segunda-feira, 14 de março de 2011

Talvez você já tenha sentido esse medo antes - acidentes radioativos e um pouco de sociologia

... Aparentemente, o terremoto-tsunami-acidente nuclear no Japão, de 11 de março, ainda terá complicações imprevisíveis, e como muitos na verdade eu gostaria de ajudar mais do que ficar sentado aqui monitorando sites e coisas do tipo. Fazer um post não alivia muito esse sentimento, mas pelo menos eu gostaria de, sei lá, fazer um gesto para as vítimas e aos sobreviventes publicando um trabalho que eu fiz na dissertação de mestrado, de 1997, sobre o 'Acidente' de Goiânia, que mesmo já meio envelhecido (não existia  o Google) espero que traga alguma luz para as discussões que voltam a nos demandar. E sei lá por que (preguiça? vergonha?) o texto só estava disponível em papel, na biblioteca da FFLCH USP, então aproveitei, com licença, obrigado, para pedefar e colocar online.

Como ninguém vai ler tantas páginas, a seguir eu copiei apenas a introdução, para dar uma ideiazinha do que se trata - e porque o resumo oficial é um pé no saco, admito.

(Para baixar a dissertação clique aqui)
[Atualização: pode ser visto também aqui ]



‘Acidentes’ tecnológicos e modernização reflexiva: o caso do Acidente de Goiânia
 
Introdução
Dia 1 de outubro de 1987, quinta-feira. Os brasileiros em geral e os habitantes de Goiânia em especial se depararam, neste dia, com uma notícia surpreendente - e logo se viu, especialmente ruim. A blindagem de um aparelho de radioterapia teria sido destruída com marretadas, em um ferro-velho, na cidade de Goiânia, capital do Estado de Goiás, provocando o mais grave acidente radioativo do país, como já se avaliava:
01/10/87 - Césio em ferro-velho espalha radioatividade em Goiânia - GOIÂNIA - Dezesseis pessoas internadas em estado grave e cerca de 40 em regime especial de observação médica por causa da radioatividade liberada por uma cápsula de césio 137, que sumira do Instituto Goiano de Radioterapia e fora vendida a um ferro-velho de Goiânia como sucata, na semana passada. (...)
O material fora recolhido, na quarta-feira da semana passada, por Wagner Mota Pereira e Roberto dos Santos Alves, (...) e vendido como sucata ao ferro-velho de propriedade de Devair Alves Ferreira. Há uma versão de que o material teria sido roubado. (...) Os problemas começaram a surgir na segunda-feira, quando Wagner Mota Pereira foi internado no Hospital de Doenças Tropicais com queimaduras. Roberto dos Santos Alves também foi internado. O dono do ferro-velho e toda sua família também estão contaminados com a radiação da cápsula, que estava no quintal de sua casa.
Ali, tentou quebrar o material, e toda vez que fazia isto ativava a liberação de radioatividade da cápsula, sem saber o que estava acontecendo. As crianças se divertiam, brincando naquela “pedra brilhosa”, como chegaram a dizer. O problema maior foi a tentativa de Devair Alves Ferreira, o dono do ferro-velho, de quebrar a peça com uma marreta e um martelo, e com isto, segundo o físico Rozental, diluiu o material radioativo, que se espalhou por toda a casa. “Aquele pó impregnou todas as pessoas.” As crianças até se divertiam, passando pelo corpo o pó que brilhava como purpurina. Momentos depois, estavam com queimaduras por todo o corpo, com vômitos e diarréias, as primeiras manifestações da contaminação radioativa.(...)[1]

