quinta-feira, 22 de maio de 2014

Azul é a cor mais quente (2013), de Abdellatif Kechiche


Nome original: La vie d'Adèle - chapitres 1 et 2. Em inglês: Blue is the warmest color.

(Aviso de spoiler: se não viu o filme… você já sabe: o texto tem elementos que podem antecipar trechos e/ou aspectos do mesmo, mas a mocinha não morre no final)

Apesar do aviso, na verdade há bem pouco que possa estragar o filme se você souber a trama: em algum lugar da França de hoje, Adèle (Adele Exarchopoulos), uma colegial, conhece a pintora Emma (Léa Seydoux), se amam, se estranham… e é isso. É um filme muito bonito, tocante, muito bem encenado, entre seus méritos. A maioria das pessoas que se informou sobre o filme também sabe que há longas e polêmicas cenas de sexo. Na verdade, me pareceu que as pessoas ficam mais tempo em cena comendo macarrão que fazendo sexo, embora o sexo seja um tema seja mais central (eu pelo menos achei), sem menosprezo pelo macarrão.

“Azul…” provocou um certo barulho fora das telas, pelo tema (ou suposto tema) do amor lésbico, pelas cenas ‘tórridas’, pela notícia que o diretor teria sido tirânico e submetido suas atrizes a constrangimentos, por ser uma ‘visão heteronormativa’ do amor homo, e assim por diante. Mas não é por aí que eu quero dar uns palpites.

Além do macarrão e do sexo, os close-ups - o rosto de Adèle é o único cenário em boa parte das 3 horas de filme - são as imagens dominantes. O propósito parece mesmo ser que o expectador rapidamente aprenda a ler Adèle e suas entrelinhas, e que o percurso emocional da protagonista seja o grande atrativo e interesse para quem vê. É claro que a beleza das atrizes ajuda, sua juventude, e o fato que entregam interpretações excelentes, premiadas e tal.

O filme se passa com Adèle do final da adolescência ao início da idade adulta. Ou seja, aquele período crítico de mudanças, descobertas, experiências etc (eu diria também de insegurança, burradas, medos…). Um tema ‘clássico’, podemos dizer. E (aviso tardio de clichê!) universal: todo mundo passa por essa fase, com mais ou menos sofrimento, mais ou menos dificuldades, e vai se lembrar dela com doses variáveis de autonegação e/ou autopiedade e mesmo amnésia seletiva. Claro que não é o seu caso, querido leitor (alerta de ironia: sabe?). A personagem Emma é a jovem profissional, que tenta emplacar a carreira artística, mas já tem uma identidade mais construída, é sexualmente assertiva, gosta de Sartre, e usa o cabelo azul e coturnos (sim, eu sei, mas o estereótipo não é meu, é do filme). Tudo isso, ou boa parte, se sabe já pelo trailer.

O filme inicia com Adèle dormindo, acordando, tendo aulas, arrumando namorado, comendo macarrão, dando um pé no namorado, arrumando namorada, negando que seja sapatão, transando com a namorada, comendo mais macarrão… Adèle porém não é uma adolescente de filme americano, como uma cheerleader super sexualizada nem uma geek impopular autoconsciente e de raciocínio rápido. Adèle é insegura, confusa, conta mentirinhas o tempo todo, parece se sentir deslocada em vários momentos e contextos, e ignorante em outros. Adolescente.  Amigas lhe fofocam, pais a aconselham, sogros a inquerem, amigos ‘socialmente’ a elogiam… tudo bem que não é o ‘inferno’, ou seja, não está acontecendo um tsunami nem queda de asteróide nem uma grande conspiração do mal, é ‘só’ o dia-a-dia, é ‘só’ a angústia de uma jovem mulher (e pelo menos ela não parece ficar ‘mal’ nem arrependida nem com sentimento de culpa quando percebe gostar de meninas). Mas à essa altura, o expectador já está literalmente (ou fotograficamente) tão próximo de Adèle que já se importa (ou se irrita) com ela, se incomoda se a tratam mal ou se são levemente condescendentes quanto aos planos de tornar professora.

O filme propriamente vai avançando, sem grandes variações ou quebras de ritmo, mas aí há ‘esferas’ ou espaços onde Adèle parece estar muito mais confortável. Quando conversa com Emma no primeiro encontro ou quando fazem sexo ou quando conversam após o sexo Adèle parece estar feliz e plena. Mas quando em volta do macarrão com os pais e ‘a-amiga-que-ajuda-na-lição’, conversando com os pais ou amigos estilosos de Emma, ou apenas posando para Emma, Adèle visivelmente está menos à vontade. Novamente não tem a ver com o fato de ser lésbica (ela não se diz lésbica em momento algum), mas talvez mais em algo como lidar com as expectativas contraditórias das outras pessoas. Para o círculo de Emma, de artistas, descolados e intelectuais, o fato de formarem um casal gay é banal; muito mais estranho é que Adèle prefira um emprego seguro ao invés de arriscar ‘fazer o que gosta’. Ou seja, na esfera da intimidade, do sexo, da corporalidade, Adèle vive uma experiência plena (com sorte, um pouco de ousadia e um tanto de licença poética, talvez). Emma compartilha vivamente disso, mas se Adèle passa a ser sua musa, por ser também um pouco mais jovem e bonita, mas menos educada, da classe trabalhadora / da periferia, Adèle ao mesmo tempo vira uma espécie de ‘trophy wife light’ da artista promissora. Acho que o filme dá a entender que essa tensão vinda das diferenças de origem (para não dizer diferenças de classe) e de papéis assimétricos assumidos pelo casal tem alguma relação com o fato que a relação das duas irá se esgarçar .

