quarta-feira, 20 de agosto de 2014

a escravidão persistente entre nós

Em notícia de 17/8, o Globo registra um novo fenômeno no mercado de trabalho do sul e sudeste: as romarias para contratação de estrangeiros, em especial haitianos e africanos.
A reportagem assistiu às interações para seleção dos candidatos, que coloca a nu processos menos visíveis nas interações estruturadas nas agências de emprego que também se localizam na região central da cidade: "A seleção dos trabalhadores, por vezes, faz lembrar a escolha feita por senhores de engenho em mercados de escravos no Brasil, até o século XIX. No Acre, ponto de entrada de haitianos e senegaleses, segundo pesquisadores da Universidade Federal do Acre, empresários chegam a checar os dentes, os músculos e a pele dos imigrantes. Em um vídeo disponível na internet, um dos recrutadores admite que escolhe os empregados pela canela. Segundo ele, na seleção de trabalhadores para um frigorífico, levava em conta “uma tradição antiga, do pessoal da escravidão, de que quem tem canela fina é bom de trabalho, canela grossa é um pessoal mais ruim de serviço (sic)”".
Em um período tenso, em que a velocidade das mudanças ocorridas na estrutura da estratificação social brasileira nos obriga, no tempo de uma mesma geração, à compreensão do que mudou e o que sobreviveu dos tempos de antes, o fenômeno chama a atenção não apenas pela crueza com que explicita a lógica de exploração de mão-de-obra que muitas vezes embasa as reclamações a respeito da configuração do país após esses últimos doze anos, mas também porque reedita um pedaço de nossa história nem tão distante no tempo: as dinâmicas de imigração internacional, agora supostamente menos violentas, permitem novamente ocupar as franjas do mercado de trabalho e da estrutura ocupacional com mão-de-obra negra, que é considerada quase que unicamente por sua cor, e que é mobilizada para reeditar os mecanismos de patronagem e paternalismo (a submissão identificada à gratidão, expressa lapidarmente na fala da dona de casa: "Agora é só bolsa disso, bolsa daquilo. Acho que os haitianos seriam mais bem agradecidos pelo emprego — disse a dona de casa, que não tinha a intenção de contratar em regime CLT e que não pretendia pagar mais de R$ 850").
Os termos que pipocam na reportagem relação à mão-de-obra brasileira também ecoam um passado recente e demonstram que para destruir o projeto varguista de valorização do trabalhador nacional, não basta apenas a flexibilização das leis trabalhistas ou a fragilização dos sindicatos: é também necessário trazer para a cena um novo conjunto de trabalhadores, para quem o trabalho precário, pouco protegido e quase sempre mal pago ainda apareça como oportunidade de uma vida melhor.
No fenômeno retratado pela reportagem, racismo e ideologia do trabalho mostram claramente o quanto estão misturados...

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Sobre o perdão

"Tese extrema e paradoxal [a de Jankélévitch e de Derrida), que requer infinitas e complicadas argumentações, mas que tem um fundo muito simples: perdoar significa responder ao mal com o bem, interromper a propagação do mal. No coração do perdão está, portanto, uma contradição que não pode ser abolida, mas deve ser posta em movimento, ou seja, tornar-se uma possibilidade para o agir. A impossibilidade (o imperdoável) do perdão não tem nada do bloqueio à ação, mas alude ao situar-se do perdão em um plano totalmente diferente do da lei, do direito e da justiça [...] Considerar o perdão como uma dimensão do agir significa reagir à lei do tempo, ao "o que está feito, está feito", implica afirmar a sua força ética: o perdão não abandona a ação ao fluxo do tempo, mas o interrompe, o faz recomeçar. [...] É impossível revogar a história, fazer com que as ações não tenham acontecido, mas pode-se continuar agindo caminhando por outra direção. Não se pode ser perseguido pelas próprias ações. O passado não pode esmagar o presente sob o seu peso. O perdão, livrando o agente do fardo da ação cometida, tem o mesmo poder inovador da ação humana".

