quinta-feira, 10 de abril de 2014

Retratos da Reconciliação

Essa reportagem feita pela New York Times Magazine vale muito a pena, pela beleza das fotografias - feitas por Pieter Hugo - e principalmente pela esperança retratada nas histórias e imagens.

São histórias duras, mas ao mesmo tempo são histórias de comunicação e responsabilidade e perdão - respostas possíveis diante da tragédia do genocídio.

É muito bonito o subtítulo da chamada: "Retratos da Reconciliação: 20 anos após o genocídio de Ruanda, a reconciliação ainda acontece um encontro de cada vez". É lenta e vagarosa, claro, mas também há algo de profundamente respeitoso em uma solução política que não atropela o tempo dos indivíduos - o de reconhecer a própria responsabilidade, o de conceder ou negar o perdão, o de não desejar definir qual o tempo/forma normal do ato de perdoar.

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Impossível não lembrar aqui a Hannah Arendt, n'A condição humana:

"Se não fôssemos perdoados, liberados das consequências daquilo que fizemos, nossa capacidade de agir ficaria, por assim dizer, limitada a um único ato do qual jamais nos recuperaríamos; seríamos para sempre vítimas de suas consequências, à semelhança do aprendiz de feiticeiro que não dispunha da fórmula mágica para desfazer o feitiço. [...] Ambas as faculdades [perdoar e prometer], portanto, dependem da pluralidade, da presença e da ação de outros, pois ninguém pode perdoar a si mesmo e ninguém pode se sentir obrigado por uma promessa feita apenas para si mesmo; o perdão e a promessa realizados na solitude e no isolamento permanecem sem realidade e não podem significar mais do que um papel que a pessoa encena para si mesma" (A condição humana. 11 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010 [Trad.: R. Raposo; Rev. Técnica: A. Correia: p.296).

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Como os ruandeses enfrentam o horror de 1994 (Tradução - partes 4 e 5)



(Texto de Lauren Wolfe, originalmente publicado aqui. A tradução, apressada, é minha e como o texto é muito longo para um único post, vou publicando em quarto, seguindo a divisão do próprio original. O dia seis de abril marcou os vinte anos do início do genocídio ocorrido em Ruanda).


Quando seus irmãos e seu pai foram mortos, Nishimwe e sua mãe se esconderam por três meses. Elas se esconderam na comunidade de Rubengera, em Kibuye, uma cidade de exuberante verde no Lago Kivu, ao oeste de Ruanda. [Elas] se refugiavam nos arbustos durante o dia, e nos [forros] dos tetos de casas, durante a noite; e, ao final, em uma casa abandonada onde foram encontradas por um vizinho que passou a aparecer para bater em Nishimwe com suas mãos e uma espada – “Apenas devido à minha etnicidade Tusti”, ela contou. Ele terminou por estuprá-la. Ela não soube por anos que ele lhe transmitira HIV. Ela me contou [que] fazer o teste potencialmente poderia significar confronter-se com mais do que ela achava que aguentaria. O estupro, a carnificina – ser HIV-positivo após tudo isso seria demais. Mas seu corpo lentamente começou a fraquejar, enquanto feridas apareciam em sua pele.

Nishimwe morou por anos na cidade em que sua família foi morta – a cada dia se tornando um pouco mais silenciosa na escola e afogando-se um pouco mais em si mesma até que finalmente deixou sua Kibuye por Nova Iorque, em 2001. Lá, ela começou a fazer psicoterapia e buscou tratamento para seu HIV.

Se soa como negação que uma vítima de estupro não faça o teste para o HIV por sete anos, tenha em mente que aqueles que sofrem traumas extremos frequentemente experimental uma dualidade emocional que lhe permite sobreviver ao incompreensível. “Sei pelas vítimas do Holocausto”, disse Neugebauer,que não é com se você ou prospera ou se desespera – você faz ambos, alternadamente”. Isso ajuda os sobreviventes a confrontar partículas e pedaços do trauma conforme eles vêm à tona ao invés de serem completamente soterrados pelos horrores que testemunharam. “Pessoas diferentes têm mecanismos diferentes para serem capazes de continuar, mas muitos continuam com um sofrimento imenso, apesar de silencioso”, explicou Neugebauer.

