quarta-feira, 20 de agosto de 2014

a escravidão persistente entre nós

Em notícia de 17/8, o Globo registra um novo fenômeno no mercado de trabalho do sul e sudeste: as romarias para contratação de estrangeiros, em especial haitianos e africanos.
A reportagem assistiu às interações para seleção dos candidatos, que coloca a nu processos menos visíveis nas interações estruturadas nas agências de emprego que também se localizam na região central da cidade: "A seleção dos trabalhadores, por vezes, faz lembrar a escolha feita por senhores de engenho em mercados de escravos no Brasil, até o século XIX. No Acre, ponto de entrada de haitianos e senegaleses, segundo pesquisadores da Universidade Federal do Acre, empresários chegam a checar os dentes, os músculos e a pele dos imigrantes. Em um vídeo disponível na internet, um dos recrutadores admite que escolhe os empregados pela canela. Segundo ele, na seleção de trabalhadores para um frigorífico, levava em conta “uma tradição antiga, do pessoal da escravidão, de que quem tem canela fina é bom de trabalho, canela grossa é um pessoal mais ruim de serviço (sic)”".
Em um período tenso, em que a velocidade das mudanças ocorridas na estrutura da estratificação social brasileira nos obriga, no tempo de uma mesma geração, à compreensão do que mudou e o que sobreviveu dos tempos de antes, o fenômeno chama a atenção não apenas pela crueza com que explicita a lógica de exploração de mão-de-obra que muitas vezes embasa as reclamações a respeito da configuração do país após esses últimos doze anos, mas também porque reedita um pedaço de nossa história nem tão distante no tempo: as dinâmicas de imigração internacional, agora supostamente menos violentas, permitem novamente ocupar as franjas do mercado de trabalho e da estrutura ocupacional com mão-de-obra negra, que é considerada quase que unicamente por sua cor, e que é mobilizada para reeditar os mecanismos de patronagem e paternalismo (a submissão identificada à gratidão, expressa lapidarmente na fala da dona de casa: "Agora é só bolsa disso, bolsa daquilo. Acho que os haitianos seriam mais bem agradecidos pelo emprego — disse a dona de casa, que não tinha a intenção de contratar em regime CLT e que não pretendia pagar mais de R$ 850").
Os termos que pipocam na reportagem relação à mão-de-obra brasileira também ecoam um passado recente e demonstram que para destruir o projeto varguista de valorização do trabalhador nacional, não basta apenas a flexibilização das leis trabalhistas ou a fragilização dos sindicatos: é também necessário trazer para a cena um novo conjunto de trabalhadores, para quem o trabalho precário, pouco protegido e quase sempre mal pago ainda apareça como oportunidade de uma vida melhor.
No fenômeno retratado pela reportagem, racismo e ideologia do trabalho mostram claramente o quanto estão misturados...