Trechos de "O perdão, um escândalo necessário": texto de  Laura Boella, professora da Università degli Studi di Milano. O artigo foi publicado no jornal Avvenire, dos bispos italianos, 11-08-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto e está publicado na página do Instituto Humanitas Unisinos

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Azul é a cor mais quente (2013), de Abdellatif Kechiche


Nome original: La vie d'Adèle - chapitres 1 et 2. Em inglês: Blue is the warmest color.

(Aviso de spoiler: se não viu o filme… você já sabe: o texto tem elementos que podem antecipar trechos e/ou aspectos do mesmo, mas a mocinha não morre no final)

Apesar do aviso, na verdade há bem pouco que possa estragar o filme se você souber a trama: em algum lugar da França de hoje, Adèle (Adele Exarchopoulos), uma colegial, conhece a pintora Emma (Léa Seydoux), se amam, se estranham… e é isso. É um filme muito bonito, tocante, muito bem encenado, entre seus méritos. A maioria das pessoas que se informou sobre o filme também sabe que há longas e polêmicas cenas de sexo. Na verdade, me pareceu que as pessoas ficam mais tempo em cena comendo macarrão que fazendo sexo, embora o sexo seja um tema seja mais central (eu pelo menos achei), sem menosprezo pelo macarrão.

“Azul…” provocou um certo barulho fora das telas, pelo tema (ou suposto tema) do amor lésbico, pelas cenas ‘tórridas’, pela notícia que o diretor teria sido tirânico e submetido suas atrizes a constrangimentos, por ser uma ‘visão heteronormativa’ do amor homo, e assim por diante. Mas não é por aí que eu quero dar uns palpites.

Além do macarrão e do sexo, os close-ups - o rosto de Adèle é o único cenário em boa parte das 3 horas de filme - são as imagens dominantes. O propósito parece mesmo ser que o expectador rapidamente aprenda a ler Adèle e suas entrelinhas, e que o percurso emocional da protagonista seja o grande atrativo e interesse para quem vê. É claro que a beleza das atrizes ajuda, sua juventude, e o fato que entregam interpretações excelentes, premiadas e tal.

O filme se passa com Adèle do final da adolescência ao início da idade adulta. Ou seja, aquele período crítico de mudanças, descobertas, experiências etc (eu diria também de insegurança, burradas, medos…). Um tema ‘clássico’, podemos dizer. E (aviso tardio de clichê!) universal: todo mundo passa por essa fase, com mais ou menos sofrimento, mais ou menos dificuldades, e vai se lembrar dela com doses variáveis de autonegação e/ou autopiedade e mesmo amnésia seletiva. Claro que não é o seu caso, querido leitor (alerta de ironia: sabe?). A personagem Emma é a jovem profissional, que tenta emplacar a carreira artística, mas já tem uma identidade mais construída, é sexualmente assertiva, gosta de Sartre, e usa o cabelo azul e coturnos (sim, eu sei, mas o estereótipo não é meu, é do filme). Tudo isso, ou boa parte, se sabe já pelo trailer.

O filme inicia com Adèle dormindo, acordando, tendo aulas, arrumando namorado, comendo macarrão, dando um pé no namorado, arrumando namorada, negando que seja sapatão, transando com a namorada, comendo mais macarrão… Adèle porém não é uma adolescente de filme americano, como uma cheerleader super sexualizada nem uma geek impopular autoconsciente e de raciocínio rápido. Adèle é insegura, confusa, conta mentirinhas o tempo todo, parece se sentir deslocada em vários momentos e contextos, e ignorante em outros. Adolescente.  Amigas lhe fofocam, pais a aconselham, sogros a inquerem, amigos ‘socialmente’ a elogiam… tudo bem que não é o ‘inferno’, ou seja, não está acontecendo um tsunami nem queda de asteróide nem uma grande conspiração do mal, é ‘só’ o dia-a-dia, é ‘só’ a angústia de uma jovem mulher (e pelo menos ela não parece ficar ‘mal’ nem arrependida nem com sentimento de culpa quando percebe gostar de meninas). Mas à essa altura, o expectador já está literalmente (ou fotograficamente) tão próximo de Adèle que já se importa (ou se irrita) com ela, se incomoda se a tratam mal ou se são levemente condescendentes quanto aos planos de tornar professora.

