segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Dois Josés e um Amarildo, por Eliane Brum

(A delicadeza e a a sensibilidade sociológica da Eliane Brum nunca deixam de me impressionar).

Dois Josés e um Amarildo (Eliane Brum, no El País Brasil)

Havia algo de melancólico no braço erguido dos dois Josés, Genoino e Dirceu, ao serem presos por corrupção. E na afirmação: “Sou preso político”. O punho cerrado é o gesto de resistência de uma geração que lutou contra a ditadura, pegou em armas, foi presa, torturada e assumiu o poder na redemocratização do país. É também o gesto que não mais encontra destinatário para além de seus pares e de parte da militância do PT. É, principalmente, o gesto que não ecoa na juventude que se tornou protagonista dos protestos que mudaram o país. No Brasil que reconheceu Amarildo, o pedreiro, como mártir da democracia, a evocação vinda de José Genoino e de José Dirceu para ocupar esse lugar não encontra ressonância. Desde as manifestações de junho, os presos políticos são os comuns. Para um partido tão hábil em esgrimir simbologias, não compreender o Brasil forjado no ano que não terminou é uma tragédia talvez maior do que a prisão por corrupção de duas de suas estrelas históricas.

Mártir político é Amarildo de Souza. Favelado, negro, analfabeto, 43 anos, o ajudante de pedreiro conhecido como “boi” pela sua capacidade de carregar sacas de cimento desapareceu em 14 de julho ao ser levado a uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) da Rocinha, no Rio de Janeiro. Amarildo, o homem comum vítima da política de criminalizar, torturar e executar os pobres. Uma política que atravessa a história do Brasil, persiste na redemocratização e se manteve nos governos de Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma. Não era o primeiro a desaparecer depois de entrar num posto policial, não foi o último. Mas, pela primeira vez, um homem comum, carregando em si todas as marcas da abissal desigualdade do Brasil, foi reconhecido como um desaparecido político da democracia, lugar destinado a ele pela convulsão das ruas. Esta pode ter sido a maior transformação colocada em curso pelos protestos.

Preso político é Rafael Braga Vieira, 26 anos, catador de latas, morador de rua, negro. Ele foi preso em 20 de junho, durante uma manifestação na Avenida Presidente Vargas, no Rio. Já tinha sido preso por roubo em duas outras ocasiões e cumprido as penas completas. Desta vez, está encarcerado, sem julgamento, há cinco meses no presídio de Japeri. Seu crime: carregar uma garrafa de Pinho Sol e outra de água sanitária. E uma vassoura, mas esta não foi considerada suspeita. Seu caso foi relatado à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) e ao Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos.

Desaparecido político é Antônio Pereira, 32 anos, auxiliar de serviços gerais, negro. Sumiu em 26 de maio, em Planaltina, no Distrito Federal. Há suspeita do envolvimento de policiais militares no seu desaparecimento. Manifestantes marcharam até o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios para protestar pelo seu sumiço. A Comissão de Direitos Humanos do Senado passou a investigar o caso.

Morto político é Douglas Rodrigues, 17 anos, estudante do terceiro ano do ensino médio e atendente de lanchonete. Levou um tiro no peito de um policial numa tarde de domingo, 27 de outubro, quando estava diante de um bar com o irmão de 13 anos, na Vila Medeiros, em São Paulo. Só teve tempo de dizer uma frase, que se transformou num símbolo contra o genocídio de gerações de jovens negros e pobres das periferias do Brasil. Douglas fez sua última pergunta, um conjunto de vogais e consoantes onde cabia uma vida inteira, antes de cair morto: “Por que o senhor atirou em mim?”. Em protesto pela sua morte a população incendiou ônibus, carros e caminhões e depredou agências bancárias.
Estes – e muitos outros – tornaram-se os presos políticos, os desaparecidos políticos e os mortos políticos da democracia desde que os brasileiros redescobriram as ruas e deslocaram a política para fora dos partidos e das instituições. Por isso o braço erguido, o punho cerrado, dos dois Josés, Genoino e Dirceu, é tão melancólico. É o gesto que não se completa ao não encontrar o presente. Lula, o PT e a cúpula do governo concentram sua preocupação e seus esforços para reduzir o impacto das prisões de figuras históricas na eleição de 2014, na qual Dilma Rousseff é a favorita para um segundo mandato. Talvez devessem se dedicar mais a escutar as novas simbologias forjadas nos protestos.
Foi justamente Lula, com a enorme força simbólica de ser o primeiro homem comum a chegar ao poder no Brasil, que em 2009 compactuou com a desigualdade histórica e a política arcaica, em uma frase: “Sarney tem história no Brasil suficiente para que não seja tratado como se fosse uma pessoa comum”. Ao pronunciá-la, protegeu o político oligarca que há décadas colabora para promover a miséria de milhões de homens, mulheres e crianças comuns no Maranhão, um dos estados mais pobres do país, e mostrou, como na frase famosa do clássico de George Orwell, hoje um clichê, que, quando convém, compartilha da ideia de que existem aqueles que são mais iguais que outros, tão iguais que merecem tratamento diferenciado.

