segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Perdido em Marte (The Martian, 2015)




[*Spoilers adiante. Desça engrenado. Mas eu li o livro antes e não me atrapalhou, só dizendo.]

Finalmente fomos ver Perdido em Marte [tradução meia boca do título em inglês The Martian (O Marciano)]. É uma delícia, serve tanto para quem quer filme [alerta de clichê] ‘descompromissado’ quanto para quem gosta de ‘conteúdo’, embora acho que é impossível fazer um filme, ou livro, ou peça etc. totalmente descompromissado e/ou sem conteúdo. O filme segue bastante o livro de Andy Weir por uma razão óbvia: o livro é também muito bom (a versão brasileira, agora com capa com a cara do Matt Damon aumentou 100% de preço: oportunismo, a gente vê por aqui). Tão bom que reviveu a carreira de Ridley Scott. No livro, que eu li faz uns dois anos, o astronauta Mark Watney, dado como morto, é deixado para trás numa emergência em uma futura terceira expedição da Nasa a Marte, se torna involuntariamente o único ser humano no planeta vermelho, e precisa se virar para sobreviver. Ainda sobre o livro, que consegue transcender o nerdismo inerente ao gênero, há muito mais detalhes que não caberiam no filme: toda a parte mais ‘científica’, por assim dizer; boa parte das discussões corporativas da Nasa; e boa parte da sensação de isolamento do astronauta marciano.

No filme, embora saibamos que o astronauta está sozinho lá fora, não passam nem 30 segundos sem que alguém do ótimo elenco apareça preocupado com o destino do Mark, então um pouco dessa ideia de isolamento é mais representada no filme pelos planos gerais da vastidão da paisagem marciana. Mesmo quando se vê que o astronauta é uma minúscula poeirinha nesse cenário, o astronauta ou está em movimento, indo ou voltando, portanto nunca perdido, ou está parado mas a cena nos faz ver que não está paralisado: está pensando em um plano ou algo assim.

Isolamento é diferente de solidão e também diferente de estar perdido. Pode se estar isolado sem ser solitário, pode-se ser solitário sem estar isolado, pode-se estar perdido sem estar isolado nem solitário. É esse o motivo principal de porque acho o título ‘Perdido em Marte’ ruim.

Astronautas de verdade costumam ter pelo menos duas formações úteis às tarefas de uma tripulação espacial (médico e engenheiro, biólogo e matemático, piloto e, sei lá, cozinheiro…), para ‘economizar’ tripulantes. No livro, o astronauta além de botânico é engenheiro, o que passa meio batido no filme, mas todos são treinados em métodos de solução de problemas e em sobrevivência em condições ‘espaciais’. Além disso são selecionados e treinados para situações de isolamento, confinamento e convivência em grupos por longos períodos. Para obter o que necessita para sobreviver a curto prazo em Marte (ar, abrigo, água, comida…) o astronauta da nossa história tem seus momentos de desespero, mas ‘perdido’ ele nunca está. Resolve essas questões usando sua formação de cientista, suas habilidades com os equipamentos, muito trabalho manual e indispensáveis e hilárias tiradas nerd, e logo parte para as questões de sobrevivência a médio e longo prazo (comunicar-se com a Terra e escapar de Marte). Ele está então sozinho, mas isolamento e solidão não são problemas absolutos nem paralisantes, mas motivações e mesmo condições para aproveitar de algum modo. Por exemplo, não se preocupar com o banho por um tempão...

Mas também há o correspondente coletivo, institucional, governamental, a grande força civilizatória e organizada para salvar o dia - que antes era o exército contra os nazistas, a cavalaria contra os selvagens, e agora é a Nasa em atritos entre sua própria burocracia sobre os prazos e orçamentos. Essa é uma ficção científica, não uma fantasia à moda dos vingadores marvel (há uma piada muito boa sobre isso), portanto as disputas organizacionais ‘do bem’ são tão humanas quanto é heróico descobrir quem é digno de erguer a Mjolnir além do próprio Thor. Numa ficção científica se procura obedecer às leis da física e também, pelo visto, às da gestão de projetos: se você diminuir um prazo sem aumentar orçamento (recursos), a qualidade do projeto tende a diminuir. Com a correria da Nasa para salvar o rapaz marciano, já viram.

E por que uma história numa levada ‘robinsoncrusoé’ (existe uma ficção científica B anos 50 justamente chamada Robinson Crusoé em Marte) ainda tem seu apelo, mesmo depois que Tom “O Náufrago” Hanks encheu um pouco o saco? Alguns chutes: sobrevivência em situações extremas é um assunto que não morre, tanto na cultura pop e seus zilhões de zumbis e apocalipses, quanto na raiz de movimentos sociais ambientalistas ou migratórios, nos estudos sobre a Shoah, no ‘sobrevivencialismo’, discutido por Christopher Lasch lá nos anos 1970-80, na popularidade de Bear Grylls ou na mercantilização da paranóia que leva de patrulhas paramilitares junto a muros de fronteiras a implantes de chips a abrigos nucleares domésticos a medo de vacinas a lições para sobreviver num mundo sem internet (estou exagerando e misturando tudo, óbvio; cada assunto desse é complexo e tem seus específicos).

Mas o que ressona O Marciano nessa década de exageros e misturas acho que é menos por conta de situações pouco prováveis e/ou distantes, e mais para algo muito mais cotidiano, desafiador e disseminado, como o desemprego, a perda de laços de família, de trabalho ou de comunidade, e o respectivo risco do isolamento-solidão-desorientação do indivíduo. A fábula do sujeito nessa aventura espacial que de repente fica na pior, e precisa virar o herói de si próprio antes de mais nada, e que encontra sua saída na sua própria experiência, nos recursos que tem à mão e na ajuda que conseguir, tem sua força na formidável aliança entre a ciência e a solidariedade, já notada nas resenhas que eu li, quase à moda iluminista/positivista (nada de individualismo meritocrático neoliberal, por favor). Nada mais natural que a Nasa se sinta muito bem representada, bem como se mostre que os demais tripulantes da expedição a Marte sejam seres humanos incríveis (resumidos na incrível Jessica Chastain, óbvio). Talvez nesse contexto positivo/otimista (spoiler a seguir: esteja avisado) o fato (de parte) da cavalaria vir da China tenha aquele efeito ‘elementar, meu caro Watson’: nada como uma fantasia para além do planeta Terra como desculpa para ‘unir finalmente a humanidade’, tática clássica de boas histórias de ficção científica.

Então, boa ciência, boas atitudes, trabalho duro, planejamento de recursos, resolve-se uma história de um problemão sem super heróis nem poderes sobrenaturais. O imprescindível contra o azar e os acidentes, porém, são saber fazer uma boa gambiarra e a fita adesiva. Gestores de projeto recomendam: não vá para Marte sem.

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