O que se objetiva aqui é problematizar o ‘Acidente do Césio’ como um evento da modernidade em um país de modernização supostamente atrasada, através do conceito de acidente tecnológico como acontecimento e, portanto, através de uma reconstituição histórica. Enquanto um exemplo de evento da atualidade, e pelo fato de haver acontecido na forma de ‘acidente’, é uma oportunidade de observar algo básico para o entendimento da organização social, que é a maneira de lidar, na modernidade, com o que é considerado contingente, fortuito. Essa maneira é a ciência, mobilizada na técnica, nas aplicações tecnológicas da ciência, com o conhecimento construído e voltado para controlar a natureza: é através dessa maneira que se lida com o que estaria fora ou contra a vontade, mesmo num momento em que essa maneira aparentemente falha, como no Acidente de Goiânia, e deve ser reelaborada pelos seus agentes. Nesse processo, nos seus antecedentes, no seu desenrolar, nas suas conseqüências, nos sentidos que lhe foram atribuídos e nos problemas que levantou para o país, o Acidente de Goiânia ‘desconstruiu’ um complexo institucional pouco conhecido (o setor voltado à tecnologia nuclear) e permitiu visualizar diversos elementos constituintes da modernização reflexiva: a existência, realização ou possibilidade de riscos ou perigos não previstos ou não conhecidos, mas criados pelo próprio desenvolvimento da sociedade industrial; o papel da ciência e da tecnologia na produção, conhecimento e controle desses riscos e sua relação problemática com as outras esferas, como o Estado ou a população; a forma reflexiva de criação, apropriação e circulação de conhecimentos, forma característica que também surgiu com a modernização; a correlata constituição e desempenho de responsabilidades (isto é, de papéis sociais); o papel agora central dos agentes técnicos (peritos ou burocratas especializados); a peculiar dramaticidade do acontecimento derivada da situação de emergência e das tarefas de reconstituição de uma normalidade afetada pelo desastre.

O Acidente em Goiânia foi o maior do tipo no Brasil (até agora) e um dos mais graves já ocorridos em todo o mundo: o primeiro no país a ter como vítimas a população em geral e não profissionais da área, nela provocando mortes e ferimentos; o primeiro a se espalhar por uma cidade povoada;  o primeiro a testar uma série de medidas de emergência que eram apenas hipotéticas ou, menos ainda, formais; e, principalmente, o primeiro experimentado como um grande evento público. Pareceu, e de fato se mostrou ser, algo tão grave que mereceu uma atenção especial, perigoso e de difícil compreensão, agora próximo mas também ainda distante, novo porém familiar; e brasileiro, mas também estranho, estrangeiro, como descreveu Fernando Gabeira (1987), inspirado em Freud. 

Não apenas surpresa, desagrado e estranhamento, mas uma multiplicidade de reações foi provocada. O “Acidente de Goiânia” ou “Acidente do Césio”, como ficou conhecido, teve a dimensão de algo incomum, capaz de abalar o cotidiano, de expor um novo perigo e de provocar nos brasileiros um medo antes desconhecido. De levantar temor quanto ao futuro imediato e desencadear o drama quanto ao destino das vítimas da contaminação. De fazer surgir manifestações, às vezes lamentáveis, às vezes surpreendentes, de discriminação e irracionalidade, mas também de indignação e solidariedade. Sobretudo, de provocar debates e de esclarecer posições entre autoridades, cientistas, técnicos, políticos e cidadãos: o espaço público, por algum tempo, foi preenchido por esse debate conflituoso e confuso veiculado e registrado através da imprensa. Teve a dimensão constituir esse debate como fato histórico, como intriga, no sentido de Veyne (1983)[2], mais que como um grande evento envolvendo grandes personalidades e grandes decisões.

Trata-se de uma experiência com uma nova forma de morrer. A morte por radiação é uma das invenções mais significativas deste século. Se for suficientemente forte, a radiação pode desintegrar uma pessoa, quebrando todas as moléculas do corpo e espalhando-as pelo espaço, tal como sucedeu às vítimas no hipocentro da explosão de Hiroshima[3]. Isso foi tão rápido e brutal que transformou o próprio conceito de morte: numa pequena fração de um instante, se vivia, entre outras pessoas e coisas, preocupações e alegrias, e depois, simplesmente, nada. Desaparece-se. Nenhuma prova material da existência anterior. Se a radiação não for tão forte para provocar a morte instantânea, ela radicaliza o conceito de morte, como em Goiânia: estenderá a agonia por minutos, por meses, anos ou gerações, e, antes, provocará uma espécie peculiar de morte social e de estigma. 

