terça-feira, 8 de abril de 2014

Como os ruandeses enfrentam o horror de 1994 (Tradução - parte 3)

(Texto de Lauren Wolfe, originalmente publicado aqui. A tradução, apressada, é minha e como o texto é muito longo para um único post, vou publicando em quatro partes, seguindo a divisão do próprio original. O dia seis de abril marcou os vinte anos do início do genocídio ocorrido em Ruanda).

Quando comecei a trabalhar nesta estória, minha questão básica era essa: como as pessoas sobrevivem ao trauma extremo do genocídio? Mais de uma vez me disseram que eu estava fazendo a pergunta errada.

“Sua questão assume que a sobrevivência é possível, mas a sobrevivência pode estar justamente no limiar da existência tolerável”, Neugebauer disse. Ele referiu-se ao livro É isto um homem, de Primo Levi, vítima do Holocausto, que eventualmente se matou em 1987 (e é por isso que utilizo a palavra “vítima” e não “sobrevivente”). Quando publicado nos Estados Unidos, o livro foi renomeado para Sobrevivência em Auschwitz – talvez uma indicação de que a ideia de uma morte em vida é intolerável aos leitores americanos.

Por outro lado, Wietse Tol, psicólogo e professora na Universidade John Hopkins, disse que minha questão estava “um pouco enviesada”. “Ela se inclina a pensar que deve ser extremamente difícil sobreviver”, comentou Tol, que trabalhou por anos com sobreviventes de violência étnica na região de Burundi. “Esta questão é muito reveladora de como pessoas em cenários estáveis pensam sobre tais problemas”.

Tol explicou que seres humanos sempre passaram por experiências traumáticas, “para que pudéssemos lidar com elas”. “Resiliência é algo importante. A maioria das pessoas seguem adiante bastante bem, desde que recebam apoio social e desde que suas necessidades básicas sejam atendidas quando elas passam a viver em ambientes estáveis”.

Ruanda se estabilizou de modo militar numa ordem relativamente abrupta. Mas a rede social e o sistema mental de saúde foram completamente devastados. Após um evento como um genocídio em três meses, os especialistas dizem que é crítico prover um “bom ambiente de recuperação”. E, como Tol sublinhou, isso pode significar um foco na justiça social, que oferece seus próprios desafios quando a infraestrutura judicial do país também está destruída. (Ruanda criou as cortes “gacaca” para rapidamente julgar os perpetradores, mas eles eram problemáticos; os observadores internacionais apontaram a ausência de advogados qualificados para os réus. Em geral, pouquíssimas mulheres estupradas viram a justiça [ser feita]).

Godeliève Mukasarasi, um conselheiro de trauma em SEVOTA, uma organização baseada em Kigali que apoia viúvas e órfãos do genocídio, disse que os sobreviventes não estão necessariamente vivendo em um ambiente capaz de conduzir a mudanças, nem mesmo atualmente: mulheres estão lutando com o HIV/AIDS [adquirido] nos estupros e podem não ter um “lar real”, uma vez que tantas casas foram queimadas em 1994. E elas vivem entre os homens que mataram seus pais e irmãos, ou estupraram suas irmãs.

“Precisamos aprender a viver positivamente com o mau e o bom”, disse Mukasarasi, que reúne sobreviventes mulheres para que elas se sintam confortáveis em compartilhar suas histórias. “Todos ainda vivem com as consequências. Alguns dos perpetradores foram para a prisão, mas eles retornam e vivem perto dos sobreviventes. O genocídio não terminou; os sobreviventes ainda vivem junto àqueles que cometeram os crimes”.

Como tantas outras, Nishimwe conhecia o homem que a estuprou. Na verdade, alguns anos após o ataque, ela foi visita-lo na prisão – o homem que lhe bateu e cortou, que a estuprou e a abandonou para morrer. Ele não falou muito, conta ela. E ela apenas chorou.

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