quinta-feira, 19 de julho de 2012

Grandes Pensadores del Siglo XX - Pierre Bourdieu

(Um dos dez capítulos do programa Grandes Pensadores del Siglo XX, exibido no Canal Encuentro - Argentina, apresentado pelo filósofo Ricardo Forster).

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Atlas do Trabalho escravo no Brasil

Hervé Théry; Neli Aparecida de Melo; Julio Hato e Eduardo Paulon Girardi. Atlas do Trabalho Escravo no Brasil. s/l, Amazônia da Terra, 2012. Usando georreferenciamento e construindo indicadores de risco e vulnerabilidade, a pesquisa confere visibilidade ao problema do trabalho escravo no país. Publicação somente online.

Sobre o trabalho e o livro, ver também a notícia no Boletim de hoje da Agência Fapesp: Pesquisadores mapeiam escravidão no Brasil

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Michel Foucault encontra "Emily Rose" (parte II)

Procurando informações sobre o filme (O exorcismo de Emily Rose. EUA, 2005), descobri uma porção de coisas assustadoras intrigantes, que inclusive tornam o encontro de Foucault com "Emily Rose" mais interessante.

O filme, baseado na história da jovem alemã Anneliese Michel, nos anos 1970, muda os fatos verídicos de modo a construir uma narrativa mais apropriada ao objetivo do cineasta, que parece ser reabilitar a fé como fator humanizador, isto é, provocar a reflexão sobre a necessidade de considerar outras dimensões da vida e da morte, ainda que jamais alcançadas pelo conhecimento científico (ou jurídico ou psiquiátrico ou médico...). Assim, no filme, o padre exige ser julgado para realizar o último desejo de Emily, que comporta uma dimensão sacrificial: o julgamento, com seus ritos e sua forma específica de produção da verdade, é a cena perfeita para enunciar (e anunciar) a veracidade da possessão. Na cena do tribunal, embatem-se dois poderes/saberes que - como sugere Foucault - o mesmo fenômeno da possessão contribuíra para separar: o poder e o saber da Igreja, a respeito dos mistérios da vida, e o poder e o saber da medicina, em especial da psiquiatria, que vão tentar provar indiscutivelmente que o problema em questão era de natureza psíquica.

 Ao decidir ir a julgamento, mesmo sob o risco da condenação, assim como Emily Rose o padre Moore age como cristão, sacrificando-se em nome de sua fé. Mais ainda, o Padre evidencia a tensão entre fé e instituição quando, contrariando a ordem expressa da Igreja de aceitar um acordo, (discretamente distraindo o público dessa situação embaraçosa de um exorcismo, ademais malsucedido), teima em deixar o julgamento acontecer, com todo seu entorno midiático.

 Não é à toa que a trama se complica quando ficamos sabendo que a acusação de negligência, de incitação de recusa a tratamentos médicos, não procedia: havia um médico no quarto de Emily, mas um médico que - naquela situação - era representante de um poder impotente: o médico resiste em aparecer no julgamento não apenas para não se comprometer, mas também para evitar pôr em evidência os limites de sua própria prática. O fenômeno, afinal, não é patológico, mas religioso.

No caso que deu origem ao filme há o fato de que Annelise Michel tinha diversas passagens por instituições psiquiátricas e, ainda que fosse religiosa, é só ao final da vida (após sofrer por mais de sete anos entrando e saindo de tais instituições, portanto) que pensa a possessão como uma possibilidade de explicação para os males que lhe acometem. Tal histórico, em conjunto com sua decisão de interromper os tratamentos médicos durante o ritual de exorcismo, é que deram razão à condenação dos padres envolvidos. Talvez por essa razão é que, na ficção, para ser mais verossímil, a possessão é algo repentino, gerando comportamentos completamente estranhos ao "normal" de Emily; era preciso marcar com mais ênfase a cisão provocada pela possessão - o antes e o depois.