O filme propriamente vai avançando, sem grandes variações ou quebras de ritmo, mas aí há ‘esferas’ ou espaços onde Adèle parece estar muito mais confortável. Quando conversa com Emma no primeiro encontro ou quando fazem sexo ou quando conversam após o sexo Adèle parece estar feliz e plena. Mas quando em volta do macarrão com os pais e ‘a-amiga-que-ajuda-na-lição’, conversando com os pais ou amigos estilosos de Emma, ou apenas posando para Emma, Adèle visivelmente está menos à vontade. Novamente não tem a ver com o fato de ser lésbica (ela não se diz lésbica em momento algum), mas talvez mais em algo como lidar com as expectativas contraditórias das outras pessoas. Para o círculo de Emma, de artistas, descolados e intelectuais, o fato de formarem um casal gay é banal; muito mais estranho é que Adèle prefira um emprego seguro ao invés de arriscar ‘fazer o que gosta’. Ou seja, na esfera da intimidade, do sexo, da corporalidade, Adèle vive uma experiência plena (com sorte, um pouco de ousadia e um tanto de licença poética, talvez). Emma compartilha vivamente disso, mas se Adèle passa a ser sua musa, por ser também um pouco mais jovem e bonita, mas menos educada, da classe trabalhadora / da periferia, Adèle ao mesmo tempo vira uma espécie de ‘trophy wife light’ da artista promissora. Acho que o filme dá a entender que essa tensão vinda das diferenças de origem (para não dizer diferenças de classe) e de papéis assimétricos assumidos pelo casal tem alguma relação com o fato que a relação das duas irá se esgarçar .

Não é minha intenção fazer qualquer análise da, sei lá, homoafetividade e mobilidade social, me parece não ser o caso aqui. A tensão entre ‘os da macarronada’ e ‘os do vinho branco’, entre os que andam de ônibus e os que frequentam vernissages parece que entram na receita do filme mais para realçar as pedreiras da construção da identidade de Adèle que para fazer qualquer comentário crítico. Se não há no filme nenhum artifício que sustente qualquer suposta superioridade dos códigos eruditos que Adèle não domina - são citados de passagem literatura, Sartre, Egon Schielle, e dentro de todo o tempo do filme mal se mostram as pinturas de Emma - também não há nenhum indício que supervalorize os códigos ‘populares’, o trabalho duro, tomar cerveja e dançar música gipsy pop na calçada ou o que seja. Mas o filme parece dizer que essas duas ‘turmas’ também não se misturam assim sem mais, pois são constituídas em experiências e/ou processos e lugares distintos e muito menos se transita de uma para a outra sem certos percursos de legitimação. Os personagens parecem ser em alguma medida conscientes dessas condições. Se Adèle tivesse como projeto não só a ‘segurança’ de um emprego, mas a de ter uma carreira artística ou intelectual - ou seja, de pertencer à turma das vernissages - e parte da história fosse essa trajetória de uma ‘turma’ a outra, talvez fosse mais complicado dramatizar que o par apaixonado e que se dá tão bem no sexo não consiga construir tão boa harmonia nos outros contextos, que são todos os outros onde há não somente outras pessoas mas outros interesses delas próprias.

