sábado, 22 de outubro de 2011

Não me abandone jamais (2010)

Faz muito tempo que ensaio escrever sobre Não me abandone jamais - o livro de Kazuo Ishiguro, publicado em 2005, e filmado no ano passado.

Eu assisti super desavisada: não sabia do que se tratava, não tinha expectativa alguma... nem sabia que era baseado em livro do Ishiguro (cuja literatura, por sinal, gosto bastante)! Talvez por isso mesmo, a experiência de assistir ao filme e, depois, de ler o livro, tenham sido tão intensas. Digo isso porque o Ishiguro, que também é o autor de Vestígios do Dia (que, quando filmado, contou com Anthony Hopkins e Emma Thompson no elenco), é um mestre dos detalhes e sutilezas, e constrói uma narrativa que nos pega desprevenidos; ele estrutura o livro de modo a aumentar nossa empatia com as personagens: como elas, notamos uma estranheza difícil de nomear, introduzida por meio da linguagem (pois algumas palavras têm seu sentido deslocado), mas principalmente por meio de um zoom potente sobre as relações sociais. Também como as personagens, ficamos ao mesmo tempo aliviados e assombrados quando a verdade, anunciada na estranheza, se revela por inteiro na fala de uma das professoras.

Destino, angústia com o tempo, a alegria do amor, mas também aquilo que Octavio Paz chamou de contradição essencial do amor [1] e, mais dolorosamente, a impotência e a conformação são temas do livro, que Ishiguro vai desenvolvendo como que despretenciosamente, mas por isso mesmo, de forma muito comovente. Se parte da tensão do livro se constrói sobre a tensão Nós-Outros, Ishiguro dá uma rasteira no leitor e nos provoca a tirar as consequências do fato de que a distância entre nós-eles é falsa, é mediada pelo nosso próprio desejo de sobreviver, pelo esforço em tornar invisíveis as contradições que tornam possível a vida (de alguns) boa e longa. Mas nos atira na cara, no mesmo movimento, os custos dessa invisibilidade, presente nas relações sociais que as personagens estabelecem, umas com as outras e também com os professores e a diretora de Hailsham, o colégio onde as personagens se conhecem e onde crescem juntas. Distinguir entre Nós-Outros nem sempre é fácil, afinal.

Por tudo isso, o filme é bastante atual, ao sugerir a impotência dos indivíduos em fazer frente a tantas contradições, mesmo quando o que está em jogo é sua sobrevivência física  - e nem vou tratar aqui do lugar que se confere, na narrativa, à escola, ainda que as personagens sejam "privilegiadas" por estudar numa das mais progressistas: o livro/filme faz uma crítica ácida ao papel que a escola tem para produzir a conformação e a legitimação da ordem social.

Não sei se por ter assistido ao filme antes de ler o livro, acho que este foi em grande medida feliz ao colocar em imagens a narrativa de Ishiguro (que participou do projeto, inclusive como produtor executivo), o que tem ficado ainda mais evidente por, este semestre, eu estar trabalhando com meus alunos da licenciatura o tema "Distopias e Educação".

De fato, quando pensado em relação a outros filmes distópicos (penso em Metrópolis, de Fritz Lang; Blade Runner, de Ridley Scott; Matrix, dos irmãos Wachowski; Farhenheit 451, de François Truffaut, entre outros. Na literatura, além de Fahrenheit 451, referências obrigatórias são 1984 e Admirável Mundo Novo), Não me abandone jamais apresenta um imaginário visual distante das cidades futurísticas, lúgubres e tecnológicas que costumam aparecer nos filmes distópicos. Pois se trata de um filme distópico que fala menos de um futuro sombrio do que de um presente alternativo, verossímil ao apresentar as consequências possíveis de inovações tecnológicas já em funcionamento entre nós, mas chocante ao evidenciar de forma crua o quanto tais inovações, se levadas às últimas consequências, implicariam em desumanização. É um filme distópico que apresenta um imaginário visual completamente distinto: é quase amarelado, alternando cenas mais escuras, em espaços fechados, e cenas abertas, nas pequenas incursões que as personagens fazem no mundo "normal", o mundo das pessoas que ajudam a salvar. Com essa constante contraposição, o filme parece sugerir que nada é assim tão plano, tão liso: mais uma vez, o tema da contradição, que - desesperadoramente - não resulta em movimento algum de resistência.



No livro e no filme, a narrativa flui sem obstáculos, num continuum sem clímax, só desfechos. Pois, como a própria linguagem utilizada no livro sugere, trata-se de uma sociedade que baniu a morte, esse fantasma que ronda as sociedades de segurança (de que Não me abandone jamais faz a crítica) [2]: para os seres humanos ela perde sua força porque as personagens permitem a extensão da vida; para as personagens, ela é dita como "completar", isto é, como o fim lógico e natural de seu destino. Por isso mesmo, embora o livro termine enquanto Kathy, a narradora, ainda está viva, não temos dúvida do que acontecerá na sequência: a narrativa inteiramente sob o signo da inevitabilidade.