Nishimwe concorda que não é tudo “completamente feliz”, como ela expressa. “Nem todo dia é bom para mim”, ela diz. “Eu tenho alguns dias em que apenas sento e choro. Não é como se tudo fosse perfeito todo o tempo”.

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Quando enfrentamos o terror, nossos corpos se fecham e nos dessensibilizam para a experiência, Ochberg disse. “Podemos tolerar quase sermos comidos vivos. Podemos tolerar assistir a outros membros de nossa espécie serem comidos vivos. Está em nossa biologia”. É o que acontece depois que significa a diferença entre um indivíduo saudável ou não – e entre uma sociedade robusta ou eternamente em guerra.

“Depois, quando nossa habilidade de enfrentar tais coisas extremas é contrastada com nossos eus civilizados, experimentamos o horror, o terror, a repulsa, todo esse espectro de sentimentos”, diz Ochberg. “Quando você não precisa mais se proteger e pensa sobre o assunto – [quando] você re-experiencia [a situação] – aparece um sentimento de profunda vergonha”.

A vergonha enraivece e isola. Ela pode levar à predação, ao sadismo e ao mal, ou ao auto-desprezo, ódio e depressão.

Mas se a partilha pública da dor de Nishimwe e sua completa ausência de [qualquer sentimento aparentado a] vergonha é um indicador, existe esperança para os sobreviventes do genocídio. Existe esperança para Ruanda.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Como os ruandeses enfrentam o horror de 1994 (Tradução - parte 3)

(Texto de Lauren Wolfe, originalmente publicado aqui. A tradução, apressada, é minha e como o texto é muito longo para um único post, vou publicando em quatro partes, seguindo a divisão do próprio original. O dia seis de abril marcou os vinte anos do início do genocídio ocorrido em Ruanda).

Quando comecei a trabalhar nesta estória, minha questão básica era essa: como as pessoas sobrevivem ao trauma extremo do genocídio? Mais de uma vez me disseram que eu estava fazendo a pergunta errada.

“Sua questão assume que a sobrevivência é possível, mas a sobrevivência pode estar justamente no limiar da existência tolerável”, Neugebauer disse. Ele referiu-se ao livro É isto um homem, de Primo Levi, vítima do Holocausto, que eventualmente se matou em 1987 (e é por isso que utilizo a palavra “vítima” e não “sobrevivente”). Quando publicado nos Estados Unidos, o livro foi renomeado para Sobrevivência em Auschwitz – talvez uma indicação de que a ideia de uma morte em vida é intolerável aos leitores americanos.

Por outro lado, Wietse Tol, psicólogo e professora na Universidade John Hopkins, disse que minha questão estava “um pouco enviesada”. “Ela se inclina a pensar que deve ser extremamente difícil sobreviver”, comentou Tol, que trabalhou por anos com sobreviventes de violência étnica na região de Burundi. “Esta questão é muito reveladora de como pessoas em cenários estáveis pensam sobre tais problemas”.

Tol explicou que seres humanos sempre passaram por experiências traumáticas, “para que pudéssemos lidar com elas”. “Resiliência é algo importante. A maioria das pessoas seguem adiante bastante bem, desde que recebam apoio social e desde que suas necessidades básicas sejam atendidas quando elas passam a viver em ambientes estáveis”.

Ruanda se estabilizou de modo militar numa ordem relativamente abrupta. Mas a rede social e o sistema mental de saúde foram completamente devastados. Após um evento como um genocídio em três meses, os especialistas dizem que é crítico prover um “bom ambiente de recuperação”. E, como Tol sublinhou, isso pode significar um foco na justiça social, que oferece seus próprios desafios quando a infraestrutura judicial do país também está destruída. (Ruanda criou as cortes “gacaca” para rapidamente julgar os perpetradores, mas eles eram problemáticos; os observadores internacionais apontaram a ausência de advogados qualificados para os réus. Em geral, pouquíssimas mulheres estupradas viram a justiça [ser feita]).

