quarta-feira, 23 de maio de 2012

Michel Foucault encontra "Emily Rose" (parte II)

Procurando informações sobre o filme (O exorcismo de Emily Rose. EUA, 2005), descobri uma porção de coisas assustadoras intrigantes, que inclusive tornam o encontro de Foucault com "Emily Rose" mais interessante.

O filme, baseado na história da jovem alemã Anneliese Michel, nos anos 1970, muda os fatos verídicos de modo a construir uma narrativa mais apropriada ao objetivo do cineasta, que parece ser reabilitar a fé como fator humanizador, isto é, provocar a reflexão sobre a necessidade de considerar outras dimensões da vida e da morte, ainda que jamais alcançadas pelo conhecimento científico (ou jurídico ou psiquiátrico ou médico...). Assim, no filme, o padre exige ser julgado para realizar o último desejo de Emily, que comporta uma dimensão sacrificial: o julgamento, com seus ritos e sua forma específica de produção da verdade, é a cena perfeita para enunciar (e anunciar) a veracidade da possessão. Na cena do tribunal, embatem-se dois poderes/saberes que - como sugere Foucault - o mesmo fenômeno da possessão contribuíra para separar: o poder e o saber da Igreja, a respeito dos mistérios da vida, e o poder e o saber da medicina, em especial da psiquiatria, que vão tentar provar indiscutivelmente que o problema em questão era de natureza psíquica.

 Ao decidir ir a julgamento, mesmo sob o risco da condenação, assim como Emily Rose o padre Moore age como cristão, sacrificando-se em nome de sua fé. Mais ainda, o Padre evidencia a tensão entre fé e instituição quando, contrariando a ordem expressa da Igreja de aceitar um acordo, (discretamente distraindo o público dessa situação embaraçosa de um exorcismo, ademais malsucedido), teima em deixar o julgamento acontecer, com todo seu entorno midiático.

 Não é à toa que a trama se complica quando ficamos sabendo que a acusação de negligência, de incitação de recusa a tratamentos médicos, não procedia: havia um médico no quarto de Emily, mas um médico que - naquela situação - era representante de um poder impotente: o médico resiste em aparecer no julgamento não apenas para não se comprometer, mas também para evitar pôr em evidência os limites de sua própria prática. O fenômeno, afinal, não é patológico, mas religioso.

No caso que deu origem ao filme há o fato de que Annelise Michel tinha diversas passagens por instituições psiquiátricas e, ainda que fosse religiosa, é só ao final da vida (após sofrer por mais de sete anos entrando e saindo de tais instituições, portanto) que pensa a possessão como uma possibilidade de explicação para os males que lhe acometem. Tal histórico, em conjunto com sua decisão de interromper os tratamentos médicos durante o ritual de exorcismo, é que deram razão à condenação dos padres envolvidos. Talvez por essa razão é que, na ficção, para ser mais verossímil, a possessão é algo repentino, gerando comportamentos completamente estranhos ao "normal" de Emily; era preciso marcar com mais ênfase a cisão provocada pela possessão - o antes e o depois.

De todo modo, impressiona notar o quanto a ficção coloca em cena o embate entre Igreja e medicina que teria ficado algumas camadas abaixo das formações discursivas e práticas de uma e de outra desde o momento analisado por Foucault. Esse "começo baixo" da moderna psiquiatria ecoa na representação artística, na alternância dos planos entre o espaço restrito da casa/da igreja e o espaço restrito do tribunal, esses espaços que o problema da possessão tensiona, opõe e reúne.

Interessante também é pensar a diferença entre os desdobramentos reais do julgamento de Michel e a solução formal dada pelo roteirista em Emily Rose: claro que se tratam de diferentes momentos históricos, e mesmo de diferentes tradições jurídicas (a alemã e a americana), além da evidente linha que separa realidade e ficção. Mas não deixa de ser significativo que no filme o tribunal possa ser o espaço de revelação de uma outra verdade - nem a jurídica, nem a médica, mas a religiosa: a carta deixada por Emily permite que ela esteja presente em um julgamento que lhe concerne, como a testemunha póstuma em favor do padre, falando ao mesmo tempo de deus e de sua própria escolha, isto é, falando ao mesmo tempo do mistério da aparição e da revelação e de seu desejo de morrer como boa cristã, a fim de lembrar o mundo que o bem e o mal são dimensões que não devem ser esquecidas. A carta "salva" o padre ao mesmo tempo em que anuncia o objetivo divino do destino trágico de Emily; ambos, Emily e o padre responsável pelo exorcismo, se salvam ao final porque o tema do filme é, no fundo, a redenção (inclusive da advogada, cética e ambiciosa).

O encontro de Michel Foucault e Emily Rose é embaraçoso, sem dúvida: ao judiciário, à psiquiatria, à medicina. Também à Igreja, que num mundo desencantado não tem a opção de tentar fazer valer seus ritos e suas práticas e deve, submissa, aceitar o poder psiquiátrico que contribuiu para constituir. (O crime do padre, afinal, não foi ter realizado o exorcismo senão, aparentemente, ter deixado de lado o saber médico).

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