No acidente com o Césio-137, em Goiânia, os habitantes de todo o país tiveram uma experiência com essa morte radical. Pessoas foram contaminadas ou sofreram exposição à radiação de um outro tipo de bomba, que ao contrário da sua longínqua ancestral de Hiroshima, não produziu estrondo, nem vitória, e que ao contrário de uma bomba explosiva convencional, como se viu, é muito mais perigosa se for desmontada. O perigo em questão mostrou uma face sempre renovada do horror, e aqui ele tomou a forma de pedrinhas que emitiam uma luz azulada, linda; uma maravilha que saíra das entranhas de uma máquina velha e quebrada, que encantou os vizinhos e as crianças num bairro popular em Goiânia. 

“Leide morreu no início da noite [do dia 23 de outubro de 1987, cerca de um mês após sua contaminação], vitimada por uma contaminação e ingestão de césio-137 em níveis nunca antes observados pela medicina nuclear. A menina - que ingeriu pó de césio comendo pão com as mãos sujas - quando seu quarto no hospital estava às escuras mostrava uma aura azulada pelo efeito do césio, que continuava a irradiar. Até os médicos tinham que se aproximar dela com precaução para não se contaminarem. Nos últimos dias, Leide não respondia aos testes, alimentava-se por via parental e sofria muito com febre alta constante, diarréia, sangramento nos olhos e nariz e quadro hematológico muito grave.” [4]

A ameaça da morte por radiação já foi sentida como maior. Uma guerra termonuclear traria uma devastação global que faz parecer muito otimista a lendária resposta de Einstein à pergunta de com que armas ocorreria a terceira guerra mundial, que disse não saber, mas para ele a quarta seria, com certeza, com paus e pedras. A possibilidade ainda existe, porque as armas existem e estão prontas para serem usadas, e pelo fato de o futuro ser, por excelência, o campo das incertezas[5].
Isto coloca a questão de pensar esta etapa histórica como decorrente das maiores capacidades já alcançadas, ao mesmo tempo, tanto para a destruição quanto para a criação: “O que nos ocorre em primeiro lugar, naturalmente, é o tremendo aumento de poder humano de destruição, o fato de que somos capazes de destruir toda a vida orgânica da Terra e de que, algum dia, provavelmente seremos capazes de destruir a própria Terra. No entanto, não menos terrível e não menos difícil de compreender é o novo poder de criar, o fato de que podemos produzir novos elementos jamais encontrados na natureza, de que somos capazes não apenas de especular quanto às relações entre massa e energia e quanto à mais secreta identidade destas duas, mas, de fato, transformar massa em energia ou transformar radiação em matéria.” (Arendt, 1991: 280-81). A noção desse poder, que tem mais de cinqüenta anos, já é generalizada na população, gerando movimentos de contestação, e tema de inúmeras obras científicas ou de ficção. Mas de maneira geral, pela condição do Brasil de país do ‘Terceiro Mundo’, os brasileiros nunca se experimentaram sujeitos ou alvos (até no sentido literal) dessas grandes possibilidades e ameaças.

O que aconteceu em Goiânia? Como se poderia entendê-lo? Por que aquelas pessoas estavam morrendo? Apesar de parecer algo que diz respeito principalmente às ciências naturais, como a física nuclear e suas decorrências, as teorias da matéria ou da radiação, ou ainda, a artefatos como o aparelho de radioterapia (portanto às ciências exatas e suas aplicações tecnológicas), parece óbvio que há importância para as ciências sociais num evento dessa magnitude. Não se pode explicar, compreender ou mesmo apenas descrever o Acidente de Goiânia abstraindo as pessoas e instituições que dele participaram, direta ou indiretamente. Também não se pode aceitar, do ponto de vista da sociologia, que apenas responsabilidades individuais, como as buscadas pelas investigações policiais ou judiciárias (portanto as posições oficiais), sejam explicações suficientes não apenas para o caso em questão quanto para outros perigos advindos de uma grande e importante série de sistemas, que estão profundamente envolvidos na forma de organização da vida atual, e que estão agora nitidamente interligados: o sistema científico-tecnológico e produtivo, que, por sua vez, também está interligado com várias outras esferas, como a militar, econômica, política, ecológica, até o nível da determinação da individualidade.