Essa parece ser a principal crítica de Ishiguro: que esses jovens, até mesmo quando amando, jamais cheguem a pôr em questão a justiça e a pertinência do lugar que ocupam, que jamais coloquem em dúvida o objetivo a que foram destinados; que legitimem, com sua passividade, a ordem das coisas. E que, assim, "completem" - a narrativa, seu destino, suas vidas.

É um livro realmente perturbador. Triste, desesperançado. Que recusa a agência individual para modificar o mundo - como é tão comum nos livros/filmes distópicos -  e, ao invés disso, nos oferece uma visão privilegiada do momento atual: quando talvez nos faltem menos as virtualidades possíveis do que a "tinta vermelha" com que enunciá-las, escapando do fatalismo do destino. Mobilizar-se, não para conseguir uma moratória em nossa sina (como Tommy, que desembesta a desenhar, esperando dessa maneira adiar o início de suas "obrigações"), mas para deixar de acreditar que é a única sina possível. Recusar o jogo, rebelar-se, rasgar as páginas do livro por já saber onde ele vai dar e tornar-se livre para inventar outro desfecho: essa parece a interpelação desesperada que Ishiguro faz.

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[1] Octavio Paz, em seu livro A dupla chama: amor e erotismo (2ª ed. São Paulo: Siciliano, 1994), sugere que a principal contradição do amor está em sua capacidade de nos fazer perder de vista o tempo, ao mesmo tempo em que passamos a senti-lo em todo o seu peso. A formulação dele é precisa, no que tem de beleza e poesia: "[...] Amamor um ser mortal como se fosse imortal, Lope disse isso melhor: ao que é temporal chamar eterno. Sim, somos mortais, somos filhos do tempo e ninguém se salva da morte. Não só sabemos que vamos morrer como a pessoa que amamos também vai morrer. Somos o joguete do tempo e de seus acidentes: a doença e a velhice, que desfiguram o corpo e extraviam a alma. Mas o amor é uma das respostas que o homem inventou para olhar de frente a morte. Pelo amor, roubamos ao tempo que nos mata umas quantas horas que transformamos, às vezes em paraíso e outras em inferno. De ambas as formas o tempo se distende e deixa de ser uma medida. Mais além da felicidade ou infelicidade, embora seja as duas coisas, o amor é intensidade; não nos presenteia com a eternidade mas sim, com a vivacidade, esse minuto durante o qual se entreabrem as portas do tempo e do espaço - aqui é mais além e agora é sempre" (p.117-8).
[2] Michel Foucault, no capítulo final do primeiro volume de História da Sexualidade (A vontade de saber. 13ª ed. Rio de Janeiro: Graal, 1988, p.125 e ss.), sugere que a reclusão da morte na modernidade se deve, entre outros processos, ao aparecimento de um dispositivo biopolítico, que - em oposição ao poder soberano - se propõe como objetivo "fazer viver e deixar morrer". Assim, produzir "mais-vida", melhorar a qualidade de vida, impedir as doenças etc. se torna objetivo de governo, alterando, portanto, a relação e os significados da morte.

3 comentários:

  1. Fabi, muito preciso seu comentário, além de lindo. Eu li o livro (adoro o Ishiguro) antes de assistir o filme, mas os dois me pegaram de surpresa. O autor, ele mesmo estrangeiro, embora escreva em inglês com um domínio total do idioma, nuca perde a estranheza no olhar, fala o idioma mas com a suspeita de que há algo mais dentro das frases bem educadas. É o mestre das sutilezas e dos detalhes em profundidade e ao mesmo tempo um observador a distância. O filme também é delicado na sua desolação que não está nas palavras e sim no olhar e nos gestos mínimos. É o horror do cotidiano - ou o cotidiano do horror - que todos preferem não ver, mas que sempre está implícito. Um beijo. Chus

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  2. Chus, você tem toda razão: me lembro até hoje da sensação de estranheza depois de "Quando éramos órfãos", primeiro livro do Ishiguro que li. Uma estranheza justamente efeito dessa escrita límpida, que parece sem rodeios, mas que é capaz de também revelar o que está ausente, oculto. É uma escrita clara, mas que de um jeito bem preciso não deixa de insinuar as lacunas daquilo que não se diz. A escrita de um japonês em Londres :-)Um beijo, Fabi.

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  3. Magicamente inspirador, preciso conhecer Kazuo Ishiguro! Obrigada! Beijos, Guaciara.

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