Não é minha intenção fazer qualquer análise da, sei lá, homoafetividade e mobilidade social, me parece não ser o caso aqui. A tensão entre ‘os da macarronada’ e ‘os do vinho branco’, entre os que andam de ônibus e os que frequentam vernissages parece que entram na receita do filme mais para realçar as pedreiras da construção da identidade de Adèle que para fazer qualquer comentário crítico. Se não há no filme nenhum artifício que sustente qualquer suposta superioridade dos códigos eruditos que Adèle não domina - são citados de passagem literatura, Sartre, Egon Schielle, e dentro de todo o tempo do filme mal se mostram as pinturas de Emma - também não há nenhum indício que supervalorize os códigos ‘populares’, o trabalho duro, tomar cerveja e dançar música gipsy pop na calçada ou o que seja. Mas o filme parece dizer que essas duas ‘turmas’ também não se misturam assim sem mais, pois são constituídas em experiências e/ou processos e lugares distintos e muito menos se transita de uma para a outra sem certos percursos de legitimação. Os personagens parecem ser em alguma medida conscientes dessas condições. Se Adèle tivesse como projeto não só a ‘segurança’ de um emprego, mas a de ter uma carreira artística ou intelectual - ou seja, de pertencer à turma das vernissages - e parte da história fosse essa trajetória de uma ‘turma’ a outra, talvez fosse mais complicado dramatizar que o par apaixonado e que se dá tão bem no sexo não consiga construir tão boa harmonia nos outros contextos, que são todos os outros onde há não somente outras pessoas mas outros interesses delas próprias.

A cena em que Adèle e Emma tem uma discussão, digamos, áspera, é antológica, e de certa forma é o espelho invertido da cena de sexo. É tudo sobre o ‘desencaixe’ na relação delas. Aliás, alguém já observou, brigas de casal são tão íntimas quanto o sexo, e como nele, são os atos de - vamos dizer assim - abandono da razão e/ou supremacia dos instintos que guiam. Deve ter algum significado também o fato de uma transa, que é mais ou menos uma coisa só, ter sido filmada de vários ângulos, mas a discussão, que acumula várias dimensões e nuances, em contraste, ter sido filmada praticamente num único take. Mas como eu sou ignorante nesses detalhes eu não vou dar palpite. O que eu consigo dizer é que há uma autenticidade rara em ambas as cenas e que são pontos fortes de ‘Azul...’.

E há mais uma cena tão intensa quanto as comentadas, que é a do encontro delas, já pacificadas pelo tempo de separação. Essa terceira cena, igualmente íntima, seria o ponto para reiniciar ou encerrar a relação de Adèle e Emma. E Emma, já sem cabelo azul, faz uma opção ‘racional’, no sentido que parece racionalizar e negar seus sentimentos ainda fortes por Adèle. E nessa discussão vemos que quando Adèle finalmente luta para ‘fazer o que gosta’, Emma opta pela ‘segurança’, como a dizer que tais opções são mais, digamos, situacionais, do que determinações ou desdobramentos de posições de ‘classe’. Pelo menos nesse filme, de certo modo a felicidade pessoal acaba se subordinando a essas externalidades (família, educação, trabalho, amizades, ‘capital cultural’...), que embora em segundo plano, desfocadas, são fortes o suficiente para que qualquer má escolha pessoal, azar, erro, vacilo, sugue os personagens para destinos convencionais. Ou seja, a escada para a felicidade é estreita e ensaboada...

Uma parcela bastante razoável de tempo, já no terço final do filme, mostra Adèle trabalhando como professora de crianças pequenas, ou seja, ensinando-as a ler, mas também disciplinando e corrigindo (lembrando que o filme começa com Adèle sendo ainda aluna). Emma, por outro lado, segue pintando a figura de Adèle em todos os seus trabalhos. O amigo ator agora é corretor de imóveis (não falei dele antes? foi mal aí). Eu então arrisco um último palpite: essas cenas seriam comentários conectados e auto-referentes. O filme seria, entre outras coisas, uma tentativa de ‘educar’ ou pelo menos oferecer um conteúdo a um público que, como Adèle, chegará ou já chegou à idade adulta com pouca ou nenhuma ‘educação emocional’ além da convencional para enfrentar a escada escorregadia da felicidade sem dar um ou mais tropeços. O filme também seria, como nas telas de Emma, sobre uma idealização da beleza, uma interpretação sobre os corpos, uma reação à melancolia, um ensaio sobre a dor de cotovelo que (em vários casos) move a arte. E como o ator que virou corretor, que diz preferir ser falso vendendo casas que puxando o saco de diretores, o diretor Abdellatif Kechiche vende-nos uma casa linda, perfeita, sólida, azulzinha, mas delicadamente assombrada.
 
Entrevista com Adèle Exarchopoulos



 

2 comentários:

  1. Olá, tudo bom?! como posso entrar em contato com vcs para propôr uma parceria entre sites?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, desculpem a demora imensa... Vocês podem escrever para fabiana ponto jardim arroba gmail ponto com. Abraços!

      Excluir