Poucos eventos parecem ser tão expressivos da atualidade como os acidentes tecnológicos, por serem decorrentes e demonstrativos desse caráter ambivalente da condição moderna. No caso do Acidente de Goiânia, a ambivalência está até no próprio artefato, um aparelho que, projetado para curar o câncer, passa a provocá-lo. Parece ser justamente essa passagem um objeto por excelência para as ciências sociais, por explicitar essa ambivalência, ainda que ‘acidental’ (ou pelo fato de o acidental ser o aspecto mais visivelmente social). Acidentes são temas sociológicos de certo modo ‘clássicos’, mas são abordados geralmente em relação a um outro tema ‘maior’: acidentes de trabalho, por exemplo, entendidos como conseqüências da exploração capitalista. Acidentes tecnológicos, entende-se, devem ser abordados de uma outra maneira, que leve em conta que eles não são simples conseqüências: podem ser expressão de problemas tão graves que haveria o risco de eliminarem as suas próprias causas, isto é, a própria sociedade industrial que os produz[6]

Além desses elementos, por assim dizer, institucionais (os sistemas envolvidos na constituição da atualidade), passado o momento de emergência, sempre resta um sentimento de frustração e angústia: apesar de um dos efeitos do acidente ser o grande falatório, debates, apelos, dos mais diversos tons, que ele provoca, de algum modo, ou em virtude disso, não há sentidos evidentes nem efeitos previsíveis num acontecimento deste tipo, mas a sensação consensual de que algo muito grave aconteceu. As interpretações múltiplas não reconfortam, pelo contrário. Nenhuma explicação que contemple a gravidade das implicações do uso da energia nuclear pode ser tranquilizadora. Há toda a questão do passado, de uma linhagem que a mídia sempre faz questão de lembrar, e portanto atualizar, que começa em Hiroshima, passa pela Guerra Fria e Tchernobyl. Há a cultura, onde a radioatividade é mostrada pela ficção geralmente como a pior das ameaças: traz a imagem de um futuro que não queremos habitar[7]. Há o fato de se tomar consciência, forçosamente, de um perigo invisível, ou mais, que não pode ser apreendido por nenhum sentido, e para o qual não há prevenção individual que se possa tomar. A idéia que surge após um grande desastre como o de Goiânia é a de que o mundo está mais perigoso, mais ameaçado e degradado do que antes.

As conseqüências sociais do desastre abrem ou renovam, para todos, a necessidade de criar alternativas, ante a presença dessa e de outras ameaças à existência coletiva. Embora a maioria das pessoas possa lidar com acontecimentos desse tipo com uma espécie de resignação forçada (entre diversas outras maneiras, do tédio à paranóia passando pela militância política (Giddens, 1991:136-8)), cabe às ciências sociais um papel de esclarecimento que, pelo menos, dê uma forma organizada e crítica a um conhecimento que se produz no social, mesmo que de modo ‘acidental’, e no contexto de um país que até o Acidente se sentia algo fora de tais perigos: não participávamos daquela linhagem de tristes desastres. Sua realização nos mostrou por algum tempo que não estávamos totalmente fora desse mundo.
 "Quando forem devidamente avaliadas, as conseqüências do acidente com o césio-137, em Goiânia, o país terá pela primeira vez um retrato sem retoques de sua perigosa duplicidade, que faz conviver explosivamente a tecnologia de vanguarda com o atraso quase pré-histórico. (...) Não foi apenas uma ironia cruel que fez o biscateiro Roberto Santos Alves arrebentar a marretadas o pomposo status brasileiro de país dominador do ciclo completo de enriquecimento de urânio, anunciado pelo presidente José Sarney há apenas um mês. Foi um desfecho quase lógico de uma situação que vem sendo armada nas últimas décadas, e que pipocou, apenas por azar, em Goiânia."[8]
 O Acidente de Goiânia não aconteceu num universo separado, mas, totalmente ao contrário, aconteceu imerso no contexto de um Brasil ‘subdesenvolvido’ que muito parece ter a explicar. Mas interpretá-lo, e a outros acidentes tecnológicos de maneira a concluir que, por exemplo, o acidente do césio tenha sido apenas decorrência do estágio subdesenvolvido do Brasil, de não termos portanto a capacidade elementar de evitar acidentes, traz alguns problemas. Pode valer mais como uma denúncia do subdesenvolvimento, mais ideológica do que sociológica ou científica. Tentar-se-á aqui argumentar que o subdesenvolvimento não é mera causa, antecedente ou explicação última para a ocorrência desse e de outros desastres: algo ao contrário, a idéia, o tema ou a auto-imagem de subdesenvolvimento é também conseqüência do Acidente, surge da problematização que dele fazem seus atores, como explicação que eles se dão tanto para que o desastre tenha ocorrido quanto para suas conseqüências no futuro. O subdesenvolvido, no fundo, espera que sua própria condição explique e absolva seus erros passados quanto justifique sua omissão no futuro: talvez o grande temor seja o de se assumir como sujeito de seus próprios atos e perder os relativos confortos de ser prisioneiro das circunstâncias.