A reivindicação de “preso político” por Genoino e Dirceu aponta para um cálculo que visa à biografia pessoal de cada um e à do próprio PT, assim como à disputa na construção da memória do país e do imaginário imediato. É também um apartar-se, na linguagem, do preso comum, uma impossibilidade de igualar-se a todos os outros detentos, que também declaram-se, em sua maioria, “inocentes”. Nos dias que antecederam à prisão, José Dirceu, aquele que anunciaria ser um “preso político da democracia por pressão das elites”, descansava num resort de luxo na Bahia que só as elites têm dinheiro para frequentar. Na primeira semana de prisão, foi citado, como exemplo de maus tratos, que Genoino estava tomando “água da torneira”. Isso num país em que “água da torneira”, mesmo depois de dois mandatos de FHC, dois de Lula e três anos do governo de Dilma Roussef, é sonho distante para muitos, uma realidade que o sertanejo Genoino conhece bem. Familiares de presos – estes comuns –, condenados sem crime e sem pena a noites de espera e humilhações para conseguir visitar pais, maridos e filhos na prisão da Papuda, em Brasília, revoltarem-se com o que definiram como “privilégio” daqueles que reivindicam o status de “presos políticos”.

Na prisão, a estrela do PT, que simbolizou – e ainda simboliza para muitos – tanta esperança de igualdade, foi reduzida ao sentido original do jargão publicitário: os presos do “mensalão” ganharam na prática e no imaginário da população o status de gente diferenciada. Esta é uma perda importante para o patrimônio simbólico construído pelo partido a qual seus líderes parecem estar dando pouco valor. O espetáculo promovido pelo ministro Joaquim Barbosa, ao levar os presos algemados para Brasília no feriado da Proclamação da República, foi um excesso em um momento histórico que exigia serenidade e contenção. Deixar presos de regime semiaberto em regime fechado foi um abuso, a que milhares são submetidos por falta de vagas no cotidiano do sistema prisional. A saúde e a vida de José Genoino devem ser protegidas. Não por conta de sua história, mas porque é dever do Estado proteger todos os presos sob sua tutela.
Defender a proteção da vida em nome da “dignidade da biografia” é uma distorção. Só colabora para justificar atrocidades cometidas fora e dentro do sistema prisional contra aqueles cuja história é reduzida ao termo encobridor de “bandido”. Os mesmos que, com frequência escandalosa, são executados sem julgamento num país que não tem pena de morte. Crimes cometidos, por exemplo, por polícias como a Rota, a brutal tropa de elite da PM paulista, há quase duas décadas sob o comando dos sucessivos governos do PSDB. Mas é preciso lembrar que também faz parte da biografia de Genoino tê-la defendido em 2002, ao se candidatar ao governo de São Paulo, numa frase que obedecia ao pragmatismo eleitoreiro: “Uma política de direitos humanos não deve impedir a Rota de agir com energia e com força”.