A cena em que Adèle e Emma tem uma discussão, digamos, áspera, é antológica, e de certa forma é o espelho invertido da cena de sexo. É tudo sobre o ‘desencaixe’ na relação delas. Aliás, alguém já observou, brigas de casal são tão íntimas quanto o sexo, e como nele, são os atos de - vamos dizer assim - abandono da razão e/ou supremacia dos instintos que guiam. Deve ter algum significado também o fato de uma transa, que é mais ou menos uma coisa só, ter sido filmada de vários ângulos, mas a discussão, que acumula várias dimensões e nuances, em contraste, ter sido filmada praticamente num único take. Mas como eu sou ignorante nesses detalhes eu não vou dar palpite. O que eu consigo dizer é que há uma autenticidade rara em ambas as cenas e que são pontos fortes de ‘Azul...’.

E há mais uma cena tão intensa quanto as comentadas, que é a do encontro delas, já pacificadas pelo tempo de separação. Essa terceira cena, igualmente íntima, seria o ponto para reiniciar ou encerrar a relação de Adèle e Emma. E Emma, já sem cabelo azul, faz uma opção ‘racional’, no sentido que parece racionalizar e negar seus sentimentos ainda fortes por Adèle. E nessa discussão vemos que quando Adèle finalmente luta para ‘fazer o que gosta’, Emma opta pela ‘segurança’, como a dizer que tais opções são mais, digamos, situacionais, do que determinações ou desdobramentos de posições de ‘classe’. Pelo menos nesse filme, de certo modo a felicidade pessoal acaba se subordinando a essas externalidades (família, educação, trabalho, amizades, ‘capital cultural’...), que embora em segundo plano, desfocadas, são fortes o suficiente para que qualquer má escolha pessoal, azar, erro, vacilo, sugue os personagens para destinos convencionais. Ou seja, a escada para a felicidade é estreita e ensaboada...

Uma parcela bastante razoável de tempo, já no terço final do filme, mostra Adèle trabalhando como professora de crianças pequenas, ou seja, ensinando-as a ler, mas também disciplinando e corrigindo (lembrando que o filme começa com Adèle sendo ainda aluna). Emma, por outro lado, segue pintando a figura de Adèle em todos os seus trabalhos. O amigo ator agora é corretor de imóveis (não falei dele antes? foi mal aí). Eu então arrisco um último palpite: essas cenas seriam comentários conectados e auto-referentes. O filme seria, entre outras coisas, uma tentativa de ‘educar’ ou pelo menos oferecer um conteúdo a um público que, como Adèle, chegará ou já chegou à idade adulta com pouca ou nenhuma ‘educação emocional’ além da convencional para enfrentar a escada escorregadia da felicidade sem dar um ou mais tropeços. O filme também seria, como nas telas de Emma, sobre uma idealização da beleza, uma interpretação sobre os corpos, uma reação à melancolia, um ensaio sobre a dor de cotovelo que (em vários casos) move a arte. E como o ator que virou corretor, que diz preferir ser falso vendendo casas que puxando o saco de diretores, o diretor Abdellatif Kechiche vende-nos uma casa linda, perfeita, sólida, azulzinha, mas delicadamente assombrada.
 
Entrevista com Adèle Exarchopoulos



 

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Retratos da Reconciliação

Essa reportagem feita pela New York Times Magazine vale muito a pena, pela beleza das fotografias - feitas por Pieter Hugo - e principalmente pela esperança retratada nas histórias e imagens.

São histórias duras, mas ao mesmo tempo são histórias de comunicação e responsabilidade e perdão - respostas possíveis diante da tragédia do genocídio.

É muito bonito o subtítulo da chamada: "Retratos da Reconciliação: 20 anos após o genocídio de Ruanda, a reconciliação ainda acontece um encontro de cada vez". É lenta e vagarosa, claro, mas também há algo de profundamente respeitoso em uma solução política que não atropela o tempo dos indivíduos - o de reconhecer a própria responsabilidade, o de conceder ou negar o perdão, o de não desejar definir qual o tempo/forma normal do ato de perdoar.