Godeliève Mukasarasi, um conselheiro de trauma em SEVOTA, uma organização baseada em Kigali que apoia viúvas e órfãos do genocídio, disse que os sobreviventes não estão necessariamente vivendo em um ambiente capaz de conduzir a mudanças, nem mesmo atualmente: mulheres estão lutando com o HIV/AIDS [adquirido] nos estupros e podem não ter um “lar real”, uma vez que tantas casas foram queimadas em 1994. E elas vivem entre os homens que mataram seus pais e irmãos, ou estupraram suas irmãs.

“Precisamos aprender a viver positivamente com o mau e o bom”, disse Mukasarasi, que reúne sobreviventes mulheres para que elas se sintam confortáveis em compartilhar suas histórias. “Todos ainda vivem com as consequências. Alguns dos perpetradores foram para a prisão, mas eles retornam e vivem perto dos sobreviventes. O genocídio não terminou; os sobreviventes ainda vivem junto àqueles que cometeram os crimes”.

Como tantas outras, Nishimwe conhecia o homem que a estuprou. Na verdade, alguns anos após o ataque, ela foi visita-lo na prisão – o homem que lhe bateu e cortou, que a estuprou e a abandonou para morrer. Ele não falou muito, conta ela. E ela apenas chorou.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Como os ruandeses enfrentam o horror de 1994 (Tradução - parte 2)

(Texto de Lauren Wolfe, originalmente publicado aqui. A tradução, apressada, é minha e como o texto é muito longo para um único post, vou publicando em quatro partes, seguindo a divisão do próprio original. O dia seis de abril marcou os vinte anos do início do genocídio ocorrido em Ruanda).

Em Kigali, existe um caminho que te conduz através do memorial nacional do genocídio. Mas após meia hora de movimentos diligentes de sala em sala, com meu áudio-guia, fugi do edifício. Eu tinha chegado à sala que se chama "O quarto das crianças", que exibe amplos retratos de crianças pequenas acima da descrição de suas comidas favoritas, o que eles gostavam no mundo, e como foram assassinadas. Ariane, quatro anos, era uma "garotinha bacana" que amava bolo. Ela foi fatalmente "esfaqueada nos olhos e na cabeça". Seus pais disseram que ela amava cantar e dançar.

Para me recuperar, escapei para o sol ardente do lado de fora e comecei a conversar com alguns ruandeses que trabalhavam como guias turísticos. Conforme eles falavam sobre suas famílias sendo desmembradas e baleadas, nós olhávamos para os quatorze degraus de lápides de concreto que contêm os restos mortais de 249.000 pessoas mortas em 1994. O memorial ainda aceita ossadas, que ainda hoje estão sendo descobertas no entorno de Kigali e seus arredores.

Parte do trabalho de reconciliação com algo tão devastador quanto o genocídio envolve reconciliar-se com os mortos, de acordo com os especialistas com quem conversei. "Os mortos têm demandas legítimas e poderosas sobre nós: lembrar, ousar testemunhar, permanecer conectado", disse Richard Neugebauer, professor de epidemiologia clínica em psiquiatria na Universidade de Columbia. "Então, para que os ruandeses possam retomar suas vidas no mundo, muitos deles precisarão antes renegociar seus laços com os mortos".

Neugebauer tem trabalhado dentro e fora de Ruanda desde 1997, e é rápido em enfatizar que ele não pode falar em nome dos ruandeses que conheceu. Mas suas observações como clínico são devastadoras. Quando ele foi ao país pela primeira vez, ele conta, "as leis da natureza estavam invertidas. Os mortos estavam mais vivos que os viventes. Os mortos estavam em todos os lugares no sentido de que você podia quase senti-los em volta de você, implorando para serem ouvidos. Enquanto as pessoas literalmente vivas estavam tão despojadas [de tudo] ou deixadas vazias que naquele momento parecia que estavam mortas". (Quando ele voltou ao país em 2010 e 2011, ele procurou algumas dessas pessoas e elas pareciam mais jovens e revitalizadas). É este forte empuxo de parentes e amigos mortos "que precisa ser enfrentado para a vida ser possível", ele disse.
Ainda assim, muitos sobreviventes do genocídio estão atados ao passado por força de não saberem onde [os restos de] seus parentes estão. Nishimwe disse que sabe onde seu pai foi morto, mas não onde sua ossada está.

domingo, 6 de abril de 2014

Como os ruandeses enfrentam o horror de 1994 (Tradução - parte 1)



(Texto de Lauren Wolfe, originalmente publicado aqui. A tradução, apressada, é minha e como o texto é muito longo para um único post, vou publicando em cinco partes, seguindo a divisão do próprio original. O dia seis de abril marca os vinte anos do início do genocídio ocorrido em Ruanda).