O fato é que Genoino só teve seu direito assegurado por ser um preso privilegiado. Mas a distorção não é a de ele ter recebido assistência, mas a de que todos os outros presos continuem sem ela, a de que é preciso ser um preso “diferenciado” para ter seus direitos básicos garantidos pelo Estado. As vozes que se ergueram para denunciar os maus tratos a que ele era submetido jamais foram tão fortes para defender os presos comuns que adoecem de tuberculose e Aids no cárcere e morrem sem tratamento. É um passo atrás no processo civilizatório quando as pessoas gozam com o sofrimento de Genoino, como ficou explícito nos comentários das redes sociais, alguns torcendo até mesmo pela sua morte, como se não fosse de um ser humano que se tratasse. Mas é preciso escutar também os “bárbaros” para compreender que os mais pobres, sem nenhum problema com a lei, com frequência criminosa não encontram tratamento digno – ou mesmo tratamento algum – no Sistema Único de Saúde (SUS). E que cada vez mais é claro para todos que o dinheiro que se esvai na corrupção é também o que falta na saúde.
Do partido que diz falar em nome do homem comum esperava-se a grandeza de declarar que mártires são todos os outros. E que direitos de todos não podem ser privilégios de um. Ao demonstrar preocupação por Genoino, Dilma Rousseff demonstrou também omissão por todos os outros presos que vivem uma rotina de ilegalidades e desrespeitos aos direitos humanos mais básicos nas prisões do país que o PT governa há mais de uma década e que tem a quarta maior população carcerária do mundo. Sem esquecer que é dos estados o encargo de construir e administrar os presídios, assim como proteger os presos, obrigação em que todos, de diferentes partidos, falham. A responsabilidade ao perpetuar o que o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Cezar Peluso chamou de “masmorras medievais” é compartilhada. São mais de meio milhão de presos encarcerados em situação tão brutal que o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, chegou a dizer que preferiria morrer a cumprir pena.

Assumir-se como preso comum teria sido um gesto simbólico mais forte para quem estreou na vida pública como preso político de uma ditadura, daquela vez sim sem julgamento. Aqueles forjados na luta armada contra um regime de exceção, ao assumirem o poder, lutaram menos do que deveriam pelos presos comuns que continuaram e continuam sendo torturados e mortos nas delegacias, cadeias e prisões do país. Ainda hoje a tortura dos presos políticos na ditadura, a maioria deles de classe média, recebe muito mais atenção do que a tortura sistemática dos presos comuns que perdura na democracia. Sem esquecer que a maioria dos presos torturados e confinados no sistema carcerário brasileiro é composta por negros e pobres.
É também de classe social que se trata. Não é um acaso que Manoel Fiel Filho, o operário assassinado pela ditadura, tenha muito menos ressonância na democracia do que Vladimir Herzog, o jornalista assassinado pela ditadura, embora a morte de ambos tenha impulsionado o movimento da sociedade pelo fim do regime militar. Quando Dirceu e Genoino levantam o braço e cerram o punho, declarando-se “presos políticos”, não estão denunciando apenas o que consideram um “julgamento de exceção”, mas colocando-se diante de todos os outros presos como “exceção”. É como dizer: “Eu estou aqui, mas sou melhor do que vocês”.
O espetáculo promovido por Joaquim Barbosa para o que chegou a ser interpretado, com um tanto de exagero, como uma “refundação da República” revelou mais do que estava programado. Mostrou esse lapso, esse corte no tempo, em que o braço erguido, o punho cerrado, se alienou das ruas. Quando as manifestações de junho começaram, a classe média conheceu a truculência da polícia sem perceber que estava diante de seu espelho. Nas quebradas de São Paulo, o poeta Sérgio Vaz ironizou: “Aqui na periferia as balas continuam sendo de chumbo. Estamos reivindicando um upgrade para balas de borracha”. E logo as balas de chumbo acertaram dez (nove moradores e um policial), no complexo de favelas da Maré, no Rio, na sequência de um protesto. E então, em 14 de julho, ao desaparecer, Amarildo de Souza apareceu diante do Brasil.
Para a juventude que protestou – e em vários momentos expulsou das ruas os militantes de partidos, incluindo os do PT –, os presos políticos passaram a ser os manifestantes levados para a cadeia pela polícia do Estado democrático. Nesta apropriação simbólica – que se inicia antes, mas se consolida a partir dos protestos –, ao mesmo tempo retoma-se o conceito de preso político da geração de Genoino e Dirceu, forjado nos atos contra a ditadura, mas com um sentido próprio, na medida em que a democracia traz uma nova complexidade para as questões que envolvem o termo. No mesmo movimento, assume-se o nome e o rosto das vítimas anônimas e despolitizadas da violência racial e de classe e se dá a elas um conteúdo político. Como aconteceu com Amarildo – mas não só. Vale a pena lembrar que o estopim dos protestos foram 20 centavos – que muitos, em especial a classe média, acharam pouco para tamanha comoção, mas que se tratava da dor de milhões de invisíveis cuja vida é mastigada dia após dia em horas perdidas dentro de ônibus superlotados. Era uma escolha pelo homem comum – incorporando-o em cada um.