***
Impossível não lembrar aqui a Hannah Arendt, n'A condição humana:

"Se não fôssemos perdoados, liberados das consequências daquilo que fizemos, nossa capacidade de agir ficaria, por assim dizer, limitada a um único ato do qual jamais nos recuperaríamos; seríamos para sempre vítimas de suas consequências, à semelhança do aprendiz de feiticeiro que não dispunha da fórmula mágica para desfazer o feitiço. [...] Ambas as faculdades [perdoar e prometer], portanto, dependem da pluralidade, da presença e da ação de outros, pois ninguém pode perdoar a si mesmo e ninguém pode se sentir obrigado por uma promessa feita apenas para si mesmo; o perdão e a promessa realizados na solitude e no isolamento permanecem sem realidade e não podem significar mais do que um papel que a pessoa encena para si mesma" (A condição humana. 11 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010 [Trad.: R. Raposo; Rev. Técnica: A. Correia: p.296).

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Como os ruandeses enfrentam o horror de 1994 (Tradução - partes 4 e 5)



(Texto de Lauren Wolfe, originalmente publicado aqui. A tradução, apressada, é minha e como o texto é muito longo para um único post, vou publicando em quarto, seguindo a divisão do próprio original. O dia seis de abril marcou os vinte anos do início do genocídio ocorrido em Ruanda).


Quando seus irmãos e seu pai foram mortos, Nishimwe e sua mãe se esconderam por três meses. Elas se esconderam na comunidade de Rubengera, em Kibuye, uma cidade de exuberante verde no Lago Kivu, ao oeste de Ruanda. [Elas] se refugiavam nos arbustos durante o dia, e nos [forros] dos tetos de casas, durante a noite; e, ao final, em uma casa abandonada onde foram encontradas por um vizinho que passou a aparecer para bater em Nishimwe com suas mãos e uma espada – “Apenas devido à minha etnicidade Tusti”, ela contou. Ele terminou por estuprá-la. Ela não soube por anos que ele lhe transmitira HIV. Ela me contou [que] fazer o teste potencialmente poderia significar confronter-se com mais do que ela achava que aguentaria. O estupro, a carnificina – ser HIV-positivo após tudo isso seria demais. Mas seu corpo lentamente começou a fraquejar, enquanto feridas apareciam em sua pele.

Nishimwe morou por anos na cidade em que sua família foi morta – a cada dia se tornando um pouco mais silenciosa na escola e afogando-se um pouco mais em si mesma até que finalmente deixou sua Kibuye por Nova Iorque, em 2001. Lá, ela começou a fazer psicoterapia e buscou tratamento para seu HIV.

Se soa como negação que uma vítima de estupro não faça o teste para o HIV por sete anos, tenha em mente que aqueles que sofrem traumas extremos frequentemente experimental uma dualidade emocional que lhe permite sobreviver ao incompreensível. “Sei pelas vítimas do Holocausto”, disse Neugebauer,que não é com se você ou prospera ou se desespera – você faz ambos, alternadamente”. Isso ajuda os sobreviventes a confrontar partículas e pedaços do trauma conforme eles vêm à tona ao invés de serem completamente soterrados pelos horrores que testemunharam. “Pessoas diferentes têm mecanismos diferentes para serem capazes de continuar, mas muitos continuam com um sofrimento imenso, apesar de silencioso”, explicou Neugebauer.

Nishimwe concorda que não é tudo “completamente feliz”, como ela expressa. “Nem todo dia é bom para mim”, ela diz. “Eu tenho alguns dias em que apenas sento e choro. Não é como se tudo fosse perfeito todo o tempo”.

***
Quando enfrentamos o terror, nossos corpos se fecham e nos dessensibilizam para a experiência, Ochberg disse. “Podemos tolerar quase sermos comidos vivos. Podemos tolerar assistir a outros membros de nossa espécie serem comidos vivos. Está em nossa biologia”. É o que acontece depois que significa a diferença entre um indivíduo saudável ou não – e entre uma sociedade robusta ou eternamente em guerra.