De todo modo, impressiona notar o quanto a ficção coloca em cena o embate entre Igreja e medicina que teria ficado algumas camadas abaixo das formações discursivas e práticas de uma e de outra desde o momento analisado por Foucault. Esse "começo baixo" da moderna psiquiatria ecoa na representação artística, na alternância dos planos entre o espaço restrito da casa/da igreja e o espaço restrito do tribunal, esses espaços que o problema da possessão tensiona, opõe e reúne.

Interessante também é pensar a diferença entre os desdobramentos reais do julgamento de Michel e a solução formal dada pelo roteirista em Emily Rose: claro que se tratam de diferentes momentos históricos, e mesmo de diferentes tradições jurídicas (a alemã e a americana), além da evidente linha que separa realidade e ficção. Mas não deixa de ser significativo que no filme o tribunal possa ser o espaço de revelação de uma outra verdade - nem a jurídica, nem a médica, mas a religiosa: a carta deixada por Emily permite que ela esteja presente em um julgamento que lhe concerne, como a testemunha póstuma em favor do padre, falando ao mesmo tempo de deus e de sua própria escolha, isto é, falando ao mesmo tempo do mistério da aparição e da revelação e de seu desejo de morrer como boa cristã, a fim de lembrar o mundo que o bem e o mal são dimensões que não devem ser esquecidas. A carta "salva" o padre ao mesmo tempo em que anuncia o objetivo divino do destino trágico de Emily; ambos, Emily e o padre responsável pelo exorcismo, se salvam ao final porque o tema do filme é, no fundo, a redenção (inclusive da advogada, cética e ambiciosa).

O encontro de Michel Foucault e Emily Rose é embaraçoso, sem dúvida: ao judiciário, à psiquiatria, à medicina. Também à Igreja, que num mundo desencantado não tem a opção de tentar fazer valer seus ritos e suas práticas e deve, submissa, aceitar o poder psiquiátrico que contribuiu para constituir. (O crime do padre, afinal, não foi ter realizado o exorcismo senão, aparentemente, ter deixado de lado o saber médico).

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Michel Foucault encontra "Emily Rose" (parte I)

Na aula de 26 de fevereiro de 1975, do curso "Os Anormais", Michel Foucault avança mais um passo em seu esforço de pensar a anormalidade a partir do exame de três figuras que, em sua perspectiva, teriam se encontrado na ideia contemporânea do anormal. Assim, entre o monstro humano que se produz no entrecruzamento das práticas punitivas, jurídicas e psiquiátricas; o indivíduo incorrigível que aparece como efeito das disciplinas e a criança masturbadora que aparecerá nas campanhas na metade final do século XIX, toda uma série de encontros, de pontos de contato, de interfaces e incitações - nas diferenças e aproximações entre tais figuras, o trabalho genealógico de compreender como foi possível passar da monstruosidade rara e extrema do indivíduo que contraria a natureza (jurídica e/ou humana) ao anormal generalizado, cotidiano e banal.

Foucault já vinha percorrendo um caminho tortuoso, analisando o julgamento de alguns casos monstruosos para evidenciar os novos problemas que as práticas de punição colocam ao judiciário e, por efeito, os problemas que o monstro humano coloca ao judiciário e ao psiquiátrico. Emergência da noção fraca de "instinto", a qual se recorre somente quando todo o aparato psiquiátrico falha. Noção frágil, sem conteúdo, que no entanto ocupa papel fundamental do processo de des-internamento da psiquiatria, isto é, da inauguração de um campo de saber que possibilita à psiquiatria ultrapassar os muros do hospício.