É importante perceber ainda que, para uma parte significativa dos manifestantes, os presos políticos são aqueles que a maioria dos partidos, assim como grande parte da imprensa, chamam de “vândalos”. Se os Black Blocs têm vários motivos para cobrir a face, há neste ato também uma escolha pelo anonimato, um fundir-se na multidão. Apoiando ou não suas ações, é preciso reconhecer que escolher se mostrar “sem rosto” é um gesto político de grande significado.
A cara desses movimentos sem líderes anunciados e com causas múltiplas é a da multidão. Mas, a cada momento, a multidão pode assumir a face de um anônimo, para lhe dar coletivamente um nome e uma história. Na hashtag do Twitter, #SomosTodosAmarildo. Ou somos todos aquele que é torturado, violado, morto. #SomosTodosUm. Esta é uma mudança profunda que os homens que levantaram o braço e cerraram o punho parecem não ter compreendido. Se ela parte dos protestos nas ruas, também os transcende para ocupar outros redutos. Enquanto a pequena saga de Genoino se desenrolava, na semana passada, Caetano Veloso e Marisa Monte cantavam no Circo Voador, no Rio, para levantar fundos para a família de Amarildo. A certa altura, a cantora pediu à plateia que vestissem a máscara de Amarildo que haviam recebido na entrada: “Vamos deixar registrado para a posteridade esse momento onde a gente incorpora o Amarildo e graças a isso consegue transformar tantas coisas. É assim que a gente consegue mudar esse país”. A máscara é a possibilidade de ser um e, ao mesmo tempo, todos os outros.

A mudança é um momento agudo de um processo histórico no qual Lula e o PT tiveram, mais do que qualquer outro político e partido, uma contribuição decisiva, no concreto e no simbólico de sua ascensão ao poder. Apartaram-se, porém, e parecem estar bem menos preocupados do que deveriam com seu divórcio com as ruas. O braço erguido, o punho cerrado, é um capítulo melancólico de um partido que parou de escutar. Em parte porque acredita conseguir manter o voto dos homens e mulheres comuns que recebem o Bolsa Família e ainda se contentam com o que, se por um lado é enorme, ao reduzir a miséria e a fome, também é pouco para a potência contida numa vida humana.
A tragédia dos dois Josés do PT não é apenas terem sido presos por corrupção, mas a impossibilidade de dizer #SomosTodosOsPresos.

sábado, 16 de novembro de 2013

sob o signo da exceção

esse nem é um post propriamente sociológico: é mais um post-suspiro, como se eu chegasse perto de um amigo para dividir as durezas do momento, aquelas horas em que a gente dá uma olhada em volta, e nem só onde a vista alcança aqui nesse nosso brasil, brasileiro, e seus dilemas e mazelas atuais, mas um pouco mais longe, para outros países, alguns deles que eram uma espécie de perspectiva de onde avaliar nossos passos na direção de um lugar mais justo e é como se agora essa plataforma se esfacelasse debaixo dos nossos pés. incita à imaginação, é claro, a sociológica, a política, mas é tão dura, tão dolorosa, essa sensação de estar em pleno ar.

(a lista continuaria, longa...).

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

No mundo da defesa animal, beleza é fundamental?



Lá vou eu perder amizades, e nem é piada... por mais que a gente ame nossos bichos, achar que a 'ciência' é a malvada pois usa animais para pesquisa é, basicamente, um engano. É um escândalo que nós, 'esclarecidos', ainda mais cientistas, olhemos para a natureza apenas com fins utilitários - mas, quais são as relações sociais que não sejam de algum modo 'utilitárias', e isso ao longo da história? O que somos, enquanto trabalhadores, senão reduções à nossa 'utilidade', que somos obrigados a vender para sobreviver (é claro que isso é muito mais complexo...). O fato de animais serem utilizados para pesquisa é um pequeno aspecto do modo em que vivemos hoje - que inclui a invenção de todo tipo de medicamento, cirurgias, tratamentos. Se você ou eu ou alguém que a gente ama está vivo e bem depois de passar por algum tratamento, agradeça à ciência, à medicina, e aos animais que foram usados para testar a segurança desses procedimentos - foi o sacrifício anônimo de gerações de homens e da natureza que nos trouxe até aqui, para o bem e para o mal. Podemos, e devemos, porém, recusar o que nos parece errado nesse modelo, que é sabido - e sabemos isso em grande parte pela ciência - é insustentável e injusto.