Consolee Nishimwe tem um riso nervoso e utiliza certas frases reiteradamente quando conversamos: "dor", "doloroso", "não foi nem um pouco fácil", "eu tinha somente 14 anos". Tendo em mente o que ela suportou em 1994, durante o genocídio de Ruanda, algumas dessas frases possivelmente não expressam completamente [o vivido]. Nishimwe, hoje com 34 anos e morando em Nova Iorque, diz que pode descrever os acontecimentos que a levaram até ali, porém não sem dificuldades.

"Em nossa cultura, não falamos muito sobre experiências", diz Nishimwe, que é uma figura pública a falar sobre o conflito. "Leva um tempo longo para expressar como nos sentimos. Estou tentando mostrar a outros sobreviventes que precisamos expressar a dor que temos".

Hoje, vinte anos depois de um genocídio etnicamente motivado em que aproximadamente um milhão de ruandeses morreram e em que mais que um milhão de mulheres foram estupradas, o governo proíbe certas formas de discussão pública a respeito de Hutus e Tutsis.Quando visitei o país em fevereiro, ouvi bastante conversas sobre algo chamado "Visão 2020", que deveria transformar o país em um estado próspero, marcado por boa governança e economia saudável. A construção [civil] está explodindo na capital, Kigali, e o presidente Paul Kagame expressou o desejo de tornar seu país mais parecido com Cingapura - uma espécie de democracia autoritária. Em outras palavras, há um esforço considerável para deliberadamente "ir adiante" em relação à tragédia - uma determinação a nunca mais perder o controle.

No entanto, o que os ruandeses enfrentaram foi tão extraordinariamente horrível - em termos de quantas pessoas sofreram ou testemunharam atos brutais, e a escala absoluta e veloz da matança - que quanto mais tempo em ficava no país e conversava com Nishimwe e outros, mais eu me perguntava como tal lugar poderia "ir adiante" após o que aconteceu naqueles terríveis cem dias entre abril e julho. Como cada pessoa sobreviveu? Como sobrevive um país inteiro empurrado ao pesadelo hediondo de pessoas talhadas até a morte e estupradas e torturadas? Como é viver em uma sociedade em que praticamente todo mundo com mais de  vinte anos tem memórias de tais feitos inumanos?
Considere que quinze por cento das crianças ruandesas foram forçadas a se esconder embaixo dos mortos para sobreviver.

Considere que noventa por cento dessas crianças acreditaram que iriam morrer.

Considere que Nishimwe ainda não usa saias porque ela não quer mostrar as cicatrizes em suas pernas, feitas pelo homem que as entalhou enquanto a estuprava - ou as marcas que o HIV deixou pelo seu corpo.

Considere que seus três irmãos - Philbert, 9 anos; Pascal, 7; e Bon-Fils, 18 meses - foram cortados em pedaços e jogados no buraco infecto de sua casa queimada, enquanto Nishimwe estava por perto, com sua mãe, no dia nove de maio de 1994. Seu pai já havia sido morto nas primeiras semanas do genocídio, no dia 15 de abril.

E então considere a resposta que Nishimwe me deu quando perguntei a ela como sobreviveu: "Houve outros para quem as coisas foram piores", ela disse.

Esta frase, "foi pior para outros" - eu a ouvi muitas vezes de outros sobreviventes ruandeses. É difícil compreender como alguém que passou por múltiplos eventos traumáticos em um curto período pode pensar que sua experiência não é tão ruim quanto a que outros viveram.


“Ficaremos sem fôlego ao entender que eles têm a capacidade de escapar da atrocidade com essa noção bastante modesta de que foi pior para outros", disse Frank Ochberg, psiquiatra na Universidade do Estado de Michigan e pioneiro no campo da terapia de trauma. "O exemplo ruandês é de resistência". Mas só porque persistiram, não quer dizer que os ruandeses estejam vivendo suas vidas livres de dor.