Dessa constatação, Foucault recua para a análise do Poder Pastoral e das técnicas de exame, para mostrar como é no interior de tais práticas que o corpo e a sexualidade se constituem como objetos de saber-poder.  Toda um estudo dos manuais de confissão, identificando os problemas, as crises, os cuidados no processo que é ao mesmo tempo de descoberta da verdade e de ocultamento dos pecados possíveis - uma sutil economia do enunciar e não-dizer na qual a sexualidade se reconstitui. Separação do corpo e da alma; produção de um corpo atormentado pela tentação e pelos perigos, tão banais e cotidianos. Ainda que a prática de confissão detalhada e minuciosa e de direção de consciência não se generalizem, ficando circunscritas aos monastérios e escolas cristãs, as práticas que inaugura atingem ao menos a classe mais alta, a que envia seus filhos às escolas.

Na aula do dia 26 de fevereiro, mais um pequeno susto: Foucault sustenta a hipótese de que é do corpo cristão e dos investimentos da Igreja católica em produzi-lo que surge um novo problema: o das possessões. Sustenta ainda que é esse problema novo que vai incitar a re-divisão de trabalho entre religião e psiquiatria.

Foucault diferencia as práticas de tratamento da feitiçaria e as práticas que envolverão a possessão: para enfrentar a feitiçaria, cuja existência se funda no modelo jurídico do contrato entre bruxa e demônio, o modelo da Inquisição basta para produzir a verdade e eliminar o desvio; além do mais, fenômeno principalmente rural, a feitiçaria está colocada fora da Igreja - a feiticeira é a resistência à conversão, é a persistência de outra ordem de valores e lógicas, justamente aquela que deve ser eliminada. Já a possessão não é da ordem do contrato, ao contrário: a possessão é da ordem da invasão. O corpo como palco da luta entre deus e o diabo. A possessão atinge especialmente cristãos devotos, é um problema que se constitui no interior da Igreja, e por isso mesmo não pode ser resolvido simplesmente pela eliminação - a Igreja não pode abandonar os seus, daí o aparecimento dessa figura do padre exorcista, disposto a enfrentar o demônio em nome de deus.

É interessantíssima a análise que Foucault faz, evidenciando que as práticas - sempre discursivas e não-discursivas, vale sublinhar - produzem novos fenômenos psicológicos e religiosos. A possessão, nesse sentido, como resistência do corpo; como afirmação violenta do corpo que não se deixa normalizar pelo exame: embate entre desejos. Sua análise, por exemplo, da centralidade que irão adquirir as aparições, e às crianças é bastante instigante.

Analisando o "caso Loudun", que ocorre em um monastério e acaba por atingir várias religiosas, Foucault procura sugerir que a Igreja não sabe o que fazer com esse novo fenômeno - não pode tratá-lo sem embaraço, na medida mesmo em que ele reintroduz como alvo de saber e poder religioso o corpo que ela ao mesmo tempo produz e rejeita. Em outras palavras, a Igreja falha em levar às últimas consequências o saber e o poder que o exame e a confissão inauguraram e é então que recorre ao saber médico, à psiquiatria. No caso Loudun, ela só consegue responder mobilizando o modelo judiciário da Inquisição e condenando um de seus padres à morte - mecanismo custoso, portanto, que exige o sacrifício de um de seus membros. A possessão não será ocasião de afirmação do poder divino e da instituição, mas ocasião de embaraço.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Corpo como construção

"El hecho de que lo que mueve la cultura sea el placer no quiere decir que el fin sea hedonista. El objetivo es la producción, el consumo y, en último término, la destrucción. El reto de lo que debería ser una izquierda para el siglo XXI es tomar conciencia de ese estado de depresión colectivo, a diferencia de la derecha, que vive en la euforia del consumo, de la producción de desigualdades, de la destrucción. La izquierda tiene que decir: mierda, la estamos cagando, y eso tiene que llevar a un despertar revolucionario". Beatriz Preciado, em interessantíssima entrevista, aqui.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

ainda Ishiguro

Muito boa esta entrevista, sobre Não me abandone jamais, mas não apenas. Infelizmente, sem legendas, mas ambos (o entrevistador e o entrevistado) falam claramente.