segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Her (Ela), de Spike Jonze (2013)


Vou tentar não dar spoilers, mas fica o aviso. Acho que todo mundo já sabe que ‘Ela’ é sobre um escritor que se apaixona por seu novo sistema operacional. Bom, eu adorei, dá pra rir, dá pra chorar, dá pra pensar. Tem ótimos atores, trilha do Arcade Fire mais a Karen O, tem uma encenação bonita de um futuro próximo meio esquisito porque parece que quase tudo funciona, diálogos ótimos. Querer mais o quê? Bom, o problema desse futuro parece ser que homens não usam cintos nas calças, e elas - as calças - são, como dizer, feias. O outro problema nesse futuro parece ser o mesmo desde sempre: como ser feliz com o seu par amoroso. Os caras também usam bolsas, mas disso eu até gosto. E eu acho que vai ser um pecado ver esse filme dublado.

Se lembrarmos, o tema de um ser humano se apaixonando por um ser que não é humano - alienígena, máquina, uma ilusão - vem no cinema pelo menos desde Metrópolis (1918, se não me engano). Numa variação, o cara se apaixona por alguém que viveu ou viverá em outra época (Laura (1944), de Otto Preminger, Em Algum Lugar do Passado (aquele com o Christopher Reeves), e aquele filme ruinzinho do Keanu e Sandra Bullock). Ou seja, não é nada novo e é até bem frequente, quase clichê, até porque abre várias possibilidades criativas e interpretativas. Isso, acho, porque se afeiçoar tanto a alguém ou algo 'fora' de nosso círculo é uma possibilidade fascinante, e ao mesmo tempo, um risco e uma tentação.

Citando de memória, Freud escreveu sobre o estranho, a partir de um trecho de Os Contos de Hoffman (que são do começo do séc. XIX, mais ou menos), onde o protagonista se apaixona por uma mulher misteriosa que ele apenas vislumbra de uma janela, só que não era uma mulher real, mas uma boneca. O estranhamento, no caso, é perceber que algo tem, ao mesmo tempo, um elemento familiar e um elemento desconhecido. Mas talvez haja uma raiz mais longínqua para nós ocidentais: na Bíblia, Moisés (ou será que foi outro profeta? Sei lá, meu conhecimento disso é nenhum) foi encarregado de dar uma dura nos adoradores de estátuas e outros ícones. Ou seja, não pega bem esse negócio de adorar uma ‘coisa’ como se fosse gente - ou pior, um deus.

Então, vamos dizer que há esse estabelecimento de certas ‘regras’ sobre ‘quem’ você ou eu ou qualquer um pode se apaixonar sem parecer esquisito (ou sem ser apedrejado), ou seja, critérios de gênero, raça, religião, classe, hábitos, capital cultural… Hoje, de certa forma, é até mais complicado, pois desde o advento da modernidade a escolha do par deve ser protagonizada mais pelos indivíduos e menos pela família, pela classe ou os demais laços sociais. Quer dizer, agora você pode e deve escolher o seu par, o que dá um trabalhão, mas pelo menos a sua chance de ser entregue a alguém completamente desconhecido é menor. Mas estamos na época onde revisar, criticar, contestar os papéis estabelecidos é quase uma obrigação, então por que não se apaixonar por alguém diferente, já hoje é bem mais factível, claro, a depender de onde e como você vive.

Estou fazendo gigasimplificações, mas onde eu quero chegar mesmo é numa pergunta, das várias que podem ser derivadas do filme. Em ‘Her’, aparentemente, a pergunta é como será que um sujeito consegue se apaixonar por uma ‘coisa’ que não é gente? Aparentemente ainda, o filme resolve isso colocando de um lado um protagonista solitário e carente (Ted, Joaquin Phoenix), e de outro o que seria um software-assistente-pessoal com inteligência artifical pra lá de esperto (Samantha, voz de Scarlett Johansson, não preciso dizer nada). Na verdade, a Samantha vem de fábrica com tantas qualidades ‘humanas’ especialmente selecionadas que se torna absolutamente encantadora, irresistível, com a vantagem de, por não ser humana e ser recém instalada, não ter nenhuma história constrangedora e qualquer outra característica, digamos, social e de 'hardware' que a limite, que seja um obstáculo (diriam uns amigos meus que ela é perfeita porque não tem sogra), e uma autoconsciência incrível… a não ser o fato de, além de virtual e incorpórea (o que porém a desobriga de usar calças feias) ela vai obrigatoriamente evoluir, pois é programada para isso, para melhor simular, copiar e entender o comportamento humano. Nem ‘bugs’ ela não tem, ela se autocorrige. 

Eu tenho sérias dúvidas se de fato nós somos programados para evoluir num senso não-darwinista (de sermos vetores dos nossos genes), seja como espécie, indivíduo, ou sociedades. É uma certa fé nessa evolução pessoal que faz o filme andar. Mas pelo menos eu posso avisar que o filme não vai virar uma história de horror, tipo criatura se vira contra o criador. Disso nós somos poupados. 

Podemos fazer um exercício que nem é muito original, pegando o filme como ponto de partida, de inverter um pouco a pergunta, só para provocar: será que algum artefato nosso, robô, programa, que tenha alguma autonomia, que seja um ‘ser’ sintético, poderia se apaixonar por um humano, caso tivesse a liberdade para tanto e de cara soubesse que não é um humano? Eu acho que há vários indicativos que, sendo possível ou não, nós ‘humanos’ gostamos muito de acreditar que as nossas criações nos amam e as criações da natureza ou de ‘alienígenas’ nos odeiam. Por exemplo, os deuses gregos nos amavam, e em contrapartida ganhavam templos, adoradores e oferendas. O Deus cristão também é dito que nos ama - aviso de materialista: eu acho que o deus cristão é uma invenção tão humana quanto qualquer deus pagão. De certo modo, até achamos que se os alienígenas nos conhecerem bem não vão nos comer ou nos destruir, como o ET do Elliot (Spielberg). Mas o lobomau, as serpentes, os leões e as tempestades e terremotos, se não nos odeiam, só gostam de nós como comida, e a Natureza quer mais é se vingar de nossas barbeiragens ambientais. 

Mas nada é mais recorrente que achar que nossa futura autodestruição virá por vingança de nossas criações, como dos robôs da série Exterminador do Futuro, ou das consequências de nossos governos belicosos, como em Jogos Vorazes e em todos os filmes atômicos apocalípticos, como Planeta dos Macacos. No momento atual parece que a própria sociedade, nossas formas de governo e a própria história que construímos parecem que se viram contra nós, pelo esgotamento da natureza, pelos revides terroristas, pelas guerras nas periferias do mundo, pelas crises do capitalismo, pelas demonstrações e atos de ódio religioso ou racismo ou machismo ou xenofobia… 

‘Her’, nessa atualidade #omundovaiacabar, tem o poder de uma utopia positivista, uma fábula otimista, a dizer que ainda podemos imaginar e talvez em breve seremos capazes de criar seres artificiais capazes de entender tão bem nossa humanidade e a humanidade que nós programaremos neles, que poderão até nos ajudar a encontrar nos nossos escombros não apenas o amor, mas o caminho que podemos estar prestes a perder (se já não...), como numa cena envolvendo videogames deixa claro. Agora, pelo menos calças mais legais já existem. 




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