quarta-feira, 16 de maio de 2012

Michel Foucault encontra "Emily Rose" (parte I)

Na aula de 26 de fevereiro de 1975, do curso "Os Anormais", Michel Foucault avança mais um passo em seu esforço de pensar a anormalidade a partir do exame de três figuras que, em sua perspectiva, teriam se encontrado na ideia contemporânea do anormal. Assim, entre o monstro humano que se produz no entrecruzamento das práticas punitivas, jurídicas e psiquiátricas; o indivíduo incorrigível que aparece como efeito das disciplinas e a criança masturbadora que aparecerá nas campanhas na metade final do século XIX, toda uma série de encontros, de pontos de contato, de interfaces e incitações - nas diferenças e aproximações entre tais figuras, o trabalho genealógico de compreender como foi possível passar da monstruosidade rara e extrema do indivíduo que contraria a natureza (jurídica e/ou humana) ao anormal generalizado, cotidiano e banal.

Foucault já vinha percorrendo um caminho tortuoso, analisando o julgamento de alguns casos monstruosos para evidenciar os novos problemas que as práticas de punição colocam ao judiciário e, por efeito, os problemas que o monstro humano coloca ao judiciário e ao psiquiátrico. Emergência da noção fraca de "instinto", a qual se recorre somente quando todo o aparato psiquiátrico falha. Noção frágil, sem conteúdo, que no entanto ocupa papel fundamental do processo de des-internamento da psiquiatria, isto é, da inauguração de um campo de saber que possibilita à psiquiatria ultrapassar os muros do hospício.

Dessa constatação, Foucault recua para a análise do Poder Pastoral e das técnicas de exame, para mostrar como é no interior de tais práticas que o corpo e a sexualidade se constituem como objetos de saber-poder.  Toda um estudo dos manuais de confissão, identificando os problemas, as crises, os cuidados no processo que é ao mesmo tempo de descoberta da verdade e de ocultamento dos pecados possíveis - uma sutil economia do enunciar e não-dizer na qual a sexualidade se reconstitui. Separação do corpo e da alma; produção de um corpo atormentado pela tentação e pelos perigos, tão banais e cotidianos. Ainda que a prática de confissão detalhada e minuciosa e de direção de consciência não se generalizem, ficando circunscritas aos monastérios e escolas cristãs, as práticas que inaugura atingem ao menos a classe mais alta, a que envia seus filhos às escolas.

Na aula do dia 26 de fevereiro, mais um pequeno susto: Foucault sustenta a hipótese de que é do corpo cristão e dos investimentos da Igreja católica em produzi-lo que surge um novo problema: o das possessões. Sustenta ainda que é esse problema novo que vai incitar a re-divisão de trabalho entre religião e psiquiatria.

Foucault diferencia as práticas de tratamento da feitiçaria e as práticas que envolverão a possessão: para enfrentar a feitiçaria, cuja existência se funda no modelo jurídico do contrato entre bruxa e demônio, o modelo da Inquisição basta para produzir a verdade e eliminar o desvio; além do mais, fenômeno principalmente rural, a feitiçaria está colocada fora da Igreja - a feiticeira é a resistência à conversão, é a persistência de outra ordem de valores e lógicas, justamente aquela que deve ser eliminada. Já a possessão não é da ordem do contrato, ao contrário: a possessão é da ordem da invasão. O corpo como palco da luta entre deus e o diabo. A possessão atinge especialmente cristãos devotos, é um problema que se constitui no interior da Igreja, e por isso mesmo não pode ser resolvido simplesmente pela eliminação - a Igreja não pode abandonar os seus, daí o aparecimento dessa figura do padre exorcista, disposto a enfrentar o demônio em nome de deus.

É interessantíssima a análise que Foucault faz, evidenciando que as práticas - sempre discursivas e não-discursivas, vale sublinhar - produzem novos fenômenos psicológicos e religiosos. A possessão, nesse sentido, como resistência do corpo; como afirmação violenta do corpo que não se deixa normalizar pelo exame: embate entre desejos. Sua análise, por exemplo, da centralidade que irão adquirir as aparições, e às crianças é bastante instigante.

Analisando o "caso Loudun", que ocorre em um monastério e acaba por atingir várias religiosas, Foucault procura sugerir que a Igreja não sabe o que fazer com esse novo fenômeno - não pode tratá-lo sem embaraço, na medida mesmo em que ele reintroduz como alvo de saber e poder religioso o corpo que ela ao mesmo tempo produz e rejeita. Em outras palavras, a Igreja falha em levar às últimas consequências o saber e o poder que o exame e a confissão inauguraram e é então que recorre ao saber médico, à psiquiatria. No caso Loudun, ela só consegue responder mobilizando o modelo judiciário da Inquisição e condenando um de seus padres à morte - mecanismo custoso, portanto, que exige o sacrifício de um de seus membros. A possessão não será ocasião de afirmação do poder divino e da instituição, mas ocasião de embaraço.

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