Só que tentar denunciar, expor, impedir, o que nos parece insuportável - a crueldade a animais, no caso - 'salvando' apenas os beagles snupis fofinhos lindinhos tadinhos escravos da corporação fria e burocrática (e é uma corporação fria e burocrática...), largando os ratos pra trás, por exemplo, expõe mais as contradições desse grupo que 'se acha', do que efetivamente ajudando esses e outros casos em que animais e o meio ambiente necessitam de ajuda urgente, urgentíssima. Pra não falar de humanos...  E isso porque sabemos, ou deveríamos saber, que não existe ação que não tenha suas contradições e riscos.


Eu fiquei pensando se haveria toda essa mobilização e impacto e falatório se os modelos animais para pesquisa fossem outros. Por exemplo, se fossem escorpiões no lugar de cãezinhos. Serpentes. Lesmas gosmentas. Gambás, alguém? Ou seja, se é para salvar animais, para as pessoas se disporem a enfrentar a polícia e as leis, os bichos tem que ser fofinhos? Aí estamos perdidos, pois quase nenhum bicho, planta, bactéria, tem apelo estético - todos os bichos que tem apelo estético, golfinhos, cavalos, leões, canarinhos, gaviões, algum apelo de popularidade, estiveram desde Noé a merecer nossa atenção - e são justamente os 'mais explorados'. Ah, mas cachorro não é inseto, cachorro 'tem emoções' - ué, mas se o princípio, pra valer, é o valor da vida, a vida da formiga vale menos? Hierarquizar o valor da vida, a dos humanos no topo, a dos animais domésticos e utilitários logo a seguir, depois os dos outros bichos e tal, é uma forma de pensar que parece ser um 'reflexo' do jeito que as pessoas foram (e são) ensinadas a enxergar/interpretar a si próprias (isso na verdade é bem, bem mais complicado do que eu estou escrevendo). Essa hierarquia 'vista' na natureza, por sua vez, mais ou menos  ‘corresponde’ uma hierarquia nas relações sociais, nas diferenças sociais que são ‘naturalizadas’ por esse mecanismo, e que é absolutamente claro, por exemplo, na indiferença da parte ‘de cima’ da sociedade que temos quanto à desigualdade social - e a sociedade brasileira é incrivelmente cruel com a sua parte 'de baixo', gente e animais.


Dar igual valor a todas as espécies de vida (quando nem conseguimos concordar com a nossa igualdade como direito humano), porém, é uma utopia que me parece nos colocaria numa sinuca evolutiva, ou seja, vamos sobreviver de quê, já que quase tudo que necessitamos tem alguma forma de vida, até o ar, e ao mesmo tempo, várias outras formas de vida nos querem como almoço ou suporte? Podemos abrir mão assim fácil da nossa expectativa de vida? Podemos aceitar a volta das doenças mais básicas para não ofender os vírus? É claro que estou exagerando...