“Depois, quando nossa habilidade de enfrentar tais coisas extremas é contrastada com nossos eus civilizados, experimentamos o horror, o terror, a repulsa, todo esse espectro de sentimentos”, diz Ochberg. “Quando você não precisa mais se proteger e pensa sobre o assunto – [quando] você re-experiencia [a situação] – aparece um sentimento de profunda vergonha”.

A vergonha enraivece e isola. Ela pode levar à predação, ao sadismo e ao mal, ou ao auto-desprezo, ódio e depressão.

Mas se a partilha pública da dor de Nishimwe e sua completa ausência de [qualquer sentimento aparentado a] vergonha é um indicador, existe esperança para os sobreviventes do genocídio. Existe esperança para Ruanda.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Como os ruandeses enfrentam o horror de 1994 (Tradução - parte 3)

(Texto de Lauren Wolfe, originalmente publicado aqui. A tradução, apressada, é minha e como o texto é muito longo para um único post, vou publicando em quatro partes, seguindo a divisão do próprio original. O dia seis de abril marcou os vinte anos do início do genocídio ocorrido em Ruanda).

Quando comecei a trabalhar nesta estória, minha questão básica era essa: como as pessoas sobrevivem ao trauma extremo do genocídio? Mais de uma vez me disseram que eu estava fazendo a pergunta errada.

“Sua questão assume que a sobrevivência é possível, mas a sobrevivência pode estar justamente no limiar da existência tolerável”, Neugebauer disse. Ele referiu-se ao livro É isto um homem, de Primo Levi, vítima do Holocausto, que eventualmente se matou em 1987 (e é por isso que utilizo a palavra “vítima” e não “sobrevivente”). Quando publicado nos Estados Unidos, o livro foi renomeado para Sobrevivência em Auschwitz – talvez uma indicação de que a ideia de uma morte em vida é intolerável aos leitores americanos.

Por outro lado, Wietse Tol, psicólogo e professora na Universidade John Hopkins, disse que minha questão estava “um pouco enviesada”. “Ela se inclina a pensar que deve ser extremamente difícil sobreviver”, comentou Tol, que trabalhou por anos com sobreviventes de violência étnica na região de Burundi. “Esta questão é muito reveladora de como pessoas em cenários estáveis pensam sobre tais problemas”.

Tol explicou que seres humanos sempre passaram por experiências traumáticas, “para que pudéssemos lidar com elas”. “Resiliência é algo importante. A maioria das pessoas seguem adiante bastante bem, desde que recebam apoio social e desde que suas necessidades básicas sejam atendidas quando elas passam a viver em ambientes estáveis”.

Ruanda se estabilizou de modo militar numa ordem relativamente abrupta. Mas a rede social e o sistema mental de saúde foram completamente devastados. Após um evento como um genocídio em três meses, os especialistas dizem que é crítico prover um “bom ambiente de recuperação”. E, como Tol sublinhou, isso pode significar um foco na justiça social, que oferece seus próprios desafios quando a infraestrutura judicial do país também está destruída. (Ruanda criou as cortes “gacaca” para rapidamente julgar os perpetradores, mas eles eram problemáticos; os observadores internacionais apontaram a ausência de advogados qualificados para os réus. Em geral, pouquíssimas mulheres estupradas viram a justiça [ser feita]).

Godeliève Mukasarasi, um conselheiro de trauma em SEVOTA, uma organização baseada em Kigali que apoia viúvas e órfãos do genocídio, disse que os sobreviventes não estão necessariamente vivendo em um ambiente capaz de conduzir a mudanças, nem mesmo atualmente: mulheres estão lutando com o HIV/AIDS [adquirido] nos estupros e podem não ter um “lar real”, uma vez que tantas casas foram queimadas em 1994. E elas vivem entre os homens que mataram seus pais e irmãos, ou estupraram suas irmãs.

“Precisamos aprender a viver positivamente com o mau e o bom”, disse Mukasarasi, que reúne sobreviventes mulheres para que elas se sintam confortáveis em compartilhar suas histórias. “Todos ainda vivem com as consequências. Alguns dos perpetradores foram para a prisão, mas eles retornam e vivem perto dos sobreviventes. O genocídio não terminou; os sobreviventes ainda vivem junto àqueles que cometeram os crimes”.

