o segundo ou terceiro sociólogo motoqueiro que eu já ouvi falar. O trecho a seguir é da introdução já citada.

 Dan Wakefield relembra um episódio corrido quando trabalhava como assistente de pesquisa de Mills. Um homem que pertencia a um pequeno grupo socialista veio pedir sua assinatura numa petição para que a organização deixasse de ser classificada como "subversiva" pelo governo. Mills assinou, mas passou a debater criticamente as ideias políticas de seu interlocutor, que exasperado, perguntou, afinal, em que Mills acreditava. Ele, que naquele momento estava consertando sua motocicleta, respondeu sem hesitar: "motores alemães".

O sociólogo na motocicleta. Imagem via: http://www.cwrightmills.org/


 Talvez essa resposta seja mais do que uma simples brincadeira, e que o ideal do artesanato tenha ocupado uma dimensão mais plena na vida de Mills e em seu ofício de sociólogo. Ele começou a pilotar uma motocicleta BMW modelo R69 (a mesma que aparece na capa deste livro) devido à dificuldade em estacionar em Morningside Heights, onde fica a Universidade de Columbia. Três vezes por semana, vestindo jeans e camiseta, Mills cobria de moto, em uma hora, os 50 km entre sua casa em Pomona (NY) e Columbia.

  Quando Mills viajou para a Europa pela primeira vez, em janeiro de 1956, o fez não para compromissos acadêmicos, mas para para o curso de manutenção de motocicletas durante duas semanas na fábrica da BMW em Munique. Ao final, recebeu o diploma de mecânico de 1a classe, que orgulhosamente mandou emoldurar. Neste mesmo ano, fez um grande tour pela europa numa BMW. Em carta a um amigo, escrita no verão de 1956, descreveu seu estado de espírito: "Buda numa motocicleta".

  (...)

  Segundo Dan Wakefield, Mills proclamava em suas aulas que cada um deveria construir sua própria casa - como ele mesmo o fizera - e, com o estudo adequado, construir seu próprio carro. Além de motores alemães e de construir casas, Mills gostava também de fotografar, de tocar violão e de cozinhar. Wakefield lembra que, em sua primeira visita à casa de Mills, após este lhe servir uma refeição que havia preparado, perguntou com incredulidade: "Meu Deus, homem, você quer dizer que não faz seu próprio pão?" Três dias após o nascimento de seu filho Nikolas, Mills escreveu a um amigo contando que "ele tem mãos exatamente com as de meu pai (e minhas) e quase tão grandes! Verdadeiras luvas de beisebol. Espero que ele se torne um honesto carpinteiro ou um mecânico de corridas, se ainda tiverem restado carros decentes quando ele tiver dez ou 12 anos e puder chegar perto de um motor".

 Esses indícios, presentes na biografia de Mills, parecem sugerir que o modo de vida do artesão tenha sido, para ele mais que apenas um tipo ideal sociológico. Nada mais apropriado para quem, como poucos, defendeu que vida e obra devem se alimentar mutuamente.

 A propósito, muitos anos após a morte de seu pai, Nikolas Mills apaixonou-se por reformar carros antigos e tornou-se um artista e designer.

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