Pensando no caso concreto dos cachorros que foram tirados de um ambiente controlado e monitorado (supondo fosse o caso; parece que sim mas não sei, e de todos os problemas que isso pode trazer para os próprios bichos), para serem heroicamente 'salvos' de seu destino de cobaias e, 'ao invés', para ser abduzidos ao destino de bichos de estimação (para serem amados e cuidados e mimados e etc.), eu gostaria muito mesmo de saber se a 'felicidade animal' é mesmo, de verdade, ter um dono, uma família, se essa fantasia ‘disneylandista’, é mesmo mais 'nobre' ou menos 'nobre', em termos de 'valor' que atribuímos à vida deles – e das escolhas que fazemos por eles. A razão da existência utilitária do cão ou de qualquer outro bicho é anulada quando o bicho 'tem família (humana...)', ou ‘ter um dono’ será somente um outro tipo de utilidade? Ter 'família', ser amado por um ser de uma outra espécie é um 'objetivo' animal ou é sua estratégia de sobrevivência? É o que o bicho, efetivamente, 'quer', 'deseja', ou é mais uma manifestação de egoísmo humano (e no caso, esteticamente seletivo)? O que me parece que foi sintomático, nesse e em outros casos, que o que mobiliza os militantes defensores dos animais nem é apenas a existência de bichos que de alguma maneira sofrem: o que tal tipo de visão não aguenta, mesmo, de jeito nenhum, é a aparente contradição entre a beleza, o apelo do bicho fofinho, o fato de que ‘existem para serem amados’, e sua utilidade ‘através do sofrimento’ como cobaia (afinal, bicho fofinho é pra ter em casa e ‘ser gostado’). Até onde eu sei, ninguém jamais quis liberar uma granja. Um biotério de bichos-barbeiro. Ou um chiqueiro... já ações diretas que libertam animais selvagens em geral se destinam à volta deles ao ambiente natural (Free Willy!), e não pra levar pra casa.  ‘Libertem’ as cobaias tem muito menos apelo que ‘libertem os beagles’...  Somando, é mais ou menos fácil armar um raciocínio conspiratório criminalizando corporações multinacionais, cientistas arrogantes, instituições estatais ausentes; de outro lado, ONGs histéricas e irracionais e redes sociais sensíveis a qualquer apelo demagógico. Do jeito que foi, eu aconselharia aos cientistas usarem como modelos só bichos feios pois os protestos vão diminuir muito. Em resumo, mesmo cheia de boas intenções, essa ação de ‘liberar’ os cachorros foi muito hipócrita pro meu gosto.


O cão e outros bichos foram apartados de sua forma 'pura', natural, há muitos e muitos séculos. A ação humana conduziu a evolução desses bichos desde então. O 'meio ambiente' do cachorro é o ambiente humano, e mesmo isso vem mudando. A ideia de cães como animais de estimação e de companhia como entendemos hoje é bastante recente na história, até onde eu sei. Mesmo os beagles, tão fofinhos, foram desenvolvidos como ‘raça’ – eu nem quero saber como se desenvolve uma raça canina; o eufemismo é ‘seleção’ – de cães de caça, ou seja, com uma utilidade definida. Essa ideia que o bicho cachorro é uma espécie de ‘parente’, que tem um monte de necessidades físicas e psicológicas, que tem que ser cuidado com o máximo de nosso esforço... o que é isso afinal? Se olhamos para os lados, vemos também que há amor pelos carros, pelos smartphones, pelo time de futebol, pelas grifes, pelo partido predileto... até aí, tudo bem. O que acontece é que quando esses afetos viram fanatismos – e há muito estímulo para tal - o que a gente vê?

sábado, 7 de setembro de 2013

Austeridade - uma ideia perigosa

(Resenha de Eleonora de Lucena, na Folha de São Paulo, 7/9/2013).

A austeridade é uma ideologia fracassada que é esgrimida pelos ricos para repassar o custo das crises para os pobres. Historicamente tem provocado desemprego, conflitos sociais, guerras.
Esse é o cerne de "Austerity, the History of a Dangerous Idea" [Austeridade, a história de uma ideia perigosa], de Mark Blyth. Professor de política econômica internacional na Universidade Brown, ele é doutor em ciência política pela Universidade Columbia, as duas nos EUA.
Filho de açougueiro, Blyth nasceu em 1967, na Escócia. Houve tempo em que ia para a escola com furos nos sapatos. O Estado do bem-estar social europeu lhe proporcionou ensino de qualidade e ele ascendeu socialmente --hoje, integra instituições de alto prestígio.
Agora, esse arcabouço que viabilizou seu avanço está colocado em xeque pelas políticas de austeridade que se estabelecem por todo lugar. O acadêmico teme que as próximas gerações não tenham as chances que ele teve e que o futuro esteja garantido apenas aos já privilegiados. Por isso decidiu escrever o livro, conta no prefácio.
Dedicado ao estudo da política das ideias, Blyth navega pela história, pela filosofia, pela economia. Vasculha as origens da ideologia da austeridade nos escritos de John Locke (1632-1704), David Hume (1711-1776) e Adam Smith (1723-1790), feitos num tempo em que a noção de deficit público estava associada a gastos de reis e suas cortes.
Mesmo assim, lembra que no clássico "A Riqueza das Nações" Smith reconhece que o mercado não pode existir sem o Estado --essencial para a defesa externa, segurança da propriedade privada, estabelecimento de um sistema judiciário, policial, educacional etc