Como tantas outras, Nishimwe conhecia o homem que a estuprou. Na verdade, alguns anos após o ataque, ela foi visita-lo na prisão – o homem que lhe bateu e cortou, que a estuprou e a abandonou para morrer. Ele não falou muito, conta ela. E ela apenas chorou.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Como os ruandeses enfrentam o horror de 1994 (Tradução - parte 2)

(Texto de Lauren Wolfe, originalmente publicado aqui. A tradução, apressada, é minha e como o texto é muito longo para um único post, vou publicando em quatro partes, seguindo a divisão do próprio original. O dia seis de abril marcou os vinte anos do início do genocídio ocorrido em Ruanda).

Em Kigali, existe um caminho que te conduz através do memorial nacional do genocídio. Mas após meia hora de movimentos diligentes de sala em sala, com meu áudio-guia, fugi do edifício. Eu tinha chegado à sala que se chama "O quarto das crianças", que exibe amplos retratos de crianças pequenas acima da descrição de suas comidas favoritas, o que eles gostavam no mundo, e como foram assassinadas. Ariane, quatro anos, era uma "garotinha bacana" que amava bolo. Ela foi fatalmente "esfaqueada nos olhos e na cabeça". Seus pais disseram que ela amava cantar e dançar.

Para me recuperar, escapei para o sol ardente do lado de fora e comecei a conversar com alguns ruandeses que trabalhavam como guias turísticos. Conforme eles falavam sobre suas famílias sendo desmembradas e baleadas, nós olhávamos para os quatorze degraus de lápides de concreto que contêm os restos mortais de 249.000 pessoas mortas em 1994. O memorial ainda aceita ossadas, que ainda hoje estão sendo descobertas no entorno de Kigali e seus arredores.

Parte do trabalho de reconciliação com algo tão devastador quanto o genocídio envolve reconciliar-se com os mortos, de acordo com os especialistas com quem conversei. "Os mortos têm demandas legítimas e poderosas sobre nós: lembrar, ousar testemunhar, permanecer conectado", disse Richard Neugebauer, professor de epidemiologia clínica em psiquiatria na Universidade de Columbia. "Então, para que os ruandeses possam retomar suas vidas no mundo, muitos deles precisarão antes renegociar seus laços com os mortos".

Neugebauer tem trabalhado dentro e fora de Ruanda desde 1997, e é rápido em enfatizar que ele não pode falar em nome dos ruandeses que conheceu. Mas suas observações como clínico são devastadoras. Quando ele foi ao país pela primeira vez, ele conta, "as leis da natureza estavam invertidas. Os mortos estavam mais vivos que os viventes. Os mortos estavam em todos os lugares no sentido de que você podia quase senti-los em volta de você, implorando para serem ouvidos. Enquanto as pessoas literalmente vivas estavam tão despojadas [de tudo] ou deixadas vazias que naquele momento parecia que estavam mortas". (Quando ele voltou ao país em 2010 e 2011, ele procurou algumas dessas pessoas e elas pareciam mais jovens e revitalizadas). É este forte empuxo de parentes e amigos mortos "que precisa ser enfrentado para a vida ser possível", ele disse.
Ainda assim, muitos sobreviventes do genocídio estão atados ao passado por força de não saberem onde [os restos de] seus parentes estão. Nishimwe disse que sabe onde seu pai foi morto, mas não onde sua ossada está.

domingo, 6 de abril de 2014

Como os ruandeses enfrentam o horror de 1994 (Tradução - parte 1)



(Texto de Lauren Wolfe, originalmente publicado aqui. A tradução, apressada, é minha e como o texto é muito longo para um único post, vou publicando em cinco partes, seguindo a divisão do próprio original. O dia seis de abril marca os vinte anos do início do genocídio ocorrido em Ruanda).

