segunda-feira, 7 de abril de 2014

Como os ruandeses enfrentam o horror de 1994 (Tradução - parte 2)

(Texto de Lauren Wolfe, originalmente publicado aqui. A tradução, apressada, é minha e como o texto é muito longo para um único post, vou publicando em quatro partes, seguindo a divisão do próprio original. O dia seis de abril marcou os vinte anos do início do genocídio ocorrido em Ruanda).

Em Kigali, existe um caminho que te conduz através do memorial nacional do genocídio. Mas após meia hora de movimentos diligentes de sala em sala, com meu áudio-guia, fugi do edifício. Eu tinha chegado à sala que se chama "O quarto das crianças", que exibe amplos retratos de crianças pequenas acima da descrição de suas comidas favoritas, o que eles gostavam no mundo, e como foram assassinadas. Ariane, quatro anos, era uma "garotinha bacana" que amava bolo. Ela foi fatalmente "esfaqueada nos olhos e na cabeça". Seus pais disseram que ela amava cantar e dançar.

Para me recuperar, escapei para o sol ardente do lado de fora e comecei a conversar com alguns ruandeses que trabalhavam como guias turísticos. Conforme eles falavam sobre suas famílias sendo desmembradas e baleadas, nós olhávamos para os quatorze degraus de lápides de concreto que contêm os restos mortais de 249.000 pessoas mortas em 1994. O memorial ainda aceita ossadas, que ainda hoje estão sendo descobertas no entorno de Kigali e seus arredores.

Parte do trabalho de reconciliação com algo tão devastador quanto o genocídio envolve reconciliar-se com os mortos, de acordo com os especialistas com quem conversei. "Os mortos têm demandas legítimas e poderosas sobre nós: lembrar, ousar testemunhar, permanecer conectado", disse Richard Neugebauer, professor de epidemiologia clínica em psiquiatria na Universidade de Columbia. "Então, para que os ruandeses possam retomar suas vidas no mundo, muitos deles precisarão antes renegociar seus laços com os mortos".

Neugebauer tem trabalhado dentro e fora de Ruanda desde 1997, e é rápido em enfatizar que ele não pode falar em nome dos ruandeses que conheceu. Mas suas observações como clínico são devastadoras. Quando ele foi ao país pela primeira vez, ele conta, "as leis da natureza estavam invertidas. Os mortos estavam mais vivos que os viventes. Os mortos estavam em todos os lugares no sentido de que você podia quase senti-los em volta de você, implorando para serem ouvidos. Enquanto as pessoas literalmente vivas estavam tão despojadas [de tudo] ou deixadas vazias que naquele momento parecia que estavam mortas". (Quando ele voltou ao país em 2010 e 2011, ele procurou algumas dessas pessoas e elas pareciam mais jovens e revitalizadas). É este forte empuxo de parentes e amigos mortos "que precisa ser enfrentado para a vida ser possível", ele disse.
Ainda assim, muitos sobreviventes do genocídio estão atados ao passado por força de não saberem onde [os restos de] seus parentes estão. Nishimwe disse que sabe onde seu pai foi morto, mas não onde sua ossada está.

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