[1] JORNAL DO BRASIL. 01/10/87. Césio em ferro-velho espalha radioatividade em Goiânia.
[2]Os factos não existem isoladamente, no sentido de que o tecido da história é o que chamaremos uma intriga, uma mistura muito humana e muito pouco ‘científica’ de causas materiais, de fins e de acasos; numa palavra, uma fatia de vida, que o historiador recorta a seu bel-prazer e onde os factos têm as suas ligações objetivas e a sua importância relativa (...)” (Veyne, 1983: 48). (A tradução brasileira utiliza a palavra trama, em lugar de intriga).
[3]Vi quatro ou cinco meninos brincando na rua, e uma mãe carregando um bebê nas costas, ao mesmo tempo em que conduzia pela mão outra criança, de seus 3 anos. Quando elas estavam a uns 10 metros de mim, houve o clarão da explosão. A mãe e as crianças desapareceram. O que vi não foi fumaça. Foi uma espécie de vapor, que se levantou da mãe e das crianças. Logo depois, elas desapareceram.”  (Depoimento de um sobrevivente de Hiroshima). VEJA, 2 de agosto de 1995. Hiroshima, 50 anos. Memórias dos filhos do clarão. Editora Abril, Ano 28. N. 31: 62.
[4] JORNAL DA TARDE. 24/10/87. Césio 137: morrem duas vítimas.
[5] “O novo sempre acontece à revelia da esmagadora força das leis estatísticas e de sua probabilidade que, para fins práticos e cotidianos, equivale à certeza; assim, o novo sempre surge sob o disfarce do milagre. O fato de que o homem é capaz de realizar o infinitamente improvável (...) Contudo, embora as várias limitações e fronteiras que encontramos em todo corpo político possam oferecer certa proteção contra a tendência, inerente à ação, de violar todos os limites, são totalmente impotentes para neutralizar-lhe a segunda característica relevante: sua inerente imprevisibilidade. Não se trata apenas da mera impossibilidade de se prever todas as conseqüências lógicas de determinado ato, pois se assim fosse um computador eletrônico poderia prever o futuro; a imprevisibilidade decorre diretamente da história que, como resultado da ação, se inicia e se estabelece assim que passa o instante fugaz do ato. O problema é que, seja qual for a natureza e o conteúdo da história subsequente - quer transcorra na vida pública ou na vida privada, quer envolva muitos ou poucos atores - seu pleno significado somente se revela quando ela termina.” . (Arendt, 1991: 191 e 204)
[6]  Pode parecer uma ironia (ou coisa pior) dizer que a sociedade industrial capitalista pode desaparecer por sua própria conseqüência quando alguns celebram a morte do marxismo. Mas nesse caso, não seria o socialismo que avançaria pela Terra.
[7]  “Assisti muito filme de guerra e de bomba atômica e aprendi o que é irradiação.” Ernesto Fabiano, uma das vítimas, que carregou um pedaço de césio 137 no bolso da calça. O ESTADO DE S. PAULO, 21/10/87.
[8]  ISTOÉ, 14/10/87. Diante da morte e perplexos.

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