Consolee Nishimwe tem um riso nervoso e utiliza certas frases reiteradamente quando conversamos: "dor", "doloroso", "não foi nem um pouco fácil", "eu tinha somente 14 anos". Tendo em mente o que ela suportou em 1994, durante o genocídio de Ruanda, algumas dessas frases possivelmente não expressam completamente [o vivido]. Nishimwe, hoje com 34 anos e morando em Nova Iorque, diz que pode descrever os acontecimentos que a levaram até ali, porém não sem dificuldades.

"Em nossa cultura, não falamos muito sobre experiências", diz Nishimwe, que é uma figura pública a falar sobre o conflito. "Leva um tempo longo para expressar como nos sentimos. Estou tentando mostrar a outros sobreviventes que precisamos expressar a dor que temos".

Hoje, vinte anos depois de um genocídio etnicamente motivado em que aproximadamente um milhão de ruandeses morreram e em que mais que um milhão de mulheres foram estupradas, o governo proíbe certas formas de discussão pública a respeito de Hutus e Tutsis.Quando visitei o país em fevereiro, ouvi bastante conversas sobre algo chamado "Visão 2020", que deveria transformar o país em um estado próspero, marcado por boa governança e economia saudável. A construção [civil] está explodindo na capital, Kigali, e o presidente Paul Kagame expressou o desejo de tornar seu país mais parecido com Cingapura - uma espécie de democracia autoritária. Em outras palavras, há um esforço considerável para deliberadamente "ir adiante" em relação à tragédia - uma determinação a nunca mais perder o controle.

No entanto, o que os ruandeses enfrentaram foi tão extraordinariamente horrível - em termos de quantas pessoas sofreram ou testemunharam atos brutais, e a escala absoluta e veloz da matança - que quanto mais tempo em ficava no país e conversava com Nishimwe e outros, mais eu me perguntava como tal lugar poderia "ir adiante" após o que aconteceu naqueles terríveis cem dias entre abril e julho. Como cada pessoa sobreviveu? Como sobrevive um país inteiro empurrado ao pesadelo hediondo de pessoas talhadas até a morte e estupradas e torturadas? Como é viver em uma sociedade em que praticamente todo mundo com mais de  vinte anos tem memórias de tais feitos inumanos?
Considere que quinze por cento das crianças ruandesas foram forçadas a se esconder embaixo dos mortos para sobreviver.

Considere que noventa por cento dessas crianças acreditaram que iriam morrer.

Considere que Nishimwe ainda não usa saias porque ela não quer mostrar as cicatrizes em suas pernas, feitas pelo homem que as entalhou enquanto a estuprava - ou as marcas que o HIV deixou pelo seu corpo.

Considere que seus três irmãos - Philbert, 9 anos; Pascal, 7; e Bon-Fils, 18 meses - foram cortados em pedaços e jogados no buraco infecto de sua casa queimada, enquanto Nishimwe estava por perto, com sua mãe, no dia nove de maio de 1994. Seu pai já havia sido morto nas primeiras semanas do genocídio, no dia 15 de abril.

E então considere a resposta que Nishimwe me deu quando perguntei a ela como sobreviveu: "Houve outros para quem as coisas foram piores", ela disse.

Esta frase, "foi pior para outros" - eu a ouvi muitas vezes de outros sobreviventes ruandeses. É difícil compreender como alguém que passou por múltiplos eventos traumáticos em um curto período pode pensar que sua experiência não é tão ruim quanto a que outros viveram.


“Ficaremos sem fôlego ao entender que eles têm a capacidade de escapar da atrocidade com essa noção bastante modesta de que foi pior para outros", disse Frank Ochberg, psiquiatra na Universidade do Estado de Michigan e pioneiro no campo da terapia de trauma. "O exemplo ruandês é de resistência". Mas só porque persistiram, não quer dizer que os ruandeses estejam vivendo suas vidas livres de dor.