DEPRESSÕES
Na análise dos séculos 20 e 21, Blyth ressalta que as lições dos erros cometidos em torno da Grande Depressão advinda do crash de 1929 foram esquecidas. Didaticamente, explora os casos da Alemanha, do Japão, dos EUA e da França após a Primeira Guerra Mundial. Em todas essas situações, as políticas austeras fracassaram em recuperar as economias, levando os países ao desastre.
Nos EUA, as medidas de aperto e de corte nos gastos públicos fizeram o desemprego saltar de 8%, em 1930, para 23%, em 1932. No Japão, a austeridade criou a pior depressão da sua história, fez eclodir assassinatos políticos e deu poder à elite que encaminhou o país à guerra.
Na Alemanha, o autor descreve as sucessivas políticas de arrocho que, com o acréscimo de erros dos social-democratas de então, ajudaram a trazer Hitler ao comando do país. Na França, modelo semelhante também provocou uma hecatombe, pavimentando o caminho para a perda de soberania nacional.
Blyth mostra como o Banco da França atuava em defesa dos interesses das 200 famílias mais ricas do país, beneficiando rentistas e prejudicando a maioria da população.
Entre 1932 e 1936, os gastos governamentais foram cortados em 20% (derrubando despesas militares), a produção industrial encolheu e os salários afundaram.
"As elites francesas estavam tão preocupadas com a inflação e tão determinadas a manter o valor do franco que paralisaram a capacidade militar da França de se mobilizar contra Hitler. A austeridade não apenas falhou --ela ajudou a explodir o mundo. Essa é a definição de uma ideia muito perigosa", afirma o autor.
Blyth vê semelhanças entre a França dos anos 1920 e a crise atual. "A alternativa a cortar é taxar", defende. Para ele, a crise foi gerada pelo setor privado e está sendo paga pelo setor público.
"Os bancos prometeram crescimento, entregaram perdas, passaram o custo para o Estado e depois culparam o Estado pelo deficit", ataca. "Os de baixo estão ouvindo o discurso de apertar os seus cintos feito por aqueles que estão vestindo calças muito largas", diz.
Na sua visão, há risco de as políticas de austeridade, como no passado, produzirem crises políticas e sociais. Desconstruindo a cantilena oficial das "crises soberanas", o professor argumenta que talvez os bancos não devessem ter sido resgatados pelos governos. Compara casos como o da Irlanda e da Islândia.
Em linguagem aguda e clara, o livro ajuda a entender o momento para além dos números.

PS: Pra quem tem kindle, o livro está à venda na Amazon Brasil, por R$22,66.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Lançamento: Em defesa da escola - uma questão pública





Continuando a conversa em relação ao post anterior:

Lançamento do livro "Em defesa da escola" em São Paulo

Em defesa da escola – Uma questão pública
Jan Masschelein, Maarten Simons
Tradução: Cristina Antunes

Palestra e sessão de autógrafos com o autor
Debatedores: Madalena Freire e João Wanderley Geraldi
02 de setembro – segunda-feira – 17h
Livraria Martins Fontes Paulista
Av. Paulista, 509

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Escolarizando o mundo

Como alguéns generosamente fizeram o trabalho de colocar legendas, compartilho. Vale bem a pena, pelas questões que levanta, pela possibilidade de ter contato com as mulheres maravilhosas e articuladíssimas que aparecem.


Em tempo: embora ache imensamente valiosas todas as reflexões, acho que ela - assim como a discussão sobre a "necessidade inquestionável da escola" - também tem seus limites.  A Pedagogia da alternância está por aí para mostrar que existem outras possibilidades e que, a despeito do sistema escolar ter suas contradições (profundas, que precisam ser encaradas de frente para não cairmos no romantismo fácil da "escola como salvação" e única chance contra a pobreza), a escola, em seu cotidiano concreto, é ainda outra coisa - porque espaço de encontros (e desencontros).

A questão para mim, ainda é se e como a gente consegue escapar das armadilhas em que a educação escolar caiu quando foi colocada em certa economia de relações que restringiu tanto suas possibilidades.

terça-feira, 5 de março de 2013

das encruzilhadas da cidadania

Como esta semana vou dar aula sobre cidadania, igualdade e diferença, quem sabe até sexta-feira consigo escrever um post completo sobre o assunto. Mas o vídeo em si mesmo já dá muito pano pro pensamento... (via Vi o mundo)
Áudio em inglês; legendas em espanhol.